3.2.26

LXXXIX

New Order, “True Faith” (live on Top of the Pops), in https://www.youtube.com/watch?v=KzKRyDu1RnM


“I feel so extraordinary 

something’s got a hold on me 

I get this feeling I’m in motion 

a sudden sense of liberty.”


Dizemos realmente o que queremos, ou queremos dizer o que o ar do tempo espera que digamos? Em que medida a liberdade é paralisada pela boa moeda que se impõe, a que devolve à consciência o dever de seguir os cânones que irrompem num determinado tempo? Se disser “sou a favor do respeito escrupuloso dos direitos humanos” e, depois, fizer de conta que são, muitas vezes, aqueles que conduziram o respeito pelos direitos humanos a uma esquizofrenia confrangedora, não estarei a ser cúmplice por inação com todos os atropelos varridos para o sótão do pensamento?

Por sermos gregários, a liberdade é condicionada ao patrulhamento dos outros a que nos sujeitamos. Fica a adejar a ideia de sermos reféns de um paradoxo: entre a liberdade que nos assiste e o temor de passarmos das marcas ao convocá-la quando ela esbarra contra os cânones vigentes, preferimos sacrificar a liberdade individual para sermos bem vistos entre os pares com quem convivemos. Dirão os admiradores da ordem estabelecida: quando há um conflito entre um objetivo individual e o interesse do grupo, o primeiro cede passagem ao segundo; dirão, ainda: é por sermos gregários que devemos ser levados à ordenação das prioridades e, quando elas chocam de frente, devemos preferir as que correspondem ao grupo em que estamos integrados.

Reconhecer que somos tributários de uma liberdade condicionada não deixa vaga a questão de saber se o paradoxo sela uma contradição de termos. Afinal, a liberdade individual é sacrificada, ou pelo menos suspensa temporariamente, quando se impõe garantir um interesse do grupo. Essa trela constrange a liberdade. As rédeas a que nos sujeitamos limitam o eu, porque a sociabilidade imperativa faz sopesar objetivos que podem ser contraditórios e, no viço da contradição, fazemos boa figura quando somos generosos e altruístas e damos preferência ao bem comum.

Sobra um fantasma não esconjurado. De acordo com Mark Fisher, “queremos realmente o que dizemos que queremos?” Ou o inventário das coisas adquiridas (sejam bens, seja o mais importante inventário de valores que nos conduzem) é uma imagem desfocada dos interesses espontâneos, que são temperados pela sua sujeição ao que cada um julgue ser a lente inquisitiva dos outros? E, assim, queremos aquilo que julgamos ser objeto de boa reação pelas boas consciências que servem de bússola ao nosso comportamento. 

Esta adulteração imprime a corrupção do eu, que sucumbe aos imperativos do grupo (ou àquilo que, bem ou mal, julga como tal). Ao querermos aquilo que os outros consideram aceitável, contribuímos para uma farsa em andamento contínuo. 

2.2.26

LXXXVIII

Radiohead, “Go to Sleep”, in https://www.youtube.com/watch?v=Fe6X9fLLp0Y


“May pretty horses 

come to you as you sleep.”


Vamos às compras – habitualmente dizem os consortes um ao outro, ou amigos em momento consumista, e ir às compras tanto significa o aprovisionamento de víveres como mercar coisas mais banais, como vestuário e calçado (se bem que não sejam assim tão banais pela possibilidade do cenário dantesco da sua ausência). Ou, numa nota de modernidade, compra-se online o que dantes exigia a deslocação até a uma loja.

Desta vez, a impressão do tempo que nos calhou em azar trouxe uma novidade: quem vai às compras é um país poderoso que quer mercadejar territórios estrangeiros que estão em boa conta na bolsa dos valores geopolíticos (ou apenas na cabeça dos orates que assim decidiram). 

Compra-se uma ilha cheia de gelo aqui, um território remoto ali, um país inteiro, numa situação limite, como se os líderes acordassem depois de um sonho ungido pela grandeza da sua figura, que assim ficará selada nos imorredoiros anais que inventariam os heróis da gleba, e lavrassem a decisão de ir ao centro comercial onde se mercadejam ilhas, protetorados, territórios remotos, micro-Estados e outros que tais. 

Para além de se comprarem terras que pertencem a países soberanos em vez de peixe, presunto, batatas, sapatos, vestidos, vinho ou tabaco, não há um mercado onde aquelas terras possam ser mercadas, como existem plataformas que permitem o encontro entre comprador e vendedor interessados em transacionar um apartamento. A ordem de compra é colocada na imprensa internacional, através da retórica a que se soma a exibição de uma ameaça: ou o vendedor admite negociar, tendo como preço de partida aquele que é declarado pelo comprador, ou este ordena o seu imenso potencial beligerante para tomar de assalto o território que o vendedor não quer abdicar. Ou a venda é feita pelo preço decidido pelo vendedor, ou a terra é tomada de assalto pela marinha, força aérea e exército. Eis a negação da lógica de mercado, que sucumbe aos caprichos da vontade do momento do chefe máximo das forças armadas.

É como se alguém fosse a um mercado de mantimentos e, perante a recusa do agricultor em ceder uma determinada quantidade de couves pelo preço proposto, o comprador mandasse avançar a guarda pretoriana para tomar pela força as couves que o agricultor recusou regatear. Ou, já que se está no domínio da mercadorização da política internacional (que a vulgariza ainda mais), perante a recusa de venda pelo legítimo soberano, a terra fosse anexada por decisão unilateral daquele que detém a força bruta. Uma espécie de nacionalização de territórios na ordem internacional. 

Estes hercúleos exibicionistas da ordem internacional deviam ler Marx para iniciantes. Para perceberem que a mercadorização de terras que se acolhem sob a égide de outra soberania, dando lugar a uma ocupação unilateral se for inviável mercadejá-las, é semelhante à nacionalização de terras tão grata a marxistas de extração autêntica. 

Quando, há uns anos, um tio me disse que a esquerda e a direita deixaram de fazer sentido porque se confundem uma com a outra, e uma toma as dores de causas que sempre foram da outra e vice-versa, não lhe dei crédito. Agora, devolvo-lhe a razão com efeitos retroativos.

30.1.26

LXXXVII

Sneaker Pimps, “6 Underground” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=XcJBt7DSaME


“(...) I’m open to falling from grace.”


Às vezes é preciso tirar o escafandro do armário quando a submersão evita males maiores. Esta é a posição de quem desvaloriza consumições, como se estivéssemos formatados para a resignação e aceitássemos males menores depois de prevenirmos os maiores. Uma modesta pose de vida.

Mas um mal, seja maior ou menor, não deixa de ser um mal. Intuímos que nada podemos contra as contingências que desarrumam as vidas. Desses males estamos condenados a sobreviver por estima, como vítimas passivas apanhadas num remoinho inescapável. Mas há males que são a safra calculada das nossas ações e omissões. Devemos calcular, nem que seja por estimativa, os danos que lhes podem ser intrínsecos. A probabilidade de a teoria das probabilidades que usamos estar mal calibrada não pode ser posta de parte; por vezes, é o que faz a diferença entre ser vítima de um grande mal ou de um mal menor. Outras vezes, é a apatia que faz perder as rédeas de um dano, que se agiganta de um mal menor num mal maior.

O escafandro pode ser o último recurso para forçar um mal maior a tornar-se um mal menor. Pode garantir um módico de oxigénio que nos mantém à superfície, embora desligados das consumições que agridem. Não é aceitável que nos resignemos a um mal menor porque sentimos que conseguimos banir o mal maior do leque das possibilidades. O escafandro traduz o exílio interior, a fuga das contrariedades que são o rosto continuado dos dias consecutivos. Um fingimento. Na mnemónica dos dias correntes, é preciso estimar as possibilidades e agir à medida dos seus efeitos estimados. Sopesar as costuras que nos prendem à linha do tempo e ter a lucidez para escolher uma ação ou uma omissão. 

Quando nos dizem, com a paciência pedagógica de quem se habituou a transigir com males como se fosse a tradução da humildade, que temos de aceitar um mal menor se ele for alternativo a um mal maior, devemos interrogar se as duas medidas do mal resumem as hipóteses. Estarmos condenados, numa fórmula muito binária, a duas medidas possíveis de mal, é convocar a desistência de outras, mais ambiciosas, possibilidades. É como condenar a iniciativa de quem se insurge contra as possibilidades binárias do mal pela rebeldia de quem teima em acreditar que por fora do escafandro, se avista uma réstia de bem.

A fórmula da resignação é o avesso da interiorização da apatia, um mal constante da civilização em que dizem vivermos.

29.1.26

LXXXVI

Love and Rockets, “No New Tale to Tell” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=JxOeD1PdjmA

 
You cannot go against nature

because when you do

go against nature

that’s part of nature too.”


Um embaraço com as coisas conhecidas, e as consumições que o conhecimento traz pela calada do dia, fazem perguntar se a felicidade não rima com não querer conhecer o conhecido. Uma espécie de anestesia, que adormece o conhecimento e o condena à apatia – ou que, desfazendo os nós de um paradoxo, transfigura o conhecimento em desconhecimento intencional. Uma maneira de encontrar um exílio sem sair do lugar.

Ler jornais tem efeitos adversos sobre a saúde mental. E, todavia, a sede de conhecimento atiça o irrecusável desejo de abrir um jornal e ir lendo primeiro as gordas e, depois, caso as exigências de conhecimento se unam num matrimónio com a curiosidade, as pequenas letras que narram as vicissitudes de um acontecimento. Muitas vezes caldeadas com uma análise superficial, umas vezes, e a desinformação propositada ou apenas eivada de ignorância, noutras vezes.

Um efeito acessório do conhecimento é a entronização da razão: as pessoas querem ter razão. Querem ser elas a ter razão e não as outras que se movem contra a razão que julgam ter. É um concurso de razões ensimesmadas, frequentemente amoedadas na semelhança entre si, mas que um narcisismo não disfarçado, de braço dado com a popularização de uma conceção distorcida de democracia, leva a tê-las como dissemelhantes e até opostas. Nas olimpíadas da razão, os sábios medram numa densidade por quilómetro quadrado sem precedentes. Ninguém se queixe de que vivemos na idade das trevas.

Tudo devia ser virado do avesso. Os embaixadores do conhecimento, os que se atiram de cabeça ao noticiário de todas as geografias, deviam abdicar da incumbência. Começariam à experiência, um dia primeiro, uma semana depois, a jeito de cumprirem a abstinência de um mês mais tarde. Por etapas, o desmame do conhecimento pode causar efeitos secundários de outra grandeza. 

Numa fase mais avançada, já depois de desmatada a sede de conhecimento para não ficar atrás da atualidade, seria a vez de perder o vício da razão. O benefício da dúvida seria dado a quem tanto quer esgrimir a certeza indiscutível da sua razão. Numa pose de passividade congruente com a curiosidade intelectual, à espera de que a razão assim ostentada fosse provada. Sem esta exigência, convocar a razão não passa de um exercício frívolo, como quem diz “é assim porque sim”. 

Nessa altura, sem a urgência do conhecimento e a fobia da razão como nome do meio, a lucidez estaria pronta a fazer-se ao caminho, removidos os obstáculos que a embaciam: o conhecimento ciclópico e exibicionista e a fobia destravada da razão que a exclui da posse dos outros em virtude de uma predestinação justificada pelo estatuto sublime do eu.  

28.1.26

LXXXV

Joy Division, “24 Hours”, in https://www.youtube.com/watch?v=e5J5VjDQyyg


“Oh I realised how I wanted time

put into perspective, try so hard to find 

just for one moment, thought I’d found my way 

destiny unfolded, I watched it slip away.”


Não era a favor de dividir para reinar. Até porque as monarquias são atávicas. Tome-se o verbo “reinar” no seu sentido metafórico. Contra aqueles que se extasiavam com a procissão em que se torna o exercício do poder, não capitulava perante o dever de confiar nos outros. 

(Não conseguia compreender como expressões idiomáticas como “dividir para reinar” conseguiram escapar ao escrutínio dos vigilantes da nova língua e dos padrões do aceitável. A monarquia está nos seus antípodas, só por distração é que não proibiram o uso da expressão. É como o bolo-rei, que resiste certamente por desatenção dos curadores do nosso bem-estar.)

Nunca admitiu: a confiança nos outros era o eufemismo oportuno para se desembaraçar de assuntos enfadonhos (por um lado) e porque o poder era tão desinteressante que não conseguia reprimir a pulsão para a preguiça (por outro lado). Não o podia admitir. Este é um tempo em que fica mal admitir pecadilhos como a indolência. Por mais que a voz comum chegue a terça-feira já a suplicar pela tarde de sexta-feira, pois trabalhar é um sacrifício, há um certo estar burguês que glorifica o trabalho de tal forma que fora do trabalho quase não existe tempo livre, tantas são as empreitadas que estreitam o túnel do tempo. 

Um dia, fartou-se do biombo em que se escondia. Fartou-se de ser elogiado por ser o campeão da delegação nos outros. Não podia ser cúmplice de um logro. Confiava nos outros não pelos outros; era já tempo de eles e elas perceberem que não era pelas suas capacidades que mereciam a sua confiança. Confidenciou, primeiro num círculo restrito: o que o movia era a preguiça que fermentava no desinteresse daquelas empreitadas, no poder como força bruta. Depois foi alargando o número dos que o escutavam, boquiabertos, a admitir o porquê de ser imbatível na delegação nos outros. Depressa saltou para o espanto dos seus pares e dos que aspiravam a figurar entre a casta. O espanto não capitalizava a seu favor.

Depois do passa-a-palavra contagiou-se a rejeição. Os seus pares e até os que o aspiravam a sê-lo escusavam-se a cumprimentá-lo. Os sítios de eleição onde a casta amesenda começaram a recusar as reservas de mesa em seu nome – até que ele desistiu de frequentar esses lugares. Havia muita gente que dantes fazia uma genuflexão evidentemente oportunista e que agora evitava andar pela mesma rua. Colado ao rótulo de uma peste, foi despedido e levou uma indemnização acima do tabelado por lei. Era como se estivesse a ser pago para deixar de ser um deles. 

Não se arrependeu. Se ser encurralado no esquecimento é a paga pelo desassombro da franqueza, preferia ser olhado como um pária.

27.1.26

LXXXIV

Antony and the Johnsons, “Hope There’s Someone”, in https://www.youtube.com/watch?v=LyMGEq82uL4


“Oh, I’m scared of the middle place

between light and nowhere

I don’t want to be the one

left in there, left in there.”


Ninguém sabe o que é a pontaria afinada. É preciso um alvo, e ninguém sabe o seu paradeiro. Sem um alvo para acertar, como se pode saber o que é a pontaria e, mais ainda, se a dita está afinada?

À falta de um contexto que suponha a validação de uma hipótese, a convocatória do contrafactual é especulativa. Depressa entra no domínio da fantasia, com uma revoada de hipóteses a ensaiar uma coreografia distópica. As hipóteses são agitadas umas contra as outras, o caos entretecido para causar um naufrágio de proporções bíblicas. 

Se o passado perdeu validade no futuro que o confirma como facto consumado, o futuro dispensa vir a tiracolo do passado. Há muitos especialistas em vaticinar o passado à bolina da História. Os mais credenciados não admitem a repetibilidade do passado (nem como farsa, nem como tragédia), mas acabam por ceder à tentação de confundir as lições da História com o caudal próprio em que o futuro se faz transportar. 

Folgo em saber que a especialidade da História do futuro ainda não foi inventada. Tirando uns histriónicos que juram a pés juntos estar na posse de um oráculo irrepreensível (e depois nunca admitem o logro quando o futuro, ao acontecer, tende a desmenti-los), só os alucinados é que podem dizer que têm um trato com o futuro. Uns e outros desprezam o mais importante: para que tanto querem os viciados do futuro que este desbote seu rosto antes do futuro se afeiçoar ao presente? Não entenderão que aí, ao levantarem o céu do futuro, estão a matá-lo, pois a partir daí o futuro se metamorfoseou em presente?

Os déspotas que querem saber do caudal do futuro já se arrependeram do presente há muito tempo. Ou esqueceram-se do presente. Fingem que o presente se inventaria no único momento do tempo que é vivo, mas é de uma efemeridade que já ninguém nota. 

Os procuradores do tempo que já fez estrada e os outros que despedaçam o presente por só lhes importar o futuro são os tiranos que condenaram à irrelevância a figura tangível do presente. Essas pessoas aproveitaram-se da farsa de que são atores para liquidar o presente. São as suas maiores vítimas: vivem aprisionadas a um tempo que se gastou na usura da memória ou a um tempo inglório que ninguém sabe se, quando e como vai acontecer. 

Um dia, o rapaz perguntou ao professor se o passado era mais velho do que o futuro. O professor ficou estático, a pensar se a pergunta era legítima e, em caso afirmativo, como seria a resposta. Depois de alguma discussão e de recorrer ao método de tentativa e erro, o professor revelou que um grupo de peritos estava reunido há quase vinte anos e ainda não tinha percebido se o futuro é mais gordo do que o passado. “Também não interessa”, concluiu o rapaz, já sem o tom inquisitivo. Pegou na gaiola do rouxinol e abriu a portinhola. O rouxinol evadiu-se. 

Corria de pessoa em pessoa que o rouxinol partiu em demanda do futuro.

26.1.26

LXXXIII

Nick Cave and the Bad Seeds, “The Weeping Song” (live at Glastonbury), in https://www.youtube.com/watch?v=ia0Fw5QRr8I


“Go, son, go down to the water

and see the women weeping there

then go up into the mountain

the men, they are all weeping too.”


A corda toda, quando se acorda. Pois se as pessoas acordam estremunhadas, é porque não tiveram no sono um cais que aplacasse os sobressaltos com que se saldou o dia pretérito. O sono devia ser a véspera de um despertar vívido, como se em nós trouxéssemos um manómetro que mede as forças disponíveis e o ponteiro disparasse para os níveis estratosféricos da energia.  

A manhã, ou melhor, andar nas ruas logo pela manhã, testemunha que as pessoas não acordam com a corda toda. Andam cabisbaixas, ainda sitiadas pela hibernação noturna, como se fosse possível ler nos seus rostos e nas suas poses corporais o anúncio “estava bem na cama”. Algumas são fantasmas em movimento. Outras apascentam uma má disposição, visível na expressão facial e no ar carregado que arqueia o corpo sobre um pêndulo de negatividade. Em programas radiofónicos feitos para acompanhar as pessoas quando saem de casa para o trabalho, os locutores repetem a ladainha semanal de quem faz a contagem decrescente dos dias que faltam para o fim de semana – e a contagem começa logo na primeira hora radiofónica de segunda-feira, ilustrando o sacrifício de uma semana composta por cinco dias de trabalho e dois de descanso.

Casos haverá em que considerar a manhã uma heresia não é sintoma do sacrifício de ir trabalhar; trata-se apenas de noites mal dormidas, de sonos extemporaneamente interrompidos e não reatados, de insónias que postergam o sono, de sonos colonizados por pesadelos tremendos. As pessoas vingam-se na manhã, como se ela fosse culpada pelas noites mal dormidas. Para serem justas, deviam culpar a noite que não foi generosa com o sono. 

A maioria trata mal a manhã sem que à manhã possa ser atribuída responsabilidade. Usando a linguagem de trapos da gestão, as pessoas fazem outsourcing dos seus problemas. A versão moderna do lema “a culpa morre solteira”. Numa penosa procissão de rostos sorumbáticos e corpos que aparentam pesar mais de cem quilos, todos nos parecemos insuportáveis. Mas a culpa não é da manhã. A culpa tem mesmo de ficar solteira para toda a sua vida: os rostos sorumbáticos em corpos pesados são vítimas da noite que conspira contra elas, ou de uma relação conturbada que mantêm com o trabalho.

Acordar como se as forças estivessem exangues é um desperdício da manhã. Um atentado à lógica: a manhã devia servir para ostentar as forças em toda a sua pujança. Se muitos acordam como se precisassem de ir dormir, como aguentam o resto do dia?

23.1.26

LXXXII

Interpol, “Barricade” (live session), in https://www.youtube.com/watch?v=hm0TUC8rGE4


“Thieves and snakes need homes.”


Não fosse pelas tergiversações, a humanidade já teria ido mais longe – dizias. O feudo da incerteza abate-se sobre a lucidez das pessoas como um freio que as prende à inércia. Receiam o lugar desconhecido que é navegar na maré da indeterminação. Não se estranhe que a cautela das pessoas seja o maior estorvo ao avanço do mundo.

Talvez a lente esteja errada – contrapunhas. Talvez a prioridade não seja ditar os avanços do mundo que amiúde o desarranjam, ou talvez esteja errado fazer corresponder os avanços que cavalgam no horizonte a um imodesto estado febril que diz muito sobre o estado do mundo. Olhando em retrospetiva, o mundo cavalga. Provavelmente, a uma velocidade estonteante, como se traçássemos uma linha evolutiva e ela disparasse no último século. Se esquadrinharmos em fatias de tempo mais curtas, nas últimas duas décadas, ainda mais se nota a velocidade vertiginosa do mundo. É legítimo perguntar se não devemos estar satisfeitos com o estado geral em que se encontra o mundo?

Dirás, em réplica, que as desigualdades ainda são um retrato obsceno de como o mundo progrediu. Há miséria instalada paredes-meias com consumos frívolos; há quem continue a passar fome e outros que se engalanam com hábitos burgueses que combinam com a futilidade da haute cuisine; há quem se autocastre no direito de falar e outros que são gongóricos, insuportavelmente ruidosos, quando tomam a palavra; há viveres frustrantes e viveres excessivos, como continuam a haver mortes indignas e mortes que, ao menos, são absorvidas pelo anonimato.

Mas devemos amputar as ambições de quem não lhes dá quartel sem cair num totalitarismo ridículo? A quem devemos essa militância, senão à lava que se desabotoa da crosta em forma de cicatriz? É legítimo redesenhar os valores e as atitudes dos outros porque deixaram de rimar com as nossas posições? Quem nos encomendou a empreitada?

Dizias: é mais sensato deixar à espreita a vontade de cada um e do seu somatório perceber onde nos leva. Não podemos aceitar que haja cabeças pensantes que valham mais do que outras, e até daquelas que, apáticas, se refugiam no seu também legítimo direito de reservar a não-opinião. Se as vozes que se agigantam legitimam a maré que se cobra a favor da velocidade vertiginosa a que avança o mundo, deixemos o mundo avançar desse modo, mesmo que se aproxime perigosamente do precipício. Lembremos sempre das lições da História, sem cair no exagero de reivindicar a sua iteração indeclinável: a História é o espelho retrovisor que se expande para o momento presente, não é um oráculo do futuro à espreita.

Já sabemos, já aconteceu, talvez vezes demais, que o mundo avançou sem prudência e caiu num abismo, com todos os sacrifícios, outra vez iníquos, que causam. Mas depois o mundo soube como encontrar a bússola que o trouxe de volta ao equilíbrio, mesmo que seja um equilíbrio precário. E sabemos que se as vontades concorrerem para a encomenda do abismo, não serão os lúcidos que a conseguem travar.

22.1.26

LXXXI

Tears for Fears, “Pale Shelter” (live), at https://www.youtube.com/watch?v=0ojoxXXqJ5k


“I’ve been here before 

there is no why, no need to try.”


Havia dias em que desejava que houvesse anjos e que descessem sobre as ruas para o tutorar. Era tomado por uma fragilidade súbita. Não sabia explicar a origem da fragilidade. Sentia-a como um punhal que espadanava a carne sem causar dor, apenas um desconforto que adiava a finitude do dia. Era como se desses dias frágeis não se conseguisse despojar e eles ficassem a pairar sobre o tempo como o seu anátema.

Os anjos não existem – sabia-o de ginjeira. As pessoas é que precisam de embaixadores que os extraiam dos malefícios que, imaginados ou com provas da sua dilaceração, pesavam sobre o olhar. Não era diferente das outras pessoas, por mais que se colocasse na posição de observador e tomasse as vezes de um sociólogo amador. Quando as horas pareciam intermináveis e as fragilidades troavam, arrancando o sangue à apatia fingidora, suplicava pela curadoria dos anjos que pudessem aplacar essas fragilidades. Ou pelo menos, que os anjos dispusessem a anestesia necessária ao fingimento das fragilidades.

A fragilidade que mais pesava era admitir as demais fragilidades que o tornavam uma presa fácil. Este era um mapa difícil de percorrer. Não eram só as fragilidades que o acometiam e sobressaltavam os dias passados pelo acosso permanente; ao reconhecer que ao fardo que não gostava de carregar somava-se a outra, e maior, fragilidade a todas as que a fundamentavam.

Como homem fraco, suplicava aos anjos possíveis que lhe endossassem o elixir do esquecimento. Tudo o que queria era esconjurar a consciência, o diamante em bruto que mantinha o sangue em ebulição. Queria ser possível emancipar-se da consciência, libertar-se do pensamento tirânico que o colocava na posição desconfortável de ser sociólogo de si mesmo. 

Os anjos deviam existir. Pelo menos enquanto estivesse a ser trespassado pelas dores lancinantes ao ser refém da consciência que era o espírito crítico de si mesmo. Quando as fragilidades subiam a palco, desnorteava-se com a sensação de ser a pior pessoa – pelo menos das que conhece. Já não era o mal total. Entre as que desconhece, a lei das probabilidades garantia que muitos mais seriam ainda piores. 

Às vezes, o recurso às fragilidades dos outros é a panaceia requisitada para disfarçar as próprias fragilidades. 

21.1.26

LXXX

Frankie Goes to Hollywood, “Welcome to the Pleasuredome”, in https://www.youtube.com/watch?v=WzOGLKTmeuY


“Shooting stars never stop even when they reach the top.”


Um salto intempestivo sobre os contratempos afeiçoados pelo caudal do tempo: quem poderia dizer que falha propositadamente a convocatória, sendo-lhe marcada falta de comparência? No idioma das metáforas, diz-se que os audazes dão a cara aos desafios. São as sobras de uma intrepidez muito masculina, na qual a masculinidade transporta consigo um legado de toxicidade. É imperativo ser corajoso e os corajosos nunca escondem o rosto. Nem que depois o mundo inteiro desabe sobre eles.

Já que tanto se apregoa a modernidade (e até se inventaram um punhado de preposições “pós” para esculpir a modernidade a um tempo que parece andar à sua frente), a bravura, como apanágio masculino, devia ser revista por um comité de sábios. Passaria a ser um desatributo, uma condição patológica afim à lucidez que se ausenta dos espíritos que se atiram de frente para as balas, mesmo sabendo que um corpo esventrado pelas balas não sobrevive.

O que falta a esta modernidade, já ultrapassada pelos tempos modernos, é admitir que a coragem cega é própria de uma mitologia obsoleta. Ninguém, no seu juízo, se atira para a frente de um comboio; ninguém se fere intencionalmente (a menos que esteja tomado por outra doença); ninguém se sacrifica convencido de que está penhorado por uma causa própria, quando serve apenas como o soldado encarniçado que é atirado para o campo de batalha por generais que, quanto à posse da coragem, estão em severo défice.

A coragem assim mercadejada é a prova do despojamento do eu, da sua hipoteca aos ventos colhidos pelas mãos juntas que costuram um grupo. Os bancos da escola e os modismos que engrossam o palco onde passam apenas as palavras aceitáveis tratam do resto. Não se cuida de si mesmo sem cuidar primeiro dos grupos a que se pertence. O eu é transcendido pelos deveres de pertença e torna-se irrecusável o embainhar de uma bravura que pode chegar à extravagância de ser suicida. 

Tomados pela loucura da audácia destravada, os bravos forcados mais parecem rapazes destemidos que tripulam as motoretas do poço da morte. Quando já só estiver em falta a elegia, não podem praticar a coragem descompensada que os abateu do contingente dos vivos. Pagaram com a vida o preço exorbitante da coragem sem peias. É tudo o que levam como legado seu: a coragem suicida que amputou vidas que podiam ter sido mais demoradas. 

20.1.26

LXXIX

Badly Drawn Boy, “This is the Day” (live on the Chris Evans Breakfast Show with Sky), in https://www.youtube.com/watch?v=Y6YUhFbdxmI&list=RDY6YUhFbdxmI&start_radio=1


“You smile and think how much you’ve changed 

all the money in the world couldn’t buy back those days.”


Nos processos competitivos há diversos lugares em que nos podemos situar. No património genético da democracia, estão incluídas a pluralidade de posições e um dever – podemos dizer – cívico de aceitar o direito à diferença. Este é um direito que se desdobra nos múltiplos sentidos em que se localizam os diferentes apeadeiros em que se situam as pessoas. Fundamenta-se num direito de reciprocidade: o direito de admissão neste tabuleiro cívico não é simétrico e restrito a uma casta; para sermos admitidos, temos de admitir, em igualdade de circunstâncias, os outros que de nós divergem.

O processo cívico é, por natureza, competitivo nas sociedades abertas. As pessoas escolhem uma posição e defendem-na, se o direito de defesa vier à colação. Tanto vale para afirmar uma posição quanto para se defender dos adversários. Como é um processo competitivo, as posições tendem a ser exacerbadas no calor da argumentação. Desde que não ocorram excessos incompatíveis com o respeito pelo outro e as linhas vermelhas que são pisadas quando a intolerância efervesce, faz parte do processo competitivo ter o mesmo direito a um pronunciamento que têm os que pensam de maneira diferente. Desde que, convém repetir, não sejam ultrapassados os limites da decência e que não haja pessoas abatidas por atos e palavras miseráveis.

O processo eleitoral, por muitos ainda entendido como o momento genesíaco da democracia, é um caldo turbulento em que as palavras derrapam com facilidade para o exagero. As irritações epidérmicas motivam uma sequência de causa e consequência que, por vezes, tem delimitação difícil, não sendo fácil apurar o que é causa e o que é consequência. As palavras fervem a menos dos canónicos cem graus centígrados. As pessoas invocam, com plena legitimidade, o direito à palavra. Às vezes, o exercício desse direito ofende outros. Os destinatários podem ser magoados com ou sem intencionalidade. Depois vem a escalada de ação-reação-re-reação, e assim sucessivamente. 

Se um famoso comentador acusa de colaboracionismo quem não quiser votar no candidato que se opõe ao candidato que pode lesar a democracia, está no seu direito. Pode argumentar que as suas palavras são um repto, não um ultraje a quem se recusa a promover uma decisão eleitoral binária. Podem ser palavras intencionalmente provocatórias, como quem espeta um cocktail de adrenalina para despertar os espíritos adormecidos de uma letargia que pode ser prejudicial ao futuro do sistema político. Os que se sentirem injuriados (“colaboracionismo” carrega um contexto histórico que não pode ser menosprezado) podem devolver a graça à proveniência. Podem, por exemplo, e sem embuço, mimosear o acusador com palavras que exibam a sua deficiência de carácter. 

Nem uns nem outros podem reclamar do exercício da palavra, por mais que uns e outros se sintam ofendidos com a posição de alvo em que foram colocados. É da natureza do processo competitivo que insta os seus participantes a exercerem o poder de encaixe. Sob pena de, ao quererem acautelar a dignidade que acusam estar a ser vilipendiada, castrarem o direito ao exercício das palavras pelos que se situam no outro lado da trincheira. 

Para o caso, tanto uns têm o direito de não votar no candidato que aparece como salvador da democracia, quanto os outros têm o direito de os acusar de apatia (usando uma fórmula diplomática) que pode comprometer o devir da democracia. Como os primeiros têm o direito de reagir contra aqueles que já decidiram sobre o imperativo categórico do voto inevitável, sem serem alinhados, por falta de comparência, com o candidato a déspota que é a alternativa de voto. Lembrando que um não-voto é apenas um não-voto, não é uma indireta manifestação de apoio àquele candidato que foi promovido a voto inevitável. Quando as palavras escorregam para o exagero, o sangue efervesce e as palavras perdem temperança. É intrínseco ao processo competitivo. Preferiam a mordaça que institui o discurso único, sem direito ao contraditório? 

Aos que, sem hesitação, responderem “não” àquela interrogação, fica-lhes destinado tolerar o exercício da palavra dos outros quando dela resulta uma posição incómoda. É o preço de respirarmos um ar despoluído de chancelas de vigilantes em nome do que quer que seja. O preço de nos podermos sentir ufanos por participarmos num processo cívico competitivo.

19.1.26

LXXVIII

The Talking Heads, “Once in a Lifetime”, in https://www.youtube.com/watch?v=5IsSpAOD6K8


“Letting the days go by, let the water hold me down

letting the days go by, water flowing underground

into the blue again, after the money’s gone

once in a lifetime, water flowing underground.”


Abro o jornal e passo, sem ver, a página da necrologia. Não vilipendio os mortos nem os voto à indiferença. Não quero saber dos que deixaram de estar vivos e faço-o como a homenagem possível aos falecidos. Ou pela hipocrisia própria de quem tem um medo de morte da morte.

É por causa da incompatibilidade pessoal com a morte que considero as páginas de necrologia inúteis. De acordo com as convenções, os que morrem têm direito às exéquias instituídas. Durante as exéquias, é bom costume homenagear os que deixaram de fazer parte do inventário dos vivos. É para isso que servem a presença no velório, a assinatura do livro de condolências, desencomendar a elegia que embainha palavras elogiosas e emocionantes num elogio póstumo a destempo (pois elogios destes rareiam em vida), e a ida ao funeral, de preferência testemunhando o momento pungente da descida do caixão à sepultura. Para que o falecido possa ser devidamente homenageado, a mensagem tem de passar de boca em boca. As páginas da necrologia dos jornais, dos jornais que ainda as publicam, servem essa finalidade.

Tiro uma conclusão antes do tempo, mas que se tem confirmado: mesmo que passe os olhos pelas páginas da necrologia, os falecidos cujos rostos estão pela penúltima vez afixados em lugar público (a última é na sepultura) são desconhecidos. Não preciso saber das pessoas que não conheço e que têm funeral marcado para os dias seguintes. Prefiro agarrar-me à tábua de salvação que é a vida. 

Na impossibilidade de vedar a hipótese da morte, ao continuarmos expostos à sentença da finitude irrecusável, ao menos que se esvaziasse o uso social da página da necrologia. Há dias, num café, sentou-se um casal de idosos na mesa vizinha. Ele pediu o jornal local. Abriu na página da necrologia, como se os dedos estivessem treinados para saberem de cor o número da página onde está a página da necrologia. Passaram vinte minutos a comentar os mortos que conheciam (e não eram poucos). Depois da autópsia social dos falecidos, dispensaram as outras páginas do jornal. As outras notícias eram irrelevantes. Só contavam os mortos e, sobretudo, os conhecidos. Tinham pegado no jornal local para atualizarem a agenda dos funerais.

Em vez de inspecionar a página da necrologia, prefiro esta censura seletiva em nome da vida. Se a necrologia está na página oito, o jornal passa da página sete para a página nove. A morte tem tempo para ter o seu tempo. Para que se viva a vida sem o fantasma da morte a abater-se como uma ameaça perene. 

16.1.26

LXXVII

Pixies, “Monkey Gone to Heaven” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=FMH3akt07zs

“The creature in the sky 

got stuck in a hole, now there’s a hole in the sky

and the ground’s not cold

and the ground’s not cold, everything is gonna burn (...).”


Protesto muito com os velhos que não se despacham a conduzir o automóvel. Julgo poder arriscar dizer, em todo o caso, que é mais a gente que se exaspera no meio do trânsito e perde a compostura com facilidade. Nisso, nivelam-se pela igualdade: os raspanetes são para velhos, menos velhos, jovens e menos jovens. 

Quando exerço a retrospeção, a frieza de espírito condena a irascibilidade rodoviária. Faço uma repreensão interior por ser impaciente com os velhos que circulam tão devagar e hesitantemente nas ruas e estradas. Os velhos têm todo o tempo do mundo – ia arriscar o diagnóstico, mas travei a tempo para não cair num lugar-comum que dá o flanco ao idadismo. Mas é um facto: se há algo que os velhos já não têm muito em carteira, é tempo. Paradoxalmente, talvez seja por saberem que o tempo lhes é escasso que se movem tão vagarosamente pelas vias públicas. Se o tempo escasseia para todos e ainda mais para os velhos, é sensato que arrastem a noção de tempo através da circulação lenta quando estão ao volante. 

É-me dado a saber que a impaciência com os velhos é uma mal disfarçada inveja por terem chegado a um tempo que não posso garantir que possa vir a ser meu. Devia aprender com os velhos que a pressa em apressar o tempo, circulando às vezes em velocidade excessiva, é uma tautologia que se joga contra as minhas pretensões. Querer chegar depressa ao destino é adelgaçar o fino fio do tempo que me separa da finitude. Apressar o tempo faz um favor ao tempo que tem pressa de o ser. Pelo caminho, estreitam-se os corredores que pressentem a finitude. 

A teoria das probabilidades soma-se a favor da prudência dos velhos. Ao conduzirem devagar, são menos suscetíveis ao sinistro. E, por mais que a metáfora do atraso persistente paire como anátema sobre os velhos que atrasam o trânsito e, assim, atrasam tudo o resto, o vagar dos velhos devia ser a lição a reter pelos apressados que, quando chegarem à idade deles, vão arrepender-se de  terem sido reféns da urgência de quem não dá valor ao tempo no seu vagar. 

Prometo não perder a paciência com os velhos nas ruas e nas estradas. Pelo menos até amanhã.

15.1.26

LXXVI

The Smiths, “Big Mouth Strikes Again” (live at the Whistle Test), in https://www.youtube.com/watch?v=AitXDDv155A

“(...) By rights you should be bludgeoned in your bed.”


O simples chão que é asilo prepara a indulgência. Não preciso de outros perdões; não preciso da caução alheia para povoar o saber com uma maré a favor. Nos interstícios do tempo, naqueles instantes que parecem emancipar-se do tempo, provocando a sua suspensão, avanço na hibernação que se subleva a favor dos contrabandos possíveis.

Dantes, quando o tempo era tirano e as convenções se abatiam sobre o meu peso, transitava no temor dos julgamentos alheios e não escapava ao exercício da magistratura de costumes. Levou o tempo indispensável para que o arrependimento vindicasse o seu lugar. Em vez de nadar a favor do caudal, comecei a olhar para as águas sob outros ângulos. Senti a autonomia latejar nas veias, tomando conta do sangue, tornando-o indomável. Extingui os laços que habilitavam uma pertença obediente.

A avalanche de perguntas soltou-se das algemas mentais que rimavam com a pose obediente. A existência tornou-se exigente e os sobressaltos contínuos tomaram conta do cenário montado. Pude então reparar que o pretérito se consumira numa apatia todavia serena. Não trocava de lugares e nem sequer desconfio que o tempo de outrora era a geografia certa. 

Do lugar em que me situo, não me escondo das dores pungentes que chegam ao olhar e ao sentir. Não me exilo das palavras condoídas que exacerbam a impunidade de almas órfãs. Não me refugio na contumácia quando o desconforto assobia aos ouvidos. Não transijo com as injúrias contra os que não têm meios de defesa. Não me deixo contagiar pelas pequenas corruptelas que, elevadas à escala gigantesca de uma multidão, se enraízam como usos. Não abençoo pelo silêncio o princípio geral da apatia que autoriza os mandantes a preferir o campo desminado de espírito crítico. 

Sei que, à minha volta, a poesia não se deixa de fazer sentir nos pequenos gestos que são indiferentes aos demais, que a música oferece mil mundos que são outras possibilidades de residência, e que há espíritos descomprometidos que continuam a passar a sua lente exigente pelas camadas do mundo. Sei hoje que um espírito descomprometido não usa o viés para abjurar um lado e ser complacente com o lado contrário quando em meios e fins não se distinguem um do outro. 

E descobri que os pesadelos começaram a rarear nos corredores inconfessáveis do sono. À medida das asas que alaram o pensamento desalgemado.

14.1.26

LXXV

Soungarden, “Burden in My Hand”, in https://www.youtube.com/watch?v=XmIqIVxUuKs

“Crack a smile and cut your mouth 

and drown in alcohol 

‘cause down below the truth is lying.”


A piada era ser como Dionísio e aplicar a teoria do espelho para ir buscar um bumerangue a uma destas partidas lúgubres que subiram ao púlpito da moda. O encarregado de negócios da embaixada seria responsável pelo livro de atas e de nele anotar os termos da reunião. Dionísio nunca ficaria a perder. Sem ele, as partes envolvidas estariam niveladas (assim manda a sagrada igualdade).

Perante um óbice maior, as mãos uniam-se para removê-lo. Era quando se percebia que da cooperação medram os avanços palpáveis. E mesmo que uns sejam mais ganhadores do que outros, ninguém pode legitimamente acusar o pleito de ter gerado perdas tangíveis. Será uma forma de amputar uma doença pueril que criou raízes com alguns protagonistas coevos: dobrar o braço ao adversário até o torcer e sair ufano para que a audiência testemunhe a testosterona dos vencedores. 

Hoje deixou de contar a lealdade, o sentido epicurista de quem aceita colaborar com os outros por intuir que não é a rivalidade que os move. Alguns, iludidos pelos efémeros ganhos e pela visibilidade que não sabem estar condenada à rápida dissolução, apostam-se competitivos. Estabelecem que a competitividade é intrínseca à natureza humana. Confundem os termos, provavelmente radicando no também ilustre desconhecimento da História e de um módico de Filosofia. E assim prosseguem o seu caminho, agarrados às certezas categóricas, os melhores candidatos à súbita deceção.

Quem é a sua guarda de honra? São eles próprios, admirando o envelope que os cobre e esconde a fonte de que provêm. A urgência em saírem do anonimato atira-os para uma visibilidade que lhes será, mais cedo ou mais tarde, malsã. Os asininos pressentimentos cobram do futuro um lugar que ele não garante. Frequentemente desenganados quando o tempo esperado acontece, refugiam-se em pretextos, preconceitos e toda a estultícia que não os confunde com o ontem de que partiram.

Sua é uma partitura puída, feita dos restos da entronização de um eu acima dos demais, como se acreditassem na sua predestinação e não soubessem que, a esse respeito, a igualdade é um genuíno genoma da democracia, nivelando todos por baixo. Passam o tempo todo a fingir, mentindo a si mesmos. Não admira que celebrem Dionísio, quando deviam ser o festim onde são a carne para canhão de quem os arregimenta para o papel de idiotas úteis.

13.1.26

LXXIV

Dry Cleaning, “Hi My Head All Day” (live at WFUV), in https://www.youtube.com/watch?v=Rbvz72f0ISs

“Life, a series of signals and memorials 

telling us this or that 

telling us this or this, think of that (...).”

Sentia como se dentro de mim só houvesse baldios. A vegetação a condizer, arbustos que dificilmente teriam nome a não ser para os botânicos. Mas não queria que os caudais insondáveis que me habitam interiormente fossem espaço ocupado por peritos. Queria continuar a ser um rosto sem nome para os que não soubessem o meu nome.

Sentia que as palavras eram mordaças executadas por vontades divinas. Não que acreditasse em deuses (e o plural não é incidental). A vontade estava penhorada pelas palavras contrafeitas. Invisíveis, como se fossem fantasmas que povoavam o espírito contra a sua vontade, os malfeitores apoderavam-se da serenidade que era convocada para a estrema do dia. Era como se corresse desamparado em cima de uma fina corda sobranceira a um precipício, com a audácia de desviar o olhar para baixo, só para experimentar a improvável ausência de vertigem. 

Nada disto coalescia com a ideia de baldios interiores. Como é de notar por qualquer observador atento, não seria de notoriedade que andava em demanda. Era o contrário: um anonimato heurístico, como se uma demanda interior percorresse as veias e proclamasse a urgência de ser indiferente aos demais. Tal como eles eram indiferentes. A reciprocidade não pode ser adestrada de ânimo leve. 

Na madrugada, parecia que a morada era diferente. Talvez fosse do silêncio que desmentia a roda-viva que suava do lado de fora das janelas. Ou da noite que se demorava teimosamente nos dias mais profundos do Inverno, como se a claridade tivesse de ser postergada para ocultar as sevícias que o mundo lá fora não hesita em cometer. O anonimato dos baldios ajudava a decantar o tempo vagaroso. Naquela solidão madrugadora sirvo em mim o silêncio conciliador, o manancial que alimenta a prodigalidade de um pensamento. Antes que a roda-viva, com a multidão ingente que a alimenta, viesse estilhaçar a serenidade que julgaria campestre, se não soubesse que meus não eram os domínios debaldios. 

12.1.26

LXXIII

Joy Division, “The Eternal”, in https://www.youtube.com/watch?v=gR0ytCjcSL4

“Procession moves on, the shouting is over.”

Para que são feitas as regras? Existem porque os seus criadores sabem que não são de confiar (como espécie). As regras impõem comportamentos e proíbem outros, num tempo e num lugar condenáveis pelo sentir social, ou porque deles se esperam efeitos danosos que deixam uma pegada de vítimas. As regras existem porque as pessoas, organizadas socialmente, precisam de saber como delimitar a certeza e a segurança enquanto vivem como tal. A lógica das regras é que a sua ausência teria efeitos catastróficos no nervo social: a anomia seria o fermento para a desordem e para vingar a lei do mais forte.

Quem estabelece as regras, aquelas que se traduzem em Direito, é o Estado. Ao nível internacional, são as organizações internacionais e os acordos em que participam grupos de países. Os autores das regras sinalizam as garantias de certeza e segurança, naquilo que for caucionado pelas regras e à margem das contingências, que escapam à previsibilidade. Prestam um serviço à comunidade. Fornecem-lhe um cimento que permite que a organização social se mantenha coesa, sem entorses nem adulterações. 

O que acontece quando o autor das regras as rompe? Desaparece a certeza que ampara o funcionamento ordenado da sociedade. O autor das regras sinaliza que as regras, as que ele próprio não cumpre e outras que vierem a preceito, podem ser atropeladas. Pois se é o seu máximo garante que não as cumpre, que obrigação têm os integrantes da sociedade de continuar a obedecer às regras que o seu criador deixou de seguir? 

O privilégio de fazer regras e de impô-las a um grupo fundamenta-se no monopólio de autoridade exercido pelo Estado e pelas organizações internacionais. Quando algumas destas regras são instrumentos para a preservação da paz entre os países, a sua violação é uma extravagância com efeitos ainda mais danosos. Se as regras destinadas aos indivíduos não forem acatadas, o tecido social pode ficar hipotecado pela desordem que se instala; a falência de regras que são um alicerce da convivência pacífica entre as nações pode levar algumas delas à beligerância. Em ambos os casos, quando a responsabilidade pela desobediência é do criador das regras, há um derradeiro efeito que ultrapassa o simbólico: como o próprio criador exerce o monopólio de autoridade sobre a sociedade, se ele deixar de seguir as regras, a sua autoridade estilhaça-se. O criador das regras, ao aparecer como o responsável pelo seu desrespeito, cria o precedente para a dissolução da sua própria autoridade.

A razão das regras fundamenta-se no monopólio de força do seu criador. Ao nível internacional, onde se confirma uma incongruência entre teoria e prática (os países são todos iguais; mas uns exercem mais poder do que outros), a responsabilidade pelas fraturas na frágil ordem estabelecida é assimétrica. Mede-se pelo grau de influência daquele país que sobe a palco com o opróbrio de quem não respeitou as regras. A responsabilidade acentua-se quando as regras que deixaram de ser seguidas são centrípetas para a paz entre os países.

Uma interpretação alternativa parte do pressuposto de que as fragilidades da ordem internacional não permitem estimar os efeitos da desobediência às regras. Embora os países adiram a regras consensualizadas para a preservação da paz, quando surge uma contradição entre os interesses nacionais e as regras que constituem um embaraço a esses interesses, o conflito resolve-se com o sacrifício dessas regras. Fica à mostra um rosário de incoerências dos países, que ora denunciam aquele que não respeitou uma regra, ora se esquecem dessa condenação quando, no dia seguinte, sacrificam aquela regra para não travarem o interesse nacional.

Como o exemplo deve partir de cima, e quem está no topo da hierarquia é a entidade criadora de regras, o estado comatoso em que se encontra o respeito das regras é um mau sintoma do estado da humanidade. Quem pode confiar num criador de regras quando ele é o primeiro a atropelá-las pela conveniência que o atropelo representa para o cumprimento dos interesses do país?

O Homem é mesmo o lobo de si mesmo. Ou então, os anarquistas estão carregados de razão. Continuar a defender as regras como cimento da sociedade (no jargão oficial: Estado de Direito) não passa de um ato hipócrita. 

9.1.26

LXXII

 

The XX and Jamie XX, “Shelter” (live remix), in https://www.youtube.com/watch?v=vE8jbq_XyFc

“I can’t wait till we’re afraid of nothing.”


Disseram que me foi marcada falta de comparência. E que a omissão é pior do que teria sido se tivesse estado presente. Como aceitar que um silêncio possa ser mais comprometedor do que um arsenal de palavras que ferem alguém? 

Fui acusado de falta de comparência e de por ela ter feito uma aliança com os que se nos opõem (chamam-lhes “inimigos”, mas não os tenho nessa tão radical conta). Atónito, puxei a memória atrás para resgatar palavras que tivesse dito ou escrito em apoio dos “nossos” adversários. Não encontrei uma única palavra nesse sentido. O que mais me incomoda é haver um conjunto de pessoas que me atiram para o seu albergue, não tendo a cortesia de perguntar se dou o meu consentimento. Na parte que me diz respeito, não faço parte desse “nós”. Prefiro que me tenham na conta de um espírito rebelde que recusa arregimentações, colagens imperativas operadas de fora para dentro, fidelidades caninas ao grupo que supõem a obnubilação do singular, o cachaço exposto às diatribes que se imponham para preservar a coesão do grupo. 

Mesmo que não fosse esse o caso e de mim propusesse essa adesão, continuei sem encontrar uma correspondência lógica entre o silêncio e a imputação de um apoio aos adversários. A falta de comparência não pode ter os seus efeitos ampliados. Num silêncio, não há sequer palavras escondidas nas entrelinhas, muito menos palavras cifradas apanhadas no radar de diligentes vigilantes de uma causa qualquer e por eles entendidas como traição à causa. 

Quem treslê uma falta de comparência é o pior desamante da liberdade. Extravasa o significado da existência gregária: um suposto devir coletivo não se sobrepõe à idiossincrasia individual apenas porque sim. Deviam entender, estes medonhos abocanhadores da liberdade avulsa, que o silêncio significa isso mesmo, um silêncio. Não se pode virar o silêncio do avesso para descobrir palavras que não foram ditas nem intuídas. Para estes catedráticos autocondecorados, um silêncio pode ser gongórico. Oxalá fosse por causa de uma imaginação prodigiosa. 

A falta de comparência nunca se marca quando o espírito voa livre de amarras e se recusa a ser parte de feudos que delimitam a vontade em varas hermeticamente seladas. O máximo que conseguem os vigilantes que não fazem concessões à liberdade de espírito é que os espíritos intrinsecamente indomáveis não compareçam às demandas. Falham-nas intencionalmente. Militam na única religião que admitem: a falta de comparência. A falta de comparência é a garantia de que esses espíritos não fazem concessões a quem tanto quer domá-los. 

8.1.26

LXXI

Royal Blood, “Lights Out” (live at Later...with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=SAGrejll9s8

Euphemisms on a loop interchanged 

which hands get to turn the final page?”


Quanto do tempo que vivemos é herança dos sonhos? Quantos dos medos perenes são a lavra de pesadelos medonhos? Não contamos com a contingência nos planos hermeticamente selados que somos ensinados a adestrar. Entre o caos, esta latina desorganização que cultiva a improvisação, desaprovamos a panaceia do critério e dos planos que previnem a incerteza do futuro – como se o futuro, na sua intrínseca contingência, autorizasse essa prevenção.

Há um certo conforto interior na ideia de que foram tomadas medidas preventivas para caucionar os imprevistos que colonizam o tempo futuro. Como se fosse um descargo de consciência e tudo pudesse continuar sem vultos a adejar sobre a pele desse tempo. Faz parte de um código de conduta: não sabemos nada sobre os dias consecutivos, prevenimos a indeterminação desse tempo através de almofadas que devem funcionar como um airbag em caso de sinistro automóvel. Por mais incerta que seja a incerteza, num desdobramento da contingência até ao infinito, pois sabemos o que é a incerteza futura, mas não estamos em condições de antecipar a forma concreta como ela se congemina.

Da mesma forma que os sonhos podem ser arquitetos de concretizações com assinatura futura, os pesadelos podem ser presságios da indeterminação que se lança contra nós. Atuamos por estimativa, que nem sequer a tentativa e erro é critério que se possa usar perante a ausência de contornos do futuro. 

Se um pesadelo encena o que nos sobressalta e se não queremos que essa encenação se materialize, tomamos medidas preventivas. Não há desperdício de recursos: se esse mal não for confirmado pelo futuro, os recursos empenhados na sua prevenção tiveram a utilidade de um conforto que se algema à serenidade futura. O risco não foi confirmado, mas estávamos preparados para a sua ocorrência. Só não sabemos se o plano dedicado à prevenção dessa contingência seria suficiente para travar os seus efeitos se ela tivesse passado do papel à prática. Ou então, pode ser tudo fruto da necessidade de encontrarmos passatempos. Sabemos que não temos força nas mãos para travar os efeitos de uma contingência que sobre nós se abata. Ficamos apaziguados ao saber que fomos preventivos e que temos um plano para enfrentar os danos causados por uma contingência. 

Os pesadelos têm esta serventia. São extemporâneas manifestações de um futuro que pode acontecer. Se lhes dermos importância, estamos preparados para lidar com os seus efeitos caso o pesadelo seja teimoso a ponto de se transformar em realidade.