21.1.22

Deus é socialista (ou o c***lho)

Cat Power, “Bad Religion” (live at the Late Show With James Corden), in https://www.youtube.com/watch?v=90qsTpEqjHA

Crónica de descostumes: deviam decretar, com força retroativa e vinculativa, a irrepreensibilidade do socialismo. A boa ciência descobrirá que até deus já se convenceu que o socialismo, e só o socialismo, oferece condições para dirimir os conflitos que sobressaltam as sociedades. A páginas tantas será dito, por deus em pessoa (perdoada que seja a contradição de termos), que ele é que inventou o socialismo e só uma pérfida conspiração de capitalistas e de decadentes opositores do socialismo impediu a revelação de ganhar voz própria.

(Vozes contrárias oporão que se deus se deixou ultrapassar pela vontade humana que se jogava contra o socialismo, é porque deus não existe e, ato contínuo, ao socialismo não pode ser imputada a sua ontologia divina, nem a condição genesíaca de que os seus advogados de defesa se protestam.)

O socialismo é sobre justiça social. É sobre a quimera de tirar aos mais ricos para oferecer ao mais pobres, com a intercessão de deus, que semeou nas mentes que diligenciam a mais avançada engenharia social as ferramentas para operar a redistribuição. Deus sempre esteve do lado dos desvalidos. É como os socialistas.

(As mesmas vozes opositoras perguntar-se-iam, perplexas, se os socialistas tiveram criação antes mesmo de deus legar a sua obra heurística sobre o planeta. Perante a magnificência do socialismo, que não seja excluída a hipótese de deus ter sido criado por socialistas primevos. A linha do tempo que cauciona o substrato da História devia mudar para a.S e d.S: antes do socialismo e depois do socialismo.)

O deus socialista não dorme em pé. Com as suas extraordinárias faculdades – entre as quais a imorredoira insónia, exigível para deus não se desacautelar e deixar os fracos e os oprimidos à mercê dos algozes que os oprimem intencionalmente –, deus não desacompanha os desprivilegiados. Encontrou empreitada suplementar: instruir os seus embaixadores na Terra para estarem de atalaia às injustiças que tornam a sociedade um lugar imperfeito. Só enquanto estiverem de atalaia podem corrigir as iniquidades. 

(Nota divina: esses embaixadores não são, contra os melhores prognósticos, os padres. São os ideólogos do socialismo e os seus executores.)

Deus não desiste de arquitetar uma sociedade melhor, mais justa, mais igual, sem as assimetrias que hoje a infetam com um abcesso purulento. Em congresso extraordinário, instruiu os socialistas embaixadores terrenos para ganharem eleições, convencendo os eleitores que eles, e só eles, estão em condições de exarar as costuras de uma sociedade prometidamente perfeita. E se aos costumes as vozes opositoras esbracejarem as porém persistentes desigualdades, apontando, ao mesmo tempo, o dedo às responsabilidades socialistas passadas na regência dos lugares, logo deus (com um afinado e afincado coro de socialistas) contraporá: deus (e o socialismo) é bondade; o seu antónimo é produto da vontade dos homens que não se reveem em deus (e no socialismo).

Ámen – e glória seja louvada ao Costa.

20.1.22

Procuração

Fontaines D.C., “Jackie Down the Line”, in https://www.youtube.com/watch?v=3AoOfJP3r40

Escolhias a casa da partida. Era-te dado esse privilégio. Porventura, nem davas conta. Escolhias a casa da partida e parecias não perceber. Protestavas contra o que não tem importância. Contra os nadas que não tinham tamanho nem convocavam qualquer sobressalto. Limpavas do horizonte a tela ensolarada e deixavas que ao de cima viesse o cardápio de nuvens tempestuosas. Esperavas pela chuva. Contra os caudais estabelecidos. 

Se da casa da partida te era dado a saber a vantagem de a saber escolhida, podias não protelar a condição oferecida. Que não quisesses saber de presságios, ou de superstições que esbarravam na racionalidade de que te julgavas empossado, era compreensível. Cada um toma-se pela métrica que se afere. O que não se podia desculpar era a indigência da oportunidade que desperdiçavas. Porque a desperdiçavas intencionalmente. 

Haveria de chegar o momento crucial em que a interrogação já não podia ser recusada: o que pretendias com a errância de que eras propositadamente refém? Não reconhecias legitimidade à interrogação. Não eras, ao que parece, o contexto que se oferecia à interrogação assim formulada. Admitias que a teimosia embaciava a lucidez que peticionava o seu lugar. Admitias que nem sempre jogas com os dedos inteiros, deixando de ter serventia o privilégio da casa da partida que te foi dada a escolher. Não sabias encontrar as razões. O que estilhaçava o império da racionalidade que te era matéria estrutural.

Intuías que o amanhã era uma metáfora fortuita. Não falavas esse idioma e não fazias nada por o aprender. Antes que uma maré tumultuosa arrancasse as veias ao seu sopor, traduzias o sangue em fala diplomática. Mesmo sabendo que a fala diplomática se compõe nos interstícios das palavras, como se os segundos sentidos deixassem de ser peças sobressalentes e passassem a ser as quimeras que nos guiam. Dizias: eu não tenho medo de não saber a geografia do amanhã. E entregavas-te ao avesso do tempo, como se o passado viesse colado ao futuro e, num colossal paradoxo, os opostos se traduzissem numa só coisa.

Deixaste desalgemadas as asas do mundo. Como querias o teu pensar, a tua vontade irrefreável como mandato centrípeto. Falavas ao vento, como se as palavras fossem transfiguradas nos nomes de pessoas sem rosto. Contavas, numa aritmética conspícua, as cordilheiras que haverias de ascender. Nem que fosse para descobrires o caminho de volta. 

19.1.22

O direito à farra

Beastie Boys, “(You Gotta) Fight for Your Right (to Party), in https://www.youtube.com/watch?v=eBShN8qT4lk

(Ensaio de delirante cenário caseiro depois de sabidas as sucessivas farras do Boris enquanto a quarentena estava no auge – sem que isto seja um branqueamento das farras borisianas)

Estavam todos exaustos. Era um pouco de desnorte e muito de incerteza que embaciavam a lucidez dos regentes da nação. À saída do Conselho de Ministros, um dos mais jovens e rebeldes ministros desafiou os demais para uma festança à porta fechada. “Ninguém saberá, nada temam! Precisamos de desopilar desta terrível empreitada.”

O primeiro-ministro gostou da ideia. O governo estava a precisar de uma injeção de ânimo, que dele muito precisava para arregimentar a coragem para pegar a pandemia de caras, sem tibiezas. Era a maior prova dos nove e, tempos depois, arranjar-se-ia um caldinho qualquer para convocar eleições antecipadas com o propósito de embolsar a maioria absoluta (o sonho húmido dos déspotas disfarçados). Calculista como ninguém, o primeiro-ministro deu o mote depois do mote do seu rebelde ministro: “Vamos lá ver: se ninguém souber da nossa farra, vamos a isso, que estamos precisados de carregar as forças.”

Nenhum dos subalternos ousou um esgar antes de o chefe reagir ao desafio do mais trotskista dos membros do gabinete. A ministra da cultura arranjou o material necessário para a diversão. Foi ela que contratou, em segredo e com exigência de confidencialidade, um DJ. O ministro da economia chamou a si o catering (que a forra é exigente para os corpos e, assim como assim, ninguém tinha jantado por causa do Conselho de Ministros que se prolongou para além de uma hora decente do jantar). 

O palco estava montado. Alguns ministros desembaraçaram-se de peias mais depressa do que outros. A ministra do trabalho foi a primeira a saltar para a pista de dança assim que os néones psicadélicos rimaram com os acordes sincopados da música techno. A seguir foi a ministra dos assuntos parlamentares que despiu o blazer senhoril e deu o seu pé de dança. Ficou provado que os mais tímidos se transfiguram à mercê da dança. Sem demora, a ministra da saúde pulou para a pista de dança como uma pulga excêntrica enquanto abanava os braços acima da cabeça, como se desse instruções à música – por coincidência, a música que passava era (como dizê-lo?) levemente ininteligível, como se os compositores se pautassem por uma linguagem de trapos. 

Os ministros não podiam ficar passivos, por mais que a discriminação positiva seja da preferência do governo. Depois de três uísques quase de supetão, o ministro dos negócios estrangeiros regressou aos seus tempos histriónicos e, muito embora a música não combinasse com as suas preferências (até de investigação científica: o rock), deixou que fosse o álcool a falar por si. Parecia o croner dos Happy Mondays, aquele rapaz que se limitava a dançar em palco, desmembrando o corpo numa coreografia hipnótica.

Um secretário de Estado mais jovem desembaraçou-se da camisa e insinuou a sua tardiamente imberbe sexualidade junto das ministras que continuavam a dançar com uma energia contagiante. Uma das ministras (mantém-se o anonimato para não haver mosquitos por cordas com o consorte respetivo) enredou-se no secretário de Estado numa coreografia lúbrica, para gáudio dos demais. Ainda foi possível ouvir o primeiro-ministro, já a noite ia longa, a berrar impropérios contra os parceiros de coligação que, de acordo com sua excelência, eram mais falsos do que Judas. O jovem e rebelde ministro que deu o mote para a farra não apreciou o comentário do seu superior hierárquico, mas deu o devido desconto que o álcool jorrara com abundância.

A farra terminou já a luz diurna acompanhava o dia nascituro. Naquela manhã, os ministérios estiveram por conta dos subalternos. Não houve um único ministro a ir ao gabinete. 

Não se notou a diferença.

18.1.22

Aquelas mãos que eram um mapa de rugas


Não se disputam as credenciais de umas mãos que são um quadro inteiro de rugas. A idade avançada orquestra-se nas cavidades conquistadas a custo pelo envelhecimento substancial. Umas mãos assim enrugadas são o bilhete postal da senescência. 

E, todavia, os olhos detêm-se no mapa farto de pele amarrotada como selo de vivência demorada. Os lugares-comuns aprestar-se-iam a glosar o princípio geral da delongada experiência de vida como selo farto daquelas mãos. Seja permitida a divergência do estabelecido: uma vida estendida na linha do tempo não é sinónimo necessário de experiência aquilatada. Que não se esqueçam os observadores destes fenómenos que não é pelos números que se aferem medidas destas.

Para os olhos que se detêm nas mãos que são um mapa de rugas desfilam interrogações incessantes: os pesares que pesaram sobre o corpo em que repousam as mãos observadas; as aturadas empreitadas de que terão sido tutoras; os descuidos que não quadram com o hedonismo consagrado pela modernidade, que encomenda à indústria da cosmética cremes que retardam o engelhar da pele. Todas as interrogações são deixadas em banho-maria, para posterior indagação (se ainda houver vontade em autorizar a indagação quando a posteridade reivindicar o seu lugar). 

As mãos possuídas pelas rugas sinalizam a melancolia? Outra vez a desaprovação dos lugares-comuns: não se diga que aquela mulher é um étimo de sofrimento porque os olhos esbarram nas mãos tão marcadas por um tempo que terá sido madrasto. Pode ser um acaso da genética – ele não há pessoas que envelhecem antes do tempo e escondem o fenómeno nas rugas que apenas se apresentam nos corredores do pensamento?

Os limites da loucura não são rasantes às rugas fundas que adulteraram o mapa original da pele. Segundo os apóstolos dos lugares-comuns (sempre tão em voga – sempre tão festejados pela turba, que se enamora pelo fácil e expedito), ninguém foge da velhice e da metamorfose dos corpos que acompanham a irremediável sinfonia do tempo. As mãos da mulher velha são como uma cordilheira cheia de abismos e alcantiladas saliências. São intransponíveis. Não se alisam na intenção de devolver uma segunda oportunidade ao tempo gasto.

As mãos estão entrelaçadas porque se habituaram a ler as cavidades que foram ganhando expressão como prova da demorada existência. Entrelaçam-se uma na outra, à falta de outras que nelas se afaguem. As mãos como mapa de rugas são (muito possivelmente) a metáfora de uma viuvez precoce.

17.1.22

Carta aberta aos demónios

Metronomy, “Things Will Be Fine”, in https://www.youtube.com/watch?v=Lbb5AkLWDzQ

Ninguém sabe como é mergulhar num mar tempestuoso. Dizem os peritos que um mar destes é assassino – daí não haver notícias do fundo marinho quando o mar mostra o seu rosto facínora. Se os mortos pudessem falar, alguns deles saberiam ser testemunhos válidos, se conseguissem arregimentar a lucidez perdida no crepúsculo da agonia e se o mar não fosse turvo.

Ninguém sabe das intenções logradas que nem sequer chegam a ser planos. A voragem do tempo contenta-se com o sacrifício das intenções condenadas a serem malogradas. A página que se vira salta outras que seriam a intercessão por um plano diferente. As páginas saltadas são os palcos que não chegam a ser pisados. Deixam de ser paradeiro dos passos, assim feitos párias. Não nos entregamos ao desconhecido, a não ser por óbice ajuramentado contra as dores que são a consumição existente.

Ninguém se adiante ao Alentejo se a demanda é para Norte. A geografia tem o seu domínio. Exige-se, aos viandantes, que saibam para aonde vão e como vão lá chegar. As bússolas não rareiam. Não se justifica que haja quem erre por ermos lugares à espera de saber onde se situa. O pensamento transita de lugar em lugar como razão válida para ser consultado.

Ninguém se encontra perdido na aridez do tempo. Ninguém se consegue esconder do tempo. Depois da manhã sem sombras, quando o nevoeiro enfim se desalimenta do dia, os olhos desembaraçam-se das algemas que os prendiam às reservas mentais. O odor da liberdade é incomparável. É a latitude que basta para sentir a grandeza da alma, que já não se despenha no precipício coreografado pelos algozes, que entretanto se desativa. 

Ninguém se oferece de graça à morte. Ninguém, entre os vivos, pode dizer de viva-voz o que é a morte. Não se concebe que alguém possa ser sequaz da loucura em nome próprio. Até que as portas se abram para o destino sem remédio. Nessa altura, em que já não tem serventia terçar armas contra o fado inapreciado, o corpo inteiro entrega-se à morada final. Ninguém sabe estimar tamanha desquimera. 

14.1.22

O autocarro para a Viela do Poço Negro

Madrugada, “Nobody Loves You Like I Do”, in https://www.youtube.com/watch?v=eZc16uncwnQ

Quantas são as noites indeléveis que se sublevam contra os sentidos? Quantas são as palavras embaciadas que ficam à boca da boca e que ficaram por dizer por medo da ousadia? Quantas vezes foram vãos os desejos armadilhados? Quantos adiamentos pesam sobre o dorso dos meãos? Quanta é a distância que falta até sermos diamantes?

De passagem, um autocarro a precisar de restauro. Era o elemento mais ruidoso da cidade tonitruante. Ali ao lado, um ferro velho dedicava-se a empalhar carcaças de carros sem serventia, mas não conseguia ser mais ruidoso do que o autocarro quase sucata. O autocarro tinha como destino a Viela do Poço Negro. Olhou para os passageiros e sentiu comiseração por eles: “quem apanha um autocarro para a Viela do Poço Negro?” (“Pior, só o autocarro que vai para o Desterro.”)

Não podia prever os passos seguintes das vidas que compunham os passageiros. Se a memória não o atraiçoava, ainda havia uma dúzia de paragens até à Viela do Poço Negro. Talvez alguns passageiros saíssem antes. Estariam a salvo? E a salvo de quê? Ele nunca fora à Viela do Poço Negro. O preconceito abatia-se. Um poço negro não é necessariamente o selo de um lugar soez. Muitas vezes, os nomes são apenas metáforas dos lugares a que dão nome. 

Apanhou o autocarro seguinte para a Viela do Poço Negro. Iria até ao fim do percurso, sem sair numa das paragens que distavam até à Viela do Poço Negro. Devolveu a si mesmo o opróbrio que encomendara, gratuitamente, aos passageiros do autocarro antecedente. Ele ia para a Viela do Poço Negro e isso não dizia nada sobre a sua pessoa. Mesmo que a Viela do Poço Negro fosse um lugar ermo, sem pergaminhos para a morada de pessoas, que ninguém fosse mesquinho e agrilhoasse ao lugar uma têmpera desrecomendável. 

Não são os lugares que se desrecomendam. São as pessoas. Estava quase a materializar a convicção, antes de desembarcar na Viela do Poço Negro. Quando o autocarro terminou a viagem, ele era o último passageiro. Perguntou ao motorista se era habitual o autocarro terminar a viagem na Viela do Poço Negro sem passageiros. O motorista, atónito, pôs de lado o jornal e respondeu: “o senhor não sabe o que são acasos?” 

E ele insistiu, nos seus pensamentos herméticos: as pessoas é que são desrecomendáveis. 

13.1.22

Nas costas da imensidão

Spiritualized, “Crazy”, in https://www.youtube.com/watch?v=3vCcjlcJ8JM

Possivelmente enganado: não era curador a não ser das dúvidas que a maré dava à manhã. Um pouco como uma maré contraditória: o que mais se media eram certezas contundentes, imperativos categóricos. Estava por determinar se quem as bolçava o fazia como estalão da profunda ignorância, ou se era uma defesa contra as fragilidades em que medrava.

Tudo à volta é de uma imensidão que quase rivaliza com o infinito. E, todavia, quando voltamos o olhar para dentro descobrimos a exiguidade. Não é contradição. Jogam-se planos diferentes. Que ninguém se admire com as diferentes órbitas que confluem num estuário que reconcilia os contrários. Talvez os que de si têm uma imagem sumptuosa sofram os maiores sobressaltos ao serem confrontados com âmbitos diametralmente opostos. Estão habituados a terem de si próprios uma imagem que é maior do que a escala por que se regem. Quando são atirados à imensidão que é exterior, sentem-se pequenas embarcações, autênticos barquinhos de noz, à mercê da vontade de um mar deslimitado. Sabem que a sua vontade é irrelevante. Sabem que são irrelevantes no meio de um mar imenso. Mas não o reconhecem.

Só estamos em paz interior ao percebermos a pequenez em que nos alojamos. Levanta-se uma aragem de perplexidade quando olhamos à volta e anotamos os desabridos personagens que insistem que são peças centrípetas do mundo. Só se o mundo se resumir às suas tão pequenas pessoas, o que revela a ideia do nanismo em que se debatem, fingindo não ser esse o seu covil. Tudo se resume ao fingimento. A métrica representativa da existência geral. Muitos intuem a grandeza que os assola em pesadelos disfarçados de sonhos. A insistência cobra-se na ilusão que os acompanha, duradouramente. Lançados os dados, o que fica à mostra é a sua insanável pequenez.

É nas costas da imensidão que somos figurantes. Desenganem-se os que aspiram a condição de atores, o estrelato inconsequente que se consome num momento sempre efémero, por mais que se arraste no tempo. Não conseguem passar de aspirantes. São como marinheiros demenciais que levantam âncora, sabendo do mar tempestuoso que será o lugar tumultuoso em que será feita a sua expedição. Não é uma aventura. É o lugar demencial que edificam como sepultura ajuramentada. Enquanto o fado desafortunado não os golpeia de vez.

12.1.22

Património restante (short stories #372)

Alt-J, “Hard Drive Gold”, in https://www.youtube.com/watch?v=_7-r0KON9GI

          O chão não se mede em viveiros. Ninguém era dono do seu chão se os coletivistas tivessem vingado. Seríamos, num certo sentido, apátridas. Pois o chão que nos cabe em sorte é um módico de identidade. Dirão: há quem seja apátrida por opção, gente que não quer tanger as graças da propriedade. Não serão apátridas como os que seriam esbulhados do seu património por ação de uma ideologia consagrada como sucedâneo de religião estadual. Não são apátridas por coerção. Seu é outro património, imaterial. Um património que não é comparável com ninguém, pois é representado por sensações e fragmentos de memórias e de pessoas. Um património sem valor. E, por isso mesmo, o património mais valioso. O chão de que dizemos ser parte de uma pertença é um chão que se acolhe sob os nossos pés. Hoje é este, mas amanhã pode ser outro. A itinerância liquida os vínculos. O chão reduz-se à sua materialidade. Tem um preço, que varia com os humores dos mercados, mas é um preço volátil: depende mais da avaliação dos outros do que da avaliação do próprio. Não comporta sensações e fragmentos de memórias e de pessoas que emprestam um valor inestimável a esse chão. Às vezes, as pessoas desprendem-se das sensações e fragmentos de memórias e de pessoas quando mudam de lugar. Podem transportá-los consigo, mas desanexam-nos do chão que lhes deu origem. É um património indelével. Um sarcófago que acumula sensações e fragmentos de memórias e de pessoas que são inventariados pelos diferentes titulares que se sucedem na propriedade do espaço. Esta atomização pulveriza as sensações e fragmentos de memórias e de pessoas embebidos num chão qualquer. Diminuindo-lhe o valor patrimonial. Os mercados não são confiáveis na atribuição do valor a um chão. Eles ignoram os elementos imateriais que são a caução de um chão. 

11.1.22

Matemática avençada

Black Country, New Road, “Concorde”, in https://www.youtube.com/watch?v=yjC4qXiBRu4

Uns regentes por aí, que adoram jogar com as estatísticas. Gostam quando torcem tanto o braço aos números que, por fim – e com a indulgência da turba amestrada ou suficientemente anestesiada –, os números falam aquilo que eles querem que seja falado.

Não se trata de matemática avançada. Todo o seu contrário: ele há tanta manipulação, tanta ocultação de dados, todo o cenário ensimesmado que recusa comparações (que serviriam de desmentido das loas que os regentes e seu séquito tecem), que desta matemática se dirá ser uma matemática distorcida. Uma matemática avençada, pois está de avença tomada ao ser obrigada a falar uns números que serão ornamento da mensagem que pretendem apregoar.

A matemática avençada é prima próxima da má engenharia. A que se indispõe nos cálculos e arrepia caminho a estruturas que tremem ao primeiro abalo sísmico, podendo desabar como sinal da inépcia dos seus autores. A culpa sobrará sempre para o sismo, não para quem não soube acautelar as suas consequências. São terríveis, as consequências da matemática avençada. Se a audiência estiver distraída, ou se for suficientemente amestrada, não será muito diferente de ir a uma feira e comprar ao feirante bem-falante e espalha-brasas mercadoria que, saber-se-á pouco depois, é contrafação. Talvez as pessoas se satisfaçam com contrafação. Estão no seu legítimo direito. Não se estranhe a confusão entre matemática avançada e matemática avençada. Não saberão distingui-las. A matemática oferecida pelos regentes será tomada como matemática avançada. Nem que seja a prova irrefutável do atraso que se condensa na urdidura do tempo, contra a anestesia dos súbditos.

Como ser acrítico faz escola – nada melhor do que a bovinidade instalada para não haver questionamentos incómodos –, a matemática avençada não é entendida como tal. São uns lampejos acendidos pelos números que interessam, sem procurar indagar se outros números não servem de contraditório. O que conta é o primeiro número servido pelos néones dos cartazes que encimam praças e rotundas. O número que interessa servir no prato arrefecido da população diligentemente hibernada. Mas os regentes anunciam, pomposamente, que já não trazemos à lapela a mácula da iliteracia. Eles precisam de anunciar uma realidade que seria desmentida se a matemática não fosse avençada. Sobrevivem porque constroem cenários idílicos, sem correspondência com o chão que pisamos.

O grande logro espalha-se de uma extremidade à outra do lugar. Um vírus silencioso que deixa os desatentos observadores na posição de seguidores acríticos do estado de coisas que os compromete a arrastarem-se num atraso irremediável. Com o beneplácito de quem aplaude estruturalmente regentes desta cepa.

10.1.22

O diabo não precisa de advogado

PMDS, “Solaris”, in https://www.youtube.com/watch?v=njdp0mOu5Bo

O efeito dandy da modernidade: não se esportula o chão se ele está ávido de travessuras. Pode-se falar de diabruras inocentes ou das que entronizam a maldade. Os intérpretes disfarçam-se sob o véu líquido que esconde a sua transparência. Mas não são transparentes. Se não, tinham de embaciar o pano da maldade, que só se conheceria depois da sua congeminação produzir efeitos.

Diz-se: o advogado do diabo. Contudo, o diabo não precisa de advogado. Defende-se em causa própria. Aliás: não se defende; ataca, inapelavelmente, antes que as vítimas, escolhidas a dedo ou apanhadas no alpendre do aleatório, tomem conhecimento da sua condição. Por que precisariam os diabos de um advogado que os defenda? Até os piores facínoras, cujos crimes ascendem à vista desarmada mesmo antes de serem levados a juízo, têm direito a organizar uma defesa perante as acusações. O diabo também precisa de um advogado se for apanhado pelos tentáculos da justiça e for levado a julgamento.

Mas o diabo dispensa o advogado. É o seu próprio advogado. As travessuras, independentemente do seu jaez, aderem a alguma intencionalidade. Não são um adorno da negligência. Como entidade dolosa, o diabo tem consciência dos atos. O orgulho de ser quem leva-o a prescindir de um advogado. Ele constitui-se advogado de si mesmo. Não para o exterior, que não reconhece como legítima a lava da justiça dos Homens. O diabo é o seu próprio advogado para poder continuar a executar as iniquidades que o distinguem. 

No limite, o advogado nem precisa de ser o advogado de si mesmo. Ele não é sindicável pela consciência. Não tem consciência. O cortejo de crueldades tem o condão de arrastar uma procissão de vítimas. E o diabo não se comisera das vítimas que semeia. Por que haveria de ter um advogado?

7.1.22

Um unicórnio para cada um (ou: está um calor de ananases)

Johnny Cash, “Personal Jesus”, in https://www.youtube.com/watch?v=qpYW3qng78E

As duas metades do mundo já não estavam às avessas. Tudo amanhecia como se já fosse tarde, mas o sol não desistia. Os carros passavam, indiferentes, como sempre passam. As pessoas situavam-se indiferentes umas às outras, como se as demais nem sequer existissem. Era neste ensimesmar que o caderno de notas perdia uma página em branco à medida que ela era povoada por umas palavras avulsas que saíam da caneta, como se o pensamento se compusesse na lombada que recebe o dia.

Se os corpos não fossem os vultos que parecem, dir-se-ia que vinham ornamentados por felicidade. “Felicidade”; o que é a felicidade? A pergunta tinha de ser reformulada: o que era a felicidade? Ou ainda: faz sentido a interrogação? Nesta cisma, enquanto a empregada de mesa continuava a servir os clientes, andando de trás para a frente e da frente para trás, notou no cisma do pensamento: a felicidade era apenas um conceito. Se houvesse alguém que protestasse, esgrimindo a ideia de que a felicidade se materializa, desafiá-lo-ia a apresentar provas materiais deste argumento.

Agora os unicórnios estão na moda – alguém dizia na mesa do lado. É como sempre: a debandada geral, como se todos fôssemos traduzidos para um refúgio de papel onde as coisas se adestram no seu fingimento. Precisamos de unicórnios para fazer de conta que o que está lá fora é um mundo perdido. Possivelmente, perdido para a angústia que nos avaliza no desassossego permanente do sono. Debaixo das pedras, agarra-se todo o lodo que descapitaliza os sentidos: os ódios, imorredoiras consumições de tempo, desperdício da pele que com eles se tatua; os sobressaltos instruídos gratuitamente, sem palco para o serem; os lugares que se acharam perdidos no tempo, sem mapa para serem inventariados; as palavras arrependidas – e o vazio em se debatem os arrependimentos.

Os unicórnios são os procuradores da banalidade. Como se estivéssemos em dezembro e à tarde estivessem vinte e cinco graus centígrados e gotas de chuva tropical desabençoassem as paredes lívidas que seguram o tempo. Em défice de esperança, as pessoas estavam capazes de avançar pelas lixeiras só para encontrar o seu pessoal unicórnio. Fazendo lembrar Cash, quando compôs uma música sobre o seu Jesus pessoal.

6.1.22

Os muros que não há

Zero 7 ft. Sophie Barker, “Waiting Line” (live at Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=MydFq0io-tQ

As tesouras terçam-se no céu, desenham a aurora que se desprende da lassidão. O desfiladeiro esconde o murmurar do rio que, nas suas funduras, o fende. O silêncio matinal é o refúgio estandarte. Como se não fosse preciso dar uso às palavras.

A claridade toma conta do horizonte, a pulso. Uma dádiva – diz-se. Poucos acompanham a aurora, todavia. Parece que está na moda ser-se noctívago. Pode ser que alguns noctívagos, mais tardios, ainda vão a tempo de apanhar o dealbar do dia enquanto terminam o seu dia. Enlaçam-se à alvorada cantante, nela bebendo o néctar que augura um sono bem dormido. 

O desfiladeiro esconde precipícios mortais enquanto o crepúsculo dita a sua lei. A natureza tem destes sortilégios: funde, num só, a beleza e a morte. Como se fosse a metáfora autêntica da existência. Pois no desfiladeiro encerram-se os muros que são arremessados contra as improbabilidades que se tecem ao longo da vida. Não são muros, no que os muros representam de embaraço; são muros enquanto desafio, cingindo os limites das oportunidades que se pressagiam na urdidura do tempo.

Às vezes, despenhamo-nos e experimentamos a dor de um precipício. Às vezes, precisamos de um precipício. Como aprendizagem; ou como esteio que garante as medidas dos sentidos – pois, às vezes, a rotineira andança pelos caminhos do mundo transpõe um abalo telúrico que é um estremecimento catatónico. Os muros que se divisam na escala métrica do olhar não passam pelo crivo da escotilha. São imagens furtivas, construções que dimanam do pensamento irrefreável, do pensamento que se subleva contra a indiferença. Imagens, apenas imaginadas. Sonhos. Às vezes, pesadelos.

Quando o precipício se revela e as dores consomem o corpo, olha-se para o alto e demanda-se pelo oposto do precipício que encima o desfiladeiro. Não é aquele o lugar da pertença; é um desvio, episódico, um – como se diz? – acidente de percurso que exige remédio. A saída do precipício é um caminho assotado. Não é suficiente para a capitulação. A alternativa é vegetar nas funduras do precipício, acompanhado da solidão e da promessa de morte. 

Quanto a esta, não tem serventia a sua antecipação.

5.1.22

Inverneira das almas

Einsturzende Neubauten, “Stella Maris” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=kTxoYzqy8lE

As tempestades assaltam a curadoria das almas. Se não se precatam, a erosão apodera-se delas e serão como rochas desprotegidas a receberem toda a pujança das marés expostas à fúria das borrascas. Serão consumidas na fervura ácida das marés, até os esqueletos não passarem de fantasmas furtivos.

As almas precisam de refúgio. Pelo menos durante a invernia que as desacautela. Precisam de encontrar uma inverneira que as faça descer dos tentáculos das tempestades. Uma espécie de exílio, temporário. Para saberem que não têm olhos intrusos a esquadrinhar os seus meandros, como se alguém lhes tivesse encomendado a empreitada do julgamento das almas alheias. Para não serem testemunhas do indisfarçável regozijo dos próceres de aleivosias várias, que passeiam a sua prosápia medida pelas sinecuras que o estatuto lhes diz conferir. 

Ao menos, na inverneira das almas, o fingimento é cautelar. Elas entram num labirinto à prova de balas. Uma vez isoladas, dedicam-se à sua própria sindicância. Sem intromissões ou degraus caucionados por imprevidentes fautores de causas nos outros. As almas deviam saber que não são objeto de observação exterior. Só elas se podem sindicar. Só prestam contas a si mesmas. Apenas o podem fazer quando os elementos exteriores, em sua convulsão, são isolados da equação. Elas são o seu próprio fruto sumarento. Não podem ser colhidas por outros.

É nas inverneiras que as almas se distinguem umas das outras. Às que não chegam a tempo do refúgio ajuramentado fica o sobressalto contínuo, um feixe de vultos que as tomam de assalto, exaurindo-as da sua identidade. Os efeitos de uma tempestade de Inverno podem ser devastadores. As feridas abertas podem ser irrecuperáveis. Diz-se que as almas precisam deste tirocínio para, calejadas, serem resistentes às contrariedades. As inverneiras das almas provam o contrário. É na serenidade do lugar onde se refugiam que cultivam a lucidez para saberem domar as contrariedades. 

Quando a invernia desiste de comparecer, as almas dizem adeus temporário às inverneiras que as acolheram e sobem aos promontórios. Estão preparadas para serem, outra vez, a atalaia do mundo.

4.1.22

A dinastia cipriota

Club Makumba, “Migratória”, in https://www.youtube.com/watch?v=CZkrVyILOYA

A coabitação de diferentes é uma empreitada nem sempre admissível. Se são as diferenças que somam à superfície, e se os que coabitam preferem exacerbar as diferenças, a coabitação pode ser uma caixa de Pandora. Às vezes, as armas são terçadas e a demência do sangue derramado é o idioma que sobra.

Os otimistas, sempre dispostos a desmentir a face negra que tempera a humanidade, oferecem a solução do condomínio. As diferenças não podem ser um embaraço se a coabitação é indeclinável. Não seja considerada a hipótese beligerante de um dos coabitantes querer exercer monopólio sobre o domínio, expulsando o outro coabitante por meios violentos. Fora esta hipótese – que deixa patente o lado sombrio que se empresta ao pessimismo antropológico – a coabitação exige meios de tolerância, um roteiro de concessões para que um equilíbrio mínimo seja aceitável entre os coabitantes. 

Não se exige a diluição das diferenças. São as diferenças que oferecem o cunho da identidade aos coabitantes. O que se exige é que as diferenças não sejam a desintermediação da convivência pacífica, de um módico de tolerância, do respeito mútuo. As diferenças não podem ser desembainhadas como um trunfo que afirma a superioridade de um em relação ao outro. As diferenças são o que são: diferenças. Não se pede que as idiossincrasias desapareçam da cartografia da identidade de cada coabitante. Para seu próprio conforto, impõe-se um quadro mental predisposto à convivência sem atritos. Pois o chão que habitam não é diferente por serem diferentes as suas identidades. Nem os frutos colhidos têm diferente linhagem apenas porque são colhidos num dos lados onde os diferentes coabitam.

Os que acreditam na bondade da espécie como último reduto que se sobrepõe à sua capacidade de beligerância propõem a federação de interesses que exceda os antagonismos. A lógica das concessões é essa aritmética. Não se espera que os coabitantes sejam os melhores amigos. Apenas se espera que finjam que as diferenças deixam de ser o fermento da beligerância. Um fingimento bondoso, em nome do conforto dos coabitantes. 

A dinastia cipriota é o rudimento da convivência em condomínio. As desinteligências podem não chegar à altitude dos antagonismos entre os coabitantes cipriotas. Mas ninguém muda de casa por não suportar o vizinho do segundo direito. Nem faz a vida negra ao vizinho do segundo direito à espera que ele mude de casa.

3.1.22

Trilogia

Dry Cleaning, “Viking Hair” (live at WFUV), in https://www.youtube.com/watch?v=nT4xa9gu3Gw

*

Não é preciso puxar o filme atrás. A memória aviva-se na cal pura que é atirada para as mãos desprotegidas. Ela sabia. Preferia fingir. Aturava as circunstâncias, quando elas eram um fundo poço sem vista para a claridade. E, todavia, perseverava. Olhava para o periscópio como a panaceia contra os males admitidos a concurso. O mundo era um lugar injusto. Admitia muitos males a concurso. E não havia quem escrutinasse essa entrada no concurso. À noite, encomendava o sono contra os sobressaltos. Podia ser que a manhã seguinte fosse a rendição de todos os males, possivelmente dissolvidos num sono justo.

**

            As nuvens tingiam o céu, escondendo o sol (que nem tímido podia ser). Se essa fosse a medida, os males inventariados estariam quase a comparecer no atlas do tempo. A incerteza esvoaçava, insinuando-se entre os galhos despidos das árvores. O ardina reformado tomava o café, lendo os jornais. Não se intimidava com os infortúnios amealhados, nem a angústia jurava pedestal à medida que o homem olhava para o tempo por diante. O ruído estridente de um autocarro a precisar de mudança de peças lembrava que os corpos se adoentam. De vez em quando, os dedos tremeluziam sob o sol que enganava o Inverno. Era o seu consolo. O ardina reformado fazia parte da maioria que se insurge contra o Inverno quando o Inverno esconde o sol nas nuvens que tingem o céu.

***

            Pela noite fora, os estroinas não desistiam da música tonitruante. O ritmo lisérgico combinava com o demais. Não falavam. Abanavam os corpos, desajeitadamente. Os olhares eram rituais – e eles entendiam-se na fala dos olhares congeminados. Um dia, alguém lhes perguntou se sabiam o que era a sedução. A palavra não integrava o seu vocabulário de intenções. Os olhares eram titulares. Os corpos eram materiais de construção. Não lhes dissessem que o hedonismo tinha de ser proscrito, que teriam de ir à procura do exílio. Não havia dinheiro que comprasse a boémia de volta. Eles foram as principais vítimas das quarentenas forçadas. No seu próprio juízo, que consideravam imparcial. Não era preciso puxar o filme atrás.

31.12.21

Esta estranha sensação de estar sentado no lugar do pendura e não poder segurar no volante

Trentemøller, “Dead or Alive”, in https://www.youtube.com/watch?v=JxJKRSwLB3E

Sob a penumbra de um pesadelo: uma estrada sinuosa percorrida num automóvel anquilosado, sem as reparações que o habilitavam a passar na inspeção. Mas não é a estrada, ou o medonho estado do automóvel, que amedrontam. É estar sentado no banco da frente, no lado oposto do condutor, e olhar para a esquerda e reparar na falta de destreza do condutor.

Ou um pesadelo ainda pior: a mesma estrada, sinuosa e solavancada; o mesmo condutor; desta vez, o automóvel moderno, em bom estado e dotado de todas as modernas tecnologias que ajudam a condução. E, mesmo assim, sentado no banco da frente do lado direito, a mesma sensação de insegurança que parece apertar a jugular, à espera que a próxima curva seja desfeita sem sucesso, o automóvel despenhando-se de um alcantilado desfiladeiro antes de se contorcer em sucessivas voltas até encontrar o repouso do vale situado no ermo onde o desfiladeiro termina. E tudo por causa do condutor. Do péssimo condutor.

O pesadelo prosseguia, com dois passos dados atrás na cronologia: sobressalto pelo permanente desassossego causado pela inépcia do condutor, proponho a troca de lugares. Invoco, em mentira despudorada, mas exigível, a condição de piloto de testes. (Um eufemismo para motorista, uma arte que entrou em desgraça ante acontecimentos recentes que retratam os motoristas como kamikazes que voam em estradas e autoestradas.) O condutor, assoberbado e mergulhado para o interior de si mesmo, não responde. Porventura nem terá ouvido as minhas palavras – e, menos ainda, sentido como estou aterrado pelo abismo que parece estar a uma braçada de distância.

Acordo do pesadelo. Não estou como passageiro involuntário de um automóvel conduzido por um incapaz para a função. Vejo a estrada diante do olhar, como se a tivesse memorizado numa viagem imaginária. Vejo como é sinuosa e solavancada. Vejo como o automóvel recebeu as últimas atualizações e rivaliza com os seus émulos, os originais que são a nata da modernidade. E vejo o rosto do condutor pendido sobre o pesadelo já ultrapassado, um espelho que parece perene. E não perece.

30.12.21

O homem da chuva (short stories #371)

Yard Act, “Fixer Up”, in https://www.youtube.com/watch?v=rPIk27ve3uo

          Os ecos do outono não desautorizam a saída à rua. Quando chovia e a maior parte das pessoas se escondia da chuva, ele errava pelas ruas. A chuva não o amedrontava. Andava sem rumo, tempo e tempo com a chuva a ensopar as roupas e as partes do corpo que não estavam protegidas. Não suscitava curiosidade dos demais. Primeiro, eram poucos os que, àquela hora e sob os efeitos da intempérie, arriscavam sair à rua. Nesses dias tempestuosos, era como se grande parte das pessoas se convencesse da quarentena de outrora. Segundo, as pessoas eram indiferentes umas às outras, como se uma dose de misantropia as tivesse invadido pelas veias recetivas. Pelos seus cálculos, a chuva ia demorar-se. Controlava as previsões através da aplicação no telemóvel, seguindo a trajetória esperada que era função do cálculo de muitas variáveis. Não vinha mal ao mundo se a roupa estava ensopada. Depois de despida, seguia para a máquina de lavar. Quanto a ele, os cabelos molhados, dos quais escorriam abundante gotas do que fora chuva, patenteavam a demorada marcha sob os auspícios da chuva. Não fosse a indiferença dos poucos que saíam à rua, perguntar-lhe-iam se não temia uma gripe pela destemperança de desafiar a chuva. Ele, com a calma que lhe era reconhecida, diria que era à prova de gripes por efeito de aprendizagem das muitas deambulações sob a égide da chuva. Os demais, se não o votassem à indiferença que é a medalha que reciprocamente se atribuem, aprenderiam que não somos vítimas dos males se deles não tivermos medo. O homem da chuva era disso o sinal vivo. Foi o seu tirocínio desapalavrado do medo da chuva que o imunizou contra os achaques outonais e invernais. Lamentavelmente, a imunização não funcionava durante a Primavera e o Verão. 

29.12.21

Os arranha-céus são uma mentira

Massive Attack and Liz Frazer, “Teardrop” (live at Later With Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=KVHFHZCVLe4

Não digam às criancinhas que os arranha-céus se chamam arranha-céus, não vão elas, embeberadas na sua ingenuidade, considerar a hipótese de os arranha-céus conseguirem arranhar o céu.

Admita-se, em hipótese sujeita a verificação empírica, que os arranha-céus podem reivindicar o nome por que se dão a conhecer. Poderão argumentar que são tão altos que conseguem arranhar os céus. Nem assim a hipótese é de considerar por razões de ordem semântica e de ordem cósmica: não existem céus, o céu é só um. A dar caução à hipótese sujeita ainda a teste, os tão altos edifícios dever-se-iam chamar “arranha-céu”. Se a eles se quisessem referir no plural, teriam as convenções gramaticais de ser alteradas para se escrever “arranhas-céu”. 

Contudo, a hipótese sujeita a verificação empírica não passaria no exame. Os edifícios que se chamam arranha-céus são muito altos, tão altos que irrompem para o céu, parecendo que o chegam a tocar. Só assim acontece quando o teto de nuvens está baixo e a parte mais alta dos arranha-céus fica escondida dentro das nuvens. Fora desta hipótese, os arranha-céus apenas parecem rivalizar com a estatura do céu. Por mais recordes que sejam batidos na construção de arranha-céus, os edifícios ficam longe de chegar perto do céu. Não passam de ilusão de ótica quando são observados à distância, parecendo, por causa dessa ilusão de ótica, que chegam a beijar o céu (e esta seria a imagem mais fidedigna). 

Por isso, estes edifícios deviam mudar de nome para não trazerem os petizes amarrados a uma ilusão. Uma ilusão parecida com os arranha-céus construídos em Moscovo durante a era dos sovietes e que foram um postal ilustrado da propaganda do regime. Não terão contestado, os súbditos mais ortodoxos, a contradição de termos entre os arranha-céus e o comunismo enquanto regime nos antípodas do capitalismo? É que lançar pedra para a edificação de um arranha-céus era uma concessão a um modismo que começou nos Estados Unidos – logo, uma concessão ao capitalismo, porventura não identificada como tal. 

Se a questão fosse perscrutada com critério, ver-se-ia que os moscovitas arranha-céus eram mais uns prédios muito altos que arranhavam o céu da boca do comunismo. Ao que parece, é tão fácil enganar crianças como comunistas.

28.12.21

O museu do futuro

Mac DeMarco, “I’ll Be Home for Christmas”, in https://www.youtube.com/watch?v=c1Pu7UD3_7I

Um dos maiores vícios do presente é querer saber como vai respirar o futuro. São oráculos em barda e uma coorte de historiadores do futuro. Afadigam-se, os adivinhadores do porvir, em destapar o véu do insondável. São dos maiores farsantes que por aí adejam. Eles e os ingénuos que são vítimas do logro, porque o futuro é apetecível e se o puderem saber de antemão, tanto melhor.

Podiam, os lídimos representantes da especialidade, pensar num museu do futuro. A clientela era garantida à partida, sinónimo de êxito económico e de proeza social (pois não calha nada mal instruir as massas sobre os acontecimentos futuros). No museu do futuro, cuidariam de o preencher com profecias várias, das irrisórias às mais ousadas, separadas por diferentes alas. O público seria conduzido, sucessivamente, da ala dos acontecimentos ainda incertos, mas com elevada probabilidade de serem testemunhados, para a ala dos eventos improváveis, mas só possíveis devido à inventividade dos promotores. Adivinha-se que o público demorar-se-ia na segunda ala, tão sedento de descobrir as cores do futuro.

Teria de ser um museu vivo: à medida que as profecias fossem desmentidas, a matéria a elas correspondente teria de ser retirada do museu – pois o futuro, em sua transubstanciação em tempo presente, encomendaria a negação dessas profecias. A ousadia dos promotores do museu recusaria a admissão de culpa pelas profecias obviamente não cumpridas. Quem ousa adivinhar o futuro não tem humildade para admitir que o futuro, quando se cumpriu, não lhes fez a vontade. Uma forma pós-estalinista de refazer a História – neste caso, a História do futuro, como os estalinistas se requintaram a desenhar a História do passado a regra e esquadro.

 O museu do futuro seria a metáfora de uma impossibilidade. O futuro nunca está ao alcance das mãos quando se entretecem no momento possível que é o presente. Sempre que chegamos ao futuro, ele deixa de o ser. Os fazedores do museu do futuro, embebidos na demência dos oráculos sem chão, não têm o arcaboiço para o perceber. São a procrastinação de si mesmos. Não admira que vivam agarrados ao futuro como se fosse a sua tábua de salvação.

27.12.21

Sebastianismo ao alto

Damon Albarn, “The Universal” (live at the Jonathan Ross Show), in https://www.youtube.com/watch?v=OPijRGTKqsQ

Este é um lugar adiado por causa do mito sebastiânico. Prescrevemos a nossa incapacidade atrás do biombo de um messias que prometeu regressar numa manhã brumosa. Não veio, até hoje. E, contra a lógica e as probabilidades da durabilidade humana, continuamos à sua espera. Mesmo que tenha ultrapassado o seu prazo de validade.

Se não é a pessoa em causa, cuida-se de o transubstanciar noutra página do tempo. Episodicamente, emergem promessas de sebastiões. Não são sebastiões, ainda; ajuramentam-se como suas promessas, como se sua fosse a prova de vida e nosso o tirocínio às suas mãos. Até a ver, todos os sebastiões que se inscreveram em páginas da História não passaram de promessas de sebastiões. Mas não aprendemos. Saltamos de promessa de sebastião em promessa de sebastião. Enquanto saltitamos, anestesiando o presente, adia-se este lugar.

O pior dos dois mundos é quando o clamor popular pelo mais recente sebastião combina com o narcisismo potencial do prometido. Ao início, começa por ser apenas um esgar de narcisismo. À medida que o clamor popular se constitui em maré-alta, querendo transformar aquela promessa de sebastião em sebastião efetivo, a vaidade toma conta da personagem. Ainda bem. Assim cai a máscara da personagem e, de potencial sebastião, depressa se consome no estertor da sua ufania. Será dissolvido na indiferença dos mesmos que quase o endeusaram. 

A culpa é de um povo meão que parece desorientado na paisagem onde o seu desfado se confirma. Precisa de uma matriz que o coloque na senda de uma bússola. Precisa de um predestinado que se distinga da mediocridade. Engana-se no diagnóstico. Não há predestinados entre a gesta que se afirma num lugar. Somos todos sangue dessa mediania. Fingir que um de nós nos tirará do nanismo que passámos a ser, é uma farsa. É o palco certo para o adiamento imorredoiro de um lugar que não deixa de ser uma promessa por confirmar. 

O sebastianismo tentacular, matéria-prima da idiossincrasia do lugar, é como uma tatuagem que não se elide. É o esconderijo da incapacidade das várias gestas que testemunharam o definhar do lugar a que dizem pertencer. 

24.12.21

Já não há renas no Natal (conto natalício às criancinhas, com declinação ambientalista)

Nell and the Flaming Lips, “Red Right Hand”, in https://www.youtube.com/watch?v=5QZlUpgTRtg

Reaprendam, petizes: por decreto assinado pelo regente da organização internacional que superintende a paz e as causas politicamente corretas (um senhor vosso conterrâneo, por sinal), este ano não conseguirão deitar o olhar em renas voadoras tripuladas por S. Nicolau (homessa! O Pai Natal) sulcando os céus para distribuírem os presentes que vos calharem por determinação natalícia.

Não se apoquentem os que verterem umas lágrimas de nostalgia. É uma questão de hábito. Daqui a uns anos, quando já não representarem o Natal como uma quimera, como os mais velhos vos ensinam, nem sequer se lembrarão que havia renas a transportar o Pai Natal e as prendas encomendadas. Nessa altura, virá à superfície a vossa boa consciência ambiental. Agradecerão às gerações anteriores o desassombro de mudar os costumes em homenagem aos interesses de animais indefesos.

Ainda não se sabe como o Pai Natal fará a distribuição das prendas. Alguma coisa se há de improvisar. Não vão ficar sem o Natal. Percebem que no mundo muito moderno em que vivem, em que se torna exigente a reconstituição de maus costumes, depressa substituídos por costumes politicamente aceitáveis (até deixarem de o ser mais à frente), não se pode aceitar a exploração de animais pelo Homem (e pela mulher). Não se pode obrigar animais indefesos a trabalhos forçados, sendo apenas instrumentos da vontade dos homens e das mulheres. 

Há vozes importantes que sussurram um segredo mal guardado: o Pai Natal vai continuar em funções e será transportado por drones feitos de propósito para a função. É o que quadra melhor com os ares destes tempos, tão marcados pela herança que a tecnologia nos deixa para memória futura. 

Não se apoquentem, o Pai Natal vai continuar em funções – e é isso que mais vos interessa, precocemente enfeitiçados pelos malefícios do consumismo. O Pai Natal vai continuar em funções. Pelo menos enquanto não houver um adiantado mental a descobrir que um idoso em idade de reforma não pode trabalhar.

23.12.21

Trabalhos forçados

The Limiñanas, “Trois Bancs”, in https://www.youtube.com/watch?v=CFW29oA74Kg

Não se diga desta corveia não saberei. Já não há escravatura (termos em que afiança que o esclavagismo foi abolido). Mas há trabalhos que açambarcam a vontade de quem os faz. São involuntários, porque não ouvem a vontade dos que são arregimentados a prestá-los. Pode já não haver esclavagismo, mas desta forma de escravatura não se escapa.

Acabam por ser forçados, esses trabalhos. Não se congeminando a vontade a seu favor, resultam num produto distorcido. Diz-se que a vontade entra em apneia e o sangue contaminado pelo desfavor da empreitada não corre a seu favor. Não se pode protestar se não pela omissão da vontade de quem devia recusar o trabalho forçado. Como se impõe à revelia da vontade, o trabalho forçado desagua num trabalho forçado.

A vontade de alguém não pode ser o único critério. Há outras vontades que são sopesadas. Quando duas vontades esbarram, a diplomacia aconselha concessões. Concessões recíprocas, em medida variável perante todas as circunstâncias que se jogam. A vontade de alguém tem de ceder perante a vontade de outrem. Não se estranhe que a vontade se omita para que seja possível desembaraçar-se a preceito da empreitada pendente. 

Não sendo tempos de esclavagismo, é legítimo protestar contra trabalhos que se dizem ser forçados? O império do indivíduo adormece à sombra dos aromas que são a trama do grupo. Eis a mala posta para a hipoteca da vontade, encolhida porque o seu tutor é convencido do “bem maior” reivindicado pela voz que fala pelo grupo. O resto não conta (assim mandam os cânones): a legitimidade do porta-voz, a legitimidade da contenda que determina a omissão da vontade do indivíduo para que seja feita a vontade do grupo. Essa é a indigência do indivíduo: pertencer, ou ser convencido que pertence, a um grupo; e ser convencido que, na ordem de precedências, as suas prioridades devem ceder aos imperativos do grupo.

Os trabalhos são forçados sem assim serem reconhecidos. Do sangue em trânsito não se aproveita nada quando ele é endereçado ao gelo farto que fala em trabalhos irrecusáveis. A dança dos adjetivos deixa os indivíduos combalidos. À mercê de trabalhos que fingem não ser forçados, mas são-no. Do indivíduo sobra um nome. Apenas um nome.

22.12.21

Manifesto anticarros funerários

The Smiths, “There Is a Light That Never Goes Out” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=icXQxumuHAE

Fugir dos carros funerários como se fôssemos supersticiosos. Se calhar, somos supersticiosos. E fugimos dos carros funerários por não querermos o mesmo fado dos seus passageiros. É o medo da morte.

Como pode, a menos que seja estultícia, alguém assinar um manifesto contra os carros funerários? Por exemplo: a irritação provocada pelas obras diurnas nas estradas, levando a bílis a interrogar por que não são feitas as obras quando as pessoas estão a dormir e quase não há trânsito nas estradas? É um assomo de egoísmo, pois ninguém perguntará se é aceitável exigir que os operários são obrigados a laborar quando deviam estar a dormir.

Eis a analogia com os carros funerários: os féretros podiam ser deslocados durante a noite, usando um raciocínio similar ao da necessidade de obras noturnas quando as estradas delas precisem. Merece um cadáver tamanho tratamento clandestino? Não há de merecer ser deslocado à luz do dia, como se a circulação lhe fosse vedada por já não pertencer aos vivos? Ou: deviam ser remetidos para as viagens noturnas para não incomodarem os viventes que se agarram à vida sobretudo quando sentem o odor da morte a adejar como um vulto episódico?

A morte é o fermento do medo. O medo é legítimo para quem não resolveu as pendências com a vida (ou será com a morte?) e despreza-a como representação de uma injustiça que os vitima. Um carro funerário é uma exibição de morte. A exibição do destino fixo que se inscreve na cartografia que habitamos. É uma estultícia pretender proibir a circulação de carros funerários; os mortos têm direito a um derradeiro momento de dignidade. Mas a dignidade da vida legitima a ativação da superstição ao mudar de faixa de rodagem para não ficar na retaguarda de um carro funerário. 

Na contradição de direitos, que se sobreponha o direito do vivo porque esse conta para os vivos, ao contrário do passageiro do carro funerário. O morto não fica ofendido quando os vivos fogem do carro funerários.

21.12.21

Lado B

No Words Left, “21 Grams”, in https://www.youtube.com/watch?v=7kkFi0ZarcY

Era no tempo em que os discos tinham um lado B, o parente pobre da música que o lado A dava à estampa. A música do lado B ficava destinada ao anonimato. Só um punhado de especialistas seriam capazes de a nomear. Hoje, tudo ficou mais democrático. Não há lados – vem tudo no mesmo lado, sem ordens de primeira ou de segunda grandeza.

O tempo do lado B era quando a injustiça não ecoava do lado menos nobre. Ninguém protestava. Ninguém desafiava os critérios de inventariação do lado A e do lado B. Eram um dado adquirido. Esse era o pior lado da moeda: éramos abúlicos, consumidores passivos dos lados A e B e, pior ainda, muitas vezes propositadamente omitindo a existência do lado B.

Mas depois crescemos. E a tecnologia connosco. (Ou o oposto, não vem ao acaso apurar a ordem dos fatores.) Não queríamos saber o que pertence ao lado A e ao lado B. Despachamos os lugares-comuns e escolhemos, sem concessões aos deveres adquiridos, o que entronizamos como lado A e lado B. Até que, numa perícia das nossas capacidades, já não deixávamos que um lado A existisse e que o lado B fosse entendido como a sobra de menor igualha. Mais tarde, se a rebeldia nos abraçou numa encruzilhada do tempo, voltámos a admitir o equinócio dos lados A e B para intencionalmente preferirmos o lado B. Armámos guarda em favor da minoria. Investimo-nos como minoria.

O lado B constituiu-se no lado principal. Recusámos a adulteração da terminologia: não dizemos que o lado B, por ter sido preferido, passou a ser o lado A. O lado B continua a ser o lado B, só que mais importante do que o lado A. Os atritos da conformidade ganham irrelevância. Assim como a popularidade do lado A, depressa conduzido ao abismo da indiferença.  

20.12.21

Do pano puído

Low, “Hey”, in https://www.youtube.com/watch?v=uLYmrHBzMqI

É o medo que açambarca o sangue, tingindo-o de frio. Não se sabe que vultos adejam lá fora. Que podem esses vultos? A rua intimida. Convida a ficar em casa, como se, de repente, deixássemos de ser gregários. Parece que o mundo inteiro se tornou um anátema. Feito de um ecossistema que não pertence à nossa pele.

Pode ser que seja apenas um pesadelo. Os chacais cercam o corpo como se ele já não passasse de uma ilha. O rosnar dos mastins eleva-se mais depressa do que o sol nascente e invade os ouvidos com um lampejo de medo. Não se sabe quem personificam os chacais. Oxalá fossem apenas uma metáfora, o incindível ornamento que retrata as dores de um mundo que parece um corpo estranho. E, todavia, o sobressalto entranha-se à medida que os minutos avançam contra o temor. 

Parece que somos quase todos párias. Só uma oligarquia escapa – os que tomam por sua a fazenda avalizada por um mundo que foi feito para ser desigual. Os apóstolos da igualdade foram silenciados, ou derrotados perante o desmentido da realidade. Os fautores da propaganda enaltecem este lugar em que vivemos: somos felizardos, porque o lugar que nos acolhe é um paraíso. O choque frontal com o cenário que pisamos é de outra narrativa. A prática não quadra com a teoria. A teoria está a soldo de uma oligarquia que tenciona anestesiar perenemente os demais.

Mas estes não são uma massa inerte. Foi-lhes dada alguma instrução e, os que se embeberam num espírito crítico, usam a sua própria lente, que há muito dissidiu da lente oficial que fantasia um paraíso. Não passa de um paraíso prometido, ou de um paraíso perdido, consoante o grau de deceção que sobressalte os observadores atentos. Os outros, sitiados pela letargia a que foram convidados pela oligarquia, não têm opinião formada. Não chegam a perceber que passam um cheque em branco aos procuradores do sistema instituído. São cúmplices da dilação do paraíso prometido, que se eterniza como promessa não ajuramentada.

Assim assentamos num pano puído, disfarçado de lantejoulas que ajudam a compor a farsa. Não é um pesadelo, ou sequer um inocente sonho. É o pano em que assentamos.