Nine Inch Nails, “Just Like You Imagined” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=kTqWeZZqrcI
Dizem que é a maior indústria da economia nacional. Que dependemos cada vez mais da bondade dos estrangeiros que escolhem este país como destino e deixam aqui rios de dinheiro, alimentando a multiplicação da riqueza e a criação de empregos (mesmo que sejam sazonais). O turismo alimenta hotéis, estabelecimentos de turismo de habitação, alojamentos locais, a indústria da construção civil que constrói os locais onde os turistas pernoitam, restaurantes e toda uma gama satélite de pequenas indústrias que dependem da procura dos turistas (alugueres de automóveis, guias turísticos, visitas a museus e a outros locais de interesse, lojas de recordações, e por aí fora).
Os ganhos estão quantificados: o turismo vale à volta de 20% da riqueza do país. Se o turismo desaparecesse, a economia seria amputada nessa ordem de grandeza. Com as perdas associadas: falências de alojamentos locais, turismos de habitação, hotéis (com a probabilidade a aumentar dos estabelecimentos financeiramente mais frágeis para os mais sólidos); o encerramento de restaurantes, sobretudo aqueles que reproduzem tiques da cozinha internacional, ou de gastronomias que têm sucesso internacional; a indústria da construção civil, que teria de parar a construção de hotéis e a renovação de apartamentos destinados ao alojamento de turistas; o nicho dos sectores alimentados pelo turismo: lojas de recordações, guias turísticos, alugueres de automóveis, os museus com receitas comprometidas; e todo o emprego suprimido, com o crescimento expressivo do desemprego e os inerentes custos sociais (e psicológicos) e as suas ramificações económicas: menos gente a trabalhar no turismo implica menos rendimento distribuído e menos consumo, o que afetaria, em momento posterior, outros sectores de atividade.
Se o turismo acabasse (temporária ou definitivamente), o marasmo económico instalar-se-ia, com a desertificação das cidades e dos locais turisticamente atrativos. Mais importante do que os custos económicos, a ausência de turismo representaria uma mudança na geografia social. Seríamos um país menos cosmopolita. Nas ruas das cidades que mais atraem turistas, deixar-se-ia de ouvir uma constelação de idiomas que se sobrepõem ao idioma local. Os nativos deixariam de aprender a língua franca do turismo como obrigação mínima de adesão profissional. Os nativos deixariam de se cruzar com uma pluralidade cultural de pessoas. A morte do turismo tornaria o país homogéneo, com o consequente enfraquecimento social.
Os prosélitos da portugalidade gloriosa, os que olham sempre desconfiados para o outro (mesmo para o turista que lhes traz, direta ou indiretamente, o sustento) ficariam regalados com tanta mesmice étnico-cultural, com o português como único idioma escutado nas ruas, podendo então exultar que esta é a terra genuína dos patrícios. Estas serôdias personagens deixariam de se incomodar com estrangeiros, com ementas de restaurantes na língua franca (com precedência sobre o português), com o tratamento preferencial reservado aos turistas que é uma humilhação para os patrícios. Deixariam de se incomodar ao encomendarem os turistas à sua terra.
Quem levanta a possibilidade da extinção do turismo é uma conferência internacional (Tourism Con). Pode não ser uma simples conspiração apocalíptica ou um instinto especulativo: segundo a mais fina análise dos peritos, se a guerra no Golfo Pérsico demorar e o combustível dos aviões tiver de ser racionado, ou se o seu abastecimento vier a ser interrompido, os aviões vão deixar de despejar multidões de turistas, interrompendo o turismo.