Torci a roupa para que toda a água se escorresse. Às vezes, lembro-me disso quando as pessoas acreditam que podem pôr o conta-quilómetros a zero, desencomendando o passado. O esquecimento pode ser manipulado com propósitos diversos. Correr com o tempo havido pode ser um deles. Se o processo for convincente, não se dá conta que o esquecimento foi enxertado no tempo para que o passado fosse desmobilizado. As pessoas estão habituadas a mentir a si mesmas. Procuram lugares desconhecidos. É nesses lugares que (acreditam) podem ser seletivas com o tempo que (acreditam) conspira contra elas. Mas são elas que conspiram com o tempo quando o querem varrer do paradeiro pretérito. São autoras e vítimas dessa conspiração. É mais fácil esconjurar fantasmas que tomaram conta de um pedaço do passado do que procurar uma vacina que limpe todo o tempo havido. Em vez de procurarem um pedestal onde sejam juízes das suas circunstâncias, é melhor não se esconderem dos contratempos, como se esperassem que um exílio interior compusesse as máscaras necessárias para abater o tempo de outrora de uma só vez. Usam tanto tempo como combustível dessa empreitada que nem percebem como gastam, sem serventia, um tempo que é raro. As pessoas parecem convencidas de que podem ambicionar a perfeição, continuam a tropeçar nessa usura. Ou então, magoadas por estilhaços do passado, acreditam que podem sanar as dores se obliterarem todo esse tempo de uma só vez. O pedestal que devem procurar é outro. Um pedestal que rime com humildade. Um pedestal onde sejam a expressão viva da imperfeição e de como isso é a matéria-prima do dia a dia. Se souberem descobrir esse pedestal, as feridas do passado cicatrizam. A mágoa e a angústia herdadas do passado podem ser compensadas com o olhar que criteriosamente escolhe viver do presente.
“(...) 28% dos norte-americanos confessam já ter terminado uma amizade por motivos políticos – valor que era apenas de 7% em 2000.” Pedro Adão Silva, “Disparar contra políticos, uma tradição norte-americana”, in Público, 29.04.26, p. 40.
A política é uma coisa séria demais para ser levada tão a sério ao ponto de amigos desfazerem uma amizade por causa das suas divergências políticas. E por levarem tão a peito as tatuagens políticas entranhadas na carne que inativam a intolerância mesmo em relação a um amigo que está nos antípodas políticos.
As circunstâncias podem ajudar a perceber caso a caso. Pode acontecer que a amizade tenha sido confundida com um mero conhecimento da pessoa com quem se deixou de falar – ele há gente que tem uma definição muito liberal de amizade, acabando por banalizá-la. São os casos de amigos que não cumprem os mínimos da amizade e se incompatibilizam por causa de diferenças políticas. Afinal, não era amizade que os ligava. Se fosse uma amizade autêntica, o respeito pelo outro falaria mais alto do que as divergências políticas. Nem que fosse através de um código de conduta mutuamente acordado que os impedisse de falar em política para não ferirem a amizade.
Se os 28% de norte-americanos que confessaram ter terminado uma amizade porque o amigo é politicamente insuportável não exageraram no reconhecimento do laço rompido, é um sinal de como o tempo presente vai de mal a pior. A menos que esteja errado, a amizade é um dos sentimentos que mais recompensam a existência humana. Quando uma amizade acaba por causa de divergências políticas, os amigos que o deixaram de ser colocam a política acima da amizade. Quando isso acontece, é preciso contemplar (outra vez) a hipótese da amizade quebrada não cumprir os mínimos da amizade, percebendo-se como foi derrotada pela política (e pelas divergências anotadas).
Quando uma amizade genuína foi a sepultar, ou quando foi temporariamente suspensa até que os amigos caiam em si e reconheçam o disparate da política sitiar a amizade, os planos invertem-se: dá-se mais importância ao que é menos importante, condenando o que é mais importante à irrelevância. As pessoas estão propensas à radicalização e a radicalização traz a intolerância a tiracolo.
O plano pessoal nunca devia admitir a intrusão do plano político. Os políticos que são desafiados a comentar problemas dos seus pares com a justiça têm uma saída airosa: à política o que é da política, à justiça o que é da justiça. Este podia ser o mote para que a amizade fosse sempre à prova de bala, resistindo às provações que acaloradas divergências políticas possam causar: à amizade o que é da amizade, à política o que é da política (ou: amigos, amigos, política à parte).
A amizade é como o amor: não se explica, sente-se. O que se diria de dois amantes que deixassem de o ser por o amor ter sido consumido pelas incompatibilidades políticas? Ou o amor era apenas um simulacro, ou eles não sabem o que é o amor.
A resposta não foi dada com convicção (senão, a frase teria terminado com um ponto de exclamação). Mas foi uma resposta expedita: se tivesse cronometrado o intervalo entre a pergunta e a resposta, não teria passado um segundo. A resposta estava preparada. Seja como for o dia, o indivíduo responde mecanicamente quando alguém lhe pergunta se está bem-disposto. Ele está sempre bem disposto. Sempre. Não cava espaço para aqueles dias sorumbáticos que travam a boa disposição.
Tenho por preceito desconfiar dos eternamente bem-dispostos, aqueles que somam positividade a cada dia dobrado, aqueles que contagiam tanta boa disposição que quem vive nas suas imediações não consegue escapar, apanhando com uma dose musculada de alegria que transfigura o dia, caso tenham acordado presos aos lençóis da má disposição. Desconfio porque não acredito que todos os dias sejam passados pela gramática da positividade, a menos que essas pessoas finjam que não pertencem a este mundo e desviem o olhar cada vez que as desgraças em que o mundo é militante chocam de frente com esse olhar.
Observo estes gurus das bem-aventuranças perenes e descubro mitómanos em série. Não é possível que alguém esteja constantemente com um sorriso de orelha a orelha a enfeitar a vida em geral, e a sua em particular, com uma alegria imorredoira que salta da sua órbita e se oferece aos angustiados que andam em demanda de redenção. Não é possível que alguém desconheça a angústia, que não seja assaltado por dúvidas sobre o sentido da existência, que não se incomode com o bolçar dos soezes que existem em abundância, que acorde com a sensação de que o dia será uma tortura e não o leve desse modo, apenas esperando que o dia seguinte seja diferente.
A boa disposição contagiante destas pessoas, que estão bem-dispostas todos os dias, contém o seu próprio antídoto. O que elas precisam é de um banho de realidade, para reduzirem o lume-brando em que ferve o seu otimismo e serem desarmadas dessa paixão desarmante por tudo e por todos. Deviam ser obrigadas a frequentar um curso de pessimismo antropológico, só para não estarem fingidamente bem-dispostas todos os dias do ano, todos os anos pelo tempo fora.
O indivíduo que exibia uma boa disposição estrutural e à prova de bala, ao dizer que está “sempre” bem-disposto de forma tão maquinal, revelou-se rapidamente ao engatilhar uma resposta automática à curiosidade de quem o interpelou. A resposta parecia obedecer a uma padronização sintomática, reveladora de um significado oposto ao proclamado. Afinal, tanta convicção é o espelho da sua antítese.
Como já alguém aconselhou, tudo o que é excesso é perverso. E lanterna de mentiras enraizadas. A melhor prática é ignorar estes gurus que não passam de um logro instituído.
Encurralado na dorna onde se afeiçoam os costumes que cimentam códigos de conduta, atraiçoado pela bússola avariada que funde os sentidos. Voluteiam teorias da conspiração em barda. E depois ainda mais teorias da conspiração sobre as teorias da conspiração. Já poucos se incomodam em decantar os efeitos ilusórios que são logros para o olhar.
Este encurralar é como ser perseguido e sentir-se na posição da presa. O acosso constante, o sussurrar distante dos caçadores, o coração acelerado num instante, os baldios atravessados na sua espinhosa feição, os esconderijos evitados que podem ser apenas armadilhas deixadas pelos perseguidores. É como são as teorias da conspiração e a sua antítese: não passam de uma reprodução delas mesmas, as teorias da conspiração sobre as teorias da conspiração. As camadas somam-se umas às outras, uma teoria desmentindo a teoria que é seu ponto de partida, sem demorar a ser contestada por uma terceira teoria que a desmente sem restaurar a primeira. A verdade fica em surdina, esmaecida, à espera de se tornar um corpo refratário.
A coreografia das concorrentes teorias da conspiração é um mexer de corpos desconjuntados, a coreografia, ela própria, um hino ao caos em movimento (ou ao movimento reduzido ao caos). A lucidez em cacos, estilhaçada, espraia-se pelo chão, oferecendo um chão pontiagudo que fere os pés de quem não se intimida com a profusão de loucura malsã que enxameia as ruas. As teorias da conspiração que se sobrepõem são como aquele ensaio lúdico que consiste em entoar repetidamente uma palavra até que ela se esvazie de significado.
No concurso de conspirações, encurralados na interminável esgrima de argumentos forjados e de factos inventados, reféns da cortina de fumo que embacia os olhares sucessivos, é como se as pessoas fossem despidas do que são e passassem a ser autómatos que seguem cegamente as prescrições inventadas para os despreparos do mundo. Até que sejam meras farsas de atores inventados para serem metáforas fingidas do que julgavam ser.
O que nunca disseram sobre as teorias da conspiração e sobre as suas negações constituídas noutras teorias da conspiração é que deixámos de saber quem éramos antes de sermos atirados para dentro do palimpsesto de conspirações.
Sou aquele que não tem paciência para as reuniões do condomínio. Sou aquele que detesta a moralidade vertida sobre os outros e, contudo, não resiste a deixar em ata mental advertências que não deixam de ser intenções morais. Sou aquele que depressa cai numa contradição, apesar de viver cercado pelo fantasma da coerência, num apelo limítrofe à perfeição que sei ser impossível. Sou aquele que promete não vociferar no trânsito nem insultar outros condutores e, à primeira contrariedade, deixo a promessa deserta. Sou aquele que ambiciona a condição de cidadão exemplar, enquanto no íntimo a consciência renega o estatuto com a sua prática de vida.
Somos intenções do que não conseguimos ser. Talvez seja a melhor homenagem à imperfeita condição que nos é inata e que não devia ser um sobressalto contínuo. É errado confundir imperfeição com impureza. Ser matéria corrompida só aumenta a angústia quando tentamos convencer-nos de que podemos ascender ao olimpo dos exemplares. Mas não há ninguém que seja exemplar. As vidas plúrimas, que abrigam tantas facetas, não podem ser exemplares.
Quando se admitem fragilidades e um rol de incoerências navega à superfície, contrariando a projeção exterior que foi congeminada, é uma fraqueza que desmente as imputações de perfeição que possam gravitar à nossa volta. Não é um ardil escondido: não é alguém que se desmonta de cima a baixo, expondo-se como paradigma do desexemplo, para entrar no bodo dos desafortunados que descem à escala dos infernos, ao lugar onde ninguém se encontra em pior condição.
Não se trata de um movimento de autoflagelação nos antípodas do narcisismo, ou um narcisismo virado do avesso. É uma desconstrução genuína que desmonta as aspirações de ser exemplar. Não somos os deuses que intuímos quando a soberba nos ultrapassa e aparentamos ser singulares. Mas também não somos indigentes que não procuram redenção nem a comiseração dos outros, irremediavelmente perdidos para a contabilidade da espécie.
Somos o sangue espontâneo que em nós circula, nem menos nem mais. Com todas as fragilidades tatuadas que não são motivo para condenação terminal.
As frases são curtas. Devem evitar adjetivos. Os adjetivos descoloram as palavras que os possuem. E devem evitar vírgulas pelo meio. As vírgulas pelo meio não enfeitam as frases, disfarçam o seu sentido. Que não seja esquecido que as palavras são uma alquimia. Dispensam ornamentos. Os ornamentos são desvios no sentido das frases.
Uma certa estética da escrita importa a complexidade para o texto. Insurgem-se contra o simplismo, os seus arquitetos – talvez confundindo simplismo com simplicidade; sublevam-se contra a rarefação do entendimento se as frases forem ungidas pela complexidade. Acreditam que a democratização do entendimento banaliza a escrita e a leitura. Só se pode escrever com simplismo porque os leitores renunciam à leitura da complexidade, ficando desertos os textos que contrariarem a tendência entronizada.
Os eruditos, que se refugiam na complexidade porventura porque não sabem ser tributários do que é simples, não abdicam do seu trono. É de lá que passeiam a sua arrogância intelectual. É de lá que, ufanos de si mesmos, julgam os que ficam aquém da erudição, atirando-os para a vulgata da banalização da escrita, às vezes embrulhando tudo no rótulo fácil da “escrita pop”. Ao fazê-lo, caem numa armadilha. São eles que ativam a cidadania participativa. São arautos da democracia em todas as suas manifestações. A tanta erudição não chega para evitar a contradição de quem se arroga o papel de embaixador da democracia e, depois, se manifesta contra o simplismo de um texto por capitular às exigências da democratização.
A simplicidade não é sinónimo de simplismo. É saber comunicar com economia de palavras. Sem adereços, nem frases que nunca mais acabam, entrecortadas por subtextos e mensagens laterais que podiam vir ao caso se a frase fosse dividida em frases diferentes. Sem a profusão de adjetivos que, quase sempre, somam nada à mensagem. Sem se enredar em sinuosas fórmulas que apenas distraem o leitor ou fazem com que um texto que podia ser espremido numa versão enxuta de ornatos se alongue por páginas e páginas que roçam a inutilidade.
De quantas páginas precisamos para protestar contra a soez condição dos homens e mulheres que cedem perante o chamamento da realidade que nos cerca? De quanto tempo precisamos para entender os homens e mulheres que teorizam sobre a realidade que nos cerca, aderindo a um pragmatismo que trava o passo aos idealismos? Do que precisamos ainda, além das lições da História, da Antropologia e da Psicologia, para sabermos que o Homem lobo de si mesmo tende a constituir-se numa espécie em vias de extinção?
A beligerância está outra vez em alta. Passam os anos sobre as guerras mais sangrentas e a memória estiola num esquecimento lancinante. De repente, a imagem distante desses conflitos emagrece a memória; o tempo que passou, que não passa de uma vírgula no espaço dos séculos que se estende na História da humanidade, transforma-se numa medida que ultrapassa a memória de gerações. Já não se evoca a memória dos conflitos mais sangrentos como terapêutica preventiva da propensão do Homem a decair na guerra.
À beligerância de uns corresponde o rearmamento dos demais. Dizem os peritos, embebidos na sapiência que lhes é devida e transpirando um otimismo desarmante: a vertigem pelo rearmamento é para dissuadir os beligerantes que nos ameaçam. As armas não serão utilizadas, existem para dispensar os outros, os que exibem a sua pose agressiva e não escondem as ameaças em que se constituíram, de usarem as suas armas contra nós. Rearmamo-nos com o propósito de manter a tão frágil paz que se tece no abismo dos arsenais reforçados. Existe maior contradição de termos?
A interiorização da corrida às armas é um sinal exato da infâmia da espécie. O desexemplo não cessa de acossar: o reforço dos arsenais custa rios de dinheiro. Os peritos revelam as fortunas que vão ser gastas e acenam com a cabeça, defendem que é um gasto necessário para não sermos invadidos pelos inimigos que medraram. São montantes colossais, invocados com a naturalidade de quem atesta a inevitabilidade da despesa – na caserna, alguém refletirá, em pose professoral, que os valores, por serem valores, custam caro se os quisermos manter. Podemos cobrir com seguros os riscos que assumimos na vida civil. Mas esses riscos não dependem da ação humana (como a proteção contra a beligerância dos outros), dependem de eventos que estão fora da vontade humana. A comparação, que alguns fazem, é indevida.
Fala-se friamente dos números que dão uma expressão viva ao tanto que temos de gastar em armas se quisermos viver à margem das ameaças dos que são ostensivamente agressivos. Fala-se friamente porque se pressupõe que a omissão de tais gastos nos coloca à mercê da agressividade dos beligerantes e da possível extinção dos valores que nos conduzem. Não se fala dos destinos que essas fortunas poderiam ter, de como poderiam melhorar a vida de pessoas concretas.
Os peritos, na sua frieza analítica, tão viciados no realismo em que se embebem, dirão que as pessoas concretas poderão desaparecer se ficarmos desprotegidos, à mercê dos soezes que constituem ameaças perenes à paz. Quando assim é, já capitulámos perante a desumanidade dos outros. Ao usarmos os mesmos meios que eles usam, deixamos de ser assim tão diferentes deles, por mais que os peritos invoquem a existência de uma diferença abissal entre a beligerância de quem ameaça atacar e o rearmamento de quem se quer proteger das ameaças externas.
Esta é uma altura em que não compensa segmentar a humanidade em subespécies consoante a sua adesão à paz e a sua propensão para a beligerância ativa e estruturalmente enraizada. Somos todos humanidade. E, se a humanidade sempre teve parte na intolerância, na objeção do outro quando difere de nós, talvez seja altura de assumir a ingenuidade de quem se atém ao esteio utópico de uma humanidade mudada. Se a humanidade não mudar, vamos continuar à mercê daqueles que não hesitam em sacrificar as vidas dos que se lhes opõem. Vamos continuar a despejar rios de dinheiro em armas que, ou são usadas para matar vidas e estender impérios (esse conceito arcano), ou são mantidas, sem serem usadas, apenas para que os outros não usem as suas armas contra nós.
Só os poetas e os distraídos não admitem que uma utopia não é uma expressão de ingenuidade. Tendo alguma proximidade com os peritos aqui mencionados, cada vez mais me apetece ser porta-voz dos ingénuos que se agarram à utopia de uma humanidade curada dos seus males enraizados. Porque despejar rios de dinheiro no rearmamento é sintoma de uma doença que se apresta a ser terminal.
Se não aprendemos nada com a História, ficamos mal no acerto de contas de que não podemos fugir. Porque da História não podemos fugir, mesmo que dela pouco saibamos ou fingirmos pouco saber. Por mais que tentemos correr atrás do futuro, procurando dele ser seus arquitetos, prevenindo os piores cenários através do avivar dos arsenais, essa é uma corrida que perdemos sem sequer sair da casa da partida. No pior dos cenários, que os peritos asseguram não ter probabilidades de se materializar, seremos nós, homens e mulheres, a perder. Todos, sem distinção de nacionalidade, independentemente de como pensamos a humanidade.
Os sonhos, escapando por ora ao saque fiscal, devem ser vindicados quando necessário. O meu sonho imediato é que as vontades humanas se conciliassem no sentido do desarmamento, e que todos os rios de dinheiro que serão usados em futuros arsenais pudessem ser destinados a fazer com que as pessoas vivessem melhor.
with the day shining through purple film combining?”
O Senhor Festa não estava sempre em festa, contrariando as ideias feitas que, em grande medida, ele próprio pusera a circular acerca de si mesmo. Quando estava em público, era o epítome da folia. Um boémio, mesmo que ainda fosse dia, pois os preparativos para a festa são uma festa à parte e as pessoas andavam com o olhar muito virado para o chão, o que era entendido pelo Senhor Festa como um disfarce intencional da angústia que as consumia.
Ao contrário do que se podia pensar – dizem os cânones: os boémios são frívolos –, o Senhor Festa estava atento ao que se passava à sua volta. Sabia que o mundo andava pouco recomendável, assoberbado pela descompensação ditada por gente também nada recomendável, gente essa que aumentara de contingente à medida que o tempo passava. As pessoas que se limitavam a ser vítimas dessa gente desrecomendável não tinham culpa do ocorrido. Era-lhes devida uma compensação pelos danos causados. A boémia, parte intrínseca da distração que alivia o fardo do tempo e das circunstâncias presentes, era uma estratégia para arrebanhar a compensação devida. Os inocentes não deviam ser vítimas da própria inocência.
Não era por acaso que o Senhor Festa se distinguia entre os boémios. O que poucos sabiam é que o Senhor Festa era de uma generosidade desarmante. Levava os outros à boémia e obrigava-os a esquecer os elevados custos de viver no tempo e no lugar em que viviam. Os que o conheciam, até os que acreditavam que esse era um conhecimento de ginjeira, o que não sabiam é que o Senhor Festa andava com o rótulo de boémio, mas a folia não era algo que cultivasse em privado. A generosidade do Senhor Festa era o travão que impedia os demais de sondar o seu lado escondido.
O Senhor Festa fingia que gostava de folia para convencer os desiludidos a acompanharem a compensação por serem vítimas de um tempo e de um lugar. Quando estava sozinho, o Senhor Festa era o que ninguém sabia dele: angustiado com as torturas do tempo presente, afligido com as notícias que enxameavam os jornais, as televisões e as estações de rádio e contaminavam o seu olhar, às vezes consumido interiormente pelos desarranjos das pessoas más, incapaz de ouvir um minuto de música hipnótica feita de batidas que pareciam arrancar o coração com uma mão pesada. O Senhor Festa queria acreditar que as pessoas más o são por um acidente independente da sua vontade.
O Senhor Festa aproveitava a boémia como os outros: o princípio geral do esquecimento do que nos apoquenta é um direito que devia estar inscrito na Constituição. Ir pela noite fora, imerso na folia, garantia o exercício daquele direito. Era uma anestesia, intencional. O direito era dele e dos outros, por causa da entrega do Senhor Festa à causa da generosidade com os outros.
“You and me are here alone face flat along the edge of the glass
but I’m not here to preach, I’m just sick of thugs (…).”
Qualquer dia claro serve para matar a fome que se agiganta desde as profundezas do pensamento. A claridade é o mote para esconjurar os metódicos operários que têm por função esvaziar o pensamento, convencer as pessoas de que devem desabituar-se a pensar, pois há quem tenha esse incómodo por eles.
Que seja do conhecimento público, ninguém pediu para que outros sejam seus procuradores. Por mais cómoda que seja a oferta, os atos e as omissões carregam consequências. Às vezes, são irremediáveis. Se for passada a procuração aos diligentes agentes que se propõem a pensar em seu nome, o paradeiro do pensamento não será recuperado. Nessa altura, ninguém pode protestar. Passivos perante a oferta pública de pensamento, a sua tradição determina uma perda irreparável. O pensamento foi exportado para outros, que agora pensam em seu nome e pensam por si. No caso destes, o pensamento foi abolido.
O protesto virá a destempo. A propensão para aligeirar as empreitadas rotineiras pode voltar-se contra quem assim procede. São inúteis os arrependimentos. O pensamento exportado não reentra na sua posse. Exilado algures, é como se tivesse saído da órbita de quem o tutelava com efeitos perenes. E o pior é que não há meios conhecidos de voltar a atrair o pensamento que foi investido noutros. É como se o pensamento passasse a ser proibido na esfera de quem o subcontratou.
O bumerangue regressa à casa de partida, mas a metáfora não se aplica ao pensamento exorbitado pela sedução dos falsários, que tudo o que querem é tomar conta do pensamento de sucessivos indivíduos, só para não serem um rombo no pensamento que aqueles curadores intentam. A infantilidade de quem cede o passo diante das facilidades levianas que se desdobram nas ofertas de farsantes arroteia os custos irreparáveis. Não há volta a dar. Em vez de cantos de sereias, com as promessas de devaneios que dispensam custos pessoais, devia-se ensinar nas escolas que o pensamento próprio é uma dádiva para quem não quer abdicar de ser eu próprio nem de ter o seu pensamento expropriado em benefício de incógnitos.
Devia haver um código de conduta que obrigasse a registar o pensamento de cada um e a criminalizar a criminosa apropriação de pensamento alheio, que é uma promessa de morfina que extingue a humanidade que habita em cada um.
Quem é da tua alcateia? Saberás o paradeiro de cada um deles? Interessa-te saber onde estão? Que interessa se te é dado a comandar uma alcateia?
A posse sempre foi materializada. É sobre ter, e o que se tem é uma coisa, não uma pessoa. Mas atravessamos tempos de adulteração de conceitos: a posse pode ter uma pessoa como referência. Muitas vezes, o processo de empenhamento num grupo (algo a que os mais condescendentes atribuíram o eufemismo de “pertença”) parte dos próprios membros. É como se fossem despojados da sua identidade se não fosse possível responder ao repto da pertença. Têm de ser alguém que “pertencem a”. Nem é preciso que os que inspiram esta pertença determinem, com muita arbitrariedade, que os súbditos “pertencem a”. A sujeição voluntária dos membros do grupo dispensa os mandantes de serem déspotas. Ou, se o são, são benevolentes.
Para quem se empenha numa pertença, os que a inspiram não são déspotas porque lhes fornecem a argamassa de uma identidade. Continua-se a acreditar que há uma pertença coletiva que se superioriza à identidade individual. Como somos gregários, não deve ser a identidade individual a asfixiar uma pertença coletiva. Que seja possível defender a combinação das duas sem arcar com a ofensa do egoísmo. “Pertencer a” não foge ao estigma da posse. Entreabre a porta aos dogmatismos que limitam o livre pensar e o livre agir, porque uma vez na alcateia, para sempre na alcateia, não se contestam ordens nem se questionam convenções (por mais que soem arbitrárias). Para quem assim lobriga, ser abjurado da alcateia é como a pena de morte social.
A teoria da orfandade social devia ser validada: as alcateias não precisam de quem as comande. Se são organismos que fruem da espontaneidade, se a elas aderem, por simples ato da vontade, quem delas se torna seu membro, a coesão dispensa uma linha de comando.
Se querem continuar a pertencer a uma alcateia porque imperativos gregários o ditam, ao menos que do ato da vontade venha à tona a tendência de democratização das alcateias. Elas só serão plenas representações democráticas se não forem guiadas por comandos exercidos por quem delas se apoderar e fizer sujeitar os outros a uma relação de dependência que se vicia numa posse que atua num duplo sentido: os que comandam a alcateia adoram ver-se ao espelho como os que pastoreiam a alcateia; os que confundem pertença com a humilhação de uma posse reforçam o vínculo possessivo com sua anuência.
Enrubescido na sua ira erudita contra os que ele próprio avaliava como eruditos de faz-de-conta, o erudito atirou-se contra o gongorismo e a falaciosa atração pela erudição dos falsos eruditos. Manifestou-se contra a erudição de cordel, as citações só para impressionar e, todavia, com pouca adesão ao contexto, daqueles que querem brilhar ao citar grandes vultos e, descobrir-se-ia se fosse possível fazer as vezes de uma mosca, as citações tinham sido arrebanhadas a jeito de uma oportunidade para cintilar diante da audiência.
O erudito especula (não se pode transfigurar numa mosca, hélas). Não pode assegurar, não tem meios para garantir, que o conhecimento dos pretensos eruditos que ataca é ciclópico ou se foi apenas um arranjo oportunista para se colar a uma oportunidade; e que, antes de resgatar essa citação do vulto da humanidade, nunca lera uma frase da sua obra. A não ser que o erudito esteja, distraidamente, a escorregar para um espelho de si mesmo.
Ao colocar-se na posição de meta-analista da erudição, o sumo erudito paira sobre os que se candidatam ao estatuto de erudito ou que usurparam esse estatuto sem serem reconhecidos no mercado da erudição. Se estendêssemos a teoria da especulação como força motriz da avaliação dos outros, poder-se-ia questionar se o erudito não tem inveja dos demais que se colocaram no pedestal da erudição. Quando os pares se consomem em rivalidades espúrias, é sinal de que dispensam a concorrência. Um erudito é espécie única. Um estatuto que cimenta o lugar cimeiro de uma linhagem que se autojustifica com uma pose de aristocrata cultural. Sendo espécime único, os outros que se candidatam ao estatuto, ou que o reivindiquem para si, são aldrabões que não respeitam o erudito como espécime singular.
A tanta erudição não é suficiente para abrir os olhos do autonomeado erudito? Não chega para o educar nas virtudes da concorrência? E no método da tolerância (até como critério para o erudito exercer alguma pedagogia junto das massas)? Quando denuncia o logro que os outros (não por si reconhecidos) eruditos são, quando apresenta provas de como a sua erudição é feita de uma linguagem e da articulação de argumentos impenetráveis para a maioria, o erudito-mor não refém de um autojulgamento?
Se estas almas que deviam ser exemplares não se incomodassem com questões insignificantes, talvez tivessem mais tempo para se dedicarem à sua especialidade – serem eruditos, reconhecendo que a pluralidade de eruditos é legítima. Não alcançam que, de cada vez que escorregam para a mesquinhez e atacam aqueles que, na sua pobre cabeça, disputam consigo a sinecura de erudito-mor, estão a perder tempo que seria útil se fosse utilizado no património da erudição que está à espera de ser levantado.
Ou então, cientes de que a erudição pode conviver com a humildade, dispensar-se-iam destes pecadilhos de porteira. Porque uma porteira é uma porteira e um erudito é um erudito (sem ofensa às porteiras).
Anna Calvi, “Ghost Rider” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=iaH-P4HWCi0
“(...) Ghostrider motorcycle hero
he’s a blazing away
like the stars in the universe (...).”
Faltava um para formar equipa. O padre ofereceu-se: “No seminário, era um extremo-esquerdo de primeira.” Os amigos olharam de lado, à rasca, e desviaram o assunto sem admitirem o auto-convite do padre. Continuaram a deambular sobre o elemento em falta – “E se falássemos ao Vitorino?”, “Ouvi dizer que o Vitorino partiu uma perna, não podemos contar com ele”.
Com um a menos, não podiam ir a jogo. Ou melhor: até podiam ir a jogo, estes jogos são amigáveis, as regras são mais flexíveis do que nos jogos a doer – não que os jogos não fossem a doer, como podia atestar o inventário de mazelas que todos, sem exceção, levaram para casa depois de um ou outro jogo. O mais novo ainda foi a tempo de dizer, quanto a este assunto, que as mazelas não eram tanto pela dureza dos jogos e dos adversários, mas pelas dores da idade, que já não permitia proezas de outrora. Afinal, podiam ir a jogo com menos um, mas as probabilidades de saírem derrotados aumentavam. E logo contra os maiores rivais, sobre os quais o prazer da vitória era indescritível.
O padre insistiu: “Depois de sair do seminário, ainda joguei clandestinamente numa equipa da distrital, até que o bispo descobriu e me proibiu”, causando um entreolhar desconfortável entre os amigos, que não o queriam naquelas andanças e desconfiavam que o sacerdote não estava a ser rigoroso com a sua história de vida. “Vá lá, deixem-me jogar, resolvo um problema vosso”, enquanto os outros não escondiam o olhar do proeminente perímetro abdominal do padre para reforçarem a convicção de que era melhor ir a jogo com um a menos.
(Se o perímetro abdominal fosse critério de exclusão, teriam de procurar uma equipa nova.)
Um deles encheu-se de coragem e dirigiu-se ao padre:
- Ó pá, não nos arranjes um problema. Se entrares na equipa e ganharmos, os outros vão-nos acusar de termos posto um padre e, como eles respeitam a estrutura eclesiástica, dirão que não foram duros como habitualmente são para não serem atacados pelo remorso por terem maltratado um padre. Ou então, pode acontecer que os outros fiquem com uma súbita vontade de fazer das tripas coração porque connosco joga um padre e, por causa da tua presença, vamos perder o jogo. Se tu entrares na equipa, vamos perder de qualquer maneira.
Os amigos propuseram a contratação do padre como treinador para resolverem o dilema. Quiseram convencê-lo de que a sua proficiência intelectual podia ser mais proveitosa. Até tentaram convencê-lo de que um treinador está acima de todos os peões que coloca em campo. Afinal, de um padre se diz ser um condutor de rebanhos. Ele seria mais importante no papel de treinador. O padre, que não era parvo, percebeu o estratagema. Declinou o convite e, magoado, passou meses e meses sem comparecer ao jantar mensal que reunia os amigos numa tertúlia.
Disso teve de prestar contas em confissão a um colega. O rancor não é admitido a concurso pelo deus de que era embaixador terreno.
Todos os dias parecia que apenas subíamos a palco. E o palco era a geografia de uma contínua encenação (um esforço moderado para fingir que no palco não se levava à cena uma farsa contínua). Como se todos nos limitássemos a desempenhar papéis atribuídos ao acaso. Não se tratava de estarmos à mercê de divindades; era apenas o peso fortuito de palavras encadeadas e de pessoas que apareciam nas entrelinhas do tempo.
Todos os dias, o palco parecia mais gasto. O chão começava a ficar descarnado. Notava-se a fragilidade do solo, que começava a ceder sob o peso de quem o pisava. Ao mesmo tempo, o ar limítrofe era o espelho dos estragos feitos nos elementos que compõem a casa que habitamos, uma mistura de malefícios diversos, dos quais poucos se arrependiam.
Na subida a palco, para onde éramos atirados contra a nossa vontade, tanta a estranheza com que encarnávamos os papéis que não pareciam à nossa medida, a tensão eviscerava a lucidez. Dizíamos o que a lucidez não deixaria dizer, como se fosse nossa a missão de desafiar os outros que aparecessem pelo caminho. Alguém disse: não estranhem, este é o lastro comum que carregamos, o devir a que não sabemos resistir. As palavras transfiguravam-se em arsenais que sabiam a morte, como se a agressividade tivesse colonizado o sangue e nos limitássemos a cumprir a injúria demorada que desabilitava a espécie.
Uma centelha teimava em despontar no horizonte onde a madrugada irrompia. Havia sempre alguém que não se contentava com a capitulação, que encorpava a empreitada de desmentir o determinismo que cavalgava no ódio que cimentava desavenças. Alguém que se recusava a cumprir um fado forçoso, partindo a pedra da recusa dos palcos puídos que nos condenavam à apatia e, a partir dela, à decadência longamente dolorosa. Alguém que esgrimia poesia contra a beligerância, que ensinava a compaixão contra a insensibilidade, a tolerância contra os imperativos categóricos, a bondade contra a autofagia.
Seria uma empreitada intrépida. Limar as arestas que ferem o futuro por conta do passado desexemplar tem o custo do tempo e da militância que não oferece recompensas tateáveis. Os poetas não desistiam: continuariam a dançar com a poesia como uma adocicada ostentação contra a desesperança bolçada todos os dias.
“(...) I’m the lonesome cowboy ridin’ across the range
With just a hand radio to keep me sane.”
Quem nunca fez fretes, dê um passo em frente – sentenciava, com um pundonor próprio de quem tem uma fortuna cheia de certezas. Tão preenchido por mais uma certeza categórica que podia ser o seu grupo sanguíneo, não teve lucidez para cair em si: aquela petição de princípio tinha um carimbo autobiográfico.
Os que ouviam aquela proclamação não disfarçavam uma reação que fundia o incómodo com a indulgência. Metera na cabeça que era escutado por uma “pequena multidão” (uma contradição de termos que inventara), mas essa multidão não tinha como recusar ouvi-lo: durante a viagem do cacilheiro, acantonados na sala dos passageiros, não se podiam exilar das suas prédicas diárias. Uns, cansados de começar assim o dia, sabendo que o homem que fazia do cacilheiro das sete e quinze o seu Speakers’ Corner privativo, passaram a viajar quinze minutos antes ou quinze minutos depois. Muitos outros não se prestaram a esse incómodo: seria juntar um incómodo ao incómodo de aturar o orador público todas as manhãs. Não lhe dariam tanta importância. Os mais engenhosos passaram a refugiar os sentidos no exílio de uns auriculares.
Naquele dia, alguém contradisse (era a primeira vez que alguém interagia com o orador público do cacilheiro): “se coloca a questão nesses termos, é porque já fez os fretes que insinua serem próprios de todas as pessoas. Devia ser o primeiro a dar um passo em frente.”
O homem ficou perturbado. O silêncio, que talvez não tivesse durado sequer um minuto, parecia ter consumido uma estrada inteira. O orador público do cacilheiro das sete e quinze não esperava que alguém o desafiasse a virar as palavras do avesso, já que as habituais prédicas eram estados de alma projetados para o exterior, dos quais o homem se excluía como se pairasse acima dos demais, ungido por uma moralidade acima de todas as suspeitas. Por uns instantes, intuiu que a sua audiência se revia no mote da oratória do dia: aqueles passageiros que não podiam escapar às públicas palavras do orador do cacilheiro das sete e quinze eram obrigados a fazer um frete. (O orador não conseguia inventariar as perdas de audiência dos que passaram a viajar quinze minutos antes ou depois e, de tanto se empenhar na oratória do dia, não discernia que alguns passageiros se isolavam no refúgio dos auriculares.)
No dia seguinte, começou com as mesmas palavras: “quem nunca fez fretes, dê um passo em frente” e, sem se deter, quase em simultâneo com a última sílaba dita, deu um passo em frente. Convidou os ouvintes a fazerem o mesmo: “não se intimidem aqueles que estão a fazer um frete enquanto me ouvem, sim, esses e essas façam o desfrete de dar um passo em frente.”
Só ficaram sentados os que se tinham exilado nos auriculares e um ou outro passageiro que nunca tinha apanhado o cacilheiro das sete e quinze.
Tomara que as pedras angulosas fossem lisas como os melhores xistos tratados pelos pedreiros que rareiam. As horas diriam que um escritor muito desconhecido, vivido nos anos vinte do século passado, ameaçou pela honra dos presentes, que tentavam dissuadi-lo de uma tentativa de suicídio, não fosse o caso da ideia passar de boca em boca e todos os presentes no ato caíssem num suicídio coletivo.
Pelo andar das parangonas dos jornais, dir-se-ia que lá trabalham publicitários frustrados. Ao menos, estes, quando trabalham na sua arte, são pagos devidamente, não é como os plumitivos que recebem uma ninharia (atendendo à importância social da sua função). Não lhes peçam para serem eloquentes como os melhores publicitários, que são tão dotados que até chegam a ser contratados para inventar slogans convincentes para o eleitorado (só se for para o eleitorado distraído, ou para os eleitores frívolos que se deixam encantar por meia dúzia de palavras cimentadas pela vulgaridade dos lugares-comuns).
Dizem: não arranjem cavalos de Troia, que este aparente estado permanente de crise (ou de crises) já deixa, só à sua conta, uma corpulenta dose de angústia. Ao menos, os jornalistas disfarçados de publicitários encenam um jogo de palavras que ironiza as crises em andamento. Heresia! Exclamam, ofendidos (dir-se-ia: ofendidíssimos), os sensíveis aríetes da moralidade em voga, ai de quem tem o topete de parodiar coisas sérias. Depois dizem que a imprensa está em crise – mas eu propunha uma versão alternativa: são estes bastiães dos comezinhos bons costumes que estão em crise, mas ainda ninguém lhes trouxe a novidade.
Se fosse no século XIX, haveria, escondido numa esquina, um qualquer Camilo acastelando a alvura rarefeita para depois a atiçar ostensivamente contra uma poça de lama. Os gentios nunca entenderam que carregar toneladas de seriedade numa vida acaba com acidentes vasculares ou um trombo no coração. É o que acontece a quem tenta beber pedras angulosas como se tivessem a macieza do xisto. Experimentem beber o xisto e depois apresentem, no prazo de quarenta e oito horas, relatório descritivo da experiência.
O que vale é que anteontem foi sábado. Já passou, mas fica a mnemónica para o sábado que vem a seguir. O Camilo oitocentista pertence ao cemitério. Podemos ir dormir descansados, que os pesadelos não passarão (ou passarinho, dependendo do carisma).
Ficava abespinhado quando o tratavam por “senhor”. Se seguisse os cânones, dispensaria a importunação. Tratar alguém por “senhor” é sinal de respeito, elevando-o a um patamar em que poucos têm o nome precedido por “senhor”. E há aqueles que, quando querem elogiar alguém, a ele se referem, em longa exclamação, “fulano é um senhor!”
Não lhe importavam estas prescrições embrulhadas no papel de celofane social. Quando alguém o tratava por senhor, era como se lhe endossassem o passaporte da maturidade. Só se trata por senhor quem tem uma certa idade, e essa idade é tal que não é compatível com os pergaminhos da juventude. Como o envelhecimento era um espectro, que tanto o incomodava ao pressentir que traduzia a decadência sem barreiras, de cada vez que alguém se referia a ele como “senhor”, fosse apenas assim, no perturbante sintoma de ser desconhecido o seu nome, ou como a partícula que precedia o nome, sentia que lhe era passado um atestado de envelhecimento em curso.
Nunca lhe passava pela cabeça que, ao ser tratado por “senhor”, estavam os que assim o tratavam a dedicar-lhe uma respeitabilidade que não devia ser associada à idade. Se encorpasse os cânones que comandam os lugares-comuns, ficaria honrado por o tratarem desse modo. Quem reserva este tratamento como expressão de respeito não usa “senhor” como válvula de escape para tratar alguém cujo nome lhe é desconhecido. Com a banalização do “você” – numa adulteração das convenções da boa educação –, os que não são merecedores de “senhor” têm de arcar com o incómodo (auditivo e substancial) de serem tratados por “você”. Existe toda uma diferença que abona a favor de quem é tratado por “senhor”.
Como era indiferente ao poder das convenções e fazia questão de se afastar delas, não perfilhava este entendimento. Vezes houve em que declinou o tratamento – “por favor, não me trate por senhor” – porque o medo do envelhecimento ecoava a cada dia que passava e o espelho não escondia as suas marcas.
Um dia, perante a respeitosa insistência de alguém que o tratava por “senhor”, mesmo depois de ter dispensado a cortesia, disparou rispidamente, perante o ar atónito da mulher que teimava em usar “senhor” em todas as frases, que no cartão de cidadão não constava “senhor” no nome (enquanto sujeitava o documento ao olhar não convidado da senhora).
Tomemos a falsa partida como exemplo: ardilosamente, anuncio um pressuposto que não é legítimo. Os outros fazem os seus cálculos com base no pressuposto que anunciei. Confiam. Sem saber que fiz falsa partida, também caem no mesmo ardil. O que de mim pensarem será uma distorção. Para quem está de fora, a falsa partida não traz benefícios. A tresleitura dos outros pode atuar em meu desfavor.
Se o viés for extraído de uma fala partida, os problemas são diferentes. Na fala partida, omitem-se sílabas ou palavras numa oração. O seu sentido para o exterior é adulterado. Os outros não vão perceber o que é dito, ou percebem com interrupções que prejudicam o entendimento da oração. Quem faz uma fala partida de propósito deixa de controlar as consequências da oração assim pronunciada. O logro causado nos outros pode ter ramificações que não favorecem o autor da fala partida.
Ainda há a hipótese de se tratar de uma partida. O espírito divertido sobrepõe-se ao tom canonicamente enfadonho dos que espalham lembretes, em tom grave, recordando que não se deve folgar com coisas sérias. Fora dessa pose de permanente seriedade, uns agentes desviantes ignoram a mnemónica e espalham partidas inocentes. E riem, como só eles sabem, quando alguém se coloca na posição de vítima das armadilhas semeadas.
Uma partida fala ao espírito lúdico de quem é apanhado na posição de vítima. Talvez “vítima” seja excessivo. As partidas não causam danos irreparáveis e só os cultores da seriedade institucional ficam abespinhados quando lhes cabe serem destinatários destas partidas. A partida também fala ao verniz de quem não se consegue desprender. Oxalá as partidas sejam a casa da partida para os embaixadores da institucionalidade se despirem de dogmas e aceitarem que as partidas pregadas são o exercício de um ludismo que não pode ter a infância como prazo de validade.
Quem faz uma falsa partida são os que são apanhados pelo logro de uma partida que só falsamente pode ser entendida como algo que causa danos que levam muito tempo a reparar. Quem faz falsa partida são os que não entendem o ludismo de uma partida que fala por si.
“(...) Sometime again you’ll turn green and the sea turns red
my son, I said, the power of facts is over my head.”
O que é uma geração? Fala-se e escreve-se sobre gerações como se houvesse um concurso delas. Como se as gerações obedecessem a baias herméticas e fosse possível inventariar as diferenças entre pessoas de diferentes gerações. As gerações estanques têm um problema incorrigível: elas contêm as pessoas semelhantes porque nasceram no mesmo período. Qual é o critério para costurar o período que delimita uma geração? Parece estar vulgarizada a ideia de que uma geração corresponde a uma década – um juízo simplista merecedor de contestação, mas admita-se que a década é o critério. E se uma pessoa nasceu a 30 de dezembro de 1980 e outra a 2 de janeiro de 1981, pode-se dizer que, tendo nascido com uma diferença de quatro dias, pertencem a diferentes gerações?
Para que serve uma geração? No concurso universal de gerações em curso, as gerações são exibidas nas suas diferenças intrínsecas. Quem nasceu na década de noventa é diferente dos que despertaram para a vida na primeira década do século XXI. Será que o tempo, nas suas diferentes medidas, valida diferenças tão impressionantes? Será que o tempo se cola à carne das pessoas que nascem em diferentes décadas, e todos os que pertencem a uma geração são representados com uma homogeneidade que atropela o imenso capital de diferenças que enriquece a espécie humana? Não será a redução das pessoas à fronteira de uma geração um simplismo que desaproveita as diferenças que tecem a sua riqueza?
As gerações são tão diferentes umas das outras? Levar à cena o concurso universal de gerações apatanha outras riquezas da humanidade: o contexto em que nascem e medram as diferentes geografias e os usos embebidos fazem mais pela humanidade do que um artificial arregimentar das pessoas em função da década em que nasceram. E mesmo num lugar próprio, onde a propensão para a homogeneidade de quem aí habita tende a ser confirmada, reduzir a sociologia humana a uma questão de gerações é desprezar a existência de microcosmos geográficos e de exceções que impedem a confirmação de uma regra. Identificar as características da geração Y ou da geração Z (porque acresce o modismo de nomear as gerações, num processo contestável porque, na maioria das vezes, o nome é imposto de fora para dentro) é uma farsa que desvaloriza a riqueza intrínseca da pessoa. Pode haver mais em comum entre alguém que nasceu na década de oitenta e outro que nasceu na década de noventa do que entre a amálgama que é indevidamente agrupada na geração nascida nos anos oitenta.
A que geração pertenço? A nenhuma. Talvez seja pelo temor do envelhecimento, ou pela necessidade de não me deixar abater pelas convenções datadas do tempo; tanto me revejo em certos atributos da geração que nasceu na segunda década do século XX, como noutros me aproximo da geração que veio ao mundo na década de noventa, sem pôr de lado outros predicados que costumam ser representativos da última década do século XX (para não admitir os que me empurram, contra a minha vontade, para a sexagenária década do século XX em que nasci).
“(...) I wanna bounce the bone, I wanna mess with it
I wanna lay the deville, the whole crew on the sill
I want the preacher and pill, I want bless with it (…). ”
De ciência certa: amanhã é quarta-feira e depois é quinta-feira. Nessa altura, ainda faltam dois dias para o fim de semana. Se todos os oráculos fossem assim, o futuro deixaria de ser futuro. E os profetas perderiam estatuto, desagravadas as suas profecias por falta de futuro.
Um dia, um rapaz perguntou: como pode uma ciência ser ciência se os peritos não concordam com os seus termos? Expliquei que há ciências que são propositadamente inexatas. Só são ciências porque se escondem da convergência forçada que existe nas ciências exatas (até alguém revelar uma descoberta e superar o que dantes era exato). As ciências também são certas quando os peritos não concordam com os seus termos. É por isso que se tornam ainda mais ciência. E mesmo que os peritos não concordem, sempre se dirá que o ponto de partida é de uma ciência certa.
Haverá boa e má ciência – até há os que se presumem tutores de uma ciência que não atinge os mínimos para ser admitida ao palco das ciências, sem que percam a sua catedrática pose. Para quem se quer situar perante o mundo, a alforria alcança-se com o apoio de ciências variegadas que procuram dar resposta às perguntas de onde se parte.
De ciência certa, há ciências adulteradas, ou usos abusivos da palavra “ciência”, que transfiguram o conhecimento. Uns, intencionalmente, preferem a ocultação das ciências reconhecidas e reveem-se em nacos disformes de conhecimento sem alicerces, crendices não credenciadas que sepultam o rigor das ciências e acolhem uma amálgama desestruturada de verdades feitas e mentiras que renegam a ciência reconhecida. Outros aderem, sem querer, a essa amálgama, nuns casos por ter sido a primeira amostra de conhecimento que chegou ao seu conhecimento, noutros porque se torna o conhecimento de mais fácil adesão pelo simplismo que dispensa as exigências intrínsecas da ciência estruturada.
De ciência certa, sem admitir a nata especulativa que assenta sempre à superfície, podendo ocultar as camadas mais fundas e densas, aquelas onde reside o conhecimento, parte-se de demanda em demanda na árdua empreitada de quem não se contenta com respostas e prefere perguntas em doses sucessivas. As perguntas atropelam as respostas: formular as perguntas exige menos tempo do que o tempo consumido na demanda por uma resposta. Pois a ciência que sublima todas as outras é a que ensina a fazer perguntas.