Kim Gordon & Kim Deal, “Little Trouble Girl” (live at Everybody’s Live with Jonh Mulaney), in https://www.youtube.com/watch?v=KFyUV4gwCas
Um chão queimado, para sempre. Pôr mais que digam que já não está contaminado – por mais que os olhos sejam testemunhas de uma cidade que, se não fosse o peso arqueado da História, se diria intacta. Mas é um chão sepultura, onde são feitas as exéquias da humanidade inteira. Um lugar que teve o azar de ser a sorte dos outros. Duas exibições da demência humana foram a prova necessária para que tamanha mortandade não tivesse repetição.
Hiroxima é um lugar paradoxalmente queimado: o som de um gongo da paz reverbera, como se as ondas do som entrassem na ossatura da espécie inteira, evocando as memórias do terror, acertando as contas com o futuro. Dizendo, para memória futura: não queremos voltar a ser testemunhas de barbáries nucleares. Consulto as estatísticas: duzentos e dez mil mortos, sobreviventes a prazo à espera da morte dolorosa por exposição à radiação, a devastação total num raio de dois quilómetros quadrados. Essas são as vítimas que exigem o agradecimento de hoje, a gratidão de todos os que vieram depois deles e deles aproveitaram a anexação do horror como garantia de que o horror não seria repetido.
As vítimas de Hiroxima foram as cobaias inventariadas em nome de uma paz mítica, muito embora pobre e frágil. Foram as vítimas sacrificadas para que depois não houvesse outras vítimas como eles. É a sina da humanidade: uns sofrem para o benefício de muitos outros. Hiroxima é uma cidade de duas caras. As homenagens sucedem-se no epicentro; são dos outros lugares que foram salvos da barbárie porque o apocalipse murmurou aos ouvidos de todas as paredes desfeitas em cinzas, de todos os corpos que nunca chegaram a ser sepultados.
Hiroxima oferece esse lado lunar risonho: foi preciso a humanidade mostrar a sua pior têmpera para nunca mais a voltarmos a ver. Dela sabemos o seu paradeiro, apenas. Isso não apaga o ar sinistro que parece levitar até dos amores-perfeitos sentados com o beneplácito de cidades de todo o mundo. Todos os outros lugares do mundo prestam homenagem às vítimas de Hiroxima que os salvaram de semelhante destino.
Essa é uma dívida que não prescreve e de que sente o telintar perpétuo dos juros em falta.