The Art of Noise, “Beat Box” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=Cx97aXpc0mA
Um turista tem de ser turista quando está pela primeira vez num lugar. Assim foi. Com a diferença horária ainda a trocar os sonos, saiu à rua a uma hora em que, não fosse a tortura do jet-lag, estaria a dormir. Nem sequer era hora do pequeno-almoço no hotel. Tomá-lo-ia fora, o primeiro banho de multidão em que se ia misturar com os habitantes locais nos preparativos para se lançarem a um dia novo.
Com o pequeno-almoço tomado, atirou-se às ruas movimentadas da cidade. Vinte minutos depois, a terra tremeu. O terramoto parecia interminável. Viu as pessoas a fugir para o meio da rua. Sabiam como reagir, corriam para o meio da rua e olhavam, cheias de medo mas com de orientação, para os edifícios limítrofes. Tinham de estar preparadas para fugir assim que um prédio desabasse. Também fugiu para o meio da rua. A terra tremera com uma força espantosa. Nunca imaginou que pudesse abanar assim.
No meio do pânico, paredes-meias com uma nuvem de poeira que se agigantava à medida que edifícios se transformavam em escombros, perdeu a noção de onde estava. Parou para se acalmar. Ele, que sempre dissera que gostava de experimentar um terramoto dos grandes, agora que tinha passado pela experiência percebeu a frivolidade. A poeira começou a assentar. Muitos prédios tinham caído. Os gritos passavam de um lado para o outro, já havia pessoas próximas dos escombros para saber se havia sobreviventes a pedir socorro.
Não estava longe do hotel. Não era má ideia regressar ao hotel. Ficava numa praça ampla, se houvesse réplicas não ficava à mercê dos aluimentos – estando atento a notícias sobre grandes sismos, sabia, quase como se fosse um cientista da área, que um grande sismo traz sempre um palimpsesto de réplicas.
O hotel tinha caído como se fosse feito de papel. Teve um tremendo aperto no coração. Se não fosse pelo jet-lag, ainda estaria a dormir à hora do tremor de terra. Não teria tempo para sair do hotel e estaria preso entre os escombros. As probabilidades de estar morto eram elevadas; ninguém estava a sair do que sobrava do hotel.
De repente, os quarenta e seis anos de vida passaram à frente do pensamento numa breve constelação de memórias. Temeu que estivesse a ter um pesadelo já na condição de morto; estes flashbacks devem ser típicos de quem acabou de perder a vida. Caiu em si. Os mortos não têm sonhos, nem sequer pesadelos. A angústia sitiou-o. Estava dividido entre a sensação de que tinha salvo a vida por acaso (um duplo acaso: devia ter chegado de véspera à cidade, não fosse uma avaria no avião que adiou a viagem) e ajudar no resgate de sobreviventes. Na maior parte do tempo, foi a apatia que o dominou, ateada pelo pânico de se saber morto se o acaso não tivesse jogado a seu favor. Assim esteve até ao anoitecer. Nem se lembrou de telefonar para avisar que estava vivo e em segurança. Percebeu que o telemóvel não tinha sinal, as redes estavam inativas.
Passou-lhe pela cabeça o livro de Lev Tolstoi, “A Morte de Ivan Ilitch”, quão detalhadas e violentas eram as páginas que narravam a decadência de Ilitch até se demorar num agónico estertor. Apetecia-lhe um exercício oposto: como nunca sentiu o “cão da morte a bafejar no pescoço”, percorriam-no imagens em câmara lenta que eram um repositório ilustrativo da vida arquivada. Da frente para trás, como se o tempo andasse para trás neste olhar didático sobre o retrovisor da vida.
Perdeu a noção do tempo, mas já era noite. Não sabia onde estava – a última vez que se lembrava de um local era do hotel derruído pela força telúrica do sismo. Não soube por onde andou, nem se por ele passaram pessoas ainda em pânico, ambulâncias a levarem feridos para o hospital e outras já transportando cadáveres que não tiveram salvação perante a implacável natureza das entranhas da terra. Este egoísmo era reprovável aos olhos dos outros, sobretudo dos que, à distância, tinham a frieza de encestar juízos morais na baliza da (sua) consciência moral.
O fantasma da morte pairava, diletante, por toda a cidade. Ele, que tinha acabado de escapar às suas garras medonhas, queria recuperar o fôlego para fazer a sua parte. O resto ficava para depois. Teria tempo para acertar as contas com o futuro.