5.3.21

Consoante muda (short stories #302)

LCD Soundsystem, “Daft Punk Is Playing at My House” (live”, in https://www.youtube.com/watch?v=nCbNTGCB_vg

          As palavras abatem-se, espessas, sobre a pele nua. São como uma chuva que decanta as cicatrizes que o dia deixou tatuadas na pele. As palavras obedecem a critérios. Escolhem-se. As que ajudam a contemplar a impureza. As que fogem dos comboios tumultuosos que não param nos apeadeiros. As que têm vista para o mundo, como se fossem a sua varanda. As que mobilizam a objeção de consciência. As palavras apátridas, na procuração de uma pertença a que se quer fugir. As que sitiam o fautor, mastins disfarçados de lobos mansos. Jogam-se todas essas palavras no intempestivo campo onde uma gramática sem penhor é o húmus que as espera. Muda-se uma palavra, aqui e ali, no julgamento de que combina melhor do que a substituída. Estas não são desprezadas. Mais tarde podem ter valimento. Os olhos revisitam as palavras eleitas. Hesitam. As mãos rebeldes rasgam a folha; ou, em versão digital, os dedos furiosos operam Ctrl+Alt+Delete. Volta-se à forma inicial. À originalidade da folha em branco. Os olhos fechados convocam novas palavras. É a mudez que as habilita, enquanto voam, dispersas, pela tela que é pano de fundo dos olhos fechados. Às vezes, é um exercício mental, sem folha à mão de semear, sem o computador por perto para processar as palavras inventariadas. Recuperam-se os fragmentos da folha rasgada; ou o ficheiro antes de ter sido apagado. O metódico arregimentar das palavras exige a comparação. Pode ser que a segunda folha – o segundo ficheiro – tenha o mesmo destino e o pensamento regresse ao vazio da casa de partida. Ou não: a imperfeição das palavras angariadas não é intransigente. É inata. Um magma que se transfere para as palavras. Corporizando a mais perfeita impureza que se traduz na insuficiência das palavras. Pois há consoantes que são mudas e nem assim se mudam. 

4.3.21

Onde está a passadeira vermelha?

Max Richter, “Mercy”, in https://www.youtube.com/watch?v=uWrc6ihmaE0

A pompa previa uma passadeira vermelha. Uma perene passadeira vermelha por onde quer que passasse. A diligência do escol consentia a extravagância. Não se dissesse da sua pose que era plástica, ou qualquer outro adjetivo depreciativo. Os comuns mortais devem contínuas genuflexões aos do escol. Mesmo que estes sejam tão mortais como os comuns mortais.

Houve um dia que a passadeira vermelha não estava hasteada à entrada do centro cultural. Indignado, mandou um pajem interpelar o diretor do centro cultural. O pajem, investido na autoridade delegada do membro do escol, interrogou o comissário com a sobranceria que é permitida ao escol. O comissário não tinha sido informado do manifesto de visitas. Não sabia que o distinto membro do escol ia honrar o centro cultural com a sua presença.

O comissário mandou chamar o subordinado responsável pelos assuntos protocolares. Fê-lo sob o escrutínio do membro do escol, com a devida proteção dos pajens agenciados para o protegerem. O subordinado insubordinou-se. Respondeu em maus modos ao comissário e contou-lhe meia dúzia de verdades que estavam atravessadas no goto há uns meses. Não contente, a rebeldia estendeu-se ao membro do escol, invetivando-o por pertencer a uma paradoxal oligarquia: tinha lá admissão, na coerência das coisas – protestou o funcionário, lutando contra as tentativas de amordaçamento dos pajens – um emérito abencerragem que teorizou a igualdade irremediável passear a superioridade de casta e exigir, a cada passo, a passadeira vermelha sob os pés?

Outros subordinados do comissário, tomando nota do burburinho, juntaram-se ao acontecimento e entoaram palavras de apoio ao colega que já estava imobilizado pelos pajens em pose de gorila. Dois deles traziam a passadeira vermelha a tiracolo. O comissário e o membro do escol perceberam que era um motim. Mal tiveram tempo para o perceber, e os dois funcionários do centro cultural arremessaram a passadeira vermelha para cima dos gorilas e do membro do escol, enquanto berravam em coro: “toma lá a tua passadeira vermelha. Embrulha nela a desigualdade que desensinaste. Que te faça bom proveito!”

3.3.21

Raio X

Nick Cave & Warren Ellis, “Carnage”, in https://www.youtube.com/watch?v=3eXtxv1nhwI

A parede dura não pode estilhaçar. Arrumam-se os relógios a um canto, contra as probabilidades da memória. Do tempo sentido, aquele tempo que parecia não ter nada a dizer, sussurram ameaças que se propõem como vãs. Não é um raio X que abre o abismo sob os pés. É o chão, se estiver em falta.

Pergunto ao sangue o que conta. Espero pelas veias limpas, hipótese que se agiganta no crepúsculo por onde espreitam as palavras. Do ontem já não lembro se não que foi ontem. Povoo o olhar com os fragmentos bucólicos da paisagem, um arrepio que serve de tumulto para o corpo. A desobediência não serve de caução. É uma tirania que toma conta do tempo, anestesia que adia a matéria em ebulição. O contágio da noite tumultuosa estende-se ao demais dia, por mais que o sumo interior peça para o corpo se desemaranhar de um prazo de validade.

Às vezes, parece que são imprescritíveis os desmodos dos tempos havidos. Não há preces que revejam a matéria já fundida. Não se quer que seja recuperável, essa matéria; se houver direito a uma súplica, ela que seja na forma de um esquecimento, para que nada sobre do tempo pretérito a não ser um corpo e um pensamento, fecundos, virados para o tempo presente. Como se, submetidos a um zero iniciático, o corpo e o pensamento estivessem prontos para o humilde reaprender.

Opõe-se um senão: o raio X iniciático seria a negação de tudo o que trouxe até ao tempo presente. Não se ilide quem se é por um fortuito eclipsar do formato conhecido. Não se volta ao zero sem o esquecimento do futuro. O raio X transparece as consumições, não é um ato caritativo que habilita uma cura. Não se pode ir ao fundo do poço e apagar das suas paredes as pegadas deixadas em património. Pode-se convocar o tempo presente para administrar, em doses homeopáticas, o remédio do futuro. 

2.3.21

Redundância

The Limiñanas ft. Bertrand Belin, “Dimanche” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=DWeNpmSA0-0

Repreende-se a admirável concentração de sinónimos por metro quadrado? Quem precisa de se repetir deitando mão à fartura de sinónimos, tem a certeza do que afirma, ou julga, erradamente, que o sentido só se aclara se vier ancorado à redundância? 

Primeira hipótese de trabalho: o mestre de cerimónias da redundância obteve uma especialização em encher chouriços, mostrando a pouca competência para a síntese. Atira-se ao gongórico, como se o gongórico fosse critério de enriquecimento do texto. Não aprendeu por outra cartilha, a que desafia os escreventes a se situarem no parapeito da simplicidade. O que pode ser dito num punhado de palavras dispensa a sua prolixa alternativa.

Segunda hipótese à consideração: o redundante excita-se com a proficiência de sinónimos que exibe, como se fosse o seu particular cartão de visita que prova a erudição. Ignora que ninguém o contratou para ser dicionário de outrem. Para dicionário de sinónimos não é preciso deitar mão à literatura. 

Terceira hipótese em cima da mesa: a redundância é um estilo que costura a escrita, uma filigrana meticulosa com o propósito de esvaziar o texto na sua constelação de iterações. Como se o texto fosse um emaranhado de lugares-comuns tecido de propósito, com o propósito de mostrar que a teia labiríntica de palavras que são de si sinónimas tem o efeito terminal de se esgotar no recurso às redundâncias. A inflação de palavras origina o minimalismo do significado.

Quarta hipótese: a redundância foi involuntária. Na correção do texto, a distração deixou passar em branco a redundância e ela ficou plasmada em letra de forma. 

De todas as hipóteses, saber a qual delas corresponde o texto do redundante é um tiro no escuro. A menos que lhe seja perguntada a intenção, na hipótese de o autor ainda estar vivo, sem o que a especulação é o instrumento que sobra para estimar a intenção da redundância, em forma de adivinhação. E mesmo perguntando ao autor, pode não admitir a redundância, atribuindo-a a uma tresleitura de quem o interroga; ou, admitindo-o no seu íntimo, recusa-se a dar parte de fraco, porque ele próprio está do lado dos que se incomodam com redundâncias. 

Sobra a derradeira hipótese de trabalho: a decantação da redundância é um processo estéril. Um julgamento arbitrário que se impõe sobre um texto de outrem. Quem disse que as redundâncias não têm direito à existência?

1.3.21

Quando a oposição era oposição a si mesma

Warpaint, “Ashes to Ashes”, in https://www.youtube.com/watch?v=4Ou7VwS3pSw

(Da série “ciência política para amadores” – e qualquer semelhança com a realidade pode não passar de uma coincidência)

A oposição encarniçada era um distante fogacho da memória. Não os havia, nesses quadrantes, estouvados vozeadores que grasnassem contra o governo. Agora era diferente. Em pessoa, o mais alto magistrado convocava o magistério de unidade: “os tempos são severos e os desafios jogam-se a preceito. Só há lugar à unidade nacional”.

A maioria (não a do governo; das pessoas) andava apática entre a apoplexia do tempo amputado. Angustiadas com os espectros que salivavam a instalação de um apocalipse, as pessoas obedeciam ao mais alto magistrado: “ele sabe do que fala, com a autoridade intelectual da cátedra e da residência permanente nas televisões.” A oposição moderada, a que tem aspirações à alternância no governo, seguiu obedientemente a instrução presidencial. Demitiu-se de ser oposição e entregou a empreitada a um neófito radical que fede a demagogia e calculismo soez.

A oposição com aspirações foi apanhada numa armadilha. O dilema não era de somenos importância. Ora se apresentava com a carga da responsabilidade de quem aspira a ser governo em tempos vindouros, ou boicotava o esfoço de unidade nacional vertido nas palavras presidenciais. No primeiro caso, a oposição hibernava. No segundo caso, era contaminada por laivos de irresponsabilidade que se podiam jogar contra a ambição de se entronizar futuramente. 

O mais alto magistrado tirou o tapete à oposição, condenando-a a um estatuto de duradoura oposição. E a oposição, acatando a doutrina presidencial, esvaziou-se e passou a ser oposição a si mesma. Doravante, será extraída certidão destes tempos inusuais e dir-se-á que tão extravagantes eles foram que até a oposição emudeceu, do silêncio terçando a autofagia. Os regentes, em contrapartida, passando entre os pingos da chuva sem ser molharem, nem tinham de olhar por cima do ombro desconfiados que a oposição estivesse a cuidar do que se esperava ser sua incumbência – ser oposição.

Os historiadores do futuro terão lucidez para determinar que a doutrina presidencial foi o dote oferecido aos regentes, banindo os laivos de dissidência do espaço público. Nesse tempo futuro, fazendo atuar o olhar retrospetivo, dir-se-á que uma peste houve que cuidou de repristinar imperativos categóricos que se julgavam perdidos na memória de uma página negra da História coletiva. Só falta perguntar, aos historiadores do futuro, se a oposição consumida na oposição a si mesma algum dia mudou de estatuto. Se houver algures um historiador do futuro, espera-se resposta – porventura em forma de carta aberta, com tanta popularidade nos tempos atuais.

26.2.21

Revogação (short stories #301)

Daniel Catarino, “Hey”, in https://www.youtube.com/watch?v=sh7Via0gE-w

          As roupas rasgadas. As lágrimas estugadas. Os lamentos improfícuos. Um altar sem deus para venerar. Um nome que se arrepende. A última súplica, antes da convulsão da lua. A espada embainhada no estertor da noite. O abismo sem marca de água. Os dedos quentes que desenham os mares em sobressalto. Os papeis amarrotados deixados ao acaso como destroços da insignificância. O itinerário corrompido pela alma sem fundo. O sangue em convulsão. Um navio que parece fantasma, oferecendo ao rio o seu caudal. A pele caiada. O chamamento dos novos antes que venha o entardecer. A voz que não emudece. O estirador onde se compõe o tempo. A tempestade poética. As ruas sem gente. O móvel que ganha poeira. Os lençóis quiméricos. Os corpos entrelaçados. O tear onde se desembaraça a angústia. As neves eternas, inacessíveis. As leis sem precedência. O amor-próprio, inconsequente. As imagens recorrentes no pedestal que se afunda no precipício. Deuses sem nome e paradeiro. O vulcão aceso. A formidável congeminação do pensamento, imparável. O voo dos iconoclastas que se perdem na indigência. A matilha que atravessa a floresta à procura de abrigo. O olhar sentido enquanto as palavras se arrastam no torpor da cidade. As mãos, outra vez as mãos, na moldura perfeita. A memória futura, desligada do medo. Os nomes esquecidos. Os rostos esquecidos. As palavras que tiveram palco. As juras desarrumadas. O penhor da honestidade contra o sobressalto interior que desavença a mentira. Um infinito que continua incógnito. O uivar de lobos famintos que habitam as cumeadas. As legendas que traduzem um rosto impassível. O corpo outro, frio nos despojos da noite. O vinho, em sagração. O improvável contumaz. A fuga sem causa. O timoneiro sem séquito. O adiamento, até ontem. O avesso da severidade. Um nome em forma de gentileza. A revogação. Do futuro.

25.2.21

Zona demarcada

Interpol, “Untitled”, in https://www.youtube.com/watch?v=Qm2oBSCtImg

Meço o chão que me dá esteio. Procuro o húmus escondido sob as capas superficiais. A geografia da alma não se esconde dos contratempos que a esculpem. Nas raízes dos dedos, até as árvores centenárias são pequenas. Um esboço de alma fortificada tutela uma razão a que se não oferecem razões.

Descarnado, sou o peito aberto que se entrega ao escrutínio. Não diria ser pago por um abismo, que de outras contrafações ninguém está a salvo. Vejo-me por fora de mim. É como se estivesse deitado num sofá e eu, ao ver-me por fora de mim, não soubesse quem estou a ver. Uma sensação de estranheza a percorrer o corpo do eu-observador, enquanto o eu-observado, desarmado, não se apercebe da conspícua observação. O dilema não se resolve com uma paga simbólica, nem com conspirativa corrupção. Talvez só sejamos plenitude quando formos perenemente observadores exteriores do nós mesmos. 

Não desisto. Agarro o vento com as duas mãos, com toda a força, como se fosse o meu leme. Fico à espera que os poros se tinjam com o perfume do tempo e que esse perfume não seja uma tautologia. Não é o desalfandegar do futuro que procuro. Apenas quero que o vento me diga quem sou, se é que ando à procura de o saber; pergunto ao vento se preciso de tamanha demanda: não parece caso para tanto (responde o vento). Mesmo nos labirintos onde temos a despertença por companhia, há um mapa escondido no magma que deixa acesa a candeia necessária. A prudência desaconselha o ensimesmar sempre que resulte no culto da personalidade. Pois não há nada para cultivar, neste respeito. A fermentação já teve o seu tempo. O ensimesmar é a orfandade do eu, de um eu impróprio para consumo.

 Descarnado, observador exterior do eu que sou, vejo na tela dos sonhos a irradiação de um santuário sem regras, um mar arroteado sem instrumentos náuticos, as estrofes desembaciadas no fulgor da manhã, a arrumação do caos numa constelação fértil, a desautorização do verbo corrente a favor das sílabas vagarosas debruadas a ouro. Vejo um espetáculo admirável, indescritível, o indeferimento do tempo impróprio que nos sitia. 

Vejo, porventura, a zona demarcada sob os meus pés, no chão que meço como esteio.

24.2.21

O tesouro dos loucos

Fool’s Gold, “Surprise Hotel”, in https://www.youtube.com/watch?v=W0wPNow3ymc

Do transporte da fortuna, um tesouro que se furta aos dias selvagens. É o tesouro dos loucos – dizem, com desprezo. Um tesouro: pois há quem, entre o arvoredo irrepresentável, saiba congraçar os tumultos e devolver à casa da partida a bonança não demarcada. 

Andam de apeadeiro em apeadeiro, os olhos fugindo dos mastins que se escondem nas arestas não mapeadas. Mestiçam-se nos interstícios das sílabas, amealhando o tempo precioso que fica órfão entre cada sílaba. Entesouram todo esse tempo. Sabem que o tempo não se inventa na escala por que é medido; o subterfúgio para o inventar é procurar os vazios entre duas medidas de tempo, que nesses vazios também se encontra o paradeiro do tempo.

Dizem que os loucos são evasivos, que não se ajuramentam à lucidez. Consideram que isto os desacredita. Os tão lúcidos, porém, nem dão conta como a flamância vem caiada com um véu que a obstrui. Acabam a definhar na antítese do que se dizem tutores. Por ofensa ao tempo que é uma medida escassa e por amesquinharem os loucos que sabem adestrar o tempo. Os assim lúcidos não contam nem para si mesmos. 

Os loucos não se importam que lhes chamem loucos. Não se importam de serem párias do mundo irrisório. Preferem cingir a existência aos limites que estão fora das fronteiras do mundo – uma categoria invulgar de deslimites que identifica os loucos deste quilate. Eles sabem que o tesouro está escondido no entardecer onde se embaciam os segredos, já sem palavras mártires. São segredos porque querem que o sejam, não por ação do acaso. O tesouro deixa-os suados em ouro, enquanto emprestam os rostos a um retrato de fogo. Sozinhos com o seu tesouro, iluminam o dia em deposição da noite e servem a noite quando o dia se cansa de o ser. 

Os loucos com esta tutela desafiam os códigos de conduta. Não se interessam pelo mundo consuetudinário que os isola em ilhas sem acesso. Nesses lugares, onde são a síntese de um sentimento puro, os loucos não esbracejam o tesouro em sua posse. Enjeitam a ostentação. Magnânimos, prestam um favor ao restante mundo: guardam para eles a condição de louco, não generosamente cunhada pelo mundo restante, e preservam-no de tamanho desqualificativo. Não querem que os não loucos desçam à condição de loucos. Não haveria tesouro tanto para repartir por tantos loucos.

23.2.21

O cão que entrou no jogo e foi expulso pelo árbitro

Deftones, “Genesis”, in https://www.youtube.com/watch?v=fbp0bET06wc

Não se saberia dizer ao certo se ainda eram onze contra onze que pelejavam pela bola no relvado municipal. O jogo já ia adiantado e, em estando adiantado, a probabilidade de um interveniente ter ido embora mais cedo era elevada. Para o caso, a suposição das equipas por completo. De repente, no relvado municipal entrou um intruso e passaram a ser vinte e seis a pisar o relvado. Um cão, sem pré-aviso, saltou para dentro do relvado e, em passo vagaroso, indiferente à labuta dos novos gladiadores, saltitou por ali fora.

O árbitro não esteve de modas. Interrompeu o pleito, pois as leis do jogo ordenam que o jogo deve ser suspenso se um elemento estranho nele se infiltrar. Era isso, um infiltrado, o canídeo nitidamente vadio – e nitidamente, por falta de coleira identificativa. Para o árbitro, era indiferente a condição do cão. Fosse vadio ou não, era um elemento estranho ao jogo. Depois do apito estridente, o árbitro anunciou, com a voz grossa de quem ajuíza os descaminhos dos outros, que havia um elemento estranho ao jogo e que era preciso removê-lo.

Como os pleiteadores interromperam a função, travando a correria insana à procura da posse da bola, o canídeo imitou-os. Impassível ao burburinho causado por um dos três homens que vestiam de preto, desceu as ancas ao nível do relvado e sentou-se, à espera que a correria fosse reatada. Não sabia, o cão vadio, que o árbitro não estava pelas medidas. Viu aquele homem vestido de preto a caminhar, resoluto, na sua direção. Ele não era desconfiado. Porventura o homem vestido de preto era amigo dos animais e, ao vê-lo no relvado, queria afagá-lo. 

O cão equivocou-se. Em passo célere e pose militar, o homem vestido de preto meteu a mão na algibeira junto ao peito e tirou um papel vermelho, dirigindo-o, austeramente, na direção do cão, enquanto a outra mão apontava num sentido que levou o cão a inquirir se, por acaso, não seria o lugar onde umas iguarias o esperavam. O cão, insistentemente sentado, não obedecia às ordens, treslendo o significado do cartão vermelho que o árbitro zeloso exibira. Mas o cão não estava enganado. O seu olfato apurado sentiu o perfume de uma iguaria que vinha das suas costas. Era uma senhora idosa que acenava com um pedaço de carne (uns humanos disseram “bifana”), enquanto a outra mão atraía o cão ao seu encontro.

Ficou para a História o caso em que uma idosa conseguiu ter mais autoridade no jogo do que o árbitro que o tutelava. E ficou para a História o caso de um cão adotado pelo clube da terra que, em supersticioso exercício, dando-se o caso de a agremiação ter derrotado a mais rival de todas, fez do cão vadio a sua mascote.

22.2.21

A Constituição é heterossexual ou os homossexuais (deviam ser) inconstitucionais?

Micro Audio Waves, “Down By Flow”, in https://www.youtube.com/watch?v=rHgrfRIcUWE

A verdade – que o chamado lobby gay gostaria de ignorar – é que os homossexuais não passam de uma inexpressiva minoria, cuja voz é despropositadamente ampliada pelos media.

João Caupers, presidente de Tribunal Constitucional

Premissa: a cada um o seu direito à opinião. A liberdade de expressão admite o que julgamos inaceitável, o risível, o abstruso, o nosso oposto, tal como admite o que julgamos serem ideias formidáveis, ou apenas declarações que passam anónimas pelo meio dos pingos da chuva. A liberdade de opinião é um caminho de dois sentidos: não podemos protestar contra alguém que reprimiu a liberdade de expressão de outrem e depois propor que alguém que está nos antípodas da nossa posição seja calado. Convém não o esquecer: um caminho de dois sentidos.     

Interpelação: um juiz do Tribunal Constitucional devia ter um cadastro imaculado no que ao disparate em registo escrito diz respeito? Proponho um axioma em resposta (e um par de interrogações em sua articulação): todos temos o direito à tolice. Aqueles que escrevem e deixam peugada dos seus escritos, quantos já não abjuraram textos escritos num tempo pretérito? Quantos, ao voltarem a um texto com o lastro do tempo, não o reescreveriam se o quisessem reescrever?

Nem a premissa nem a factologia impedem que discorde da posição assumida pelo presidente do Tribunal Constitucional (ou por qualquer outro simples mortal). A citação do presidente do Tribunal Constitucional causa-me náuseas, mas nunca pretenderia silenciá-lo. São estas posições polémicas que contribuem para o amadurecimento da sociedade. Instigam o debate e permitem-nos assumir uma posição que não seja apenas frívola. São o rastilho do pensamento estruturado.

 Como espero que a minha heterossexualidade seja respeitada por todos os outros (homossexuais, heterossexuais e outros, sem distinção), autoimponho um dever de respeito pelas opções sexuais dos outros. Não uso como recurso construções mentais (e menos ainda as reservas mentais que o magistrado tem) que dispõem rótulos quantitativos nessas opções sexuais – como os números fossem confundidos com legitimidade democrática. Eis a bitola argumentativa do presidente do Tribunal Constitucional: se és uma minoria, devias ter acesso proporcional ao palco público. Perguntar-se-ia ao douto juiz: e se a medida for ultrapassada, silencia-se o excesso para fazer respeitar a sacrossanta proporcionalidade?

A homossexualidade dos outros parece incomodar João Caupers. Há naquelas palavras um acinte mal disfarçado. O presidente do Tribunal Constitucional acantona os homossexuais, essa “inexpressiva minoria”. E revolta-se contra a voz desproporcionada dos homossexuais (ou do lobby que por eles move influências) no palco público servido pela comunicação social. Caupers joga ao jogo da adivinhação: a tal “verdade” – e isto de capturar a verdade numa moldura é todo um programa de intenções – que “o lobby gay gostaria de ignorar”, faltando saber que método indagativo escolheu para chegar a esta conclusão: fez um inquérito boca a boca (não precisa de se assustar, Professor Caupers...), ou é apenas uma impressão que assomou à sua porta? É a minha vez de entrar no jogo da adivinhação: a homossexualidade dos outros incomoda assim tanto o presidente do Tribunal Constitucional? Assalta-o em pesadelos? Ou, ao invés, protagoniza inconfessáveis delírios oníricos no juiz-conselheiro, que tenta reprimir através de uma veemente reprovação?

O presidente do Tribunal Constitucional parece muito confortável em saber que os heterossexuais são a maioria. É uma reação pueril. O que interessa se alguém faz parte de uma maioria ou de uma minoria, se o que mais interessa é se estamos bem por dentro de quem somos? Não parece ser o caso da – jogo outra vez ao jogo da adivinhação do Professor Caupers – alma atormentada do presidente do Tribunal Constitucional.

(Outra lição que se retira deste episódio é que a impressão digital do que escrevemos no passado é inapagável. E: ou somos audazes e oferecemos o nome a tudo o que foi escrito; ou somos timoratos e pensamos um par de vezes antes de dar um texto à estampa.)