Tricky, “Black Steel” (live at Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=8hWdxCXWqXQ
“Here is a land that never gave a damn (...)
I’m not a fugitive on a run.”
A parede enodoada queria contar estórias. Talvez só se o olhar se socorresse de um microscópio profissional para varrer todas as vírgulas e parágrafos das vidas que lograram ser hóspedes anteriores.
Ou a parede enodoada apenas queria dizer que o lugar não era diligente. A variedade de sinais encontrados, se o microscópio profissional fosse usado, ajudaria a fazer uma cartografia. Mas não das vidas dos hóspedes anteriores, elas ultrapassam por todos os lados os breves momentos em que se alojaram sob os auspícios daquelas paredes. No máximo, a cartografia de uma estadia. O que conversaram, os filmes que viram, os livros que leram, a comida que levaram para o quarto, o registo da intimidade.
A parede enodoada não era um convite a essa intrusão. Era apenas uma parede que devia estar higienizada para que o estabelecimento fizesse jus às quatro estrelas – estes tempos são trespassados por uma indulgência geral que transporta a generosidade para qualquer exercício de avaliação. Nas entrelinhas da parede enodoada não estava um convite para inventariar as vidas hospedadas anteriormente. As paredes de um quarto de hotel transpiram apenas um minúsculo quinhão das vidas que as conheceram. Não são um postal a convidar à indagação das vidas pretéritas.
As vidas outras são matéria que deve pertencer ao desconhecimento. Não é preciso saber delas quando a vida própria é tão escarpada. Um quarto de hotel é uma forma involuntária de partilhar um espaço com vidas desconhecidas. É uma porta giratória dessas vidas. O melhor critério será segmentar o tempo em fatias bem delimitadas, separando o antes do agora. Desse modo será fácil separar a vida própria das vidas outras que coincidiram entre aquelas paredes num tempo pretérito. Ou então, aos mais exigentes será vedado frequentar hotéis para não serem desafiados por estas questões que são questões inventadas por causa de caprichos inatendíveis.
As paredes, enodoadas ou não, têm um prazo de validade curto. Prescrevem, assim que mudam os hóspedes. É como se tivessem sido renovadas e apresentassem a sua melhor cara aos próximos hóspedes.
