Nick Cave & Kylie Minogue, “Where the Wild Roses Grow” (live at Brighton), in https://www.youtube.com/watch?v=7eZszLFg4jQ
As fotografias são verbos vistos em pedaços de imagem roubados ao tempo. Ao serem transformados em fotografias, ganham uma moldura do tempo imorredoiro – por isso são roubados ao tempo, e o tempo não se lamenta.
Não há instante que não possa ser açambarcado por uma fotografia: um rosto ao acaso, um vestígio de paisagem, uma multidão que acende a cidade, um músico que cuida da sua arte e pede o aplauso do público, um edifício histórico, uma casa banal, um animal no seu habitat. Hoje, as câmaras fotográficas já não são o material imperativo para fazer fotografia. Artística, ou não, a fotografia tornou-se democrática com as minicâmaras fotográficas que vêm a tiracolo dos telemóveis. A fotografia não se democratizou: banalizou-se.
Sitiada pela banalização, a fotografia entrou em decadência. A cada segundo, quantas fotografias são tiradas? E quantas eram tiradas no mesmo espaço de tempo quando só se podia fotografar com máquinas fotográficas? Houvesse alguém que cuidasse da estatística, só para sabermos quão banal se tornou a fotografia.
Não é que já não haja muito por fotografar. Os lugares por explorar superam o número de fotografias e de seus autores. A espontaneidade dos gestos é irrepetível, habilitando a renovação das fotografias sem lesar a sua originalidade. Os diferentes olhares sobre o mesmo objeto abrem uma constelação de hipóteses para a fotografia. Talvez seja cedo de mais para decretar a decadência da fotografia; talvez nunca venha a existir um tempo da decadência da fotografia. O desmentido válido arranja provas que o confirmem.
Um dia, o rosto estava luminoso como nunca. Seria da luminosidade espantosa, um momento singular que se abraçou à escala do tempo. A fotografia saiu inspirada. Rimou com a singularidade do momento. Fulgenteou a biografia do retratado. A fotógrafa exclamou: “estás tão bem nesta fotografia!”. O rosto fotografado encheu-se de brios. (Por mais desconfortável que se sinta com um elogio, ele é matéria tão rara que não pode ser desprezado.) Recuou logo a seguir: foi a luz quimérica que emprestou beleza ao que não é. A fotografia é um dicionário de disfarces (e nem se fala de ser retocada por ferramentas que a adulteram).
Daquele rosto cansado, tatuado por rugas que não se escondem dos olhos todos, já só havia a esperar a decadência que se inclina com o beneplácito do tempo irremissível. O rosto luminoso na fotografia era só um fingimento.