Spain, “Untitled #1” (live NPA Canal+), in https://www.youtube.com/watch?v=1u5sQuad41o
O partido mais votado fez a sua festa anual lá para os lados onde o país se tornou país há menos tempo, depois de espadeirados os muçulmanos. Foi notícia de destaque nos jornais (lembram, os jornais, que nos anos anteriores o timoneiro do governo aproveitou a festança para anunciar grandes medidas que afinal se reduziram a pouco mais do que nada, a não ser para a imagem auto-desejada do governo).
Num dos jornais, a fotografia do timoneiro do governo no entardecer prévio da festa em pose semi-estival: camisa branca, mangas arregaçadas, dress code obrigatório. O que despertou a minha atenção foi um jovem adolescente em pano de fundo, envergando uma bandeira do partido e olhando com admiração para o líder do partido.
Versão A
O jovem cresceu e, trinta anos depois, a veia inquisidora (na boa aceção do termo) de uns jornalistas encontrou-o à frente da Secretaria de Estado da Inteligência Artificial. Os traços faciais mudaram muito, talvez porque o outrora jovem engordou como sinal do sucesso profissional e material que foi amealhando, frequentando restaurantes de elevada craveira e não deixando por créditos alheios as constantes tainadas bem nutridas e bem regadas. O jovem, vieram a saber os jornalistas trinta anos depois, sulcou pacientemente o seu caminho na estrutura partidária. Primeiro na “jota” e depois na vida típica dos partidos, feita de conspirações, manobras desleais, comícios e correspondentes jantares com carne assada como ementa predefinida, discursos arrebatados, favores trocados e promessas de sinecuras que estão mais a jeito quando o partido está no governo. Se não se cuidar – já o avisou o médico pessoal, companheiro de partido, aliás –, vai ser encomendado precocemente ao além. Quando os jornalistas perguntaram se se recordava daquela fotografia, não hesitou, com a voz plena de orgulho: “nunca faltei à festa anual do partido” (numa resposta que podia encaixar no militante típico do partido ancestral português).
Versão B
O outrora jovem foi encontrado, a muito custo, a trabalhar no barrocal algarvio, num turismo natural de que é coproprietário. A outra proprietária é uma holandesa que conheceu quando foi estudar para Inglaterra. Casaram-se quando regressou depois dos estudos e de muitas manifestações anti-capitalismo, anti-globalização, anti-sistema e muitos outros anti que se possam imaginar. Esqueceu-se dos pergaminhos partidários que começara a cultivar desde tenra idade. Foi por amor e por causa do ativismo frenético da namorada. Como a família dela tinha posses (malgré tout...), compraram uma quinta e criaram um turismo que está nos antípodas do turismo do Algarve. Quando os jornalistas perguntaram se se recordava daquela fotografia, não hesitou: “têm a certeza que sou eu?” Depois de um gesto abruto que tirou a fotografia do seu olhar, disse com uma agressividade comprometida: “nunca participei em atividades desse partido fascista”. E virou costas aos jornalistas, talvez para esconder o rosto programático da mentira.