The Limiñanas, “One Blood Circle” (live at Beaubourg), in https://www.youtube.com/watch?v=4aSnxbNEM_Y
Na mesa do lado: “mãe, o que é uma conferência de imprensa?”, enquanto passava na televisão um excerto de uma conferência de imprensa com um ministro palavroso e com excessiva pose de herói.
A mãe fez de conta que não ouviu, ou estava tão distraída que não ouviu. Podia ter respondido à menina que uma conferência de imprensa é o sítio onde se confere o que a imprensa anda a fazer e a dizer e a escrever e a filmar. Mas uma conferência de imprensa serve para a imprensa conferir o que os outros andam a fazer e a dizer e a escrever (e alguns também a filmar). O idioma tem muitos alçapões. Não houve um purista a recomendar o uso de “conferência com a imprensa”?
Numa conferência de imprensa que fosse mesmo conferência de imprensa, quem devia estar sob os holofotes era a imprensa, o que, não sendo o caso, adultera o papel da imprensa por não se colocar no lugar de quem é controlado. A mãe da petiz, se não estivesse entretida com frivolidades digitais, diria à filha que o problema é de quem consagrou “conferência de imprensa” no léxico.
Um dos misteres da imprensa é descobrir telhados de vidro. Quando há suspeitas de alguém, suspeitas perquiridas através de um transparente telhado, o suspeito é chamado a depor perante a imprensa. Pode ser uma conferência sem direito a perguntas (tem medo quem algo deve) ou aberta às interpelações dos plumitivos. Para esse efeito, tem serventia conferenciar com a imprensa, seja em formato de diálogo ou sob o temeroso formato de monólogo para os plumitivos ouvirem. Se fosse a imprensa a sujeitar-se a conferenciar com outrem – porque é uma conferência de imprensa – a imprensa teria de mostrar o que os telhados de vidro não conseguem esconder.
Para a democracia viver com toda a transparência, a imprensa não devia estar isenta do escrutínio a que sujeita quem se sujeita a comparecer numa conferência de imprensa. Para depois não acusarem os arquitetos do sistema de falsearem a igualdade. Se houvesse legítimas conferências de imprensa que fizessem jus à semântica, nós, os consumidores de jornais, televisão e rádio, poderíamos escrutinar a imprensa.
Faz falta que as conferências de imprensa sejam conferências de imprensa. Para que não fiquem gatos com o rabo de fora.