The Limiñanas, “Tu viens Marie?”, in https://www.youtube.com/watch?v=GpeX_n7X-4g
Se fosse na fronteira da fala, ninguém ficava sem o arreio da liberdade. Todos somos anónimos mesmo tendo um nome. As meadas que se abatem sobre os campos vastos são como termómetros de cidadania: as várias camadas sobrepõem-se numa gramática de direitos e de deveres.
E nós, anónimos de nova cepa, somos esteios dessa fala que se quer interminável. Porque sabemos que a mudez seria suicida, um pacto atroz contra o sangue efervescente que nos corre nas veias. Em vez da capitulação, que se encene um fingimento, ao menos. A encenação é a recusa da apatia. Se a teatralização subir à boca de cena, é a criatividade que fala por nós. Em nosso nome.
Os esteiros são parecidos em todos os lugares, exceto quando um rio se abre em braços múltiplos e entra no mar em forma de delta. Somos dessa linhagem: ora estendemos o anonimato que precata os nomes subentendidos, ora multiplicamos os braços por várias meadas para não ficarmos à margem da novas do mundo. Não somos o enxofre que liquida as formas de vida; somos o seu manancial, a vibrante fachada que contrasta com a luz efémera que desponta num nascer do sol. Costuramos as bainhas do anonimato na perfeita lucidez dos nomes que guardamos para dentro de nós.
Os mesmos que se desinteressam são os que protestam claridade. Não se desinteressam; nem são apátridas da cidade, apenas disfarçam sob a capa do desinteresse o cansaço da desmemória, a litania que sobre eles se abate pela mediocridade que toma conta da cidade. Só serão presas fáceis se se deixarem abater pela plêiade de vozes que concorrem num murmúrio incessante. A sua apatia é o combustível da mediocridade.
Deixamos a sindicância das almas para a noite. Não seremos nós os juízes empossados. Os sonhos talvez sejam os magistrados brasonados que apuram o anonimato. Não mendigamos por visibilidade: somos os estetas maiores do anonimato que nos resguarda dos olhares que tudo açambarcam.
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