DIIV, “Trillions”, in https://www.youtube.com/watch?v=6Fb97C_dv0A
Vai um pé de vento por causa das exéquias de umas cunhas alegadamente metidas por um ex-secretário de Estado a favor de pessoas que vinham “bem recomendadas” – uma, alegadamente (a insistência no “alegadamente” não é por acaso ou por distração), com bênção institucional irrecusável, duas por obrigação partidária, uma última (que se saiba) porque partiu de uma figura pública com elevada sensibilidade humanista e a linhagem certa.
De resto, grassa o oportunismo: dos populistas incorrigíveis que segregam ódio contra uma casta que esteve muito tempo no poder, tudo servindo para derramar sangue em público; do lado contrário, por reflexo condicionado (há que combater a extrema-direita, nem que seja preciso militar no paradoxo), faz-se a defesa de honra de um ex-secretário de Estado invocando um argumento à la Luís Neves: há cunhas que se metem por comiseração (todas as cunhas mencionadas estavam relacionadas com hospitais ou a saúde de pessoas), há um módico de decência justificado por exigências de humanidade que atiram a ética republicana para segundo plano. Ou seja, há circunstâncias (o apelo à humanidade e à compaixão) que justificam a cunha.
Foi Ana Sá Lopes que o defendeu, num artigo de opinião no Público, misturando argumentos com pretextos e banalizando a cunha, aumentando-a àquilo que ela é: uma instituição, informal, mas uma instituição (daí a analogia com o ministro da administração interna). Só faltou à jornalista erguer o dedo em riste e acusar os acusadores: o primeiro que nunca pediu uma cunha que levante o braço — como quem insinua que todos já contribuímos para um arranjinho à margem das leis e da igualdade.
O problema deste comportamento é que se espalha como um vírus para as demais relações sociais. Pessoas bem posicionadas em partidos ou em instituições do poder recebem convites para favorecer alguém que tem a cunha certa. Isso dá o poder de decidir a quem satisfazer, no tira-e-põe entre os que passam à frente e os que ficam para trás. A palavra certa à pessoa certa no momento certo pode desbloquear impasses que, de outra forma, permanecem como bloqueios.
Os que estão fora desses círculos e desses contactos ficam à margem de regalias e, por vezes, de sinecuras, instalando-se uma desigualdade que os melhores esforços dos que exercem a paternidade da cunha não conseguem omitir. E depois há a cunha virada do avesso, que é pouco subtilmente ativada através das palavras ou de pedidos (disfarçados de ordens) dos poderosos. Já me aconteceu ser chamado a justificar a um reitor a classificação de cinco valores num exame da sobrinha-neta do então presidente da Assembleia da República. Já recebi um telefonema de um colega, (na altura) muito bem colocado na universidade onde ensinava, a recordar que a sobrinha ia a exame comigo pela terceira vez, fazendo questão de sublinhar (disse-o três vezes) que não me estava a pedir nada – e a estudante, que nunca passou de quatro valores, subitamente produziu conhecimento para ser classificada com dezasseis valores. Ou, ainda nessa universidade, tendo a meu cargo um processo disciplinar instaurado contra um colega por suspeitas de assédio sexual, ouvi o reitor dizer: “Tenha muito cuidado com o que vai decidir. Muito cuidado”, num tom ambíguo que levará o(a) leitor(a) a perceber que mensagem me estava a ser dirigida.
Os favorecimentos decididos por quem tem poder, ou por intercessão de terceiros com acesso às pessoas que detêm o poder, são uma forma ostensiva de exercer o poder. Tendo sido pressionado algumas vezes (ficam, para memória futura, os três exemplos acima mencionados), esses favorecimentos inquietam-me. Primeiro, a venerada ética republicana, insistentemente convocada pelos socialistas, fica para segundas núpcias quando se trata de validar a minudência da cunha ativada por um correligionário. A ética republicana comporta exceções, sobretudo se elas partirem de pessoas de perfil público e com responsabilidades políticas e tiverem o cartão de militante correto. (Para que não sobrem dúvidas, esta inquietação é tão válida para o PS como para o PSD, com as suas engrenagens bem oleadas de favorecimentos seletivos.)
Segundo, alguns dos que são capazes de considerar a normalidade da prática esquecem-se de que são zelosos defensores da igualdade como valor político. Ao admitirem a normalidade da cunha, desfiguram a igualdade. Não é possível defender a seletividade das cunhas, baseada em critérios de filiação ou afinidade partidária, ou qualquer outro critério remoto de favorecimento, e o princípio da igualdade: ou as cunhas enraízam-se e destrói-se a igualdade, ou defende-se a igualdade e não se transige com as cunhas.
Admito, ao lado de Ana Sá Lopes, que Lacerda Sales está a ser a vítima sacrifical dos proponentes de um moralismo social cansativo e frequentemente contraditório. Lacerda Sales é a vítima útil de outras contendas e foi apanhado pela métrica da cunha, como se fosse o único cidadão pátrio a promover essa prática. Alegadamente (outra vez...), num dos episódios em que o seu nome veio a lume, há peixe graúdo que conseguiu passar entre os pingos da chuva. Lacerda Sales carrega às costas o opróbrio de um país que se habituou a viver no meio, atrás e através de cunhas.