2.4.26

CXXXI

Tricky, “Black Steel” (live at Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=8hWdxCXWqXQ


“Here is a land that never gave a damn (...)

I’m not a fugitive on a run.”


A parede enodoada queria contar estórias. Talvez só se o olhar se socorresse de um microscópio profissional para varrer todas as vírgulas e parágrafos das vidas que lograram ser hóspedes anteriores. 

Ou a parede enodoada apenas queria dizer que o lugar não era diligente. A variedade de sinais encontrados, se o microscópio profissional fosse usado, ajudaria a fazer uma cartografia. Mas não das vidas dos hóspedes anteriores, elas ultrapassam por todos os lados os breves momentos em que se alojaram sob os auspícios daquelas paredes. No máximo, a cartografia de uma estadia. O que conversaram, os filmes que viram, os livros que leram, a comida que levaram para o quarto, o registo da intimidade. 

A parede enodoada não era um convite a essa intrusão. Era apenas uma parede que devia estar higienizada para que o estabelecimento fizesse jus às quatro estrelas – estes tempos são trespassados por uma indulgência geral que transporta a generosidade para qualquer exercício de avaliação. Nas entrelinhas da parede enodoada não estava um convite para inventariar as vidas hospedadas anteriormente. As paredes de um quarto de hotel transpiram apenas um minúsculo quinhão das vidas que as conheceram. Não são um postal a convidar à indagação das vidas pretéritas.

As vidas outras são matéria que deve pertencer ao desconhecimento. Não é preciso saber delas quando a vida própria é tão escarpada. Um quarto de hotel é uma forma involuntária de partilhar um espaço com vidas desconhecidas. É uma porta giratória dessas vidas. O melhor critério será segmentar o tempo em fatias bem delimitadas, separando o antes do agora. Desse modo será fácil separar a vida própria das vidas outras que coincidiram entre aquelas paredes num tempo pretérito. Ou então, aos mais exigentes será vedado frequentar hotéis para não serem desafiados por estas questões que são questões inventadas por causa de caprichos inatendíveis.

As paredes, enodoadas ou não, têm um prazo de validade curto. Prescrevem, assim que mudam os hóspedes. É como se tivessem sido renovadas e apresentassem a sua melhor cara aos próximos hóspedes.

1.4.26

CXXX

The The, “The Mercy Beat”, in https://www.youtube.com/watch?v=It1L2BccjkI


“I was just another Western guy

with desires that couldn’t be satisfied

so one day I asked the angels for inspiration

but the devil brought me a drink

and he’s been buying ever since (…).”


Devia ser preciso fazer uma formação para saber vencer, para saber comportar-se como um vencedor sem descair para a vulgarização do adversário que acabou de receber a medalha de demérito. À falta de valores embebidos, que sejam adquiridos através de uma formação expedita.

Chega a ser dilacerante testemunhar a jactância dos vencedores. Não contentes com a medalha de mérito, humilham os derrotados como se essa fosse a gratificação suprema retirada da marcha triunfal. Evoca os tempos daninhos de outrora, quando a selvajaria humana tinha uma linhagem diferente da atual, e os despojos da guerra – os prisioneiros e um punhado de cadáveres feitos no campo de batalha – eram exibidos diante dos patrícios que assim glorificavam os guerreiros e a vitória obtida, ajudando a cimentar a pertença e a lealdade aos mandantes. 

Não era uma exibição, era pior: era uma ostentação. Como se fosse preciso fazer prova do triunfo obtido nos campos ensanguentados, transfigurados numa sepultura coletiva depois dos cadáveres dos que caíram na batalha terem ficado indignamente para trás. Talvez seja um mal menor do que ser exposto como troféu de guerra, humilhado por uma turba orquestrada. Desses tempos dizem os apóstolos do presente serem tempos datados, em que a humanidade estava sitiada pela incivilidade. Não estou tão seguro de que as atrocidades que os vencedores de diversas laias cometem na atualidade sejam diferentes quando se apura a indignidade a que a humanidade se condena. 

Esse ar infecto de beligerância por outros meios é intrínseco à arrogância com que os vencedores, do que quer que seja, tratam os que ficaram apenas com a medalha de demérito. É de quem não sabe ganhar – e o que se dirá de gente assim quando estiver auspiciada para a derrota? Na pior das hipóteses, se a nobreza de comportamento fosse consequente à vitória, os perdedores seriam esquecidos no meio das celebrações. Na melhor das hipóteses, haveria uma palavra de conforto para os que, com a sua medalha de demérito, enobreceram o triunfo dos vencedores. Os que saldam o hoje com uma vitória não podem fingir que amanhã poderão ser perdedores. Sair de si e tomar a posição do outro devia ser o fiel de qualquer comportamento.

Ganhar e perder faz parte de estar vivo e de ser gregário. A maldita competitividade, que tudo apura na ponta afiada da navalha em que transita a articulação com os outros, devia ser identificada como culpada desta transação indigna que dedica ao adversário que perdeu uma dupla humilhação: porque perdeu; e, ao ter perdido, está destinado à exposição pública da sua humilhação.

31.3.26

CXXIX

Wall of Voodoo, “Ring of Fire” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=0f5nUqko3Ug


“(…) I fell in to a burning ring of fire 

I went down, down, down

and the flames went higher.”


Ainda ninguém inventou a medalha de demérito e já podia ter sido inventada. É preciso ter mérito para arrematar a medalha de demérito. Só quem se aventurou a correr riscos pode ganhar uma medalha de demérito. 

Os habituais sacerdotes das coisas habituais diriam, no seu idioma formatado e dogmático, que uma medalha de demérito não se ganha porque se trata de um demérito. Diriam: é uma contradição de termos; e as contradições de termos têm de ser contestadas ou, pelo menos, o embuste deve ser pescado com linha e anzol. 

Se não fosse pela medalha de demérito, a quem seria atribuída a medalha de mérito? No parapeito das dicotomias, em que só há excessos que se antagonizam, obliterando todo um vasto espaço que vai de um lado a outro na meação do que é moderado, cada vez mais triunfa a lição de que ou se vence ou se é vencido. Não há meias-medidas. Alguém embainha a medalha de mérito por demérito alheio. Contesta-se a conclusão categórica: o mérito pode ser à prova de demérito dos outros e sublinhar o demérito dos vencidos é desvalorizar os vencedores – é colá-los a um certo demérito, o que se torna paradoxal; talvez isso nem interesse: se, no final da contenda, um tem de sair vencedor e isso corresponde à derrota do outro, pouco importa saber se o desenlace se deve ao mérito de um ou ao demérito do outro. 

Mais importante é fazer equivaler a medalha de demérito à medalha de mérito. Sem que a aposição daquela medalha seja um ultraje para quem a recebe. A medalha de demérito não tem de ser um atestado de incompetência; ela apenas reconhece o estatuto de quem não virou a cara à contenda e acabou por sair vencido. A medalha de demérito premeia os que não selaram a vitória, mas que devem ser honrados por terem arriscado sair de casa. Sua foi a iniciativa de impedir que a contenda ficasse deserta, para desgáudio da audiência interessada. A medalha de demérito, sem carregar consigo a conotação pejorativa que a palavra tem no idioma dos lugares-comuns, é um prémio de participação para quem não conseguiu tomar conta da medalha de mérito. 

Pior do que uma medalha de demérito é ter a arrecadação vazia, sem medalhas. É o que acontece aos que, timoratos, não saem de casa com receio de serem colados às figuras tristes de quem se arrisca a ganhar uma medalha de demérito. Porque uma medalha, mesmo que seja de demérito, ganha-se. Não se perde. 

(Às vezes, por vício próprio de quem não sabe ganhar, da medalha de mérito poder-se-ia dizer que foi uma medalha que se perdeu no regaço do ganhador.)   

30.3.26

CXXVIII

James Blake, “Trying Times”, in https://www.youtube.com/watch?v=Jg6ngjH2tCc


“I’m breaking, I hide it well

‘cause I can’t afford to replace the shell

and the anxious end up alone

‘cause there are far too many things we can’t control.”


Não custa ser figurante. Descer à rua e passar como anónimo entre os anónimos é uma dádiva. Dispensa-se o incómodo de ser escrutinado pelos olhares curiosos que atiram o olhar, como quem exclama: “conheço-te”, atuando como intrusos, como se entrassem na pele de uma figura pública e a colonizassem por dentro.

A assimetria deve ser dolorosa para os que não são figurantes. Ser passado em revista pelos olhares inquisitivos e não poder devolver a cortesia, porque as muitas pessoas que o conhecem da praça pública são desconhecidas, cava o desequilíbrio. Estas personalidades não podem dar um passo em falso se estiverem expostas aos olhares alheios. Não podem ter um gesto inaceitável para quem é figura pública, ainda que o mesmo gesto passe sob o manto da indiferença se for da autoria de um figurante – mais uma prova do tratamento desequilibrado em detrimento da figura pública. Elas são das maiores vítimas da democracia. Ajudando a confirmar que a igualdade é uma miragem. Os que não são figurantes deviam protestar em favor da igualdade que fosse aplicada em seu benefício.

A revelação da pública condição é como uma expropriação do ser por efeitos da pública exposição. Deve ser um grande incómodo só de perceberem que os anónimos que circulam em contramão sabem o seu nome. Um dos bens maiores é passar na rua sem ser interpelado pelo próprio nome. O anonimato é um bálsamo que as figuras públicas gostariam de ativar se pudessem aplicar o tempo retroativamente. Ou se pudessem fazer descer sobre elas um véu que as extraísse do conhecimento público, quase como se pudessem ser fantasmas para garantir a sua privacidade.

Os aspirantes a figuras públicas manteriam a aspiração se soubessem das dores da notoriedade? Por mais que haja quem viva imerso na imensidade do eu e considere que o podem agigantar se se tornarem figuras públicas, só a inexperiência (por ignorarem os efeitos corrosivos da exposição pública) ajuda a compreender que mantenham a teima em subir a escadaria do conhecimento público.

Saber que ninguém sabe o nome próprio é uma das bênçãos maiores nestes tempos em que se multiplicam as hipóteses de visibilidade pública. Ser figurante não custa mesmo nada.

27.3.26

CXXVII

Death Cab for Cutie, “Here to Forever”, in https://www.youtube.com/watch?v=R7jZorZeWro


I wanna know the measure from here to forever

and I wanna feel the pressure from God or whatever

now it seems more than ever there’s hands on the levers.


Não é a liberdade enfeitiçada por profetas que conta para o rosário da (assim chamada) civilização. Não é a liberdade patrulhada, sob o pretexto de que, ao não ser patrulhada, pode deixar de ser liberdade, que conta para o inventário das coisas que devem ser retidas como lições. Não é a liberdade mascarada e assimétrica que se encontra no dicionário à prova de desverdade. Não é a liberdade raquítica, mas escondida num fato que encena opíparos manjares que, todavia, se limitam a enxamear armadilhas pelo caminho, que se alinha no fno fio condutor que une as pessoas autenticamente portadoras de liberdade. 

É no lugar onde os sonhos se encenam que as sombras estão de sentinela. As palavras disfarçadas de um sentido encantador tecem-se numa esgrima absurda. As pessoas, em vez de aproveitarem as vantagens da serenidade, desassossegam-se com os prolegómenos das outras – os prolegómenos bastam para desatar a reação epidérmica da intolerância como resposta à intolerância. Uma longa travessia por lugares inóspitos, puídos de tantos desexemplos na História coletiva, atira-nos para um estatuto irremediável de precipício. O olvido dos tempos passados trata do resto. Repetem-se os vícios de outrora, que foram a sementeira de beligerâncias trágicas.

A incapacidade de assumir o lugar do outro não é inesperada, pois os outros só conseguem ignorar o lugar onde estamos. Os que quiserem romper com este melancólico estado de coisas arriscam-se a ser párias do avesso: ficam a falar sozinhos, reféns da própria cruzada, destinada ao malogro por falta de adesão. Os muitos outros que até seriam capazes de tutelar a reciprocidade esquivam-se, certos de que, se ousarem a reciprocidade unilateral, o mundo inteiro jura desabar sobre eles.

Sem humildade, afundamo-nos num lodo pútrido onde a decadência da espécie está ajuramentada. Exigimos dos outros o que não estamos preparados para oferecer. Os outros medem-nos pela mesma bússola: se não queremos exercer a generosidade, não esperemos deles a generosidade que em nós se ausenta. Estamos vocacionados para a lógica do mínimo denominador comum como a melhor das hipóteses. Presos à inércia dos outros, ou à vingança surda que devolve na mesma moeda quando deles nos consideramos vítimas, silenciamos a boa vontade e ficamos sitiados pela desconfiança mortífera. 

Não acredito em apocalipses, mas parece que estamos há tempo demais a beijar os pés gastos de um apocalipse. Não sei se não hei de começar a acreditar em milagres.

26.3.26

CXXVI

Genesis Owusu, “Stampede”, in https://www.youtube.com/watch?v=69nnHQVl40g


“Snatch a crown from a king, then I tell you where I spat (...).”


Tirava partido da maré alta. O peito cheio de coragem. O dia começava com paredes debruadas a ouro, violinos aveludados entrando pelos ouvidos, o sentido prazer vindo de uma voz que deseja que o dia seja bom, a voz da sereia que acorda vizinha. A maré alta descomprometida é a maresia que entra pelos poros como se fosse o perfume de que a pele precisa. 

Não queria saber que à maré alta se sucede a maré baixa. Uma metáfora pode ser interrompida se a continuidade abalar o seu significado quimérico. Se a maré alta é um corpo cheio de intenções, um mapa exaurido de poluição humana, a maré baixa não traduz o seu contrário. É apenas uma maré que vazou e deixa à mostra os despojos da maré alta: por aqueles lugares que o mar deixou vago ondearam impressões animadoras habilitadas pela maré alta. A maré baixa não é a metáfora dos destroços deixados pela devastação da maré alta. Porque a maré alta não é uma devastação.

Se os corpos não resistissem à força gravitacional do mar, seriam possivelmente o fermento das marés. Levados pelas correntes, aprenderiam a repensar o que fosse preciso durante a sua estadia à mercê do mar. De alma lavada pela maré alta, dariam à terra no epílogo da maré alta. O seu último ato, antes de serem depostos pela baixa-mar, era deixar no areal os corpos retemperados que tivessem sido alojados pela maré alta.

O exílio da maré-alta não é um contratempo. O mar fortifica. Nele se refugiam os que precisam de um intervalo na pertença a um lugar terrestre. Os corpos precisam de levitação para a lida dos dias. A maré alta suspende os minutos que pertencem a lugares que dissipam a levitação dos corpos. 

Se a convocação de Poseidon assustar os que temem o mar, devolvidos a terra pelo medo do mar tempestuoso que dita a rebelião das ondas, fica adiado o exílio temporário sob os auspícios da maré alta. Os que não temerem a voz tonitruante de Poseidon ficam em terra, quase na bordadura do mar, a apreciar o mar encapelado. Sonham em ser posse temporária do mar, como se não temessem a força devastadora das ondas que se esmagam umas nas outras e contra as rochas limítrofes. Como se uma maré alta tomada de assalto por uma tempestade de Inverno fosse um momento heurístico. 

25.3.26

CXXV

The The, “Sweet Bird of Truth”, in https://www.youtube.com/watch?v=azysyU_Rr1g


I don’t know what’s wrong or right

I’m just a regular guy, with bottled up insides

I ain’t ever been to church or believe in

Jesus Christ

but I’m praying that God’s with you when you die.”


Despe a batina, o cura maldito. O corpo cheio de cicatrizes – e não era por fetichismo, como em alguns dementes que cultivam a indecência dos sacrifícios corporais porque uma epifania, sob a forma de alucinação, os convenceu de que a divindade que veneram exige que os seguidores se castiguem como prova de devoção. É um transtorno, não o despir do cura aberrante, mas a exposição da religião a estigmas forçados, tão hermenêuticamente descabidos, sem se perceber que uma divindade bondosa não pode exigir o recalcamento dos fiéis. 

O cura esconde-se do corpo refletido no espelho, antes de cobrir o espelho com um cobertor mesmo à mão. O corpo disforme terá sido o efeito não colateral de quem difunde o obscurantismo, de quem propaga a fé alicerçada na castração da liberdade dos seguidores, de quem impõe aos outros o que não consegue respeitar. O cura aconselha austeridade carnal. Aconselha a delação dos hereges, que, não podendo ser condenados em processo sumário pelos embaixadores (soi-disant) da divindade, ficam à mercê da sua vingança implacável.

Mas o cura é feito de sangue e carne e ossos e desejos. Mortifica-se com a proximidade das paroquianas, de algumas delas, quando o contacto físico quase se proporciona. A culpa não é das divindades, é das paroquianas, quais diabos (de saias) à solta. Se as divindades fossem interpretadas segundo a incomensurável bondade com que as pintam, seriam as primeiras a aplaudir o hedonismo dos corpos que não resistem a outros corpos. Foram os exegetas da divindade, os seus embaixadores (soi-disant) na Terra, que adulteraram o saber divino e imputaram uma carga pecaminosa aos prazeres motivados pelas coreografias dos corpos. Foram eles os primeiros a ditar a castração mental dos curas. Uma proclamação arbitrária se imporia sobre a natureza incalculavelmente carnal das pessoas, curas incluídos. 

O cura precede a vergonha da vergonha que traz no corpo. Deixa cair o cobertor que omite o espelho. Não se amedronta – afinal, é o seu corpo, o único que a vida consagrou. Já prometeu, em juras repetidas, meter gelo no desejo que o condena ao pecado. Mesmo com aquele corpo, o pecado não se afastou dele. Até agora, dobrou os braços impantes. Esses são intervalos em que se dedica à sua condição humana e deixa que as fragilidades nasçam com a manhã. 

No resto do tempo, finge. E pune, a eito, os que duvidarem dos mandamentos, fingindo que a divindade é o que não é.

24.3.26

CXXIV

Nick Cave and the Bad Seeds, “Red Right Hand” (live at Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=FsggKgp4w9Y


On a gathering storm comes a tall handsome man 

in a dusty black coat with a red right hand. 

He’ll wrap you in his arms, tell you that you’ve been a good boy 

he’ll rekindle all the dreams it took you a lifetime to destroy (...).


Se o mundo causa tanta repulsa, se está tão desfalcado que as casas de apostas apostam que não tem remédio, por que trazes as notícias no bornal de todos os dias? 

Esta era a questão existencial que destemperava o momento. Há contradições que são acidentais. São o simples jogo das peças que se encaixam em ações não intencionadas, mas as suas dores sentem-se na mesma. Mas há contradições que são contraintuitivas. Traduzem a propensão para um certo masoquismo: o observador atento exerce a sua observação a partir de um bem situado posto, farta-se de esboçar esgares de desaprovação sobre o que observa, impacienta-se com os disparates dos Homens, anota a falta de memória que trava o conhecimento da História e de como isso agrava muitas entorses sucessivamente cometidas, protesta contra a má rês humana que aquece em lume-brando o pessimismo antropológico mais do que confirmado. 

Nem assim a sede de conhecimento se sujeitava a um terapêutico torniquete. As novas eram sistematicamente de má linhagem. Se tropeçava numa boa nova, depressa a armazenava entre as coisas irrisórias, que ainda mais depressa passam a pertencer ao rol das coisas esquecidas. Eram as más novas que cativavam a atenção. Diziam que era exímio numa espécie de roleta-russa que o desanimava quanto às esperanças tituladas pela espécie humana. A cada bala disparada, o som da engrenagem do revólver fazia subir a velocidade do coração: não é que fosse a sua integridade física a estar em causa caso saísse na roleta-russa uma bala artilhada; era o quotidiano da espécie, mergulhado numa angústia sem redenção.

Os dias assim passados, com rotineiras e não periódicas atualizações do desestado do mundo, de como acontecimentos untados por nuvens plúmbeas e pútridas se somavam, eram um exercício pungente. Um módico de desacreditação da humanidade e dele próprio, que não tinha a ilusão de se poder furtar aos nós górdios da espécie. 

Um dia prometeu: hoje não vou acompanhar a voragem do mundo lá fora, vou-me exilar dentro de mim e mergulhar em leituras de livros que sejam o desaprendimento da humanidade tal como se encontra. Nem que seja só por um dia, para experimentar. Oxalá conclua o dia sem sentir a falta de perceber como caminhamos diligentemente para um abismo sem remédio. 

23.3.26

CXXIII

dEUS, “Let’s See Who Goes Down First” (live at Budapest), in https://www.youtube.com/watch?v=S5vgwaUwtPk


Now we all know the world is dying 

and expenses multiplying 

but you could try to take it easy too (...).”


E se começasse a partir da casa da chegada? Voltava atrás, seguindo o caminho do avesso para saciar a curiosidade sobre a casa da partida, ou avançava sem saber do caminho por diante, mesmo que ele escondesse um precipício?

Os escombros invisíveis são um revólver surdo apontado à nuca. A prescrição das almas não transige com o desconhecimento do tempo e dos lugares. Se a casa da chegada fosse a casa da partida, haveria sempre alguém a avançar do avesso. Como se as convenções gramaticais e as almofadas dos sentidos fossem estilhaçadas e houvesse quem avançasse para trás enquanto outros recuavam para a frente. 

Os sinais indevidos amontoam-se, resguardados pelos usos e costumes, dogmas que não admitem contestação. O papel obediente de cada um é participar do enraizamento dos usos, mecanicamente: as pessoas, guiadas pela pose obediente, limitam-se a cumprir os usos e contribuem para que os usos sejam mais incontestáveis a cada dia que se soma. Ninguém poderá dizer, com total certeza, se a casa de chegada é mesmo a casa de chegada. Os equívocos podem esconder o contrário do que são. Muitos passam ao lado da antinomia dos sentidos e dos significados que trazem agarrados à sua obediente pose. 

Se a sublevação dos espíritos se condensar num punhado de palavras, a questão do que é uso e sua contestação desaparece. Deixa de haver costumes que não admitem contestação. Deixa de haver aqueles que se amotinam contra os usos estabelecidos, porque não lhes cabe saber da existência de usos nem de se candidatar ao lugar de párias. Sem o chão atapetado pelos esteios autoinvestidos, aquele chão, que é a zona de conforto em que muitos se refugiam para intolerarem os desvios que abalam a obediência, sobra o espaço vital em que nidifica o lugar individual. 

Dispensem-se os usos que sideram a autonomia, apascentando o ser, castrando-o. Não interessa saber se o pórtico corresponde à casa da partida ou à casa da chegada. Cada um usa a sua bússola e escolhe de onde parte e para onde vai. Sem o ardiloso arnês dos que se dedicam a ludibriar a imensa mole humana como se fossem mesmo seus tutores.

20.3.26

CXXII

Noiserv, “This is maybe the place where trains are going to sleep at night”, in https://www.youtube.com/watch?v=L5STwfCs6g4


Just try the best you can, if you fail in the end you will try again 

take a walk in self-defence.


(Na véspera do Dia Mundial da Poesia)

James Bond nunca daria um poema. Sobre as suas costas de herói fabricado, as palavras seriam como chuva ácida: mascarravam tudo onde caíssem, infecundas para a poesia. Se um cientista do cinema fosse revistar as muitas vidas vividas dentro da mesma personagem, o literato teria de suplicar para deixar por conta da fantasia o que não cabe na poesia.

James Bond é só uma personagem. Uma máscara inventada para extrair um império da letargia a que o tempo o condenou. Um entretenimento, porque às vezes as pessoas precisam de aliviar a cabeça quando entram numa sala de cinema (não é por acaso que a palavra “entretenimento” vem à tona). Os puristas da poesia depressa avançam para o palco, reclamando para a poesia uma condição que não é compossível com o ludismo que fantasia no limiar das impossibilidades.

Mas a poesia só o é quando veste pose solene, como se os cânones obrigassem a conferir a linhagem heráldica que a eleva a um patamar distinto? Como os que estudam a Política reclamam a omnipresença do político (“tudo é político”, argumentam), não se pode da poesia dizer que tudo pode encerrar um ângulo poético, mesmo o que, à primeira vista, esteja nos seus antípodas? Não se pode estabelecer que o poético seja decantado por cada olhar e que essa subjetividade impeça a consumação de determinismos sobre o poético?

Por este andar – dir-se-á – James Bond é um hino à poesia. Como uma central nuclear, um aterro sanitário, a música daquele músico que vence aos pontos no estatuto da irritação pessoal, ou o político mais execrável – ou como tudo e alguma pessoa a que se queira dar corda da subjetividade e encontrar-lhe um regaço poético. Nem que seja por antinomia: é poético o que está nos antípodas de uma central nuclear, de um aterro sanitário, da música daquele músico que vence aos pontos no estatuto da irritação pessoal, ou do político mais execrável. Ou de tudo o que não é representado por James Bond, porque a personagem bebe inspiração num estatuto sobre-humano que o torna imbatível, mesmo que contra ele fosse atirado um exército inteiro. 

A poesia é quando mexemos nas palavras até conseguirmos mexer com o sangue até então letárgico. A poesia é quando congeminamos a musicalidade das palavras e as viramos do avesso para terem um sentido singular. A poesia é quando a lemos e guardamos para memória futura, como vestígio intemporal. Ou o que queiramos que ela seja, agora talvez e no futuro possivelmente já não. Desde que haja poesia e ela sirva de remédio para deixar em hibernação as horríveis feições do mundo, temos um tesouro à medida das nossas mãos.

19.3.26

CXXI

The The, “Good Morning Beautiful”, in https://www.youtube.com/watch?v=R7ida7O8B3Q


So now ask yourself 

what is human and what is truth? 

Ask yourself 

whose voice is it 

that whispers unto to you?


Esta fragilidade é a maior força que oferece a reinvenção. Ir abaixo e depois levantar-se dos escombros, por mais improvável que pareça. Sem capitular, sem sequer arquear o tronco ao ser empurrado pelo vento iracundo que se pôs. Estar de rastos não é uma sentença definitiva. 

A maior força que se oferece ao olhar vindouro é a aprendizagem, não o arrependimento. O arrependimento é um princípio de ação que deve a continuação à aprendizagem. Sem arrependimento não há aprendizagem, mas a aprendizagem pode ficar amputada se ao arrependimento não se souberem somar as cores certas. 

O diálogo interior é a alcatifa da lucidez. Embora um cais seja obrigatório para cultivar um criterioso inventário das possibilidades, se for um cais decadente pode apressar a decadência que se instala a cada dia. As possibilidades percorrem o estendal que aconselha a bússola, tiram a bissetriz de que a lucidez se alimenta. Às vezes, é preciso uma aterragem forçada para saber viajar no tempo vindouro. As dores que cicatrizam o corpo fazem parte dessa aprendizagem.

Se não fosse pelos contratempos, a vida seria uma destemperada viagem pelo tempo vazio. Os contratempos angustiam, podem atirar o corpo para um precipício de onde é difícil sair, mas são necessários para dar sentido à vida; são um sal que previne a bulimia dos sentidos. Num cruzamento de contrários, o seu sentido não se afigura se não forem experimentados. O saber apenas teórico fica pela metade se dele se ausentar o teste de realidade.

Uma vida é sempre uma montanha-russa. Dos momentos auge fazem parte, como seus antecessores, os momentos em que a angústia tomou conta do tempo. Sem uns, os outros não têm significado, são impossíveis. Não se consegue saber o que significam as dores pungentes se antes dela não for atravessada uma bonança; não há noção dos prazeres proporcionados pela bonança se antes uma tempestade não tiver trespassado os corpos. 

A correria desatada que é a vida está preenchida por este concurso de opostos que formam um todo coerente. A fragilidade não esgota as forças interiores, por mais severas que sejam as consequências. Ela é o forno onde aquece, em banho-maria, a reviravolta que dá sentido à angústia desatada pelo cerco de todas as fragilidades que conspiram no mesmo momento.

18.3.26

CXX

Fontaines D.C., “Roman Holiday” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=x7VxmeXXMj4


While they’re snuffing out hopes, and they’re blotting suns 

they claim to know the form in which genius comes (…).


Teria as ideias salgadas – ou, havia quem avançasse a hipótese, deixara salgar as ideias e agora elas estavam com bolor. Parecia um carnaval puído a verter vinho sobre as palavras cansadas, corroendo-as a partir das margens até atingir o magma profundo. Foi ultrapassado pelo tempo e não deu conta. Agora estava na borda da prescrição, com o prazo de validade quase esgotado.

Talvez fosse uma conspiração do vinagre e tivesse azedado. Não se diga do azedo do vinagre que seja o seu opróbrio, que na gastronomia há assídua boa conta sobre as propriedades aciduladas dos preparados avinagrados (a correção impôs-se com subtileza, não foi preciso berrar a palavra certa – acidez – em substituição da errada – azedume). 

Podia arregaçar as mangas – que figura de estilo despropositada, arregaçar as mangas deixa os antebraços à mostra, nos dias que correm a elevada quantidade de agentes agressores que contaminam o ambiente é uma ameaça à saúde pública. Continuando: podia arregaçar as mangas para lidar com a acidez das palavras tomadas pelo avinagrado; ou podia, apenas, recorrer aos compêndios da gastronomia como a metáfora protetora para corrigir a decadência anunciada pelo sintoma de acidez que havia tomado conta das palavras e das ideias que elas possibilitavam.

Já podia contrapor a acusação inicial: se havia defeito a pender sobre as ideias, não era por serem salgadas (ou por terem sido propositadamente salgadas ao longo do tempo). É de bom tom não ter de lidar com imputações que são tiros ao lado. Já chegam as outras, que atingem a matéria nevrálgica e que diminuem, como se pertencessem a um ataque de ordem pessoal. Rejeitado o pleito inicial, talvez nem tivesse de dedicar muita atenção ao que sobrava: serem aciduladas as suas ideias pode não ser uma matéria diminutiva, ele há quem se deleite com o avinagrado de preparados que vêm da cozinha.

Marcou conferência de imprensa para as cinco da tarde (aqui não há hora do chá imperativo). Não queria que continuassem a apoucá-lo sem razão aparente que não fosse um arbitrário desejo de contribuir para a destruição da personalidade com a mediação de pretextos. Um pretexto, identifica-se. E depois rebate-se, com a persuasão das palavras diligentemente apuradas. Sejam ácidas ou não.

17.3.26

CXIX

Echo and the Bunnymen, “Lips Like Sugar” (live in Liverpool), in https://www.youtube.com/watch?v=l3oTFqf-8qA  


Lips like sugar 

sugar kisses (…).


O cliente nem sempre é bem-vindo. 

As portas abocanham os clientes que se propõem. O espaço interior é a metáfora desarmada das boas-vindas: ao contrário dos espaços comerciais de requinte, que têm admissão reservada e filas de chineses à espera no exterior do estabelecimento, os outros não são elitistas. A política de porta aberta é sinónima da sua linhagem democrática. Os que nidificam no elitismo e discriminam pelo preço, exigem que se toque à campainha.

A política de portas abertas não significa que os clientes sejam sempre bem-vindos. Há clientes corteses, que sabem respeitar a loja e os empregados, não os tratando como se fossem meras figuras servis que devem satisfazer todos os caprichos do cliente. Mas há os execráveis, que maltratam os empregados e desrespeitam a mercadoria, apenas porque lhes apetece, ou porque nasceram em berço que não soube respirar a boa educação, ou porque não respeitam quem, como eles, trabalha. 

Os clientes podem nem sempre ser bem-vindos porque os empregados da loja podem não estar momentaneamente bem-dispostos ou porque um súbito acesso de mau humor deles se apoderou, levando-os a embirrar com o cliente, até possivelmente cortês demais. Ou então, ao testar a paciência do empregado com os sucessivos caprichos e a marcha atrás do cliente, ele deixa de ser apreciado e as instruções da gerência são para dispensá-lo da condição de cliente. Há clientes que mais vale a pena não o serem. O custo de aturá-los não compensa o atrativo da faturação, que é o cerne do negócio.

Quem vier por bem será bem tratado – a menos que a indisposição tenha tomado conta do empregado e este não queira a canseira de aturar um cliente exigente, que entra em detalhes sobre a mercadoria e suplica, indigentemente, um desconto em cima do desconto, o desconto do cliente especial que, todavia, é a primeira vez que põe os pés no estabelecimento comercial. Os clientes evitáveis não são sempre bem-vindos. Sê-lo-ão aqueles que forem convertidos pela mediação paciente do empregado, que lhe dobra o braço teimoso que propende para o capricho, levando-o a comprar até mais do que tinha previsto (e sem descontos suplicados). Quem não vier por bem não pode ser bem tratado, sob pena de os maus-tratos recaírem sobre os empregados que não são pagos a peso de ouro para aturarem a clientela execrável. O que seria uma injustiça atroz e antidemocrática.

Digam, então, se o princípio não pode ser estendido às casas particulares.

16.3.26

CXVIII

The Waterboys, “Don’t Bang the Drum” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=6Io0ylts-Yo  


Here we stand on a rocky shore 

your father stood here before you 

I can see his ghosts explore you 

I can feel the sea implore you.


            O dente de marfim mordia um braço à medida que a noite se despojava. Pelo palco passavam figuras improváveis. Um caçador de pulgas, as fotografias ilegítimas de um sacerdote numa praia de nudismo, o príncipe real em noitada de copos agarrado a dois transsexuais, um famoso político acabrunhado depois de ter perdido uma pequena fortuna ao jogo no casino (mas o conceito de pequena fortuna é sempre subjetivo, não é?), uma pessoa fortuitamente apanhada pelos dejetos de uma gaivota apesar do grasnar em forma de pré-aviso, um cenáculo de líderes mundiais onde dominado pela amena cavaqueira e eles combinavam, em segredo, as próximas fricções mundiais (pois isto de os cidadãos se habituarem à antítese da crise pode-os habituar mal), uma atriz de teatro a atirar uma tarte cremosa às trombas do político mais bazófias de todos, um petiz que se recusa a soprar as velas do bolo de aniversário em protesto contra a matança nos matadouros (recusando qualquer explicação catedrática sobre a razão de um matadouro se chamar matadouro), o CEO de uma empresa cotada no PSI20 a convidar um mendigo para a mesa de um restaurante com uma estrela Michelin, a bailarina, tão frágil, a chorar porque torceu um pé a descer a escadaria do CCB e tem medo de perder a próxima temporada de bailado, os patuscos que, em reunião hebdomadária, puxam os galões ao pior marialva que se esconde atrás do verniz, um gato e um cão a comerem da mesma gamela, um escritor a fugir de entrevistas como “o diabo foge da cruz” enquanto lamenta por ninguém se lembrar dele, o aspirante a lente a perorar alongando-se no seu próprio gongorismo, um livro roubado à biblioteca joanina que apareceu perdido num jardim em Viana do Castelo e que um homem do lixo atirou para o lixo, a mulher impossivelmente corcunda que se arrasta pela rua fora sem que alguém lhe veja o rosto, o empregado de mesa que trata os clientes por “chefe” (independentemente de sexo e de orientação sexual), o juiz do tribunal apanhado num lupanar, o primeiro-ministro a jogar boxe com o líder da oposição (sem ser uma metáfora), a jura de todos perante uma bandeira diferente da ajuramentada, e o dente de marfim, enfim, a libertar o braço ensanguentando o chão com todo o veneno que conseguiu desprender.

13.3.26

CXVII

Massive Attack, “Hymn of the Big Weel”, in https://www.youtube.com/watch?v=_M9muYyYxhI


One man struggles 

while another relaxes.


Conseguiu penhorar os demónios. E eles, que andavam a embaciar o tempo legível, ficaram presos do lado de fora da janela.

Ainda não estava em si. Só de lembrar como os demónios eram presença contínua, como expropriavam o sono para o encomendar a pesadelos tarefeiros, é como se as cefaleias que atrasavam os dias presentes remissem. Os demónios ocupavam o presente com imagens mal resolvidas do passado. Era como se não houvesse presente, mas apenas o passado continuamente resgatado do túmulo em que devia estar sepultado. E os demónios, vultos sem nomes próprios, vogando daqui para ali, omnipresentes, a distraírem o pensamento com as ninharias que não passavam de uma imagem desfocada do passado.

Sabia que o passado não albergava só estes demónios militantes. O tempo havido fora de proezas e casos que cumpriam os mínimos na hora da gratificação pessoal; o tempo dos demónios não fora inteiro. E, todavia, não conseguia combater as forças gravitacionais dos demónios que insistiam em semear os fragmentos do passado que queria esquecer, não fosse a omnipresença dos demónios pesar na impossibilidade desse esquecimento.

Não se lembrava de quantas juras fizera para mudar este estado de coisas. Como abrira uma exceção para ler páginas sobre autoaconselhamento (logo ele, que detestava os gurus que aparecem em público como cuidadores das almas). Tudo fora em vão – o que, ao menos, trouxera a recompensa de saber que a sua desconfiança metódica dos gurus das almas estava certa. Mas era um trunfo inútil. A confirmação do logro dos gurus das almas não ajudava a esgrimir os demónios interiores que teimavam em povoar o horizonte.

Num ato inesperado, uma inspiração momentânea que exigiu um olhar inédito sobre as nuvens carregadas que hipotecavam a beleza do dia, prometeu cumplicidade com os demónios. Queria que eles acreditassem que estava derrotado e que seria seu aliado: era como atestar uma declaração de decadência prematura, a resignação perante forças que não conseguia tutelar. Enganou os demónios. Estes, deslumbrados com a possibilidade de uma vitória fácil, baixaram a guarda. E ele fechou-lhes a janela.

Quando deram conta, os demónios tinham sido penhorados e não havia forma de levantar o penhor. Agora podia cumprir a promessa de uma vida dedicada às coisas belas que o mundo e as pessoas que o habitam têm para oferecer.

12.3.26

CXVI

The Hard Quartet, “Hey” (live at Brooklin Bowl Nashville), in https://www.youtube.com/watch?v=PMLEC1lFm-8


Hey I would like to surrender to your confusion.


Não se pode pensar mal de alguém ou de algo, porque pensar é sempre um bem. 

Pensar mal de alguém ou de algo é tão maniqueísta quanto a impressão que se fica da pessoa ou da situação que leva àquela reação. Pensar mal de algo ou de alguém é atear uma intolerância que guarda em si uma forma má de pensar. Pensar não pode ter equivalência num mal, por mais que haja quem pense que esse nosso pensar motiva uma rejeição.

Mesmo que pensar mal de alguém ou de algo seja motivado pelo que se considere ser a abjeção do sujeito ou da situação, o simples facto de o pensamento ser ateado impede que se diga “penso mal de…”. Pensar nunca é um exercício negativo. Nem quando, no exercício do livre-arbítrio de que assiste a cada um, se tem uma reação epidérmica sobre o que é dito por alguém ou uma situação que motiva repulsa. Ativar o pensamento para reagir é, em si, algo de bom. 

Dizer “penso mal de...” é apenas uma expressão enraizada nos costumes da língua que peca por defeito de significação. É a necessidade de sublinhar à partida que nos opomos a alguém, no que diz ou na situação que causou, que traz o substantivo qualificativo a tiracolo. A reação de discordância dispensa o qualificativo, que pode contaminar o pensamento ativado. Tem sempre de se partir da regra fundacional de que qualquer tipo de pensamento é bom por definição. Mesmo quando esse pensamento motiva discórdia dos outros ou, em situações-limite, é motivo de reprovação quase unânime. O pensamento que esse pensamento gera é bom. Não se pode materializar na fórmula “penso mal de…”, porque não é o sujeito ou o objeto sobre os quais recai o pensamento que arca com o opróbrio; é todo esse pensamento que acaba contaminado. 

E mesmo que o pensamento contra o qual se reage seja, desde a nossa posição, indefensável e faça disparar um repúdio categórico, as exigências de tolerância vedam a utilização da fórmula adversativa. Afirmar que se pensa mal de alguém é abrir o precedente para que outros digam o mesmo sobre o pensamento que exercemos. A reciprocidade e a tolerância são válidas para todos, não abrem exceções para aqueles que sejam acantonados na posição de párias. Se assim não for, um dia destes, o cobertor da intolerância será costurado sobre sucessivas manifestações de “penso mal de...”, até que todos pensem mal uns dos outros e das situações de que somos responsáveis. 

Nessa altura, quando já ninguém suportar ninguém, dir-se-á, e a eito, que se pensa mal deste ou daquele ou da situação, qualquer situação, por eles criada. O abismo estará mais perto do que nunca.

11.3.26

CXV


Chet Faker, “A 1000 Ways”, in https://www.youtube.com/watch?v=q1trgx8xnvo&list=RDq1trgx8xnvo&start_radio=1


A thousand ways 

to get to know you (…).,


Eu sei que a cidade tem segredos. Sei que a cidade fala nas entrelinhas das ruas crismadas com nomes de mortos. A cidade esconde pedaços isentos do meu olhar. Acabamos por ser um pouco forasteiros na nossa cidade.   

Às vezes, apetece perguntar à cidade se revela um segredo, um apenas. Mas a cidade remete-se ao silêncio feito com o rumorejo ateado pelo burburinho diurno e pelo mistério que toma conta da noite, quando as pessoas começam a rarear nas ruas. A cidade quer que os segredos continuem a ser segredos – é da natureza dos segredos serem inacessíveis, ou deixam de ser segredos. 

Um dia, perguntaram se era justo que a cidade se sentasse em cima dos segredos inconfessáveis para reter um trunfo contra a pervicácia das pessoas. As pessoas, incomodadas com o acosso da cidade refugiada nos segredos, começavam a sentir a vingança da cidade. Não é assim que as pessoas e a (sua) cidade tecem os fios de um contrato de pertença. As pessoas queriam que os segredos caíssem desse estatuto; era preciso que a cidade fosse um livro aberto e deixasse os segredos à mostra para as pessoas poderem exercer a reciprocidade com um sentimento todavia indistinto perante a cidade.

No tear intrincado dos segredos por contar, a cidade dominava as pessoas. Parecia que a cidade repousava nas máscaras exibidas, como se provocasse as pessoas que se afogueavam para saber dos segredos escondidos atrás das máscaras. Alguém acusava a cidade de manter viva a maldade sobre os seus habitantes, como se ela dispusesse de uma vingança sempre em lume brando. As pessoas queriam saber por que a vingança estava em lume brando; que mal teriam imposto à cidade para ela se rebelar e manter escondidos os segredos?

Talvez a cidade quisesse dizer que os segredos lhe pertencem, que não podem ser partilhados com as pessoas. A cidade pode querer sinalizar que, embora muito do que ela é se deva à linhagem dos seus residentes, conserva um reduto que a distingue das pessoas. Uma identidade própria, que se deve à vontade própria da cidade por ser independente da vontade das pessoas que são suas curadoras.

Eu sei que a cidade conserva escondidos os seus segredos. Eu sei que não quero saber dos segredos da cidade, porque os segredos das pessoas são tutelados às escondidas dos outros.

10.3.26

CXIV

Radiohead, “The National Anthem” (live Reading and Leeds), in https://www.youtube.com/watch?v=hTzRliW3iFs


Everyone 

everyone around here 

everyone is so near (…).


(Depois do filme, “A Morte de Belle”, de Benoît Jacquot)

Por mais que se enraíze a pedagogia política que ajuda a cimentar o regime, os sintomas de descivilização acabam por fazê-la cair em saco roto. 

Um exemplo (dir-se-ia: desexemplo) é quando a turba irada faz uma espera organizada à porta do tribunal por querer fazer “justiça” (insista-se nas aspas) pelas próprias mãos a um criminoso da pior espécie que ainda vai a julgamento. Outro exemplo é quando um ainda não suspeito de um crime, sujeito a forte reprovação social, sobre o qual se abate um manto de suspeições por fundamentar, sem, contudo, dar origem a uma acusação. E de como a sociedade dos bons costumes, aquela que reage por estima, segundo os maus preceitos do “cheira-me que”, reage com frieza ao suspeito que não o chega a ser, isolando-o num canto onde ficam escondidos os que devem ter cometido um crime, sem que, por enquanto, se confirmem as provas que atestem aquele estatuto. Como se fossem condenados a uma hibernação cautelar que os acantona num lugar que os demais, as “pessoas de bem”, devem evitar.

A reação epidérmica que encosta às cordas quem não chega a ser tratado como suspeito é um sintoma de como os alicerces que instruem a cidadania ficam em banho-maria. Muitas pessoas esquecem a teoria que esforçados procuradores do regime ensinam, escorregando para um comportamento que não confirma o princípio da inocência até prova em contrário. As pessoas substituem-se aos profissionais da investigação policial e tiram as suas próprias  conclusões apressadas. Ao início, dirigindo apenas olhares desconfiados que esfriam o contacto até entre os conhecidos. Depois, com a mobilização de uma turba covardemente escondida no anonimato que julga antes do tempo, condenando ao desterro social quem nem sequer é acusado pela Justiça.

Por mais que se enraízem os substratos da civilização, o sangue em ebulição de gente dominada por emoções e que depressa escreve a sua sentença pessoal, desautoriza a civilização em que dizem vivermos. Podemos ser Homens das cavernas mesmo no mais belo palco onde (se diz que) passeia a diligente civilização.

Ainda bem que não existe um registo de sintomas de descivilização a ser averbado nos cartões de cidadão. Se não, as dores com as provas materiais de descivilização dariam para falar de um pré-apocalipse dessa civilização.

9.3.26

CXIII

Geeze, “Islands of Man” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=C0wDq4g32qg  


Man is an island, man is an island.


Uma caderneta de cromos. Como vindimas de anos diferentes, umas melhores, outras piores, outras que não se sabe bem o quê. Os cromos avulsos são uma montanha de nada. Começam a ganhar forma quando aparecem colados na caderneta, no lugar que lhes pertence. Antes, são peças vulneráveis – podem ser extraviados porque a distração não os reservou do extravio com diligência, ou pode um rival ter-se açambarcado por meios ilegítimos de um punhado de cromos que se diz serem mais valiosos.

Os cromos à espera de caderneta não satisfazem a igualdade. Há alguns que têm mais carisma, são mais procurados pelos colecionadores. Outros foram fabricados intencionalmente numa pequena tiragem: sobre eles abrir-se-á um mercado com vivacidade, com colecionadores tresloucados a perderem a cabeça e a pagarem as fortunas que forem pedidas para tomarem posse destas raridades.

Mas um cromo não passa de um cromo. O cromo é o melhor destino da troça de alguém que não dá conta que também não passa de um cromo. Não passamos todos de cromos com a sua dose de risibilidade por conta. Mas somos cromos desmaterializados, não vamos parar às páginas fartamente dedilhadas de cadernetas. Ficamos aquém do estrelato; não saímos do estaleiro das intenções destinadas a não terem paradeiro. As estrelas são os cromos que têm o aristocrático direito de emprestar o rosto a uma caderneta onde são organizados os cromos dantes avulsos. Para depois perceberem que ficam sitiados por uma revoada de deveres.

Muitos são os anónimos que adorariam ter direito a um apeadeiro numa caderneta de cromos. A repulsa pela pose aristocrática é uma farsa. Muitos são os que querem ser titulares de um estatuto acima da ralé, mesmo que façam parte da ralé. A popularidade é pegajosa, pega-se por simpatia. Mas a popularidade é decadente: deixam de poder andar na rua sem que os olhares se fixem nelas, com aquele ar de quem exclama: “olha a fulana!” Os que atingem o estatuto gostariam de o reverter, para obliterar aquele passo que os extraiu da mediania.

Os cromos com direito a apeadeiro numa caderneta ambicionam o (quase) impossível: dissolver essa popularidade para pertencerem à massa anónima que também é cromo sem pertencer a uma caderneta. 

6.3.26

CXII

In Público, 05.03.26, p. 41.

 

O say can you see, by the dawn’s early light, 

what so proudly we hail’d at the twilight’s last gleaming, 

whose broad stripes and bright stars through the perilous fight 

o’er the ramparts we whatch’d were so gallantly streaming?


Os aldeões contemplam o obus semienterrado num baldio às portas da aldeia. Contemplam, talvez aliviados por o obus, ao falhar o alvo, ter caído em lugar desabitado. Estão aliviados por não terem ficado estarrecidos se o obus tivesse a precisão desejada por quem o lançou.

A fotografia podia ser lembrada como o exemplo de um tremendo falhanço. A maldita tecnologia que cede sofisticação às armas letais, avivando a natureza sangrenta e desumana da guerra, fracassou com este obus. Foi em vão, o seu lançamento. Não causou vítimas, não despedaçou edifícios, não provocou pânico entre as pessoas do lugar destinado a ser o destino da arma mortífera. 

A grelha de leitura deve ser virada do avesso. O erro, o tremendo erro de cálculo que fez despenhar o obus em terra de ninguém, vaticina um êxito desarmante. Desarmante, porque o erro de cálculo que fez cair o obus foi como se tivesse operado a sua desativação. Foi uma arma perdida para o beligerante e um ganho incomensurável medido pelas vidas poupadas e pelos edifícios que não ficaram reduzidos a estilhaços. Na História das guerras, as armas transviadas são um logro apenas para quem as ativou. Ao falharem estrondosamente o alvo, tornam-se um sucesso para o resto das pessoas. 

Para os aldeões, o obus semienterrado em terra de ninguém devia ser motivo de celebração. Se fosse às autoridades do lugar, aquele obus ficaria imortalizado ali mesmo, intacto, sem qualquer intervenção humana, como mnemónica de como se pode louvar uma arma mortífera quando ela falha clamorosamente. Como metáfora de um erro que se transforma numa dádiva. Aquele pedaço encardido de metal afundou-se no próprio fracasso. Esse fracasso foi uma oferenda para as pessoas que, infundadamente, teriam sido atingidas se o obus não tivesse sido um erro transfigurado em sucesso.

Para quem observa através de uma lente humanista, os arsenais são sempre deploráveis pela desumanização que encerram. Só se abre uma exceção para aquelas armas que foram vítimas de anomalias e, falhando no propósito intrínseco à sua ativação, poupando as vidas das vítimas sem nome que tivessem sido apanhadas no caminho, se transformam em celebração.

Só se celebram as armas que tiveram a sorte de falhar no seu propósito. Essas, como mal menor, que sejam erguidas em monumento.