26.5.22

Quem quer ser idiota?

Hot Chip, “Down”, in https://www.youtube.com/watch?v=M8QdB1w-pXo

As aparições em público raras vezes vêm ungidas do sagrado que as aparições de anjinhos e santos precedem. Salvo um punhado de exceções (casos de mortais com momentos próximos da epifania que, pode-se dizê-lo, dão um contributo para a humanidade), as aparições em público democratizam a idiotia. Todos estamos sujeitos. Por isso, menos se compreende o afã de imensa gente anónima, desejosa de dar o salto para os cinco minutos de fama que, eventualmente, sejam a catapulta para uma presença mais regular no espaço público. Noa avaliam o poder destrutivo do efeito boomerang

Parece certo que a idiotia por metro quadrado se tornou extravagante com a possibilidade de pôr a palavra à mostra, tornada democrática pelos avanços tecnológicos. Não que dantes não fosse possível. Já não vivíamos sob o jugo da ditadura e podíamos perorar livremente em público. Também aí ficávamos à mercê dos dislates que ou são meticulosamente programados na retórica ensaiada, ou apenas o produto de deslizamentos involuntários que estragam todo um discurso. Só que a propagação da idiotia ficava limitada à reduzida dimensão do espaço onde ecoava a palavra dita. Agora é diferente. A palavra é escrita e multiplica-se por todo o lado. Fica visível, para memória futura. Assim como a idiotia, inapagável na mesma medida.

O dicionário aclara que um idiota é aquele que é “pouco inteligente ou não tem bom senso; pateta; parvo; tolo”. Aos sinónimos, para o devido esclarecimento. Por exemplo, um parvo: alguém cujo comportamento é tido como “desagradável e irritante”. Ou um tolo: entre outras possibilidades (pois um tolo, de acordo com o dicionário, é dado à pluralidade) é aquele que “não tem sanidade mental”. De volta ao idiota, também se aprende que, além do acima pronunciado, é aquele que é “vaidoso ou pretensioso”.

Às vezes, toma-se o sentido de uma palavra pela sua significação aproximada. No caso de um idiota, pode haver a tentação de o tomar por alguém que tem ideias em catadupa, que, porém, se revelam obtusas, extravagantemente desusadas, ou risíveis. O dicionário desmente o sentido comum. Mas torna-se esclarecedor para o uso vulgar de “idiota” quando tropeçamos num iluminado que desfia a sua verve inconsequente, fazendo-se passar por catedrática autoridade no domínio sobre que perora: o bom senso rareia ao caldear as palavras que se amontoam num arremedo de pensamento, sendo autor, invariavelmente, de um pensamento desagradável e irritante, necessariamente pretensioso. Aparecendo como um tolo gratuitamente ao serviço da bazófia alheia nele vertida, como paga necessária pela contrariedade mental de que é inculpado. O pretensiosismo embacia o lugar circense em que se coloca. E sobrepõe-se, talvez, ao não insignificante detalhe da sua ausente sanidade mental.

E o pior de tudo, é que tudo o que acabou de ser exposto se pode aplicar, na fórmula latina popularizada pelos juristas (mutatis mutandis), ao autor que assim expôs o argumento sem ser em causa própria. Quem não quiser ser idiota, não deve sobre o idiota conjeturar.

25.5.22

Treze milhões de euros (o ministro campónio)

You Can’t Win, Charlie Brown, “Magnólia”, in https://www.youtube.com/watch?v=IISXSTKSRqQ

Ele há ministros trapalhões. Ministros que tropeçam nas armadilhas do idioma, de que são os próprios fautores. Ministros catedráticos divulgadores do Estado gongórico que não perde a oportunidade para mostrar como nós, cidadãos de meã condição, precisamos da sua sempiterna tutela. Ministros vindos dos cueiros da pátria, ainda presos ao sotaque rural, passeando a arrogância de quem detém o poder, como se a ministerial condição fosse a vingança por terem nascido rurais (e nós sem culpa do recalcamento).

(Suplicando neste momento a vossa condescendência, para não levar com a acusação de fascismo social – pois que estes arrivistas, eis que chegados ao lisboeta éden, se transformam em fingimentos de mui cosmopolitas personagens sem, contudo, perderem o verniz rural. Quem não se lembra de um malventuroso ex-primeiro-ministro?)

O ministro, estacionado diante das câmaras que o filmam e dos microfones que reproduzem doutas as suas palavras, perora sobre o morticínio nas estradas. Das causas e da irresponsabilidade dos condutores que insistem em fazer das estradas campos onde se situam como assassinos ou suicidas. Como lídimo representante da engenharia social em vigor, anuncia uma resma de radares para controlar o excesso de velocidade. Aqui começam as incoerências: dantes tinha identificado três causas da mortandade nas estradas: excesso de velocidade, condução sob o efeito de álcool em excesso e uso do telemóvel durante a condução. Os radares poderão, na melhor das hipóteses, prevenir a primeira causa da sinistralidade. Quanto às outras duas, nem uma palavra, nem uma medida redentora.

A páginas tantas, o ministro escorregou para o lugar-comum: “a vida humana é incomensurável” (e depois sentiu o imperativo professoral de explicar aos néscios o sentido de “incomensurável”). Dando um salto para o final da notícia, o plumitivo de serviço, certamente pegando nas informações fornecidas pelo ministro, amedronta os cidadãos com a estimativa do pecúlio do Estado depois de instalados os novos radares: treze milhões de euros. 

Afinal, a vida humana não é tão incomensurável como foi glosado pelo senhor ministro. As vidas humanas depostas no asfalto das estradas valem treze milhões de euros? Ou será apenas o Estado vigilante, infatigavelmente de atalaia para suprir as incorrigíveis fragilidades dos cidadãos, a esbracejar o fantasma da multa gerada pelos infalíveis radares, só para tornar as viagens mais vagarosas e, portanto, mais seguras? Falta saber (porque ninguém perguntou ao senhor ministro): o que prefere, embolsar treze milhões de euros e continuar a contabilidade dos mortos nos cemitérios a expensas das estradas, ou contabilizar uma receita inferior ao estimado? 

(Talvez a culpa seja apenas do plumitivo – e talvez ele seja o idiota útil de serviço: quem o mandou terminar a notícia com o valor previsto das multas cobradas pelos que forem apanhados em excesso de velocidade pelos novos radares, se o que deve estar em causa é poupar vidas para outras mortes que não na estupidez do asfalto?)

Ele há religiões para todos os gostos. Uns adoram deuses de diferentes cepas. Outros, substituem-nos pela omnipresença e perfeição do Estado, perenemente diligente na superação das tremendas imperfeições do ser humano. 

24.5.22

A indiferença

Yard Act, “100% Endurance”, in https://www.youtube.com/watch?v=phSkbBZelCw

Na base deste suor, a indiferença. Um princípio geral de indiferença. Um feixe de luzes que entra pelo olhar e o deixa atonitamente anestesiado, como se tudo estivesse parado no tempo e nada possuísse importância. As rimas seriam apenas arremedos de falas perdidas em rumorejos. Ou farsas alinhadas no arsenal das desconfianças que eram o estado geral da humanidade.

Na base de cada hesitação havia uma suspeição de indiferença. Os olhos deitavam-se ao lado e não sentiam o torpor próprio de uma existência limítrofe. A desimportância alinhava-se no altar onde se amparavam os disfarces. Era como se tudo fosse feito de conta e do fundo das coisas viesse um visceral nada como substantivo. Do olhar para o lado sobrava um deserto que magoava. Tinha consciência que uma ausência podia ser invasiva.

Em nome de outrem, as sílabas partidas, como se cada uma constituísse a autonomia de uma palavra, um demorado bocejo que representava a partida do nada. Do nada provinha e não havia legítima faculdade de saber do seu antónimo como casa de chegada. Os provérbios extinguiam-se (para fortuna da língua). As promessas não chegavam a ocupar um lugar na casa da partida. Todas as angústias eram carregadas no alfobre dos destroços como partes estilhaçadas que arrumavam a linhagem de um passado sem alicerces.

Numa paragem do tempo, entre duas carruagens que iam para partidas diferentes, arroteei a esmo os baldios desarrumados. Subia ao miradouro para saber do desnorte. Só então poderia cuidar das arestas, para do desnorte deixar de ser refém. No processo cabia o princípio da indiferença. Um olhar interior, purificado (tanto quanto possível), sem expressão sensível do que fosse exterior, era tudo o quanto era preciso para a medida necessária do espaço distante. 

A indiferença não era a obstrução do exterior. Tomava como critério para desembaraçar os medos outrora povoados. A indiferença era o segredo para não ser doravante indiferente ao que fosse exterior. É o princípio que explica a inoculação por vacinas. 

23.5.22

Bilhete de desidentidade (o bilhete premiado)

The Smile, “The Opposite”, in https://www.youtube.com/watch?v=72z6FJsVcbs

O espelho estava adulterado? Pois se não reconhecia o rosto que o espelho devolvia, a causa das coisas seria a adulteração do espelho, que o rosto observado é conhecido sem a ajuda do espelho. Ele há fotografias, excertos de filmagens, a recordatória geral que está no cais das memórias. Que não se atraiçoam dessa forma. O espelho adulterado era a hipótese restante.

E se o espelho continuasse a repetição de uma fidedigna imagem? Ou: e se a imagem reproduzida pelo espelho fosse fidedigna, a cópia exata do rosto que encontrou apeadeiro no espelho? Podemos ser titulares de um rosto que não reconhecemos? Continuamos a ser quem somos se o rosto usado pelo espelho não é o rosto habitual?

Talvez fosse o emergir da desidentidade. Como se as mãos mergulhassem na fundura da terra e viessem à superfície encardidas com todos os despojos legados ao magma sem memória, o magma que desata a vergonha inconfessável. Cada um não seria o que de si pensa ser, mas um outro alguém, feito de matéria diferente da que estava emoldurada. Nessa altura, o bilhete de identidade era retirado das profundezas. Era desafiado a mostrar se era uma reprodução exata do titular. O diálogo entre bilhete de identidade e titular do mesmo não ficaria lavrado em ata, nem sequer devia ser incluído nos contrafortes da memória. 

A dor às vezes pungente, à medida que se sucediam perguntas e ensaios de resposta, desfazia os conceitos preordenados. Todos os parafusos teriam de ser desapertados e depois inventariados nos despojos. A empreitada sucessiva era voltar a colocá-los no lugar. Não exatamente no lugar de onde foram desapertados, mas num novo lugar que o engenheiro das coisas, o alter ego da identidade desafiada, encontrasse a preceito. 

No exercício demorado, as respostas não tinham de corresponder às interrogações. As respostas emanciparam-se das interrogações e fizeram o seu caminho próprio. Voltando a desenhar um módico de identidade numa folha de papel à espera de perder a inocência. Até que do bilhete de identidade sobrasse apenas um esqueleto, os ossos frágeis pedindo nova e ilógica carne. Pois que da identidade anterior, desfeita de cima a baixo, as pernas tremeram de tanto se perderem de conceitos. A identidade adquirida não prestava. Era preciso outra identidade, uma que medrasse da rejeição da que já fora incluída nos pertences. 

Ou então, uma identidade reinventada, só para levar vencimento a desidentidade consecutiva. Pois de freios não pode ser feito o Homem.

20.5.22

Buenos aires

The Stranglers, “This Song”, in https://www.youtube.com/watch?v=5fMiCcPO5tY

A provecta ideia esbarra no parapeito onde o ocaso se adia. Precisamos de duas palavras, ou três, para amaciar o indesejo. Se à noite os contratempos são disfarçados pela penumbra, o melhor será tomarmos a noite como morada. Um cortejo de exemplos apetrecha a argumentação. Ou talvez não: muitos deles abraçaram-se de tal maneira à noite que morreram nos seus braços.

Os ares em que nos embebemos são a medida de nós mesmos. Não se aproveitam os ares pútridos bolçados por insuspeitos manadeiros de poluição. Não se aproveitam os ventos desassisados que trazem no dorso os maus ares que nos sitiam. Por sobre as contrariedades, sopesa-se o ar que é fabricado por dentro de nós. O ar de que somos, em circuito fechado, tutores únicos, nosso o habitat, exclusivo, de que somos arquitetos.

Podem cair turbantes sobre os rostos, escondendo-os na fortaleza onde só entram os que vierem por convite. Podem cair os turbantes, que os que tiverem acolhimento não precisam de mostrar o rosto. No lugar onde a admissão obedece ao princípio do direito reservado, esse é o único passaporte. Tudo o resto se desaproveita: a linhagem (a existir), o verbo gongórico, as aleivosias decantadas na fronteira depois de mostrado o salvo-conduto. Este é um lugar onde os ares são bons. Em espanhol: buenos são os aires

Levantadas as mordaças dos que andaram no tirocínio da desliberdade, arremata-se o olhar contra a rudeza dos placadores de palavras. Eles jogam no tabuleiro do idioma como se fossem jogadores de rugby a quem ficou destinado destruir o jogo do adversário. Nós, que somos tributários dos buenos aires, mostramos a generosidade ao derrubarmos os placadores do idioma. Passamos-lhes as rasteiras que trazem a tiracolo o aplauso dos poetas. No lugar onde são buenos os aires, não se encontram os provérbios da decadência.

Às mãos sobem as pétalas perfumadas que colhemos nas poesias ao acaso. Não tiramos as rugas dos rostos, nem disfarçamos as mãos com um véu de mentiras. Temos em nós este sortilégio. Purificamos o ar em redor, até que se torne morada de buenos aires. E os versos falam por nós.

19.5.22

Síndico (short stories #382)

The Smile, “Waving a White Flag”, in https://www.youtube.com/watch?v=RlHEPF4Pqos

          Os regressos povoam páginas a eito, diziam. Discordava. Os regressos são a piedosa subserviência do passado, sem outro fito a não ser prevenir o futuro. Por isso era síndico do tempo que ainda não tinha sido admitido a concurso. Esbracejava contra revivalismos. Continha a História evocada com galhardia, como se a evocação de proezas as perpetuasse (e só eram perpetuadas no imaginário popular que se servia, banalmente, dessas proezas). Talvez se arranjasse umas páginas ainda por dedilhar e a ocasião depusesse a ditadura da memória. Mas não ia dissolver o passado, que não há vivalma desalojada do seu passado; apenas não obedecia constantemente às convocatórias do passado, como se o tempo restante tivesse sido banido dos relógios e todos vivêssemos agarrados às costuras (já puídas) de todo o passado. Era síndico das possibilidades que eram oferecidas às pessoas. Não que fosse seu mister zelar pelos interesses dos outros; era apenas síndico dos seus horizontes, já era matéria de sobra. Não era de outra generosidade que vertia o seu olhar compassivo. As dores dos outros eram apenas suas. Não se constituíra síndico para apalavrar as dores que consumiam os outros. A imprevidência agasalhava as dívidas dispostas pelo brio do tempo havido. Nem as sombras conseguiam colonizar as páginas à espera de vez. Nem as palavras agressoras, no testamento selado perante o procurador da melancolia, subiam as encostas à vista do olhar. Sentidos seriam os boémios se arranjassem espaço para estas adversidades. Mas eles são o puro compêndio do hedonismo sem autor. Se fossem blindadas as paredes dos labirintos, só haveria boémios – e já ninguém seria boémio, por exaustão da condição. O mosto colhido aviva-se na candeia ateada pelos dedos suados. Esse é o suor de um síndico que concorre contra a corrupção das almas derriçadas por excesso de passado.

18.5.22

As estátuas sem nome

Black Country, New Road, “Basketball Shoes” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=LXoUJ0uwTeo

Uma correria desenfreada contra os costumes: sem aviso prévio, alguém desalgemou as estátuas de seus nomes. Por toda a cidade, as placas que lembravam os nomes dos estatuados foram removidas.

Ao início, o burburinho espalhou o rumor: as estátuas tinham sido boicotadas. Era terrorismo contra a memória da cidade. Não se extinguem os nomes das estátuas sem outros motivos que não seja a ablação da memória. As estátuas sem nome eram amputações de si mesmas. Por mais que os corpos das estátuas não tivessem sido mutilados, a remoção da toponímia era um atentado à memória coletiva. Os insurgentes queriam lavar o passado da memória das pessoas. O clamor agigantou-se pelos bairros da cidade, unânime, sem olhar a habilitações escolares, profissões, género e crença. 

Só ao fim da manhã, após as horas de desorientação coletiva que tomaram conta da praça pública por toda a cidade, as autoridades publicaram um comunicado. A remoção dos nomes das estátuas não tinha sido um ato de terrorismo, ou um estalinista desfazer da memória. Tinha sido propositado. Os edis foram os mandantes e os funcionários da edilidade foram para o terreno. A coberto da noite, e sob o mecenato de uma cidade deserta, as brigadas instruídas pelos serviços de cultura do município percorreram a cidade e retiraram os nomes às estátuas. Era um desafio aos cidadãos, para reporem, e o mais depressa possível, os nomes das estátuas. A política era servida do avesso: desconstruía a habitual inércia, à espera que os cidadãos fossem os agentes ativos da reconstrução. Seriam eles a restaurar a memória da cidade, devolvendo às estátuas a vida plena. Seriam os cidadãos os promotores da cultura e os zeladores da memória coletiva.

A tarde foi de azáfama. Espontaneamente, os cidadãos acorreram às estátuas. Pegaram em cartolinas deixadas nas imediações de cada estátua e escreveram, sempre em letras garrafais, os nomes das personalidades com direito a estátua. Nunca a cidade conheceu tanto frenesim, tanta defesa dos seus pergaminhos ancestrais. Ao entardecer, os nomes tinham sido devolvidos às estátuas. Não sobrou uma estátua sem nome.

O caso ficou emoldurado para memória futura. Um caso de estudo. As pessoas não estão mergulhadas na hibernação, como tantas vezes se admite. Só têm de ser desafiadas a reagir ao que elas consideram ser merecedor de reação. 

16.5.22

Isso era no tempo em que jornalistas especiosos inventaram o jogo de palavras “traumatismo ucraniano”

Wolf Alice, “Don’t Delete the Kisses”, in https://www.youtube.com/watch?v=WqxE-zppu30

O prato opulento chega à mesa e os olhos glutões aperaltam-se, ateando a gula que se apruma. Se fossem neófitos, os amesendantes saberiam, por experiência passada, do logro de que iam ser vítimas – outra vez. E toda aquela opulência, representada pela abastança de víveres transformados pelos dedos da gorda cozinheira que espreitou pela escotilha da cozinha, era excessiva, como é próprio do que é opulento. 

A refeição terminou sem a sensação de ter sido opípara. Sobrou um estômago protuberante, um enjoo a tomar conta das horas supervenientes. Não era novidade. Escalas impróprias em ocasiões pretéritas deram o mote para que as sinapses soubessem estabelecer a correspondência entre o “enfarta-burros” esperado e a aguardada indisposição incidental. Nunca se perguntaram, os confrades, se a experiência havida não devia servir como isso mesmo, experiência, para as devidas ilações serem projetadas no tempo vindouro.

Era um pouco como aqueles teimosos que não se munem de guarda-chuva depois de recolherem a informação meteorológica sobre a probabilidade de precipitação. Alguns agarram-se à autenticidade da justificação: eles são tão distraídos que habitualmente perdem o paradeiro do guarda-chuva num qualquer lugar que não conseguem mapear. Preferem andar à chuva. Se fossem nórdicos, andar à chuva não era uma contrariedade. Mas são latinos. E os latinos são muito flor-de-estufa quando andam à chuva sem o abrigo de um guarda-chuva. 

Os prosélitos da farta amesendação em restaurantes populares e os obstinados que são forçados a molhar a roupa quando têm de descer à rua sob o jugo da chuva convergem no mesmo arquétipo. São como aqueles jornalistas que se autoconsideram diletos utilizadores do idioma ao ponto de serem capazes de podar três metáforas inventivas enquanto o comum dos mortais ainda interioriza as palavras que deve usar para reagir a um acontecimento. Laboram na obviedade, farsantes do lugar-comum (como se o lugar-comum fosse o barómetro da sublime inteligência), jogadores de palavras sem terem a linhagem da criatividade literária. São aqueles que, um certo dia, adaptaram o traumatismo craniano, mudando-o para “traumatismo ucraniano”, porque o rapaz que marcou o golo da vitória era de ucraniana nacionalidade.

Ninguém lhes corrigiu o dislate: se os plumitivos amadores percebessem que o traumatismo foi causado à equipa adversária pelo ucraniano, saberiam que estavam a insinuar o contrário do que pretendiam noticiar. (A notícia fora dada como se o golo do atleta ucraniano, causador do traumatismo com o selo da sua nacionalidade, viesse ao regaço dos vitoriosos como beneplácito. Ora, um traumatismo só faz sentido porque alguém é sua vítima).

Se fosse agora, estou seguro de que os plumitivos dobravam a língua da malsã criatividade antes de usarem a expressão “traumatismo ucraniano”. 

Nossa Senhora de Fátima tem uma queda por dragões?

Pond, “Don’t Look at the Sun or You’ll Go Blind” (live at KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=UcXWCO2AB6Q

Os observadores do fenómeno religioso – que, do exterior, sem as peias da fé e as grilhetas dos dogmatismos, medem a temperatura da metafísica – acreditavam que a entidade divina e os seus embaixadores (apóstolos e demais santos) eram imparciais nos assuntos terrenos. A parcialidade é um viés que pode ofender alguns crentes, sobretudo se forem desfavorecidos pelo cânone escolhido pelos lídimos representantes de deus.

Estávamos todos errados (observadores exteriores do fenómeno e os crentes). Laborámos num pressuposto impróprio. A comitiva de um clube de futebol, depois de embolsar um título, parou no santuário de Fátima para agradecer a intercessão de Nossa Senhora de Fátima (e, por arrasto, ao que se julga, dos três pastorinhos também), ao regressar da tão vilipendiada cidade-capital após ter humilhado o maior rival. 

Rezam as notícias (sem segundo sentido) que o timoneiro da agremiação e o engenheiro das táticas montadas em campo oraram no altar da padroeira, em comovente ato de exaltação de fé. Terão agradecido o alto patrocínio de Nossa Senhora de Fátima que, muito provavelmente, terá metido uma cunha ao mais alto magistrado da fé católica, deus em pessoa (perdoe-se a heresia). A restante comitiva partilhou a epifania. Até os atletas muçulmanos integrados na comitiva não conseguiram evitar o efeito telúrico da graça que os timoneiros da agremiação reconheceram pelos santos ofícios da padroeira. 

Não há notícia da reação de Nossa Senhora de Fátima, e de deus em pessoa, à embaixada portista que não se esqueceu de orar em agradecimento da ajuda divina, sem a qual, possivelmente, o desfecho da competição teria sido outro. Não se sabe se Nossa Senhora de Fátima recebeu a embaixada portista de braços abertos, partilhando a celebração com a densidade própria do recolhimento exigível pela oração. A menos que os máximos representantes da agremiação desportiva incorram numa pagã superstição que mistura fé com crendice, que se erga o dedo acusador sobre Nossa Senhora de Fátima e o seu superior hierárquico, deus em pessoa, por darem parte de fraco quando tutelam jogos daquela equipa. É uma miopia insalubre, porque não se tinha deus e os seus discípulos sacros na conta da parcialidade.

Falta saber se o enviesamento não produzirá efeitos em cascata que possam enfraquecer a religião católica. Não se estranhe que gente de outras cores desportivas não tolere a preferência de Nossa Senhora de Fátima, e de deus. Não se estranhe que a sua fé saia contundida, ao darem conta da parcialidade incompatível com a natureza das entidades divinas. Ou então, os rivais hão de perceber que têm de orar no mesmo altar e suplicar a intercessão de Nossa Senhora de Fátima e de deus, por ela representado para estas minudências terrenas. Nessa altura, a parcialidade canónica de Nossa Senhora de Fátima e de deus ficará à prova.

Os outros, observadores desinteressados (porque ateus) da metafísica, poderão ter ficado embaraçados com o acontecido. Pois se deus não existe e Nossa Senhora de Fátima é a transfiguração de um extraterrestre (como há quem o defenda), a comitiva portista foi agradecer o quê?

13.5.22

A última página

Nick Cave and the Bad Seeds, “Ghosteen”, in https://www.youtube.com/watch?v=7IE5A2_LV6I

São inúteis, as profecias. Arruma-se a posteridade contra a prisão do presente e somos fiéis depositários de um punhado de lugares havidos na geografia do possível. Revemos os lugares, os nossos reservados em posição centrípeta. Revemos os diferentes tempos, como se soubéssemos que eles sopesam a filigrana do tempo vindouro. É como se procurássemos oráculos e, se fosse possível encontrá-los, sobejasse a amargura pela confissão do impossível.

Desenham-se as páginas consecutivas enquanto o tempo passa à janela do comboio. São árvores, colinas, rios, pessoas, automóveis e estradas, lugares e as pessoas que se escondem nas casas e as que habitam momentaneamente nas ruas, a chuva, o sol e as nuvens que se entrecortam. É toda uma história arquivada no espaço preenchido por uma certa medida de tempo. E os comboios que ali passam em todas as medidas do tempo. Quantas páginas seriam preenchidas com as anotações das vidas que desfilam em nota de rodapé? 

As páginas têm a constância de rostos anónimos. Como se todos esses rostos fossem rosas que compõem um bouquet, todas elas semelhantes, todas acabando por decair na indiferença. Se as vidas se entrecruzassem, as páginas seriam um emaranhado de frases sem articulação, um texto possivelmente ilegível. E as páginas, dedilhadas umas atrás das outras, seriam como calendários num povoado armadilhado, os degraus de escadas expondo os disfarces contra a ditadura do dia corrente. 

 Talvez levantar o véu sobre os vultos que açambarcam a claridade seja preciso para deixarmos de ser parte desses vultos, apátridas em páginas sem meação. A roda-viva das palavras sem idioma atropela a mancha branca da página; enquanto se mantiver caiada pela ausência, a página tomada pelo silêncio insulta o desejo irreprimível da fala. Por isso elas vão-se sucedendo, umas atrás das outras, inventariando as várias falas que se sobrepõem. Na plêiade de idiomas encavalitados, uma língua-franca empresta-se às páginas, retirando-as do torpor.

 O que nenhuma profecia acautela é o sentido da última página. Não há vivalma que procura afincadamente o lugar onde se esconde a última página. Os que assim capitulam já escreveram a sua última página há muito, ainda que continuem a contar para as estatísticas. Nós, que somos amadores contabilistas das páginas em barda, não queremos saber da última página. Somos perenemente mecenas da página que está à espera de ser tangida. Essa é a página que se segue à última página.

12.5.22

Hidrogénio

Club Makumba, “Jimmy Habibi”, in https://www.youtube.com/watch?v=pnyvqigBnzc

“Se os precipícios não tivessem arestas, as pessoas deixavam de ter medos.” Supunha que a convicção era fundada numa avaliação de si mesmo. Mas quem se abeirava de precipícios sabendo dos seus efeitos irremediáveis? Talvez a pulsão para sermos lobos de nós mesmos – quem sabe? – investisse nas probabilidades.

“Sabes como é redondo o ponto de interrogação? Não tem as arestas de um precipício e, contudo, destila perigos semelhantes.” Juro que comecei a desperceber a formulação, que parecia gratuitamente especulativa. Primeiro, não entendia como o arredondado do sinal de interrogação vertia uma qualquer significação nas interrogações. Poder-me-ia dizer que congeminava uma metáfora, mas não via como se tecem os pespontos entre o arredondado do sinal de interrogação e o formato de uma pergunta. Segundo, se as interrogações não passam pelo crivo das arestas, como podem encerrar medos (pois que são as arestas dos precipícios que fermentam os medos correspondentes)?

Não estive no tempo que antecedeu estas frases cifradas. Não sei se já tinha consumido algum álcool e fosse o álcool misturado no sangue a falar. Ou, em vez de oxigénio, talvez hidrogénio a desoxigenar o pensamento, tornando-o rebeldemente furtivo e vocacionado para a desordem. Fiquei à espera do capítulo seguinte – tanta eloquência daria um fartote de sabedoria ininteligível. 

(Afinal, a sabedoria que se amanha num logro completo, com a curadoria de eruditos que raras vezes entendem a sapiência dos que enaltecem como esteios da erudição.)

Ao fundo do cais, vigiávamos a chegada de um pesqueiro. A atestar pelo bando de gaivotas que adejavam sobre os depósitos do pescado, a faina teria sido um olímpico feito. Enquanto anotávamos a desordenada coreografia das gaivotas – e como eram enxotadas por pescadores atarefados – disse-me:

Se em vez do avesso virássemos o leme para o acaso, não lamentávamos os contratempos que os notários cuidam de lavrar em ata. Seríamos plenos, como a maré cheia que nos atira esta maresia, ou aqueles pescadores que hoje vão de regresso a casa com os bolsos cheios.

Comecei a preparar o amanhã. A véspera era convidativa. Talvez ao jantar comesse sardinhas – não sei se a faina trouxera sardinhas, mas li notícias sobre as primeiras sardinhas da temporada. Não sabia se os meus bolsos tinham numerário suficiente para o aprovisionamento do jantar. Não havia problema. As maravilhas da tecnologia inventaram o dinheiro de plástico. Já não era fácil pedir fiado por esquecimento do numerário.

11.5.22

Canções de uma vida

Max Richter, “Little Requiems”, in https://www.youtube.com/watch?v=1cG34rU-ffM

Só sobem à boca as canções que pertencem à moldura da vida. São elas que ficam tatuadas na boca irrestrita. Só cabem as canções, umas ouvidas quase até à exaustão, outras que foram apenas apeadeiro passageiro, mas diletante. Como se essas canções tivessem sido escritas para mim.

É essa pertença sem ramal que fica a pesar no imenso espaço que medeia entre uma vida e todas as outras que foram necessárias para a autoria da canção. Às vezes, é preciso compor as estrofes vívidas que acompanham uma música, e essas estrofes dão corpo à música. Às vezes, compulsam-se as músicas sem vozes para lhes emprestar as estrofes que crescem no céu da boca enquanto o corpo se inebria com o desfile dos instrumentos.

Dizem que há músicas com correspondência a episódios de uma vida. Há certas músicas que perfumam um estado de espírito e que não são compatíveis com outros estados de espírito, opostos ao primeiro.  E eu digo que as músicas não obedecem a nenhum critério, a não ser o critério do não-critério. As músicas apetecem e desapetecem à mercê do momento e das circunstâncias, dentro ou fora do inventário conhecido. As que são inventariadas podem não encontrar um dia a preceito. Têm de esperar por outro dia. Sabem que têm lugar marcado na plateia onde se inauguram as músicas à medida do feitio de um dia. À espera da escolha de um dia.

Às vezes, uma música que parecia perdida no labirinto é resgatada do oblívio. Por um encontro de circunstâncias, por um acesso da memória, que a esquadrinha do magma mais fundo onde a memória se alcança, por uma mnemónica habilitada por uma emissão de rádio, por um acaso, por um descaso. E outras vão sendo desvanecidas na efemeridade do tempo que as consome, até ficarem apenas uma distante evocação na arqueologia musical. Ou até voltarem, do nada, a ter um palco à medida.

O cortejo das músicas é um retrato das vidas que se jogam no seu incorrigível sortilégio. São um pouco do cimento que dá corpo a uma vida. Da vida que se agarra à pauta por onde se conduz, na quimera que, do posto de observação, é incessante. Como a música, inesgotável manancial.

10.5.22

Os poemas dos outros

Trentemøller feat. Tricky, “No One Quite Like You”, in https://www.youtube.com/watch?v=3bRyFd3PST4

Não cortamos a eito no abrigo que devolve as palavras dos outros à posse comum. Ouvimos as palavras pútridas dos regentes e tememos pela poesia. Pois a poesia também é feita das palavras que os regentes usam como arnês. E se há certezas arrematadas às interrogações (são poucas), é que os regentes não são tutores da poesia.

Descobrimos as palavras quiméricas que rompem com o labirinto da monotonia. Descobrimos até as que inventam a sua própria gramática, desconstruções do idioma que consertam os critérios da inventividade. É uma liga metálica que esbraceja contra o poder invocado dos penhores do espaço público, os que, por de si mesmos apenas inventariarem umas palavras, têm garantido o aval das artes. Esses não são regentes, são poetas de outrora. Comodamente investidos num estatuto, uma sinecura imorredoira – o posto da antiguidade. São poetas com cobertura dos regentes.

Os poemas dos outros aumentam-nos a alma. São inventores das palavras, os poetas. E com eles aprendemos que até o banal é poetizável. E aprendemos que as palavras se argumentam contra a falácia do tempo composto, num campo pequeno que é viveiro da fala remoçada. Em sucessivosbouquets atirados contra o olhar ávido dos ávidos consumidores de poesia – ou, dir-se-ia em versão necessariamente reformulada, os consumidores que sopesam a poesia embolsada. 

(Para não haver o risco de a poesia decair na banalização.)

Aprendemos com os poetas que se insurgem contra o cânone. Contra os poetas que dormem à sombra do poder válido (a meio caminho entre a condição de poeta e a condição de já não regente, mas assumidamente senador da república). Contra os regentes que são atentados ambulantes à poesia, com a desimanigação de que são fautores. Aprendemos com as palavras dos outros que nos dizem que até podemos ser personagens por dentro de quem somos. Como se através da poesia regressássemos à escola para a reaprendizagem do idioma.

A poesia não devia pagar imposto. 

9.5.22

A canção da noite

Patrick Watson, “Better in the Shade”, in https://www.youtube.com/watch?v=26GTVXT1-9s

Quem foge do dia e se esconde nas caves fundas da noite? A pergunta ecoa enquanto o pensamento nomadiza sem paradeiro. Diziam que é a noite que esconde os sortilégios. A noite que abriga o que as pessoas escondem enquanto são testemunhadas pela luz diurna. 

À noite (dizem), investimos nos deslimites de nós. Arrumamos os preconceitos, então tidos como tolos. E esconjuramos as impossibilidades: a noite não transige com os minotauros que se levantam no estirador, à espera de milimétricos planos. É como se a noite encerrasse os exílios de que precisamos. Os exílios de que fugimos enquanto os corpos se mobilizam no dia. 

À noite cola-se a saliva da transgressão. As regras emudecem na sua anestesia quando tencionam arrastar-se para a noite. É um território apátrida, onde as pertenças se dissolvem na igualdade a que se submetem os boémios, ou apenas os que se metem, noite dentro, na incomensurável sede de criação. Não há códigos de conduta: todos são espectros, sombras moventes que se apalavram na noite pródiga. Não têm medo que a noite os transfigure. Precisam da transfiguração tutelada pela noite, como se a noite e o dia fossem geografias opostas que dão cobertura à alma profunda escondia sob a pele. 

Se as palavras temidas são caladas pelo dia, elas confessam-se livres à noite. Pois ela autoriza o desexílio, avessando a tela dura em que se compõe o dia. Os mapas ocultos desdobram-se nos dorsos nus e aclarados dos noctívagos, esperam pela atalaia que se extingue no povoado onde o sono se faz império.  Até que uma matilha furtiva proclama a sua interior claridade, tanta que nem as trevas próprias da noite resistem. E ela não capitula nos corpos que teimam, sem se entregarem à exaustão depois da safra diurna que os deixou baças representações de si mesmos. 

Mas eu, da noite, não sei nada. 


6.5.22

José Maria cor-de-rosa não habitava na coerência e não se importava com isso

black midi, “John L”, in https://www.youtube.com/watch?v=GT0nSp8lUws 

José Maria sempre se teve como um garboso exemplar do sexo masculino. Um marialva de forte cepa – e não se escondia numa cortina de fumo só porque os tempos não estavam condizentes com a impopular condição marialva. Metia-lhe espécie que um macho pudesse vestir de cor-de-rosa. O seu pensamento nada labiríntico (era, aliás, de uma lhaneza desarmante) logo tratava de estabelecer as devidas correspondências: um homem que vista de cor-de-rosa só pode ser homossexual. 

A linearidade simplória do raciocínio de José Maria permitia saber que a homossexualidade habitava num logradouro. Era a forma mais diplomática de o José Maria admitir que os homossexuais são o produto de uma aberração da natureza. A natureza tinha as suas leis que não podiam ser contestadas, nem desafiadas, pelos apóstatas deste jusnaturalismo sem assinatura. 

(É duvidoso que José Maria saiba o que é o jusnaturalismo. Porém, podemos ser algo cujo significado desconhecemos.)

O próprio José Maria não se decidira sobre o que estava em causa com o opróbrio de másculos personagens vestidos de cor-de-rosa: não estava seguro que fosse o preconceito contra os homossexuais, porque o pensamento nada labiríntico os associava ao cor-de-rosa; ou se era apenas uma embirração estética, porque aprendeu, desde que se lembra de ser alguém, que o cor-de-rosa é usado pelas meninas, dando corpo ao seu comportamento eivado de dicotomias simplistas. Possivelmente, um másculo personagem perderia tais credenciais se fosse apanhado a vestir de cor-de-rosa.

Um dia, a agremiação desportiva da cidade onde José Maria vivia apresentou os equipamentos para a época seguinte. Uma das camisolas ostentava um cor-de-rosa garrido. José Maria, indefetível adepto da agremiação, e dela habitual seguidor acrítico, tratou de negar todos os anos anteriores e, em publicação numa rede social, levantou bem altos os polegares em sinal de subscrição da opção estética ao dar seguimento à fotografia da camisola vivamente cor-de-rosa da agremiação da sua preferência.

José Maria sabia que ninguém iria esquadrinhar o seu passado para o confrontar com a incoerência cromático-indumentária.

(Forma suavizada de admitir que pouca gente lhe dava importância, numa quase solidão sempre disfarçada pelas tentativas forçadas de socialização do José Maria.) 

Por isso, deu esta Putinice ao José Maria, que, num golpe de asa mortífero, apagou com celeridade todo o pretérito da sua vida para ser adorador de (certos) homens vestidos de cor-de-rosa. Sem, contudo, dar o flanco à sua orgulhosamente assumida heterossexualidade. Apenas se tratava de limpar do cadastro a descorrespondência entre o vestuário masculino e o cor-de-rosa.

Era o tanto que podia a cegueira do desporto favorito da coletividade. Depressa a coerência ia a banhos, ficando para lá de banho-maria, antes entregue aos favores de uma criogenia muito seletiva. José Maria não se importava. Outros figurões, muito mais importantes do que ele e com as responsabilidades de quem frequenta o espaço público, que confessassem se se mantiveram constantemente leais à coerência. Ele sabia que não e disso faria inventário, se fosse preciso para se defender.

5.5.22

Os unguentos do pensamento

Black Country New Road, “Sunglasses” (live Eurosonic 2020), in https://www.youtube.com/watch?v=xCRy3_p_hiU

São precisas retroescavadoras para sepultar partes do pensamento que chegam ao conhecimento e que constituem corpos estranhos, destinados a serem quase matéria morta (e só não são porque não deixam de ser pensamento). São preciosas, essas retroescavadoras. É como se uma bússola fosse precisa para situar o próprio pensamento fora do paradeiro compulsivamente contumaz, acertando-o com um lugar próprio. 

Às vezes, a bússola acerta-se com a antítese do pensamento. É preciso tomar conhecimento do pensamento em que não nos revemos, para tomar as rédeas ao pensamento que o vulcão das interrogações sem resposta deixa no viveiro das coisas futuras. Esse pensamento não cristaliza, se não em forma de armadilha de que convém prevenir os efeitos danosos. Para se saber de uma identidade, não chega uma correspondência particular entre um pensamento havido e a pessoa que aciona a indagação. Tão importante é inventariar outros pensamentos, à partida opostos ao pensamento alicerçado, para saber onde se situa a gare desses alicerces.

O pensamento discordante é o unguento que terraplana o chão para um pensamento que se aceita. Na medida do possível, por causa das irregularidades do palco em que assenta o pensamento reconhecido. O maior erro é teimar em dogmatismos. As janelas que se fecham intencionalmente, outras vezes apenas espontaneamente, obliteram outros pensamentos divergentes. Podendo omitir pensamentos desconhecidos que podem ser inspiradores, ou outros pensamentos, em total desarmonia, que mesmo assim são um esteio pela oposição que motivam.

Gostava de poder afirmar, quando a pessoal biblioteca fosse encerrada para definitivo inventário, que grande parte das entradas correspondem a pensamento fora das minhas baias. E que, nessa medida, esse foi pensamento que acabou por inspirar o pensamento que tinha como meu. Gostava de deixar para memória futura um pensamento insubmisso, à prova de bala na prova feita aos dogmatismos. Gostava de modestamente convencer os tutores de seu futuro pensamento que mais pródigo é aquele em que não se reveem para o seu próprio poderem tutelar. 

4.5.22

A feitiçaria era má moeda

 

Sleaford Mods ft. Amy Taylor, “Nudge It” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=N5f1Bweak38

O sobrenatural tirava-o do sério. Ou melhor: as pessoas que se entregavam nos braços lívidos do sobrenatural tiravam-no do sério. Aquelas pessoas contrariadas pelo infortúnio que ousa atravessar-se no caminho e consideram que uma mezinhas a preceito esconjuram a temporada agoirenta. Como se ostentar um trevo de quatro folhas à janela não só espantasse os azares, como constituísse o chamamento do seu oposto. 

E as divindades, numa miríade de abastança (pois os padecimentos à margem da vontade dos por eles acometidos manam de uma fonte copiosa), estariam de atalaia para corrigir os malefícios que demónios desalmados provocam nos inocentes. E como tudo parece acontecer no palco do sobrenatural, ninguém se interroga se não há um laivo de justiça divina, ou um seu sucedâneo, e os putativos inocentes flagelados por uma desdita não são tão inocentes como proclamam.

Para piorar o diagnóstico do sobrenatural, amiúde os inocentes que são trazidos para o papel de vítimas são animais. Ele é a galinha preta sacrificada em atos de intensa bruxaria, as pernas de rã que parecem ter culpa do coaxar bucólico dos anfíbios, os rinocerontes sacrificados porque o corno dá origem a uma substância afrodisíaca que compensa as fraquezas de desempenho de uns quantos, os gatos pretos que são perseguidos por serem uma convocatória do revés. E as pessoas, despojadas de um módico de razão, acreditam. Acreditam em algo que julgam superior a elas, sem perquirirem as causas de uma feitiçaria possivelmente afugentar os demónios que venham a povoar o horizonte. 

Se houvesse mercado para os estados de alma e seus soporíferos, a feitiçaria estaria inventariada no lado da má moeda. A moeda pútrida, feita de uma liga metálica que aprisiona a vontade dos que nela gravitam, dissolvendo a sua vontade, expondo-os aos fraudulentos sortilégios que os inventores dessas feitiçarias arrematam do acaso.

3.5.22

E o dignitário escapou aos tomates podres

Pale Blue Eyes, “Mr. Pong”, in https://www.youtube.com/watch?v=Sx7U4eH7Vb0

O presidente da república francesa visita um local hostil e é recebido com o arremesso de tomates. O comentador, na televisão, desvaloriza o ocorrido: “mas correu tudo bem” – atesta – “os guarda-costas abriram guarda-chuvas e Macron nem foi atingido pelos tomates.”

Podia-se começar a pensar em mecanismos de ação direta que envolvam o arremesso de frutas e vegetais contra os políticos mal vindos a esse local, como medida da sua impopularidade. Seria a forma indisfarçada de expor o descontentamento aos representantes quando vão de visita aos representados e encaram uma horda pouca amigável por causa dos maus resultados das políticas adotadas (ou da má interpretação que deles fazem). Em vez de vociferações mais ou menos audíveis, de palavras de ordem que roçam o ultraje, um arsenal de tomates com excesso de madurez, ou de laranjas sem serventia, ou de ovos que já pertencem à podridão. 

Seria como dar acesso ao povo a mecanismos mais (como dizê-lo?) contundentes de manifestar a impopularidade do regente que está de visita. As palavras, por mais desagradáveis que sejam, parece que não ecoam como dantes. Os políticos de hoje aprenderam a conviver com o ultraje, com o topete dos governados que não hesitam em desfeitear em público a honra e as desvirtudes de suas excelências. Como fingem a surdez, ou exibem a olímpica impassibilidade ao escutarem impropérios, a insatisfação manifestada pelos governados tem de se fazer sentir na própria pele dos governantes (ou de aspirantes a sê-lo). 

Dirão: a deflagração de legumes ou de frutos apodrecidos no corpo de um dignitário é uma violência inaceitável. (Como se houvesse violências aceitáveis.) Outros, que dispensam a mediação dos representantes e acreditam que a ação direta subsume a legítima essência da democracia, apostarão em cursos de formação que instruirão os candidatos à baderna a saberem escolher os legumes ou frutos suscetíveis de arremesso. Será sempre importante que a parafernália de podridão seja representativa da região que se subleva contra a visita de cortesia do governante. Numa região vinícola, sejam atiradas uvas no limiar da podridão (se os produtores as desestimarem para vinhos de colheita tardia...) em vez de tomates.

Pois, assim como assim, até já temos direito a comentadores na televisão pública a desvalorizar o acontecido, sossegando os espetadores ao revelarem que o presidente da república francesa nem sequer foi atingido pela chuva de tomates, malgré tout.

2.5.22

Chegamos sempre atrasados ao futuro (e outras minas semeadas pelo chão) (short stories #381)

alt-J, “The Actor”, in https://www.youtube.com/watch?v=uMdYQMH9Inc

          Não adianta meter uma cunha ao medo: por cada verso desviado que se atravesse no viveiro do tempo, o futuro nunca deixa de ser futuro. E nós, iludidos, presos ao estigma das juras que se desmontam na finitude do tempo, a acreditar que algum dia seremos povoadores do futuro. Mas é o futuro que nos atraiçoa; é ele que nos povoa. Ele é sempre futuro e nós estamos três passos atrás. Dizemos que o tempo é furtivo, que empreende uma fuga contínua. Ou que ele se constitui, por esse sortilégio virado do avesso, “um inimigo no coração de cada um de nós” (Tennessee Williams). O que faremos? Talvez, hastear as tréguas. Já que, na ausência de tréguas, somos feitos de sangue contaminado pela esperança que não é aparentada com o fado. Escolhemos as armas para um combate desigual. E nem assim o combate deixa de ser desigual. Se ao menos conseguíssemos aprisionar os ponteiros dos relógios, ou sermos argonautas incumbidos de comandar o destino dos relógios, seríamos mecenas do tempo. Diríamos quando seria o apeadeiro do tempo vindouro. É um contrato fútil. O futuro é apenas uma miragem. Esgota-se quando se traduz em tempo tangível, no tempo efémero que se esgota ao ser palpável nos dedos. Esse é o futuro assim ajuramentado. Dele não digam os lugares-comuns, que o esgotam: não, ele não é a maresia da incerteza. É apenas a contingência do tempo por haver, uma contabilidade imperscrutável, o desejo de lá chegarmos, apenas. Chegamos sempre atrasados ao futuro. Sabemo-lo e gostamos que assim seja. Odeio quando pedem oráculos. O que seria do futuro se dele soubéssemos as bainhas? Seria uma farsa de futuro, desmembrado em múltiplas entorses de tempo sem matéria, só para saciar a voraz indiscrição dos mortais.

29.4.22

Bulhão Pato seria alguém se não fossem as amêijoas?

 

The Smile, “Free in the Knowledge”, in https://www.youtube.com/watch?v=CXbncoiKLn8

Às vezes, as pessoas ficam emolduradas na perenidade por motivos que, porventura, não seriam os por elas desejados. O que dizer de um poeta e ensaísta que é mais conhecido por ter inventado (ou dado o nome) a uma receita de amêijoas?

Os arrivistas, os que se adestram em bicos dos pés para terem o seu minuto de pública glória, não se importariam de ver o seu nome debruado a ranço desde que lhes garantissem que ficavam eternizados na memória de um povo. O que eles mais querem é este reconhecimento público, como se fosse prova de vida sem a qual a sua vida não teria ficado marcada no indelével registo dos que emprestaram uma qualquer utilidade ao teatro público. Segundo os arrivistas, é o que faz a diferença para os anónimos, a gente indiferente que não cativa o interesse dos demais – gente-gentinha. E se há critério que deve ser aferido no tempo coevo, é um voyeurismo virado do avesso: a vida privada é coletivizada a instâncias do próprio, que a mostra sem filtros nem pudor a quem for apanhado no caminho.

Uma interrogação sobre Bulhão Pato: não teria preferido distinguir-se no escol de ensaístas e de poetas, em vez de saber (se é que na dimensão em que se encontra alguma coisa é dada a saber) que o seu nome aparece diariamente nas ementas dos restaurantes a adjetivar um prato de amêijoas? Ou não: seja suposto que Bulhão Pato também era um emérito gastrónomo; e que de si não teria tanta consideração, ao ponto de deixar em testamento a vontade de que o seu nome fosse exportado para a toponímia de uma rua numa cidade qualquer por causa da iguaria de amêijoas que legou ao património gastronómico. Bulhão Pato seria reconfortado (se é possível haver conforto para os mortos) ao ser reconhecido como emérito gastrónomo.

Haverá poetas e ensaístas que, nos seus casos, reputariam de ultrajante a conotação de seus nomes com um bivalve. Sem desprestígio para os bivalves que, não estando acometidos por toxinas que os tornam incomestíveis, são uma iguaria distintiva. Mas esses poetas e ensaístas terão de si outros planos para quando deixarem de pertencer ao elenco dos vivos. Querem ser reconhecidos como poetas e ensaístas, não como o poeta e ensaísta que se deu a conhecer pelos dotes de gastrónomo. Pois o mantimento que se deifica não resulta do cadáver de um animal superiormente metamorfoseado numa iguaria, mas da sublime manjua da alma servida nas estrofes e ideias ensaiadas nos escritos de poetas e ensaístas.

28.4.22

Levedura

Mogwai, “Boltfor”, in https://www.youtube.com/watch?v=xZf9svkQRZM

Os olhos levemente frutados povoam o lugar. Remexem os haveres, mentalmente, numa tentativa de arrumar o inventário que parece impossível. As sílabas acompanham a fala vagarosa, em murmúrio. Não obedece aos verbos orquestrados nos lugares-comuns. Não decai na sumptuosa indiferença, nem que seja por exigência do critério com que se apura a matriz da vida.

Entre os dedos, insinuam-se imagens embaciadas. São resgatadas a fragmentos do passado que não aparecem na frontaria (os compêndios esquecidos da história). Existem paredes-meias com as entrelinhas. Estes espaços vagos não são órfãos. Têm uma pertença. É um sortilégio dedilhá-los entre as páginas de nevoeiro que se desembaraçam do tempo que se repete. São as pétalas desaçaimadas que frutam o aroma original que exala nas entrelinhas dos dedos. 

Diz-se que o inesperado tem lugar na gramática insólita que se arremata da contrafação. Os olhos vívidos não desperdiçam um milímetro dos dicionários que passam à sua frente. Pelo menos, é no que querem acreditar. É esta a maresia que se compõe na exigente tela desenhada com as palavras arrancadas ao mutismo. O que se vê não corresponde necessariamente ao que existe.

É como se fosse ator de um filme de que sou espetador. Um paradoxo que encontra explicação: há alturas em que temos de sair da posição em que nos encontramos para sermos sujeitos de uma estimativa. Os peritos em dores da alma mantêm que os outros são os melhores juízes de alguém que se propõe a este exercício. Discordo. Não têm o menor conhecimento de quem se propõem a ser juízes. A avaliação será um viés do princípio ao fim, com uma reduzida probabilidade de acerto condicionada pela fortuita coincidência.

Em vez de figurar no centro de um palco sob o olhar judicioso da plateia, subo a um promontório alcantilado e coloco-me, sozinho, no lugar mais ermo, onde a falésia se despenha verticalmente. Os olhos fechados são a caução da maresia que serve de régua hermenêutica. As imagens desfilam em revoadas. Congeminam-se em rima com o vento inominável que se compôs. As imagens são a levedura das palavras estilhaçadas num conciliábulo onde as interrogações são acrescentadas aos minutos passantes. 

Até que a madrugada se extinga e o cansaço aldrabe a lucidez. No abrir dos olhos, a consciência de não ter saído da sala. E todas as interrogações havidas com a levedura do pensamento aparecem tatuadas nas paredes, à espera de serem descontadas no débito das indecisões.

27.4.22

Vendem-se heróis

Andrew Bird, “Sisyphus” (live at KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=oOyfBIkbnCA

Eram os saldos, a prova derradeira de uma certa decadência que se vertia sobre as cortinas do tempo. Os heróis estavam à venda. Tinham perdido pergaminhos, as novas gerações afogadas na bruma da desmemória, indiferentes às sucessivas marés da História.

Os curadores da memória protestavam. Tentavam evitar a venda dos heróis. Temiam que a sepultura da nação fosse cavada mal fossem preteridos os heróis, como se a História passasse a ser orquestrada por uma imensa página em branco – a futura bandeira, o hino envenenado pelos estilhaços do esquecimento.

Em oposição, negligentes, mas capacitados da sua persuasão, os promotores da venda dos heróis dirigiam o olhar para o porvir. Eram contra os relógios parados no tempo. Os heróis pretéritos estavam mortos e não deviam continuar a merecer as genuflexões contributivas dos cidadãos, num gesto imperativo que fabricava feriados e forjava comendas tão incandescentes como espúrias. Queriam que se fizesse ouvir a sua proclamação: este não era um atentado contra o património ido da nação, nem se pretendia diminuí-la, ou desmerecer o tal passado que é cimento de uma identidade. Os patriotas de diferentes cepas podiam ficar sossegados.

Faltava saber se havia interessados em comprar os heróis postos em hasta pública. No habitual etnocentrismo de quem tem fartas culpas no passado colonial, foi ventilada a hipótese de países de recente independência capitalizarem os heróis em venda. Depressa se percebeu que o exercício estava condenado ao malogro. As proezas não aproveitavam à causa desses países – e a imagem do país que submeteu a leilão os seus heróis de antanho atravessava um dano, pois não é dos costumes abjurar um passado e manifestar a vontade em trespassar os seus heróis para lugar forasteiro. 

No fim do prazo, ninguém comprou os heróis em saldo. Os honrosos patriotas exultaram: não era mais um pedaço da História pátria ultrajado pelo pretendido esquecimento dos heróis. Estes continuaram indiferentes à polémica, sossegados a fazer húmus nos respetivos túmulos. Do lado de fora, várias embaixadas receberam instruções para não ampliarem o noticiado. Não fossem os seus idiossincráticos heróis subjugados pela mercantilização do esquecimento.

26.4.22

Os ranhosos

Madrugada, “Ecstasy”, in https://www.youtube.com/watch?v=wgNGmzfIbTc

Era tudo às avessas. O olhar transviado. O verbo malfadado. O sorriso a destempo. O agrado adiado. A divergência estrutural. A recusa da convocatória para serem construtivos. A autenticação da irresponsabilidade. O fermento no ninho contrafeito. A intransigência tumular. A falta de respeito por si próprios, a começar – para depois poderem ser críticos com os demais.

Era tudo de propósito. A propósito. Não queriam o proverbial encanto aos olhos dos outros: a sua militância era a hostilidade que os outros por eles acautelassem. Sempre em rota de colisão, avançavam por errância contra os embustes denunciados. Não era fácil a sua demanda. A vida levava-se pela intermediação das sucessivas contrariedades que os outros esgrimem, talvez por vingança contra a sua afronta constante. 

Os que não eram como eles não conseguiriam ser sob pretexto de considerarem que ser desse modo é uma beligerância ateada, contínua – e ostensiva. Mas eles não se aferiam pela craveira dos que deles diferem. A sua linhagem era uma ausência. Órfãos de referências, afastavam-se da convencionalidade: temiam que a cedência ao convencional seria pô-los reféns de vontades que não eram as suas. Não transigiam com vontades exteriores. Não capitulavam. Preferiam ser órfãos, quase ilhas misantropas cercadas por bons costumes, e outro ser o mapa por que se regiam.

O seu lugar social era a solidão. Eles é que faziam de propósito para serem conduzidos à ostracização. Era o seu lugar inato. Se interrompiam a safra e procuravam habitar um lugar habitual entre os demais, depressa se sentiam acossados por um habitat que não era o seu. Sentiam-se corpos estranhos num lugar perdido na geografia mental que sabiam ser a sua. Por isso povoavam a celeuma, provocavam os santuários da habitualidade e os seus suseranos, sabendo do elevado preço que tinham de pagar: o isolamento num lugar ermo, abjurado pelos que habitam na maioria, acantonados na condição de párias.

A corda estirada era o pretexto para as trincheiras cavadas. Viviam de costas voltadas para as convenções. Provocavam-nas, agitando rostos afeados pelas palavras cáusticas. O tempo levava-os para a extravagante solidão social. Só podiam contar uns com os outros, como se houvesse uma solidariedade de casta. Mas nem isso: essa era uma condição que não conheciam e nem a comunhão de conduta os colocava próximos uns dos outros. 

Atomizados no reverso da convencionalidade, levavam longe os compêndios do isolamento. Nunca poderia haver um sindicato dos ranhosos.

25.4.22

Da Europa contraproducente

Nitin Sawhney (ft. Nina Miranda), “Vai”, in https://www.youtube.com/watch?v=dqFvKz89Ikk

Quando estudei na universidade, esbarrei numa disciplina que ensinava o bê-á-bá da Europa. Eu, que nunca fui sensível às coisas da política, e que da História tenho um modesto entendimento da sua serventia para sermos gente com uma bússola que ensina o hoje, tive a leve impressão que ter ficado vacinado contra a política, a economia, as instituições, a Europa. Até o desinteresse da História começou a fruir. Admito: a embirração ter-se-á ficado a dever às várias tentativas fracassadas de passar na disciplina: só à quarta tentativa, e depois de algumas explicações com um primo de um amigo, consegui, e à justa, passar no exame e ficar com habilitações mínimas para traduzir a Europa que nos rege.

Há pouco disse: fiquei vacinado contra a Europa, mas julgo ser mais rigoroso admitir que a Europa inoculou em mim os anticorpos para a repudiar. O professor era palavroso, as matérias eram debitadas num ritmo vertiginoso. Tinha a impressão de que ele se entusiasmava pela ideia da Europa, que chegou a apresentar como um resgate da cidadania tantas vezes lesada pelos egoísmos nacionais. Apesar de o professor avisar que não era embaixador da Europa e não era pago pelas suas instituições para apregoar a ideia de Europa e as virtudes do seu funcionamento, não conseguia esconder a sua predileção. Uma predileção discreta, mas predileção, em todo o caso.

À medida que ia esbarrando nos contrafortes do insucesso académico na disciplina que ensinava a Europa, ia crescendo a minha irritação com a Europa (e com a rigidez do professor – e com o próprio professor). Jurei que não podia virar as costas à Europa quando, enfim, me desembaraçasse desta disciplina, que foi uma das últimas antes de concluir o curso. Tanta insistência na Europa não podia atear a minha futura indiferença. Assim contrariei os suores frios que sentia de cada vez que abria o manual sobre a Europa e ouvia ou lia notícias sobre a Europa, sempre tão pesporrente na sua ação.

Os anticorpos que a Europa em mim deixou tatuados jogaram a seu desfavor. Jurei vingança. Podem-se acusar de estultícia por dirigir a vingança contra um objeto político que nem sabe da minha existência e que não teve culpa nas sucessivas dificuldades que encontrei até passar no exame à quarta tentativa. É assim que eu sou – e quem nunca tropeçou nas limitações de si mesmo, que levante mentirosamente o dedo. A embirração com o professor, também cá canta e também, à sua medida, contou. Foi sendo anestesiada ao deixar de ter aulas com ele. Mas acuso-o, e ao modo entusiasmado com que divulgou a Europa, pelos anticorpos contra ela. 

Hoje, à conta dos anticorpos, sou votante em partidos ou candidatos que inscrevem a rejeição da Europa nas primeiras linhas dos programas políticos. É o que me mobiliza. Não quero saber das restantes propostas políticas que hasteiam como bandeiras, se são justas e aceitáveis, o que prometem para o futuro, se correspondem a projetos políticos abjurados pelos habituais tutores do sistema político. Nada disso me interessa e estou pronto a suportar as consequências (até as pessoais) se, algum dia, um desses partidos marginais se alojar no poder. Só me interessa a sua agenda anti-Europa. 

Hoje, quando reflito durante uma campanha eleitoral sobre o voto, ou quando dedico atenção ao processo político que a cidadania exige (para minha grande surpresa, pois dantes a ela jurei desinteresse), situo-me sempre nos antípodas da Europa. Se a Europa se move para um lado, eu prossigo para o lado oposto. Se a Europa defende democratas, não tenho pejo em alinhar com autocratas. Se a Europa denuncia quem ofende os direitos humanos, faço de conta que estou a dormir. Se a Europa quer ser maior e mais presente, torno-me exacerbadamente nacionalista. Se a Europa propõe liberalizações de vários jaezes, torno-me intrinsecamente marxista. Sou, sempre, o contrário da Europa. 

Eis o poder heurístico que uma disciplina sobre a Europa teve sobre a cidadania que tenho como arnês. Se o professor que instruiu sobre a Europa soubesse, mudaria de método?