Billy Bragg, “Waiting for the Great Leap Forwards”, in https://www.youtube.com/watch?v=sHd2O_KuCxA
Enfatuado com a epifania anual no Seixal, Manuel Loff não perdeu tempo a comentar os (preocupantes) resultados das eleições na Saxónia-Anhalt e a extrair as habituais extrapolações. Os eleitores exerceram a democracia no domingo e dois dias depois a prosa do historiador dava à estampa no Público.
Regresso ao parágrafo anterior para esclarecer que não é contraditório considerar preocupante o resultado de umas eleições ganhas pelo partido neonazi e argumentar que os eleitores exerceram a democracia. O problema poderá estar a montante e foi finamente evocado por Tiago Rodrigues, numa entrevista que o diretor do Teatro de Avignon concedeu à CNN Portugal. Eis o (nosso) dilema moral: devemos ser tolerantes com aqueles que gravitam na órbita da intolerância, correndo o risco de, ascendendo eles ao poder, porem fim à democracia (e assim seremos os notários do fim da democracia)? Ou devemos ser intolerantes com os intolerantes, correndo o risco de repudiar os nossos princípios?
Se os neonazis foram admitidos a concurso eleitoral, que legitimidade temos nós, os que estamos vivamente preocupados com a sua cavalgada rumo ao poder, para desprezar os votantes neste partido, como se houvesse eleitores de primeira e de segunda? A democracia deve conter as suas próprias linhas vermelhas. A Constituição portuguesa delimitou esse perímetro de segurança e, mesmo assim, um partido de direita radical, com pessoas que não escondem em público a sua afeição pelo salazarismo ido, está em vias de rivalizar com os partidos centrípetos do regime (de acordo com as sondagens mais recentes).
Aqui entram em campo as extrapolações e alguns laivos de alucinação de Loff. Primeiro, convocando a veia de historiador, aviva a memória do(a) leitor(a): no pós-Segunda Guerra, foram governos democrata-cristãos que toleraram a existência de movimentos neonazis na Alemanha. A nossa memória é refrescada ao ponto de ser identificado o autor das leis antissemitas de Nuremberga (1935), Hans Globke, que serviu como chefe de gabinete de Konrad Adenauer entre 1953 e 1963. O cronista imediatamente aproveitou o dado histórico para uma das suas habituais extrapolações: Adenauer, um dos “pais das Comunidades Europeias”, teve durante dez anos Globke, um nazi reciclado, como chefe de gabinete. Talvez se possa inferir que esta é a estirpe maligna da União Europeia.
O melhor vem depois. Para provar o erro que foi a reunificação alemã – não discordo que o processo enfermou de erros, pelas precipitações políticas que o sequestraram –, Loff aproveita para matar saudades da República Democrática Alemã (RDA) ao elencar as profusas virtudes que estavam ao alcance dos cidadãos deste país. A páginas tantas, o historiador identifica um dos deleites usufruídos: “(...) a vida previsível sempre e quando não quisessem emigrar para a Alemanha ocidental ou contestar a natureza autoritária do sistema político (...)”. A História desse período testemunhou o que acontecia aos cidadãos da RDA quando, cansados da vida previsível (viva a rotina comunista!), ensaiavam a “emigração” (aqui tratada como eufemismo de “fuga”) para a Alemanha ocidental. Consegue Loff inventariar o número das pessoas que caíram sob o jugo das balas da polícia da RDA?
Loff – deito-me a adivinhar – será daqueles saudosos da União Soviética e da incomparável democracia que aí prosperava que contesta com veemência todos os relatos, tão históricos como a História que Loff cuida como ciência, das atrocidades da URSS e dos países que viveram sob o comunismo. Serão alucinações de gente empenhada em destruir o comunismo, relatos feitos por autores sem credibilidade, e por aí fora. A credibilidade está reservada aos cientistas sociais que continuam a crer na fé do socialismo científico e em todas as quimeras prometidas. Nem de propósito, no mesmo dia em que este artigo de opinião foi publicado, dezanove páginas à frente o enviado especial ao Festival de Veneza, Vasco Câmara, noticiava um filme notável sobre a era soviética: “Imperium”, de Sergei Loznitsa. Na entrevista ao jornalista, o realizador, adverte que “[e]nquanto a verdade não for dita, há sempre o perigo de a História se repetir.” A História pode-se repetir tal como um disco de vinil tem dois lados. Já este filme não será aconselhável a Manuel Loff.
Ainda amparado pelos (talvez) efeitos lisérgicos da anual Festa do Avante, ao meu conhecimento chegou uma publicação numa rede social do ex-deputado Miguel Tiago. Começando por destilar o incómodo de ver como anticomunistas primários reagem à Festa do Avante, Tiago conclui, numa extrapolação típica de quem adivinha as intenções dos adversários: “não gostamos, não aceitamos, faremos tudo para impedir, que um grupo de trabalhadores organizados proponha aumentos de salários, fim (sic) da corrupção das privatizações, fim (sic) do desvio dos recursos para os nossos hospitais privados, cultura livre e gratuita, escola para todos e transporte e casas acessíveis para todos. Não gostamos e não aceitamos que alguém se atreva a impedir ou sequer limitar a nossa capacidade de saquear os trabalhadores e os recursos de Portugal.” (Miguel Tiago escreve na primeira pessoa do plural, colocando-se na posição do “anticomunista primário”.)
Compreendo que o emagrecimento eleitoral do PCP, aliás não correspondente à atração da comunicação social, sirva de mote para lídimos comunistas se colocarem, e ao partido de que são militantes, na posição de vítimas. A vitimização costuma compensar, faz parte da idiossincrasia nacional. O exercício de vitimização servirá para arregimentar as emagrecidas hostes e, a partir daí, tentar catequizar jovens para travar o envelhecimento do partido, que a prazo poderá selar a sua decadência.
Caros Miguel Tiago e Manuel Loff, e demais militantes e simpatizantes da causa comunista, não tresleiam as minhas palavras: das últimas coisas que um tipo de direita (se me permitem, duvidando no entanto que aceitem o epíteto: “direita civilizada”) deseja é a extinção do partido comunista, ou de qualquer outro partido. Se for preciso, assino uma petição a favor da continuidade da Festa do Avante, para poderem continuar empenhados na liturgia do que vos aprouver. Talvez estejam a ser vítimas de um complexo de Estocolmo virado do avesso: quem se distinguiu na ação política com proibições a eito foram os comunistas. Eu prefiro aceitar apenas uma proibição: é proibido proibir.
Era o que mais faltava, proibir a Festa do Avante, ou o PCP, pá!