29.4.22

Bulhão Pato seria alguém se não fossem as amêijoas?

 

The Smile, “Free in the Knowledge”, in https://www.youtube.com/watch?v=CXbncoiKLn8

Às vezes, as pessoas ficam emolduradas na perenidade por motivos que, porventura, não seriam os por elas desejados. O que dizer de um poeta e ensaísta que é mais conhecido por ter inventado (ou dado o nome) a uma receita de amêijoas?

Os arrivistas, os que se adestram em bicos dos pés para terem o seu minuto de pública glória, não se importariam de ver o seu nome debruado a ranço desde que lhes garantissem que ficavam eternizados na memória de um povo. O que eles mais querem é este reconhecimento público, como se fosse prova de vida sem a qual a sua vida não teria ficado marcada no indelével registo dos que emprestaram uma qualquer utilidade ao teatro público. Segundo os arrivistas, é o que faz a diferença para os anónimos, a gente indiferente que não cativa o interesse dos demais – gente-gentinha. E se há critério que deve ser aferido no tempo coevo, é um voyeurismo virado do avesso: a vida privada é coletivizada a instâncias do próprio, que a mostra sem filtros nem pudor a quem for apanhado no caminho.

Uma interrogação sobre Bulhão Pato: não teria preferido distinguir-se no escol de ensaístas e de poetas, em vez de saber (se é que na dimensão em que se encontra alguma coisa é dada a saber) que o seu nome aparece diariamente nas ementas dos restaurantes a adjetivar um prato de amêijoas? Ou não: seja suposto que Bulhão Pato também era um emérito gastrónomo; e que de si não teria tanta consideração, ao ponto de deixar em testamento a vontade de que o seu nome fosse exportado para a toponímia de uma rua numa cidade qualquer por causa da iguaria de amêijoas que legou ao património gastronómico. Bulhão Pato seria reconfortado (se é possível haver conforto para os mortos) ao ser reconhecido como emérito gastrónomo.

Haverá poetas e ensaístas que, nos seus casos, reputariam de ultrajante a conotação de seus nomes com um bivalve. Sem desprestígio para os bivalves que, não estando acometidos por toxinas que os tornam incomestíveis, são uma iguaria distintiva. Mas esses poetas e ensaístas terão de si outros planos para quando deixarem de pertencer ao elenco dos vivos. Querem ser reconhecidos como poetas e ensaístas, não como o poeta e ensaísta que se deu a conhecer pelos dotes de gastrónomo. Pois o mantimento que se deifica não resulta do cadáver de um animal superiormente metamorfoseado numa iguaria, mas da sublime manjua da alma servida nas estrofes e ideias ensaiadas nos escritos de poetas e ensaístas.

28.4.22

Levedura

Mogwai, “Boltfor”, in https://www.youtube.com/watch?v=xZf9svkQRZM

Os olhos levemente frutados povoam o lugar. Remexem os haveres, mentalmente, numa tentativa de arrumar o inventário que parece impossível. As sílabas acompanham a fala vagarosa, em murmúrio. Não obedece aos verbos orquestrados nos lugares-comuns. Não decai na sumptuosa indiferença, nem que seja por exigência do critério com que se apura a matriz da vida.

Entre os dedos, insinuam-se imagens embaciadas. São resgatadas a fragmentos do passado que não aparecem na frontaria (os compêndios esquecidos da história). Existem paredes-meias com as entrelinhas. Estes espaços vagos não são órfãos. Têm uma pertença. É um sortilégio dedilhá-los entre as páginas de nevoeiro que se desembaraçam do tempo que se repete. São as pétalas desaçaimadas que frutam o aroma original que exala nas entrelinhas dos dedos. 

Diz-se que o inesperado tem lugar na gramática insólita que se arremata da contrafação. Os olhos vívidos não desperdiçam um milímetro dos dicionários que passam à sua frente. Pelo menos, é no que querem acreditar. É esta a maresia que se compõe na exigente tela desenhada com as palavras arrancadas ao mutismo. O que se vê não corresponde necessariamente ao que existe.

É como se fosse ator de um filme de que sou espetador. Um paradoxo que encontra explicação: há alturas em que temos de sair da posição em que nos encontramos para sermos sujeitos de uma estimativa. Os peritos em dores da alma mantêm que os outros são os melhores juízes de alguém que se propõe a este exercício. Discordo. Não têm o menor conhecimento de quem se propõem a ser juízes. A avaliação será um viés do princípio ao fim, com uma reduzida probabilidade de acerto condicionada pela fortuita coincidência.

Em vez de figurar no centro de um palco sob o olhar judicioso da plateia, subo a um promontório alcantilado e coloco-me, sozinho, no lugar mais ermo, onde a falésia se despenha verticalmente. Os olhos fechados são a caução da maresia que serve de régua hermenêutica. As imagens desfilam em revoadas. Congeminam-se em rima com o vento inominável que se compôs. As imagens são a levedura das palavras estilhaçadas num conciliábulo onde as interrogações são acrescentadas aos minutos passantes. 

Até que a madrugada se extinga e o cansaço aldrabe a lucidez. No abrir dos olhos, a consciência de não ter saído da sala. E todas as interrogações havidas com a levedura do pensamento aparecem tatuadas nas paredes, à espera de serem descontadas no débito das indecisões.

27.4.22

Vendem-se heróis

Andrew Bird, “Sisyphus” (live at KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=oOyfBIkbnCA

Eram os saldos, a prova derradeira de uma certa decadência que se vertia sobre as cortinas do tempo. Os heróis estavam à venda. Tinham perdido pergaminhos, as novas gerações afogadas na bruma da desmemória, indiferentes às sucessivas marés da História.

Os curadores da memória protestavam. Tentavam evitar a venda dos heróis. Temiam que a sepultura da nação fosse cavada mal fossem preteridos os heróis, como se a História passasse a ser orquestrada por uma imensa página em branco – a futura bandeira, o hino envenenado pelos estilhaços do esquecimento.

Em oposição, negligentes, mas capacitados da sua persuasão, os promotores da venda dos heróis dirigiam o olhar para o porvir. Eram contra os relógios parados no tempo. Os heróis pretéritos estavam mortos e não deviam continuar a merecer as genuflexões contributivas dos cidadãos, num gesto imperativo que fabricava feriados e forjava comendas tão incandescentes como espúrias. Queriam que se fizesse ouvir a sua proclamação: este não era um atentado contra o património ido da nação, nem se pretendia diminuí-la, ou desmerecer o tal passado que é cimento de uma identidade. Os patriotas de diferentes cepas podiam ficar sossegados.

Faltava saber se havia interessados em comprar os heróis postos em hasta pública. No habitual etnocentrismo de quem tem fartas culpas no passado colonial, foi ventilada a hipótese de países de recente independência capitalizarem os heróis em venda. Depressa se percebeu que o exercício estava condenado ao malogro. As proezas não aproveitavam à causa desses países – e a imagem do país que submeteu a leilão os seus heróis de antanho atravessava um dano, pois não é dos costumes abjurar um passado e manifestar a vontade em trespassar os seus heróis para lugar forasteiro. 

No fim do prazo, ninguém comprou os heróis em saldo. Os honrosos patriotas exultaram: não era mais um pedaço da História pátria ultrajado pelo pretendido esquecimento dos heróis. Estes continuaram indiferentes à polémica, sossegados a fazer húmus nos respetivos túmulos. Do lado de fora, várias embaixadas receberam instruções para não ampliarem o noticiado. Não fossem os seus idiossincráticos heróis subjugados pela mercantilização do esquecimento.

26.4.22

Os ranhosos

Madrugada, “Ecstasy”, in https://www.youtube.com/watch?v=wgNGmzfIbTc

Era tudo às avessas. O olhar transviado. O verbo malfadado. O sorriso a destempo. O agrado adiado. A divergência estrutural. A recusa da convocatória para serem construtivos. A autenticação da irresponsabilidade. O fermento no ninho contrafeito. A intransigência tumular. A falta de respeito por si próprios, a começar – para depois poderem ser críticos com os demais.

Era tudo de propósito. A propósito. Não queriam o proverbial encanto aos olhos dos outros: a sua militância era a hostilidade que os outros por eles acautelassem. Sempre em rota de colisão, avançavam por errância contra os embustes denunciados. Não era fácil a sua demanda. A vida levava-se pela intermediação das sucessivas contrariedades que os outros esgrimem, talvez por vingança contra a sua afronta constante. 

Os que não eram como eles não conseguiriam ser sob pretexto de considerarem que ser desse modo é uma beligerância ateada, contínua – e ostensiva. Mas eles não se aferiam pela craveira dos que deles diferem. A sua linhagem era uma ausência. Órfãos de referências, afastavam-se da convencionalidade: temiam que a cedência ao convencional seria pô-los reféns de vontades que não eram as suas. Não transigiam com vontades exteriores. Não capitulavam. Preferiam ser órfãos, quase ilhas misantropas cercadas por bons costumes, e outro ser o mapa por que se regiam.

O seu lugar social era a solidão. Eles é que faziam de propósito para serem conduzidos à ostracização. Era o seu lugar inato. Se interrompiam a safra e procuravam habitar um lugar habitual entre os demais, depressa se sentiam acossados por um habitat que não era o seu. Sentiam-se corpos estranhos num lugar perdido na geografia mental que sabiam ser a sua. Por isso povoavam a celeuma, provocavam os santuários da habitualidade e os seus suseranos, sabendo do elevado preço que tinham de pagar: o isolamento num lugar ermo, abjurado pelos que habitam na maioria, acantonados na condição de párias.

A corda estirada era o pretexto para as trincheiras cavadas. Viviam de costas voltadas para as convenções. Provocavam-nas, agitando rostos afeados pelas palavras cáusticas. O tempo levava-os para a extravagante solidão social. Só podiam contar uns com os outros, como se houvesse uma solidariedade de casta. Mas nem isso: essa era uma condição que não conheciam e nem a comunhão de conduta os colocava próximos uns dos outros. 

Atomizados no reverso da convencionalidade, levavam longe os compêndios do isolamento. Nunca poderia haver um sindicato dos ranhosos.

25.4.22

Da Europa contraproducente

Nitin Sawhney (ft. Nina Miranda), “Vai”, in https://www.youtube.com/watch?v=dqFvKz89Ikk

Quando estudei na universidade, esbarrei numa disciplina que ensinava o bê-á-bá da Europa. Eu, que nunca fui sensível às coisas da política, e que da História tenho um modesto entendimento da sua serventia para sermos gente com uma bússola que ensina o hoje, tive a leve impressão que ter ficado vacinado contra a política, a economia, as instituições, a Europa. Até o desinteresse da História começou a fruir. Admito: a embirração ter-se-á ficado a dever às várias tentativas fracassadas de passar na disciplina: só à quarta tentativa, e depois de algumas explicações com um primo de um amigo, consegui, e à justa, passar no exame e ficar com habilitações mínimas para traduzir a Europa que nos rege.

Há pouco disse: fiquei vacinado contra a Europa, mas julgo ser mais rigoroso admitir que a Europa inoculou em mim os anticorpos para a repudiar. O professor era palavroso, as matérias eram debitadas num ritmo vertiginoso. Tinha a impressão de que ele se entusiasmava pela ideia da Europa, que chegou a apresentar como um resgate da cidadania tantas vezes lesada pelos egoísmos nacionais. Apesar de o professor avisar que não era embaixador da Europa e não era pago pelas suas instituições para apregoar a ideia de Europa e as virtudes do seu funcionamento, não conseguia esconder a sua predileção. Uma predileção discreta, mas predileção, em todo o caso.

À medida que ia esbarrando nos contrafortes do insucesso académico na disciplina que ensinava a Europa, ia crescendo a minha irritação com a Europa (e com a rigidez do professor – e com o próprio professor). Jurei que não podia virar as costas à Europa quando, enfim, me desembaraçasse desta disciplina, que foi uma das últimas antes de concluir o curso. Tanta insistência na Europa não podia atear a minha futura indiferença. Assim contrariei os suores frios que sentia de cada vez que abria o manual sobre a Europa e ouvia ou lia notícias sobre a Europa, sempre tão pesporrente na sua ação.

Os anticorpos que a Europa em mim deixou tatuados jogaram a seu desfavor. Jurei vingança. Podem-se acusar de estultícia por dirigir a vingança contra um objeto político que nem sabe da minha existência e que não teve culpa nas sucessivas dificuldades que encontrei até passar no exame à quarta tentativa. É assim que eu sou – e quem nunca tropeçou nas limitações de si mesmo, que levante mentirosamente o dedo. A embirração com o professor, também cá canta e também, à sua medida, contou. Foi sendo anestesiada ao deixar de ter aulas com ele. Mas acuso-o, e ao modo entusiasmado com que divulgou a Europa, pelos anticorpos contra ela. 

Hoje, à conta dos anticorpos, sou votante em partidos ou candidatos que inscrevem a rejeição da Europa nas primeiras linhas dos programas políticos. É o que me mobiliza. Não quero saber das restantes propostas políticas que hasteiam como bandeiras, se são justas e aceitáveis, o que prometem para o futuro, se correspondem a projetos políticos abjurados pelos habituais tutores do sistema político. Nada disso me interessa e estou pronto a suportar as consequências (até as pessoais) se, algum dia, um desses partidos marginais se alojar no poder. Só me interessa a sua agenda anti-Europa. 

Hoje, quando reflito durante uma campanha eleitoral sobre o voto, ou quando dedico atenção ao processo político que a cidadania exige (para minha grande surpresa, pois dantes a ela jurei desinteresse), situo-me sempre nos antípodas da Europa. Se a Europa se move para um lado, eu prossigo para o lado oposto. Se a Europa defende democratas, não tenho pejo em alinhar com autocratas. Se a Europa denuncia quem ofende os direitos humanos, faço de conta que estou a dormir. Se a Europa quer ser maior e mais presente, torno-me exacerbadamente nacionalista. Se a Europa propõe liberalizações de vários jaezes, torno-me intrinsecamente marxista. Sou, sempre, o contrário da Europa. 

Eis o poder heurístico que uma disciplina sobre a Europa teve sobre a cidadania que tenho como arnês. Se o professor que instruiu sobre a Europa soubesse, mudaria de método?

22.4.22

Fugir de fantasmas é um desporto radical

Eagles of Death Metal, “Save a Prayer”, in https://www.youtube.com/watch?v=cdf_Rtif59c

“O medo de fantasmas é o maior fantasma que pode fazer desmoronar uma pessoa”, leu algures num tempo já esmaecido. Não podia deixar de concordar. Faltavam muitos degraus para o olimpo e nem assim se incomodava com as apoquentações correntes, aquelas que atacam as almas e as deixam sobressaltadas. Considerava-as coisas comezinhas e a mesquinhez não era a sua especialidade (julgava em causa própria). 

Era capaz de jurar que conseguia ver pessoas desorientadas que erravam pelas ruas como se fossem perseguidas por fantasmas. Como é próprio da matéria, os fantasmas não se dão a conhecer na sua transfiguração em pessoas, pois é da natureza dos fantasmas serem apenas fantasmas. Mas essas pessoas talvez estivessem na posse de capacidades extravagantes que permitiam assinalar a existência de fantasmas, especialmente se estivessem no seu encalce.

Outro mito é a malignidade dos fantasmas. Fala-se de fantasmas e o imaginário popular depressa arranja palcos onde se congeminam perseguições implacáveis, o fantasma na posição de predador e os simples humanos à sua mercê como presas. Pode não passar de um mito, pois os fantasmas têm vida própria e não estão vinte e quatro horas, sete dias por semana (e por aí fora, na cronologia do calendário) ocupados a atormentar as vidas dos outros. Não é assunto que suba a terreiro, o que contribui para a injustiça que se abate sobre os fantasmas. Mas eles também dormem e têm de ir à repartição de finanças e a restaurantes e, eventualmente, às discotecas da moda e ao teatro e ao coreto do jardim quando fazem de sociólogos amadores.

Contudo, havia fugitivos do nada que corriam rua fora sem que os demais conseguissem ver uma alma existente a persegui-los. Não havendo manicómios nas imediações, não se levantava a hipótese de serem loucos na folga do manicómio a encenarem a sua loucura em público. Outra hipótese era esboçada: as pessoas fugiam de si mesmas, elas constituindo os seus próprios fantasmas. Aprisionadas nos sobressaltos interiores, medravam em perseguições inventadas. 

Talvez dormissem mal com a revelação das suas pessoas. E estas se confundissem com fantasmas arrancados às algemas que as aprisionavam. Estes fantasmas não passavam de eufemismos delas mesmas.

21.4.22

Espectros (short stories #380)

Thurston Moore, “Leave Me Alone”, in https://www.youtube.com/watch?v=sXJnKf4bBEU

          São as farsas que se estimam no disfarce dos espelhos polidos: são farsas, mas aparentam lisura. Se a pele não for esconderijo, arrojam-se os dias futuros na contabilidade versada no xisto gasto. Os rostos são apenas fotografias, não são carne e osso. São fotografias embelezadas, à mercê das quimeras descobertas por peritos. São fotografias-disfarce. Se forem a palco, ninguém dá conta da farsa. Mentem, com os dentes todos à mostra. Mas só eles sabem que mentem. Os que os ouvem comungam das palavras armadilhadas sem saberem que são ungidas pela impostura. Também eles são mentirosos: sobre eles pende a falta de diligência para descobrir a camada mais funda sob o verniz meteórico da fala. Os mitómanos emproados desfilam a pose solene, como quem exige genuflexões aos demais. São como espectros sem serem conotados como tal por quem atentamente sorve as suas palavras. Espectros, contudo: os corpos escondem-se em sombras aparentemente não vetustas, numa enseada que se esconde da lucidez, em sucessivas camadas de penumbra. Se pudessem contar as frases gongóricas, seriam catedráticas figuras. Mas as palavras são absorvidas como se fossem sacerdotes empunhando autoridade espiritual. Acreditam e não querem acreditar que apenas acreditar é prescrição suficiente. Os espectros precisam da dogmática. Precisam de uma audiência, que prescinda do espírito crítico (meio caminho andado para a fruição de dogmas). Quem os ouve é figura ainda mais espectral. Andam à procura de bússolas que transcendam a condição humana, quase roçando um estatuto divino. Afinal, os deuses podem ser confundidos com espectros (ou passar como espectros). As pessoas assim empenhadas na sua vontade não farão a diferença. Talvez não saibam que o remate peca por excesso: nem todos os espectros foram admitidos à condição de deuses – e um dos mandamentos que constitui a dogmática militante adverte que os deuses podem não nidificar na penumbra.

20.4.22

Quem sai aos seus

Idles, “Crawl!” (live at CBS), in https://www.youtube.com/watch?v=X2X2tkgSl_U

Um galanteio servido em pés de barro, como os deuses que se mimoseiam para o serem: “quem sai aos seus...”. As reticências ficam a adejar sobre a frase, deixando-a em aberto, enigmática. Essa é a propriedade das reticências: são inconclusivas e deixam nas imediações o sabor azedo a indeterminação. Pode-se dizer que é fácil ler nas entrelinhas para depressa se capturar o sentido da frase interrompida pelas reticencias; ou que as reticências deixam a incerteza abraçada à frase não concluída, fecundando a sua ambiguidade.

Dir-se-ia: quem sai aos seus está na melhor posição para confirmar o preceituado. O visado tem de si um conhecimento ímpar, imbatível quando comparado com os seus observadores. Ninguém como ele passa tanto tempo na sua pele. Os observadores exteriores dele possuem apenas fragmentos dispersos. Passando grande parte do seu tempo embebidos nas suas próprias epidermes, estão longe de alcançar o conhecimento interior daqueles de quem se pronunciam, exageradamente, lídimos conhecedores. 

Em favor do autoconhecimento também se joga o conhecimento dos que lhe deram vida. Para alguém perorar sobre as semelhanças entre progenitores e respetiva prole é preciso ter conhecimento mais do que aproximativo de uma imensa constelação de pessoas: os pais e os filhos de quem se diz serem cópias mais ou menos fiéis. O que se acrescenta à dificuldade da empreitada: quando de alguém se diz “quem sai aos seus...”, não só dessa pessoa se exige conhecimento aceitável como também do pai ou da mãe com quem é cotejado. Se a exiguidade do tempo em que cada observador passa aprisionado à sua própria pele limita as capacidades cognitivas enquanto observador exterior dos outros, acrescem as limitações quando é preciso comparar duas pessoas para, de uma delas, se atestar que é tão semelhante com um dos que lhe deu existência.

Dizer quem sai aos seus pode ser um presente envenenado, se a ambiguidade latente trepar pelas paredes da incerteza. Aqui joga-se muito mais o papel do observador do que o estatuto do observado. O que está em causa é saber em que conta o observador tem o sujeito observado. Não aquele de quem se diz “quem sai aos seus”, mas o outro que serve de comparação.

19.4.22

Um cético não é necessariamente sorumbático

Hinds, “Spanish Bombs” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=ChpMPhuuG-M

Perguntaste o que é um cético. Depois de fazer as vezes de dicionário (sem laivos filosóficos – apenas a voz corrente do léxico), estabeleceste uma relação causal: um cético é uma pessoa maldisposta, carrancuda, incapaz de sorrir sobre o mundo que é o seu habitat. Desta vez não perguntaste; tiraste a tua conclusão.

A conversa não podia devolver-se ao silêncio com o assunto tratado nestes termos. Desta vez foi a minha vez de desfiar uma interrogação: por que razão um cético, só por o ser, tem de ser taciturno? Deixaste que o silêncio demorado respondesse por ti. Não sei se percebeste a precipitação da conclusão (cético igual a maldisposto) à medida que o silêncio era a tradução da resposta. Emparelhei o meu silêncio pelo teu, talvez esperando que um prolongado silêncio confirmasse a tua estatuição (e espalhasse sal sobre as minhas existenciais dúvidas em carne viva, antes que desse corda às elucubrações filosóficas).

A páginas tantas, interrompeste a ditadura do silêncio:

Se um cético desconfia da bondade das coisas à sua volta, se ele sopesa as desvirtudes quando fecunda a análise, não pode ser uma pessoa com as pazes feitas com o mundo. Não pode ser uma pessoa que irradia claridade, contaminando os outros com essa claridade. Não pode ser uma pessoa atravessada pela positividade da vida. Tem de ser mal-encarado, melancólico, desesperançado. Uma pessoa desesperançada não tem motivos para sorrir e para vestir um rosto resplandecente, nem para alijar as nuvens plúmbeas que são sua natural companhia. Só vejo oposição entre um cético e uma pessoa com a pujança da alegria.

Tentei contrariar a visão pueril da antinomia:

O ceticismo é uma posição perante a realidade exterior. Não é a determinante necessária de um comportamento, como se a identificação de um cético ditasse o reconhecimento de um sorumbático. Se um cético desconfia do equilíbrio cósmico em que as coisas se entretecem, ele limita-se a povoar o pensamento com as provas do desequilíbrio (cósmico ou de outra natureza). Muito embora alinhave a desconfiança metódica e suspeite que as coisas conspirem para agradarem a divindades malévolas (repara: um cético que seja crente não identifica demónios; reconhece divindades malévolas) que, em seu devido lugar, cuidam de espalhar a rede tentacular da desesperança, não vão os humanos soçobrar num excesso de otimismo que, ao não ser resgatado, ele sim povoa a angústia e a desesperança imputadas a juras não cumpridas. Um cético está de pé atrás – é a sua genética – sem que esteja proibido de esboçar um sorriso, ou de repudiar a boçalidade tantas vezes exibida por pessoas irritantemente otimistas. Na contabilidade final, é o cético que tem motivos para ficar bem-disposto: não esperava grande coisa do futuro e o futuro cuidou de não o desiludir. Para um cético, isso reconverte-o em pessoa com direito de admissão, alguém que não medra em angústias gratuitas, deixando para memória futura um leve, acidulado sorriso, não mergulhando nas profundezas da melancolia. O otimista irritante é que habita frequentemente as caves da má-disposição de cada vez que as profecias do cético se confirmam (o que, de acordo com o cético, tem elevada probabilidade de acontecer). Ora, se o cético acerta nos preparos do mundo e vê confirmados os seus presságios, não tem razões para ser maldisposto. A menos que, além de cético, seja masoquista.

18.4.22

A carta inacabada

Interpol, “Toni”, in https://www.youtube.com/watch?v=-x1PMuD4ewk

Não sabia dos lugares ocupados que podiam ser miradouros. Escondido das pétalas abraçadas às silabas sibilinas, arrancava um esgar de surpresa aos que me ouviam desde o estaleiro desarrumado. Mas não era de escombros que falava. Desoprimia a faca apontada à jugular, então a salvo sem que temesse pelo sangue fundacional. Trazia palavras ricas, a personificação do ouro ou de outra substância ainda mais quimérica.

Mas havia uma dúvida perene: o paradeiro não se encontrava com os lugares ocupados; parecia que só conseguia habitar em lugares desocupados, a franquia do desmedo que se abotoava no pescoço agitado. Era eu contra a minha circunstância, num contínuo abraço na fuga dos outros. Alguém me dizia que era agiota de mim mesmo. Não dei importância: teria de ir ao dicionário para saber o que significa “agiota” (ou fingia muito bem).

A cortesia do mar não tinha paga. Era como as outras pessoas que encontram serenidade no mar, mesmo quando o mar se agita num tumulto que drena as tempestades no seu caminho. As mãos estavam suadas e não era da maresia que acompanhava a coreografia das marés e os ventos irreparáveis. As mãos estavam suadas e devolviam a areia cuspida para a estrada. À medida que entardecia, na praia sobejava um punhado de pessoas. A luz timorata parecia sossegar o mar, que fazia descer os degraus das ondas. E as pessoas, enfim, partiam, deixando a praia entrega ao seu ermo.

Às vezes, apetecia-me sair à noite e espalhar a solidão pelas ruas da cidade, pelos recantos mais sombrios, na presença das companhias menos recomendáveis (por assim dizer, para não ofender os bons costumes, que são uma despertença). Se em vez de juras acabasse por desfeitear a insónia contumaz, talvez tivesse mais préstimo. Não ficava a lobrigar nas dores sem pátria nem nas curas sem colheita. As paredes da casa não estariam tingidas pela persistente peregrinação de consumições que não tinham rosto.

A enseada escondida era refúgio posterior. Combinava com o tojo e com as tímidas flores esbranquiçadas que arroteavam a Primavera e deixava que o vento cortante desarrumasse os pensamentos por sua vez desarrumados. Numa dessas alvoradas, ainda sem sono por sentinela, comecei uma carta. Já levava três páginas, corridas a eito, as palavras porventura entarameladas com o esboço da alma que se desenhava perante o mar contínuo. Não acabei a carta. Ainda hoje me lembro de passagens selecionadas ao acaso, num amontoado indiferenciado de palavras, como se juntas não cuidassem de ser inteligíveis. 

Nunca dei a carta por acabada. Nem sei a quem era destinada.

15.4.22

Demolição construtiva

Fontaines D.C., “Skinty Fia”, in https://www.youtube.com/watch?v=E4qy_XEjjYc

Falo de estética sem manual de instruções. Falo de lógica que se fundeia num barco sem mar de fundo. A excêntrica indiferença que se agiganta na provável falta de coerência, os argumentos fluindo sem bússola. Se os dias futuros são um apanhado do passado, esta é uma previsibilidade que nos mata.

Há compêndios que ensinam a ser conservador. São lidos pelos que temem a mudança por não saberem o que os espera na vertigem da mudança. Se fossem jogadores, apostavam num tabuleiro onde as metamorfoses estão limitadas a pequenos passos. Esses compêndios fornecem a fórmula para a conservação dos elementos. Guardam os segredos que conservam a imagem do passado, como se fosse uma moldura que se enxerta no tempo por existir, ditando-o.

A fragilidade do chão conhecido não é admitida. Muito embora as adesões não sejam convincentes – filiam-se na exclusão de partes, com receio do incógnito –, as regras de ouro mantêm-se como corrimões a que as pessoas se agarram no jugo da sobrevivência. Assusta-as a ideia de refazer pedaços do estabelecido. Temem que as partes novas contaminem os equilíbrios do existente, sendo a matéria-prima para o seu estilhaçar. Não importa que o equilíbrio seja instável, e que até se possa interrogar se existe algum equilíbrio. No plano das hipóteses, resguardam-se da incerteza. Entre todos os males, que fiquem os males hipostasiados. Será preferível a entrar num quarto às escuras sem saber onde estão os interruptores, ou se existe claridade para atear.

A curta manta das probabilidades alarga o prazo de validade do contemporâneo. É como se fôssemos mecenas do que sabemos existir e ditássemos a sua perenidade. Não importa os que virão atrás de nós, a sua vontade por apurar. Essa é a nossa herança, uma concha fechada, hermética, que só pode ser aberta se a vontade dos vindouros se emancipar da inércia que lhes legamos. 

Tudo acontece ao contrário: perpetua-se o dia corrente para as fendas onde se alicerça o futuro, com o selo da educação com que instruímos os vindouros. Somos totalitários. Não lhes possibilitamos as ferramentas para demolir o que aprenderam. Encerramo-los nos curros onde transpira a forma de vida e os quadros mentais que herdámos dos antecessores. Se são válidos para nós, serão úteis para eles.

Se pudesse assinar um desejo para a provecta idade, diria que quero ser testemunha do desassombro dos vindouros quando tudo hipotecarem para, dos escombros, construírem um novo existir. Não me interessa julgar se será melhor ou pior, que os julgamentos não se fazem a destempo. Estes são os abaixo-assinados que estão em défice.

14.4.22

Jurisdição sem rogo

Ratso (ft. Yasmine Hamdan), “I Want Everything”, in https://www.youtube.com/watch?v=cCQLSddKKHg

          Eletrificada a cidade, ficava órfã a penumbra. Não se extinguiu. Continuava a sondar as sombras que pareciam periscópios nos interstícios da luz que fingia a claridade. A jurisdição da noite tinha mudado. A noite já não era muda, a eletrificação tinha banido os vultos que dantes povoavam a noite. Já não se dizia que a noite é a tradução das trevas. No simpósio inaugural, o regente encheu-se de brios e perorou longamente acerca das virtudes que se exercem sobre os que desmatam o ensimesmar. “A vida em conjunto é a promessa do futuro”, rematou o regente em tom profético, sem esconder a queda para a má poesia. Não era de figuras de estilo que os súbditos precisavam. Alguns não perdoam que o sistema tenha garantido um módico de luz para a noite, extinguindo o sinónimo tumular de trevas. Tome-se, como exemplo, os meliantes que tinham a noite como horário de trabalho. Complicou-se o seu labor. Por todos os lados, as candeias acendiam uma luz artificial que era incompatível com os biombos onde se escondiam os meliantes noctívagos. O regente não o disse – porque se antecipasse este efeito, tê-lo-ia ostentado como proeza da sua lavra: a eletrificação da cidade daria refúgio à segurança, perseguindo os meliantes que quisessem continuar a delinquir. O que não podia ter sido anunciado (e foi-o, numa habitual confusão entre desejo e realidade), é que “toda a gente” iria ovacionar a eletrificação da cidade. Os apóstolos do estabelecido regozijaram-se com a segurança caucionada pela eletrificação da cidade. Os meliantes contestavam a destruição do seu plano de negócio e do habitat natural. E os meliantes não são cidadãos diminuídos. Alguns deles mudaram de cidade, procurando um lugar onde ainda vigorassem as trevas noturnas. Outros reconverteram o domínio do negócio. E – dizem as “boas línguas” – reabilitaram-se. A jurisdição estava, enfim, quase enxuta.

13.4.22

Golpe de Estado

Clan of Xymox, “A Day”, in https://www.youtube.com/watch?v=x3fsh8JefvM

O olhar parecia perdido, como se os olhos estivessem na nuca. O revólver fazia-se sentir, a coronha ciciando uma coreografia sobre a cabeça – pedia uma roleta russa, ou outra aleatoriedade para o que desse e viesse. Podia ser do ar pesado, o dia outonalmente enxertado no advento da Primavera e uma chuva miudinha conspirando contra as almas maioritárias que admiram os dias soalheiros. O rapaz tinha acordado, absorto pelos despojos de um pesadelo que era tão vívido que se confundia com o real.

Dizia-se: é um golpe de Estado contra a Primavera. E ninguém se importava. Ninguém ouvia a advertência. A chuva miudinha continuava a ensopar as pessoas que não tinham consultado o boletim meteorológico. Pensava: como é possível não consultar o boletim meteorológico para saber como se há de sair à rua, qual a indumentária a preceito. Talvez fosse preciso um golpe de Estado nos comportamentos, mas tirou daí as ideias porque nem a superioridade moral é aceitável nem a pulsão totalitária se conforma com a linhagem.

Juntou-se ao grupo de rapazes em férias escolares que começaram a espalhar a estroinice nas ruas. Corriam desaustinadamente e atiravam com bolos podres uns aos outros, dando mais um contributo para a sujidade das ruas. Estavam encharcados pela chuva miudinha, mas não se importavam. Parecia que a chuva era o incentivo que precisavam para fazer da sua deambulação um carnaval a destempo. Pelo caminho, apanhavam pessoas maldispostas, incomodadas com a estroinice dos rapazes que, à falta de escola para os apoquentar, decidiram carnavalizar o dia outonalmente primaveril. 

Uma velha viúva balbuciou uns impropérios que ninguém entendia. Na paragem do autocarro, onde também se refugiaram outras pessoas exilando-se da insistente chuva miudinha (não consultaram o boletim meteorológico), a viúva monopolizava a fala. Um dos rapazes, pressentindo que era ao bando que os impropérios se dirigiam, recuou na direção da paragem do autocarro e levou as duas mãos aos digitais, ostensivamente como provocação. A velha emudeceu. Os outros refugiados sob a tutela da paragem do autocarro continuaram mudos. O estroina vingou o dia, como se o gesto fosse a senha secreta para o golpe de Estado que, sem preparação, tinha sido montado pelo bando.

O dia outonal prolongou-se dia afora. Os rapazes só se cansaram da pose carnavalesca quando fizeram o inventário das tropelias. A velha viúva recolheu-se aos aposentos, com a imagem dos galfarros a colonizar o pensamento, enjoada com os torpes adolescentes em geral (era muto dada a generalizações). Ao menos, os foliões a destempo e a velha carcomida convergiram: um golpe de Estado tinha sido jungido com a ajuda de um dia outonalmente primaveril.

No dia seguinte, a Primavera resgatou o seu lugar depois de encomendar o arremedo de Outono a outras latitudes. Os rapazes acordaram com cefaleia. A velha não saiu de casa, não fosse dar de caras com os estroinas da véspera. Nesse dia, o golpe de Estado já tinha o esquecimento como paradeiro certo.

12.4.22

“Quando for pequeno, quero ser notável”

The Limiñanas, “Je Rentrais Par le Bois” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=aiK-BO_4t9U

“Um resto de modéstia que se inscreve no céu que me aparta dos sonhos.” Era assim que queria a inscrição na sua lápide. Não é que pensasse amiúde na morte, até porque pensar a morte tem dois incómodos: obriga a pensar nos trabalhos que deixamos a quem fica a cuidar do nosso legado, e essa é uma responsabilidade que devia cessar com a morte de uma pessoa; e obriga a interiorizar, talvez em pouco tempo (o que sobrar), o que deve ainda ser feito até se considerar que o tirocínio para a desvida foi feito. 

Do alto do seu metro e noventa e dois, ninguém ficava indiferente à sua passagem. Não era tanto pela estatura. Deixava uma marca, muito embora não se pudesse dele dizer que era um homem arrancado aos cânones da estética, ou que o charme era seu apanágio. Mesmo assim, muitos dos seus conhecidos admitiam que era carismático. Talvez por isso, os mais próximos tentaram empurrá-lo para a notoriedade pública. E ele, teimoso, sempre cortesmente a declinar a empreitada. Tinha as suas causas, que patrocinava com circunspeção – e muitas delas quadravam com causas populares; dele diziam ser um homem de esquerda, sem que ele alguma vez tenha confirmado a etiqueta. Era impossível vê-lo a assumir palco. A timidez sobrepunha-se ao demais. 

A ironia de fino recorte ajudava a que muitos se aproximassem dele. Em assuntos dignos de contemporânea discussão, usava os costumes para deles se apartar. Tinha sempre um aparte inesperado, um ângulo de análise que não lembrava a mais ninguém, uma semântica original. Havia poucas coisas que publicamente contestasse como odiáveis (“a única coisa que odeio é o ódio que me possa contaminar”). Um dos seus ódios era a sede irreprimível de visibilidade de uns quantos aspirantes e dos outros que, já tendo superado a formação iniciática, ajudavam a poluir o espaço público. 

Era a ironia de fino recorte que lhe permitia assegurar, com aquele tom de voz que dispensava legendas a confirmar o jocoso, que sonhava voltar a ser pequeno para, então, ser notável. Se alguém, incapaz de descodificar a ironia, o avisava do lugar-comum e lembrava “mas não te esqueças que é para velho que vais”, ele completava a advertência juntando o resto da diatribe: “pois é verdade. Vou para isso e para o esquecimento, a morada que me interessa.” 

A notabilidade não tinha sido feita à sua medida.

11.4.22

E tu, juravas fidelidade e amor à pátria?

Andrew Bird, “Atomized”, in https://www.youtube.com/watch?v=lM_nSyjS3yI

Há dias assim: a invocação do patriotismo, depressa confundido com a petição para sermos “bons cidadãos”. Não se discuta o imperativo, porque ele deve pertencer à ordem da consciência individual e até que ponto a consciência individual se integra no grupo e sabe articular as demandas do grupo com as suas idiossincrasias. Quando o presidente da assembleia da república, ao tomar posse, invoca insistentemente o patriotismo para se distanciar do nacionalismo (e dos nacionalistas), surgem interrogações que deviam ser respondidas por quem assim nos doutrinou desde a casa da democracia.

Sermos patriotas sugere um vínculo à pátria. Os politólogos e os filósofos já cuidaram da delimitação de conceitos, fixando as diferenças entre patriotismo e nacionalismo. O sentido corrente derrama sobre o nacionalismo uma certa toxicidade e denuncia os sentimentos negativos dele decorrentes. O patriotismo ultrapassa a lógica excludente do nacionalismo, pois um patriota não se situa num casulo contra o outro (o que não comunga a mesma pátria). Um patriota convive com o cosmopolitismo que se insinua na modernidade, com a fluidez das fronteiras e uma globalização intrusiva, mas a que o consumidor médio (a categoria que parece substituir a de cidadão) cede sem grandes concessões.

Num contexto em que o nacionalismo, um dos esteios em que se fundeiam os radicais de direita, vem ganhando popularidade, é compreensível que as linhas vermelhas que acantonam os radicais ao seu reduto obriguem a adaptar o pensamento e a retórica que lhe serve de suporte. Possivelmente, é a explicação para que um homem de esquerda, visto como o ideólogo do partido do governo, se socorra do patriotismo para aglutinar as hostes e desse modo promover a marginalização dos radicais agarrados ao nacionalismo.

Entende-se, possivelmente, mas não deixa de ser excêntrico, pelas perguntas que levanta. Ao ouvir o apelo patriótico do presidente do parlamento, surgiu uma interrogação: jurava fidelidade e amor à pátria assim enaltecida por tão importante figura da república? É quando entra em cena outra significação conceptual. Trata-se de jurar fidelidade, ou lealdade, à pátria que se entroniza como garante dos bons valores da cidadania (o que quer que isso seja)? Estabelecer uma correspondência entre fidelidade e pátria parece excessivo, pois essa correspondência tem o cunho dos nacionalistas. Quem jura fidelidade é quem está pronto a abdicar de si, um pouco ou até muito, se isso lhe for pedido pelo país. É mais lógico usar a palavra “lealdade” para caracterizar o vínculo de quem se mobiliza pela convocatória patriótica. Pois a lealdade não supõe um compromisso cego e acrítico, sendo pautado pela adequação entre fins e meios, pela avaliação (sempre subjetiva) da fronteira que não deve ser trespassada quando alguém alinha a sua lealdade pela pátria. 

(Quanto ao amor à pátria, a demanda é tão ilógica quanto admitir que se pode amar uma entidade como a pátria, sabendo-se que o amor é – ou deve ser – dirigido a pessoas, mas não no sentido da sua agregação numa entidade daquelas.)

Para o fim fica sempre a irrecusável subjetividade. Se a pergunta que dá título a este texto me fosse dirigida, a resposta era um não categórico. Não jurava fidelidade nem amor à pátria. O nascimento num determinado lugar é um acidente que não controlamos. O resto fica por conta da pertença, ou de como ela é irrisória, à comunidade que cimenta um sentido de identidade pátria. Uns têm-na, outros não. 

8.4.22

Ministério da promoção dos vícios e da repressão das virtudes

Ten Fé, “Waterfalls”, in https://www.youtube.com/watch?v=BNW4GIphNAk

Mote: no governo do Afeganistão há um ministério da promoção das virtudes e repressão dos vícios.

Os talibãs gostariam de ouvir trash metal? E de experimentar uma linha de cocaína? Ou de participarem numa orgia em que a única regra seria a inexistência de regras? Conseguir-se-ia levar um talibã a assistir a um culto (eu sei lá) da igreja ortodoxa? Eles gostam de golfe? E de gastronomia molecular? Os talibãs são boas pessoas?

(E o que é uma boa pessoa?)

Os talibãs seriam capazes de ler um livro de filosofia que ensina os rudimentos da liberdade? Sabem o que é a vida humana inviolável? 

(A interrogação também leva o endereço de outros déspotas.)

Serão os talibãs homossexuais reprimidos, para amesquinharem de tal maneira as mulheres? Conseguem olhar uma mulher nos olhos? E, caso não se confirme a propensão homossexual, conseguem proporcionar prazer a uma mulher, ou apenas se preocupam com o seu egoísmo? Um talibã sabe o que é a imparcialidade? E sabe o que sobra da dignidade?

Haverá a tendência para escarnecer da orgânica do governo talibã porque, no âmbito da sua sanha moralizadora sem concessões ao dogmatismo religioso, inventaram o ministério para a promoção das virtudes e repressão dos vícios. Escarnecemos, com a caução das autoridades que nos tutelam – essas mesmas que, descontados os pruridos da diplomacia (que, é verdade, não se levam em grande conta quando os interlocutores são os talibãs), depressa dirão seria impensável desembrulhar um ministério com semelhante designação. 

E, contudo, olhamos à volta e o que não faltam são os aprumos dos tantos engenheiros sociais que acreditam, e piamente (como se esta fosse a sua igreja), que devem ser escultores da sociedade até que um novo homem novo seja dado à estampa. Não temos ministério da promoção das virtudes e repressão dos vícios com o descaro de lhe imputar semelhante designação. Mas temo-lo por portas travessas, quando assistimos ao assalto contínuo aos “maus hábitos”, que, todavia, continuam a ser tributados pelos Estados; à prevenção das “más companhias”, não vá dar-se o caso de não sermos adultos ao ponto de não as sabermos distinguir e o mal que nos podem causar; só falta, um dia destes, criar uma direção-geral que emite recomendações, todavia vinculativas, sobre o certo e o errado na vida sexual dos cidadãos devidamente educados para serem aquiescentes.

A rebeldia que me assalta dir-me-ia, em voz aparatosa, para ser, por fim, apoiante de um governo se na sua orgânica houvesse o ministério da promoção dos vícios e repressão das virtudes. Só para, enfim, nos ser devolvida a liberdade que vem sendo retalhada em cada ensaio de engenharia social.

Os talibãs (dos costumes) estão por todo o lado.

7.4.22

Os vulcões esquecidos

Electric Youth, “A Real Hero” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=6cedWvuxwbc

As mãos tecem os socalcos nas vindimas do olhar insaciável. São escultoras, a paisagem é o seu torno. Silenciosa, a penumbra que se abate abriga as quimeras. O dia terminal não se extingue. Entrega as chaves do dia consecutivo, outra aventura que irrompe no dorso da luz boreal.

A voz engasga-se. Por um momento, tartamudeia. É como se as sílabas tropeçassem nos espinhos da boca e esta não pronunciasse as palavras demenciais que enfeitam a moldura do tempo. É preciso arregaçar as mangas da vontade e encurvar o arnês contra os verbos assassinos que se disfarçam de poemas. Não, não são os soturnos embalos que entregam o leito venal que é nossa corruptela. As miragens habitam por dentro da imaginação. Se as fossemos sondar, saberíamos que não há chão para receber os pés. E nem assim nos desapossamos delas.

Atrás da noite esconde-se o magma críptico. Dá as voltas no espelho ostensivo que afeiçoa a gramática do tempo vivido. O magma ascende, vagarosamente. Ateia a combustão interior que desassossega o sono sinuoso. A partição dos lugares ausentes não refrigera as almas importunadas. Habituadas aos contratempos, supõem ser apenas mais uma cicatriz tatuada na pele. As dores havidas não compensam o estridente sino que silencia todas as falas. Ninguém sabe: o vulcão esquecido dará conta da sua existência. Não estava extinto, ao contrário das melhores notícias. Virá no atlas, assim redesenhado.

O magma funde-se nas paredes das veias que se desembaraçam do dia constante. A combustão é a nota promissória dos poemas nascituros. As estrofes promitentes descem do pensamento e começam a desenhar a folha, vestindo-lhe o lado corpóreo. A lava vertida na folha de papel são lágrimas retesadas por quem teimou em recusá-las. O vento atrasa a viagem, como se soubesse da opulência em espera quando o vulcão deixar de ser esquecido.

 Cintado na fronteira do saber, o vulcão exige o lugar que tinha sido vedado. Redesenha a paisagem, com a destreza dos deuses anónimos que se congeminam por dentro das veias saqueadas. Estes são os despojos empossados na paisagem reinventada. Os novos socalcos esperam pela mão arquiteta, diligente, que há de ser suserana.

6.4.22

Parque de estacionamento

The Black Keys, “Wild Child”, in https://www.youtube.com/watch?v=KKSmHOUaqaQ

A fúria sentada corrigia os verbos impróprios. A voz ao lado afocinhava no abismo, onde devia ser devedora ao silêncio: “está ali um parque de estacionamento”. Quem precisava de um parque de estacionamento?

Era o oposto. O que era preciso, insaciavelmente na postura dos dias, era desestacionar. Quem quer desestacionar dispensa parques de estacionamento. A preleção que se configurava no estamento visível era uma longa elucubração sobre a hibernação. E como a proteção contra a invernia era um atentado às almas que se empossavam no miradouro das palavras desembaraçadas. Dispensam esse amparo.

No fundo, era como se houvesse uma porta que dava acesso a um museu. Não se sabia o nome do museu – nem, tão pouco, a museologia inventariada. A porta fechada era um embaraço? Era prematuro dizer-se que a porta estava fechada. Podia apenas parecer trancada, mas carecia de confirmação. Quem desiste antes do tempo é uma mera partícula apassivante na modesta humanidade que o perfilha. A porta só podia ser dada como fechada se as mãos a empurrassem para atestarem o seu estatuto. 

A metodologia não parecia consentânea com a teoria do parque de estacionamento. Uma espécie de depósito recetivo a albergar todas as partículas apassivantes que desfiguram a antropologia. Eu disse: “precisamos de fugir dos parques de estacionamento. Urgentemente.” Porque não queremos ser vírgulas, e ainda por cima fora do sítio, a condizer com o estado geral de apatia gramatical que parece, por sua vez, condizer com o estado geral de hibernação que nos amordaça. Somos amordaçados, sem darmos conta.

Não é de parques de estacionamento que as almas irredentistas precisam. A menos que sejam almas contidas, almas sem pejo de procurarem os deslimites, os parques de estacionamento balizam a geografia que nos admite. Não queremos constituir uma amálgama que se revê na indiferença. Não queremos ser o juro negativo do futuro que nos espera. Não queremos ser a nossa própria calamidade.

Os parques de estacionamento deviam ser terraplanados e, no seu lugar, teatros deviam ser erguidos.  

5.4.22

Que diria do avesso?

Mogwai, “Pat Stains”, in https://www.youtube.com/watch?v=jAX7tKZ-3lg

A ponte arranca os medos ao panteão dos sonhos. Deixa o caminho atapetado para o desembaraço do lado lunar que se encerra no labirinto não frequentado. No labirinto em que sabemos haver um vestígio nosso, mas que recusamos habitar. As vozes acotovelam-se na fina camada de horizonte que se antecipa antes que as palavras se sublevem. Como num acerto de contas e a álgebra circulasse pelo interior das veias.

Tal como o sol desponta a uma certa hora, nos antípodas valida-se o entardecer. Encena-se frequentemente o avesso mútuo. Ou o avesso de cada um de nós. O perene teatro que se congemina não se liberta da pele que vestimos para sublimar o fingimento. Dizemos: tudo, ou quase tudo, à nossa volta é fingimento. Vestimos o avesso para ficarmos apessoados para um lugar que tem esta linhagem. Um lugar de que somos um módico, sem o confessarmos.

Que ninguém se embeba no papel de apóstolo da superioridade moral. A lei geral do avesso não deixa vivalma de fora. A catarse individual fica por conta das regras avalizadas por cada um. O resto fica noutra geografia: dessa geografia cuida o respetivo tutor, sem interferência dos demais. É a cada um que compete tourear o seu avesso, sem o ter como abcesso nem como promissória para um fingimento monumental. 

Se alguém vacilar, pergunte-se-lhe pelo paradeiro do seu avesso. Talvez seja das melhores medidas para estimar a profundidade da mitomania. Eles que venham a palco. Deixemo-los atuar, sem guião. E se houver a leve desconfiança que fingem o seu próprio fingimento, faça-se soar um estridente alarme para os chamar à terra. Eles que se convençam que a nudez do avesso pode ser o melhor exercício heurístico, mesmo para os que se consideram heróis de si mesmos e juram de si tudo saber.

Se o princípio geral do avesso fosse desembaraçado sem aceitar exceções, o avesso deixaria de o ser. O lado escondido passaria a ser a simetria do rosto revelado, sem distinções do rosto arrevesado que se esconde num biombo avulso. As diferenças entre um lado e o seu avesso seriam abolidas e deixar-se-ia de invocar o avesso, como se o avesso fosse proibido. Em tais preparos, seríamos todos reféns da previsibilidade.

4.4.22

O ilustre desconhecido

Depeche Mode, “Nothing”, in https://www.youtube.com/watch?v=x2V2yY2KXfk

             O que não me deixa fora de mim é que ninguém saiba o meu nome.

A fonte do anonimato era um fiorde que protegia contra as marés intrusas. Para que querem saber o nome de uma pessoa se ela assenta docemente na indiferença que de si mesmo promove? Era nas repartições públicas, na companhia de telefones, em lojas avulsas, no banco, ao telefone em mundanos inquéritos, o polícia de trânsito que queria saber o nome do “senhor cidadão”: querem saber o nome e começam a conversa com a pergunta sacramental: “com quem estou a falar?” (se for ao telefone), ou “o seu nome é?” (quando é atendimento presencial).

Não é pela medida da reciprocidade que as pessoas se balizam. Talvez por não saberem que fazia questão de não saber o seu nome, não hesitavam em perguntar pelo meu. Acaso perguntariam se soubessem, logo na casa de partida, que não queria saber os seus nomes? Havia um acesso de cólera que colonizava as veias e que levava a redarguir deste modo:

Eu perguntei o seu nome?

Refreava a pergunta, conseguindo travar a língua no derradeiro instante. Às vezes, a diplomacia derrota o sangue em ebulição. 

Não deixava de pensar no monumento ao soldado desconhecido, que era costume haver em vários lugares. A comparação era desastrada: o soldado desconhecido fora morto em combate e o cadáver jazia nas trincheiras sem que houvesse uma identificação nos seus pertences. Eu não pertenço a guerras – nunca fui ao exército e das poucas proezas que me deixam ufano é ostentar a virgindade no porte de armas. Soma-se o facto de nunca sair de casa sem a identificação pessoal. Era o estatuto de anonimato que ambicionava (não a morte que me retirasse da função de testemunha da própria existência).

Se havia divisa que gostava de exibir era a de ilustre desconhecido. Pondo a ênfase no “desconhecido”, pois a ilustre condição servia para sublimar o anonimato. Tal como queria ser um desconhecido por onde quer que andasse, também desejava que não tivesse a tiracolo o epíteto de “ilustre”. Até que um conhecido me corrigiu:

Vale mais um ilustre desconhecido do que um banal conhecido. O primeiro enverga uma comenda que muitos conhecidos desconhecem.

 Doravante, repensei a dúvida existencial. Passei a estimar a minha existência pelo estalão do conhecido desconhecido. 

1.4.22

Pensamento limítrofe

Wolf Alice, “Planet Hunter”, in https://www.youtube.com/watch?v=t6eohMq7ACI

Único o pensamento contra o qual se protesta. Deixa vestígios de fraca linhagem: imposto como pensamento único, denuncia o pensamento dissidente, chegando ao limite de o apostrofar. Único o pensamento que se constitui pensamento único, nas grilhetas que silenciam os que nele não se reveem. 

Impõe-se uma contra-denúncia, tendo o pensamento único como alvo. A pluralidade do pensamento não transige com um pensamento único que se estende no planisfério, cerceando o terreno válido para o pensamento que nele não se revê. Apostam, uns, na complexidade do pensamento para lhe atribuírem pressupostos maximalistas, não reconhecidos pelos cultores do pensamento único. Outros insurgem-se contra o pensamento único, com violência retórica, por impedir a pluralidade que é genética à democracia.

(Faltaria sondar a genealogia do pensamento de alguns que protestam contra o pensamento único montados no argumento da redução de ideias com visibilidade no espaço público. São de alguns destes as credenciais totalitárias que se inferem do seu posicionamento sociopolítico e da sua bagagem ideológica. Contudo, não pode ser com base neste argumento que o acesso ao espaço público deve ser vedado a quem, se pudesse, o reduziria ao pensamento seu, depressa reconvertido em novo pensamento único.)

Toda esta ganga semântica é uma perda de tempo. Primeiro, os críticos do pensamento único têm acesso à voz pública e não são atirados para o degredo por vilipendiarem o que denunciam como pensamento único. Segundo, não colhe a reclamação de que são abjurados pelos tutores do pensamento único, como se a sua crítica travasse o acesso do pensamento crítico. Talvez seja (seu) defeito de formação: toleram mal a crítica – se é que a toleram – e confundem crítica com a intenção (ou a conspiração?) de vendar as suas bocas, atirando-os para o silêncio inapelável.

Em vez de categorias herméticas (pensamento único versus pensamento crítico), as baias da dicotomia deviam ser superadas. Os cultores do pensamento único deviam aceitar que não há imperativos categóricos, o mesmo valendo, com cores diferentes, para os tutores do pensamento crítico. Uns e outros deviam convencer-se que o único imperativo categórico com acolhimento é a recusa de todas as TINA (“there is no alternative”). Os críticos, em vez de darem abundantes contributos para uma farta sementeira de abaixo-assinados que denunciam a perseguição dos primeiros (que só existe na sua ilusão), deviam perceber que serem criticados não equivale a silenciamento.

A lógica da vitimização é um expediente de quem não aceita a crítica. Mal andaríamos se os que criticam não fossem suscetíveis de crítica exercida pelos criticados. O pensamento é periférico: cada um acolhe-se na sua ontologia, sem ter a pretensão de absolutizar o seu pensamento. Isto é pensamento único, por não reconhecer a existência (que não necessariamente a validade – e aqui entra o direito geral à crítica) de um pensamento alternativo. Por isso todo o pensamento devia ser periférico, munido de um periscópio que o habilite a sondar as ideias que lhe são limítrofes. Pois, por vezes, é este movimento periférico que dita a evolução de um pensamento que não se quer estático no tempo.