Royal Blood, “How Did We Get So Dark?”, in https://www.youtube.com/watch?v=sbx95gBb5HM
“(…) the tables would turn
and I could have told you
everything you’ve learnt
would burn to dust
now there’s no one you could trust (…).”
De quantas páginas precisamos para protestar contra a soez condição dos homens e mulheres que cedem perante o chamamento da realidade que nos cerca? De quanto tempo precisamos para entender os homens e mulheres que teorizam sobre a realidade que nos cerca, aderindo a um pragmatismo que trava o passo aos idealismos? Do que precisamos ainda, além das lições da História, da Antropologia e da Psicologia, para sabermos que o Homem lobo de si mesmo tende a constituir-se numa espécie em vias de extinção?
A beligerância está outra vez em alta. Passam os anos sobre as guerras mais sangrentas e a memória estiola num esquecimento lancinante. De repente, a imagem distante desses conflitos emagrece a memória; o tempo que passou, que não passa de uma vírgula no espaço dos séculos que se estende na História da humanidade, transforma-se numa medida que ultrapassa a memória de gerações. Já não se evoca a memória dos conflitos mais sangrentos como terapêutica preventiva da propensão do Homem a decair na guerra.
À beligerância de uns corresponde o rearmamento dos demais. Dizem os peritos, embebidos na sapiência que lhes é devida e transpirando um otimismo desarmante: a vertigem pelo rearmamento é para dissuadir os beligerantes que nos ameaçam. As armas não serão utilizadas, existem para dispensar os outros, os que exibem a sua pose agressiva e não escondem as ameaças em que se constituíram, de usarem as suas armas contra nós. Rearmamo-nos com o propósito de manter a tão frágil paz que se tece no abismo dos arsenais reforçados. Existe maior contradição de termos?
A interiorização da corrida às armas é um sinal exato da infâmia da espécie. O desexemplo não cessa de acossar: o reforço dos arsenais custa rios de dinheiro. Os peritos revelam as fortunas que vão ser gastas e acenam com a cabeça, defendem que é um gasto necessário para não sermos invadidos pelos inimigos que medraram. São montantes colossais, invocados com a naturalidade de quem atesta a inevitabilidade da despesa – na caserna, alguém refletirá, em pose professoral, que os valores, por serem valores, custam caro se os quisermos manter. Podemos cobrir com seguros os riscos que assumimos na vida civil. Mas esses riscos não dependem da ação humana (como a proteção contra a beligerância dos outros), dependem de eventos que estão fora da vontade humana. A comparação, que alguns fazem, é indevida.
Fala-se friamente dos números que dão uma expressão viva ao tanto que temos de gastar em armas se quisermos viver à margem das ameaças dos que são ostensivamente agressivos. Fala-se friamente porque se pressupõe que a omissão de tais gastos nos coloca à mercê da agressividade dos beligerantes e da possível extinção dos valores que nos conduzem. Não se fala dos destinos que essas fortunas poderiam ter, de como poderiam melhorar a vida de pessoas concretas.
Os peritos, na sua frieza analítica, tão viciados no realismo em que se embebem, dirão que as pessoas concretas poderão desaparecer se ficarmos desprotegidos, à mercê dos soezes que constituem ameaças perenes à paz. Quando assim é, já capitulámos perante a desumanidade dos outros. Ao usarmos os mesmos meios que eles usam, deixamos de ser assim tão diferentes deles, por mais que os peritos invoquem a existência de uma diferença abissal entre a beligerância de quem ameaça atacar e o rearmamento de quem se quer proteger das ameaças externas.
Esta é uma altura em que não compensa segmentar a humanidade em subespécies consoante a sua adesão à paz e a sua propensão para a beligerância ativa e estruturalmente enraizada. Somos todos humanidade. E, se a humanidade sempre teve parte na intolerância, na objeção do outro quando difere de nós, talvez seja altura de assumir a ingenuidade de quem se atém ao esteio utópico de uma humanidade mudada. Se a humanidade não mudar, vamos continuar à mercê daqueles que não hesitam em sacrificar as vidas dos que se lhes opõem. Vamos continuar a despejar rios de dinheiro em armas que, ou são usadas para matar vidas e estender impérios (esse conceito arcano), ou são mantidas, sem serem usadas, apenas para que os outros não usem as suas armas contra nós.
Só os poetas e os distraídos não admitem que uma utopia não é uma expressão de ingenuidade. Tendo alguma proximidade com os peritos aqui mencionados, cada vez mais me apetece ser porta-voz dos ingénuos que se agarram à utopia de uma humanidade curada dos seus males enraizados. Porque despejar rios de dinheiro no rearmamento é sintoma de uma doença que se apresta a ser terminal.
Se não aprendemos nada com a História, ficamos mal no acerto de contas de que não podemos fugir. Porque da História não podemos fugir, mesmo que dela pouco saibamos ou fingirmos pouco saber. Por mais que tentemos correr atrás do futuro, procurando dele ser seus arquitetos, prevenindo os piores cenários através do avivar dos arsenais, essa é uma corrida que perdemos sem sequer sair da casa da partida. No pior dos cenários, que os peritos asseguram não ter probabilidades de se materializar, seremos nós, homens e mulheres, a perder. Todos, sem distinção de nacionalidade, independentemente de como pensamos a humanidade.
Os sonhos, escapando por ora ao saque fiscal, devem ser vindicados quando necessário. O meu sonho imediato é que as vontades humanas se conciliassem no sentido do desarmamento, e que todos os rios de dinheiro que serão usados em futuros arsenais pudessem ser destinados a fazer com que as pessoas vivessem melhor.