2.4.25

Hiroxima salvou a humanidade?

Kim Gordon & Kim Deal, “Little Trouble Girl” (live at Everybody’s Live with Jonh Mulaney), in https://www.youtube.com/watch?v=KFyUV4gwCas

Um chão queimado, para sempre. Pôr mais que digam que já não está contaminado – por mais que os olhos sejam testemunhas de uma cidade que, se não fosse o peso arqueado da História, se diria intacta. Mas é um chão sepultura, onde são feitas as exéquias da humanidade inteira. Um lugar que teve o azar de ser a sorte dos outros. Duas exibições da demência humana foram a prova necessária para que tamanha mortandade não tivesse repetição. 

Hiroxima é um lugar paradoxalmente queimado: o som de um gongo da paz reverbera, como se as ondas do som entrassem na ossatura da espécie inteira, evocando as memórias do terror, acertando as contas com o futuro. Dizendo, para memória futura: não queremos voltar a ser testemunhas de barbáries nucleares. Consulto as estatísticas: duzentos e dez mil mortos, sobreviventes a prazo à espera da morte dolorosa por exposição à radiação, a devastação total num raio de dois quilómetros quadrados. Essas são as vítimas que exigem o agradecimento de hoje, a gratidão de todos os que vieram depois deles e deles aproveitaram a anexação do horror como garantia de que o horror não seria repetido. 

As vítimas de Hiroxima foram as cobaias inventariadas em nome de uma paz mítica, muito embora pobre e frágil. Foram as vítimas sacrificadas para que depois não houvesse outras vítimas como eles. É a sina da humanidade: uns sofrem para o benefício de muitos outros. Hiroxima é uma cidade de duas caras. As homenagens sucedem-se no epicentro; são dos outros lugares que foram salvos da barbárie porque o apocalipse murmurou aos ouvidos de todas as paredes desfeitas em cinzas, de todos os corpos que nunca chegaram a ser sepultados.

Hiroxima oferece esse lado lunar risonho: foi preciso a humanidade mostrar a sua pior têmpera para nunca mais a voltarmos a ver. Dela sabemos o seu paradeiro, apenas. Isso não apaga o ar sinistro que parece levitar até dos amores-perfeitos sentados com o beneplácito de cidades de todo o mundo. Todos os outros lugares do mundo prestam homenagem às vítimas de Hiroxima que os salvaram de semelhante destino. 

Essa é uma dívida que não prescreve e de que sente o telintar perpétuo dos juros em falta. 

1.4.25

Anónimos

The Limiñanas, “Tu viens Marie?”, in https://www.youtube.com/watch?v=GpeX_n7X-4g

Se fosse na fronteira da fala, ninguém ficava sem o arreio da liberdade. Todos somos anónimos mesmo tendo um nome. As meadas que se abatem sobre os campos vastos são como termómetros de cidadania: as várias camadas sobrepõem-se numa gramática de direitos e de deveres.  

E nós, anónimos de nova cepa, somos esteios dessa fala que se quer interminável. Porque sabemos que a mudez seria suicida, um pacto atroz contra o sangue efervescente que nos corre nas veias. Em vez da capitulação, que se encene um fingimento, ao menos. A encenação é a recusa da apatia. Se a teatralização subir à boca de cena, é a criatividade que fala por nós. Em nosso nome. 

Os esteiros são parecidos em todos os lugares, exceto quando um rio se abre em braços múltiplos e entra no mar em forma de delta. Somos dessa linhagem: ora estendemos o anonimato que precata os nomes subentendidos, ora multiplicamos os braços por várias meadas para não ficarmos à margem da novas do mundo. Não somos o enxofre que liquida as formas de vida; somos o seu manancial, a vibrante fachada que contrasta com a luz efémera que desponta num nascer do sol. Costuramos as bainhas do anonimato na perfeita lucidez dos nomes que guardamos para dentro de nós. 

Os mesmos que se desinteressam são os que protestam claridade. Não se desinteressam; nem são apátridas da cidade, apenas disfarçam sob a capa do desinteresse o cansaço da desmemória, a litania que sobre eles se abate pela mediocridade que toma conta da cidade. Só serão presas fáceis se se deixarem abater pela plêiade de vozes que concorrem num murmúrio incessante. A sua apatia é o combustível da mediocridade.

Deixamos a sindicância das almas para a noite. Não seremos nós os juízes empossados. Os sonhos talvez sejam os magistrados brasonados que apuram o anonimato. Não mendigamos por visibilidade: somos os estetas maiores do anonimato que nos resguarda dos olhares que tudo açambarcam.