Cold War Kids, “Hang Me Up to Dry”, in https://www.youtube.com/watch?v=LrrGKR8Xii4
O reboliço por causa da inteligência artificial (IA) continua a aumentar. As posições estão extremadas: os defensores advertem que ninguém conseguirá viver sem ela e os detratores pintam cenários catastróficos que, no pior dos casos, passam pela anorexia humana. Pelo caminho, todos os dias a IA envia notícias que vão deixando muitas pessoas boquiabertas. Parece que a IA apressa o futuro – ou que, através dela, sentimos que ele chega mais depressa do que contávamos (o que não é necessariamente uma boa nova).
Os conservadores de vetusta linhagem, aqueles que se ajuramentaram conservadores porque o seu otimismo antropológico os leva a defender as virtudes do que é virtuoso (e se é virtuoso não deve ser permeável à mudança), desconfiam da IA. Não se convencem com a ajuda da IA em tarefas que, de outro modo, consomem muito tempo e são fastidiosas. Desconfiam do mau uso que pode ser dado à IA. São eles que ostentam na lapela a divisa “dantes é que era bom”, enquanto sacodem a poeira do fato de três peças ou do vestidinho que, desmaiado, cai sobre os seus corpos largos.
Os vanguardistas excitam-se com as possibilidades da IA. Olham em retrospetiva e anotam a velocidade estonteante do desenvolvimento da IA. E observam que cada vez mais gente recorre à IA. Não se preocupam com o uso indevido, à sua maneira também são otimistas antropológicos. Subtraídos os que ajuízam em causa própria (porque alimentam o desenvolvimento da IA), os demais estão em condições de anunciar que no futuro é que era tudo bom.
Há dias, descobri uma música dos Gorillaz que usa a voz de Mark E. Smith, que foi vocalista dos Fall e faleceu em 2018. A voz de Smith é manipulada pela IA, porque a tecnologia ainda não permite resgatar a voz de um defunto. Não sei como terão reagido os familiares de Mark E. Smith (ou se terão sido consultados para autorizar a utilização da voz do cantor), mas deve ser estranho ouvir uma voz que vem do além. Com a IA, tornou-se possível ir buscar vozes ao além – e agora já existe uma geolocalização precisa do além, é só perguntar à IA que ela trata de descobrir.
Um dia destes, vamos ter o prazer de assistir ao programa de televisão de Nigella Lawson em que o convidado é Nietzsche. É só mais um passo à frente: com Mark E. Smith, a voz veio do além para cantar o refrão de uma música dos Gorillaz; no caso do programa de televisão de Nigella Lawson, serão todo o corpo e voz de Nietzsche somados, com a cortesia de uma IA ainda mais avançada. Para mais tarde, será decidido que palavras serão ditas pelo filósofo (ou se fica ao critério volitivo da IA), antes que ele termine a sua participação no programa abrindo a boca para degustar os pratos preparados em conjunto com a anfitriã.
E quem imagina a clonagem da voz de Mark E. Smith ou, num nível mais avançado, os dotes gastronómicos de Nietzsche, é só o início de um mundo de possibilidades. Fica ao critério da imaginação humana, com a prestimosa colaboração dos sistemas de IA, até estes esgotarem a necessidade da imaginação humana.