5.8.21

Fast forward (short stories #346)

Ty Segall, “Harmonizer”, in https://www.youtube.com/watch?v=Btw0ICFl4xE

         Teria culpa no emagrecer do tempo, se a tirania do relógio se impunha e o olhar repetidas vezes descia ao relógio. Às vezes, era como se fizesse o tempo multiplicar-se por dez e ele andasse ainda mais depressa. Era assim com as memórias embutidas. A mnemónica do passado era assustadora: recuava até a um determinado instante e fazia a contagem do tempo entretanto havido para medir o tanto tempo que passara a ser menção da História. De repente, essa medida do tempo anestesiava-se no número exorbitante. Todo esse tempo havido parecia não quadrar com a sua dimensão. Ele voara, desmentindo a câmara lenta que só acontece quando nos exasperamos contra o tempo. O tempo ciciava como uma fratura exposta, exibida a destempo. Ao menos que o tempo restante não fosse tão imprudente. Ou melhor: que não fosse refém da negligência até sentir que a experiência pretérita se repetia quando o tempo se renovasse. Tinha de abrandar a lente que decanta o mundo. A velocidade estonteante tinha de ser travada. Não podia tolerar este excesso de velocidade, que não revertia a favor de uma vida transbordante. A pele despoja-se das cicatrizes para se entregar limpa ao tempo por haver. Essa capacidade é a intuição de como deve ser ordenado o tempo. Todas as formas de hibernação devem ser terminantemente recusadas. Elas representam o engaiolar do tempo sem que ele deixe de ter o seu curso. Ao consentir a vertiginosa aceleração do tempo ele foge entre os dedos, vertendo a angústia sobre o corpo desprotegido. Não podemos deixar aos outros a procuração do nosso tempo, porque não podemos contar com a sua indulgência. O tempo tem de passar a ser considerado um recurso em vias de extinção para se exigir a parcimónia no seu uso. Devíamos ser todos ambientalistas do nosso próprio tempo. 

4.8.21

Uma seleção de húngaros (short stories #345)

Nitin Sawhney, “Say Hello”, in https://www.youtube.com/watch?v=It3LerIUKXE

          Disse que o foie gras foi inventado em França. Foi quando descobriu duas coisas: que o interlocutor era húngaro e que o foie gras, contra todas as expetativas e o conhecimento vulgarizado, foi inventado na Hungria. Os outros também eram húngaros. Não esperava que levantassem as canecas de cerveja em sinal de brio pátrio: parecia que pertenciam a um grupo de pessoas que não são apreciados pelo governo do país. Mas reagiram ligeiramente ofendidos, confirmando que o património de um país deve ser reclamado pelos seus patrícios quando a ignorância o endereça ao país errado. E confirmando que a ostentação das medalhas pátrias não depende de os orgulhosos serem perseguidos pelo governo. A identidade sobrepõe-se ao governo do momento. O último é conjuntural. A identidade é um traço de continuidade que não se apaga quando a conjuntura não é favorável a quem exalta a identidade nacional. Um dos húngaros, ao corrigir o erro de antropologia gastronómica, acrescentou: “não somos a casa mãe do goulash, apenas.” Ato contínuo, desafiou os húngaros a acompanhá-lo a outro estabelecimento comercial. Pagou a despesa, para dissipar a resistência dos húngaros, que não gostam de desperdiçar cerveja. Um pouco acima na rua havia uma confeitaria afamada. Pediu um quarto de húngaros e distribuiu-os pelos húngaros. “Sabem o nome destes biscoitos?” Os húngaros apreciavam os húngaros sem saberem que estavam a comer húngaros. Perante o silêncio dos húngaros, respondeu à sua própria pergunta: “húngaros. Estes biscoitos chamam-se húngaros”. Os húngaros suspenderam imediatamente o deleite. Talvez tenha pesado, no seu subconsciente, a armadilha da antropofagia. Não se sentiam à vontade por serem húngaros a comer húngaros. Passada a surpresa, os húngaros continuaram a apreciar os húngaros. Um deles comentou, em duplo deleite: “se o nosso primeiro-ministro vier ao teu país, dar-lhe a comer húngaros vai causar um incidente diplomático.”

3.8.21

Quem gosta de ser (considerado) veterano? (short stories #344)

Cocteau Twins, “Tishbite” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=13fVAP4LdVU

         O aroma da experiência adeja como voz de comando; a experiência é um recurso que não se pode delapidar. O cálculo da experiência poupa a digressão no desconhecido. Ultrapassa os imponderáveis da verdura que transita com os mais novos, enquanto não superam a imberbe condição. Se fosse sempre assim, os novos nunca podiam deixar de ser novos – ou sê-lo-iam durante um longo tirocínio, até que as poucas oportunidades fossem o capital angariado para a experiência ser reconhecida. Nessa altura, ganharam experiência e perderam exuberância. Não é fácil lidar com o compromisso entre os dois ingredientes que se desenlaçam um do outro. A juventude está cheia de potencial. Mas as oportunidades não chegam aos jovens. Quando se deixa de ser jovem e uma camada de experiência é reconhecida, os trunfos de outrora foram sendo assimilados pelo tempo e não passam de uma sombra opaca. Mais tarde, a experiência esgota-se na senescência, quando esta é ditada pelas convenções da época. Um veterano passa a ser uma relíquia. Respeitado pelo que soube legar no passado, entrou na decadência. Serve de exemplo, sem ser admitido à coutada dos que se mantêm ativos. É uma honraria que se reduz a nada. Um repositório de memórias que serve para alimentar um estatuto simbólico. Quando a experiência dos veteranos é invocada, ela não tem serventia para os propósitos do presente. Pois o tempo que passou até terem chegado à veterania tornou-os obsoletos. Alguns veteranos têm a noção que a deferência é simbólica. Aceitam o tempo que se construiu. Aprenderam a conviver com o estertor, que não tarda. Outros, viciados num Narciso estrutural, alimentam as saudades da glória de que foram intérpretes. Ainda não aprenderam que o tempo já não lhes pertence. Para eles, a veterania é uma armadilha.

2.8.21

Os homens grandes também choram


 In Público, 30.07.21, p. 36

Diz-se que até as árvores de grande porte se abatem, porque o tempo, incomensurável na sua finitude, também lhes dita um prazo de validade. Ninguém se importuna com as lágrimas dessas (e das outras) árvores. São lágrimas invisíveis. Só as lágrimas que estão à mostra é que podem apoquentar quem as vê.

Um homem de grande porte também verte as suas lágrimas. É a confirmação de um quase lugar-comum. Não são apenas os homens que também choram. Mesmo os homens grandes e fortes não sabem como reprimir uma lágrima, que nem é furtiva (se se atender ao caudal generoso que foi fazendo o seu caminho pelo rosto abaixo).

Dizer que os homens não choram é uma farsa que já foi desmentida há tempo largo. Faltava participar o adágio no caso dos homens grandes e fortes. Nem a sua força exterior consegue dominar a força interior que se mobiliza a favor das lágrimas. Impressionamo-nos mais com as lágrimas vertidas por um homem grande e forte? Não nos devíamos impressionar com as lágrimas vertidas por vivalma. As lágrimas não são uma equação da musculatura abundante. E porque todos vertemos lágrimas e devemos dispensar a comiseração alheia quando interpretamos um pranto. Quando choramos, não é para cativar a piedade dos outros.

As lágrimas derramadas por um homem grande e forte podem causar espécie se provierem de um atleta que alcançou uma proeza desportiva. Os jogos olímpicos têm este mau condão: os concorrentes jogam uns contra e os outros e jogam grande parte da sua carreira (logo, da sua vida) num acontecimento que os efemeriza. Se não conseguem chegar ao feito a que se propunham, lamentam-se, quase que se auto-mutilam. Pedem desculpa ao país, como se o país não pensasse noutra coisa se não na participação dos desportistas – como se os desportistas, pese embora representem formalmente um país, não compitam por si e para si mesmos. Outros não se contentam com o lugar alcançado, mesmo quando ele é uma proeza para muitos praticantes da modalidade. 

O homem grande e forte que trouxe uma medalha de bronze para casa exortou a façanha maior, prometendo-a para as olimpíadas que vierem a seguir. Porque ele é bicampeão do mundo e uma medalha de bronze não é o seu lugar. Isso chega para derramar uma lágrima, ou é a pressão dos jogos que humaniza os desportistas?

30.7.21

Porcos a pérolas (short stories #343)

David Bowie, “Ashes to Ashes” (live at Later on Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=WmiXjoknHDA

          Que excentricidade admite que alguém se ponha na posição centrípeta de quem se arvora a um lugar especial e deixa para os demais um lugar subordinado? Será a inveja que os move quando olham para o lado e decretam que as pérolas foram dadas a porcos. O que querem dizer é que, para os seus padrões de bom-senso, a justiça não foi feita quando observam que alguém foi destinado a uma qualquer sinecura, concluindo que não há merecimento nessa atribuição. Por eito, deus costuma levar por tabela, com considerações avulsas sobre a distribuição (iníqua, desde o seu posto de observação) de nozes pelas vozes. É nestas alturas que deviam ter a noção de como a inveja é letal. É-o para quem bolça a inveja, pois os invejados só têm de a deixar sumir no altar da sua irrelevância. Dizem, os profissionais da inveja, que as pérolas são atiradas a porcos, ficando por saber por que os beneficiários arrostam a suína condição. Talvez faça sentido inverter o anátema e devolver às pérolas os porcos que nunca as terão – uma contradição de termos insanável, para eles perceberem que há coisas que não são para serem percebidas. Esses são os autênticos recos, que se enxurdam nas suas particulares pocilgas contaminadas pela cobiça. Não são eles as peças centrípetas do tabuleiro onde o jogo se joga. Esse é um erro de princípio: neste jogo não há credenciais diferentes, patentes como na tropa; todas as peças são iguais, mesmo quando ostentam o cisma da desigualdade. Que pergaminhos avalizam uns quantos a adejarem sobre os demais quando estes patenteiam uma condição que abona a inveja dos primeiros? O étimo da superioridade ostentada por uns é a caução do seu autêntico desprestígio. São os palradores natos que enchem a boca de verbos fátuos. Os primordiais suínos.

29.7.21

Um gorro no Verão (short stories #342)

Rhye, “Helpless”, in https://www.youtube.com/watch?v=G4z64YEAiIk

          Um modesto agoiro das memórias. Era o exercício para os tempos livres. Um sobressalto contínuo, teimando em garantir ao passado uma importância que jurava não ter. Comissariava os despojos que vinham parar aos pés, como se fosse a lavra de uma maré que não tinha sido encomendada. Às vezes, é como se as memórias fossem um conflito permanente. Era um erro. Não se pensava na reinvenção do tempo enquistado, não era desse estalinismo que se tratava. No máximo, argumentava-se a eito entre as portas do esquecimento. A memória seletiva, talvez. Fosse como fosse, é sempre a colonização bastarda de um tempo sacrificado (o presente). Uma espécie de época estrambólica servida pelo fermento estival. Quando se intui a descompensação da rotina, entra-se pelo vau onde outra rotina se torna imperatriz. Assume-se a condição de refém das rotinas. Um exercício que metodicamente combata uma rotina é uma rotina que se instala, de sinal contrário. Não adianta suspender a dimensão do passado. Talvez o esquecimento cuide de dissipar à medida que nos atiramos à medida do tempo presente. A sua finitude não admite que se divida por compassos diferentes. É tão irrelevante ser curador do passado como avidamente tecer a esquadria do futuro. Oxalá fosse possível a emancipação do tempo, como se viver fora dele fosse a quimera procurada. Sem atraiçoar as memórias que têm vontade própria. Sem descuidar da atalaia que o tempo vindouro sussurra à menor distração. São dispensáveis os lugares que envidraçam tempos a destempo. Se corremos contra as diatribes de que não somos tutores, não nos ofereçamos como vítimas dos tempos que não domamos. Os sonhos sobrepõem-se à vontade. Se nem a vontade conseguirmos domar, não merecemos se não os acasos que em nós acostarem. Ficando à espera da gramática do futuro e da sua errante bússola.

28.7.21

Sarrabulho doce (short stories #341)

James Blake, “Say What You Will”, in https://www.youtube.com/watch?v=JRUjtalz_1k

          Quando é que o improvável acontece? Não será o equinócio acertado para destemperar a imperturbabilidade dos dias habituais. Se as pessoas não tropeçam em contratempos, por que hão de vociferar a sua própria demência? Podiam figurar interrogações atrás de interrogações sem que nenhuma resposta viesse pelo meio. As portas que bradam nas entrelinhas do calendário povoam as incertezas em barda. Por cada incerteza, a pele sente perder uma camada do verniz que abotoa as improbabilidades. Agarrar o futuro é improfícuo. Nunca sabemos de onde sopra o vento que inaugura o futuro. Os cais limitam-se a cimentar o passado. Não se emancipam para uma página do tempo que ainda não existe. A maior imprudência é atestar uma autêntica impossibilidade. Se ao menos soubéssemos que as impossibilidades se esgotam no preciso momento em que são proclamadas, talvez o desassombro da ignorância não fosse lesivo. Não podemos se não ignorar o que não conhecemos. Que o corpo se esmague contra os ponteiros murchos de uma bússola errante, não é um acaso. Se as palavras forem sussurradas sem medo, elas sobem ao promontório onde um imenso véu escurece o horizonte. É esse o diadema do olhar. Onde ele esbarra na dimensão oculta do que não se oferece à revelação imediata. E os olhos sentem as gotículas salgadas que o vento mensageiro levanta pelo promontório acima. Os olhos marejados não se arrependem do futuro. Não se arrependem, de todo. Em vez de choros convulsivos ou de preces que suplicam sortilégios infundamentados, os olhos atiram-se ao abismo que é sempre o instante que se segue. Até que os embaraços exteriores a nós sejam uma convulsão com autoria que não a nossa. Deixamo-los órfãos, que deles não queremos sem curadores. Precatamo-nos. O improvável acontece sem recomendação a tempo. E nós, nunca chegamos a ele a destempo.

27.7.21

O rosto da madrugada (short stories #340)

Dry Cleaning, “Conversations” @ Supine House, in https://www.youtube.com/watch?v=34jcCnCN_V8

          O olhar sitiado pela noite sem sono não decanta as autênticas tonalidades da madrugada. Estão meio inebriados, mas o cansaço já se desprende dos corpos para os deixar no parapeito da letargia. Trocam palavras arrancadas à sede enquanto se arrastam nos primeiros indícios da madrugada. Um dos boémios garatuja umas sílabas. Os outros só percebem que eles não entendem a madrugada. Um protestou: pelo contrário, eles, boémios incorrigíveis, conhecem a madrugada mais vezes do que o cidadão habitual, que vem à vida já a madrugada deixou de o ser. Os cinco boémios concordaram que não é congruente polemizar sobre o rosto da madrugada como eles o conhecem e a sua pose comparativa quando os não boémios são resgatados para o palco em que falam. Ficam, cada um por si, a lobrigar no papel desempenhado pela madrugada. Ela encerra o rosto terminal da sua boémia, como se fosse o aviso de receção do cansaço que há de albergar o sono em contramão com os demais. Para eles, a madrugada é o barómetro que afivela a decadência da noite. Mal a escuridão começa a ser despojada pela primeira luz ainda tímida da alvorada, abatem-se os disfarces que tiveram a caução da noite. (Podiam fazer uma graçola à custa de um adágio popular, mas resistiram à convocatória fácil do lugar-comum.) É assim que se sentem. Peixes fora do aquário. Sendo o aquário o meio onde o cidadão habitual medra na sua vida comezinha. Pois os boémios lamentam as vidas arrastadas e aborrecidas que os cidadãos habituais debitam no cumprimento dos horários. Fossem como eles, boémios insubmissos e penhorados pela bandeira do hedonismo, e saberiam como o prazer tem múltiplas camadas que esgotam o mundano. A noite é o seu palco preferido. São os suspeitos maldizentes da madrugada. 

26.7.21

As pontes não se deitam

Sigur Rós, “Heysátan” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=T6COExjQA8g

As noites estão de atalaia e não mentem. As pontes não se deitam. Não têm sono. Arrumam-se na sua arquitetónica estilística contra as margens desamparadas, tornando-as unas. São o corpo diligente que se oferece a quem precisa de atravessar um rio, um lago, um mar. A qualquer hora. Até de noite.

As pontes não se deitam nem quando as noites atravessam o meridiano e endossam as pessoas para casa. Não têm férias. Ocasionalmente, desaparecem de cena quando estão senescentes e deixam de ser uma segura travessia. São substituídas por outras que superam as suas fragilidades. Se fosse feito um cálculo, valiam mais do que a mais preciosa das pedras.

As pontes são valiosos instrumentos de comunicação. Sem elas, pessoas que as atravessam não podiam falar umas com as outras – ou teriam de andar às voltas, em demoradas viagens, para poderem falar umas com as outras. A sua ambição é derrotarem os contratempos da geografia que exigem a sua presença. São obras mestras que cobrem os acidentes que a geografia deixa lacrados no mapa. Derrotam esses acidentes.

Há pontes ocultas. Também essas não se deitam, mesmo sendo difícil fazer prova da sua existência física. As pontes ocultas são a matéria-prima para as pessoas serem a sua natureza, seres gregários. São responsáveis por tecerem os fios que autorizam as ligações. Artesãs das suas próprias pontes. Antropologicamente cosmopolitas. A negação da misantropia militante que ensina a atomização de cada um. Para estes, as pontes são uma adversidade. Pois são elas que possibilitam que o outro seja alguém no seu eu, o que é tido como uma intrusão.

Não há pontes malsãs. A confirmação dos teares onde elas se entretecem exige reciprocidade. Se não houver, levantam-se portagens, erguem-se alfândegas, para a liberdade não ser um idioma de entorses. Quando são recíprocas, as pontes não se deitam. São elas que estão de atalaia, apesar de a noite estar de atalaia sobre elas.

23.7.21

Declaração de interesses (short stories #339)

Ólafur Arnalds, “Saudade (When We Are Born)”, in https://www.youtube.com/watch?v=1A1Fts-2SPI

          Dei-me ao vento enquanto o restolho das folhas prometia o futuro. Não sei se o futuro estava desprevenido. À face da sua ausência, confio na pele emblemática que se oferece aos elementos. Como se fosse um couraçado, exposta na sua fina fragilidade e, no entanto, uma armadura preparada para os contratempos. Sei que as lágrimas são a tatuagem da angústia. Sei que há dias sombrios, a manhã levitando, enlutada, sem razão aparente. Sei que os ofícios que me destratam não pedem favor. Mas também sei onde está o refúgio em mim, a bússola que levanta o olhar para a paisagem bucólica onde são inventariadas as coisas miríficas. Sei que a pele contrariada é o peso medido dos esperados sobressaltos. Um dedo general que se ergue a meio da tempestade e a concilia. Um corpo que se mete no estuário, sem medo da maré-viva. Um olhar insaciável que se sobrepõe ao estertor que se insinua. No mapa das cicatrizes, reúno as minhas como matéria-prima para memória futura. Não estou sitiado por elas; não passam de palcos de outrora onde um tempo se jogou. Mas agora esse tempo está fora do jogo. Agora, sou eu que estou fora do tempo. Congeminando a minha intemporalidade. Sei que posso sair das fronteiras do tempo e procurar-me nos seus interstícios. É como se tivesse descoberto o sortilégio do tempo cauterizado pelo seu próprio palimpsesto, as diferentes camadas do tempo dando múltiplas possibilidades de ser eu. Não me escondo atrás de biombos que diminuem a minha estatura. Não fujo do que sou. A minha estatura é a dos mares todos juntos. Jogo as marés no propósito da minha viabilidade. Sinto que sou mais do que o corpo que o espelho me mostra. Não preciso de paradeiro. Eu sou um mapa que se reinventa. Todos os dias.

22.7.21

Quando as vergonhas dos outros são denunciadas por nós e passam a ser a nossa vergonha

Mac DeMarco, “Chamber of Reflection”, in https://www.youtube.com/watch?v=NY8IS0ssnXQ

Mote: um vídeo que mostra Paulo Rangel a cambalear nas ruas de Bruxelas depois de um jantar eventualmente bem regado. Posto a circular por “fonte anónima”.

Ele há aquele momento em que um covarde se define como covarde. Quando expõe uma vergonha do outro, ou uma sua fragilidade até então escondida do olhar público, e se recolhe à caverna de onde bolçou a inconfidência sem mostrar o rosto. Porventura convencido que é o outro, cuja vergonha passa a ser de confirmação pública, que fica exposto à reverberação da turba. 

Insciente das suas pobres capacidades, o covarde nem sequer se apercebe que é ele, através da sua covardia, que fica mal no retrato. Salva-se do exprobro público por causa do covarde anonimato. Se ao menos soubesse que um olhar descomprometido endossa a maior vergonha ao seu ato covarde, talvez tivesse engolido o sorriso de prazer ao adivinhar a pública reação perante a vergonha que delatou. Mas sua é a maior das vergonhas.

Há um pequeno pedaço que resguardo para a intolerância. Nesse pequeno pedaço acolho estas manifestações de covardia: reservo-lhes o maior desdém e apetece dar caça aos seus autores para destapar o anonimato que é o disfarce mal-amanhado de uma covardia significativa. Para este covarde, é como se ninguém tivesse direito a ter os seus pessoais pecadilhos e todos fossemos um manto de públicas virtudes. Pior: é como se as pessoas não tivessem direito a guardar para si a vida privada, ocultando-a do olhar alcoviteiro e sancionatório de gente que se autoconsidera zeladora da moralidade.

Figurando um cenário imaginário, mas impossível, apetece esquadrinhar a vida destes valentões que ficam convencidos que prestam um serviço público revelando os podres dos outros. Apetece rapar o fundo da arca onde, com a sua existência, apeganham o ar público para descobrir as suas imensas bebedeiras, a pornografia que consomem, as drogas que já inalaram, fumaram, injetaram, ou deglutiram, os desvios sexuais (que assim ajuízam, mas apenas nos outros) e outras figuras tristes que possam ser inventariadas. Apetece tudo isto, mas não para os denunciar em público, que seria jogar com as mesmas pútridas regras por que covardes desta igualha se regem. O propósito seria confrontá-los com os seus esqueletos mal apaiolados, só para impedir que continuassem a assombrar a vida dos outros que foram apanhados na sua obnóxia mealha.

21.7.21

Avaliação por excesso (ou: a banalização da qualidade)

Placebo, “Running Up That Hill”, in https://www.youtube.com/watch?v=d-mYX0qKkB8

O imperativo da avaliação, como mediadora da qualidade, tomou conta do presente. Os serviços prestados têm de ser avaliados. Os produtos comprados têm de ser avaliados. Se não estamos em erro, os serviços e os produtos merecem avaliações que os aproximam do máximo da escala. Sobram duas hipóteses: os vivemos num tempo em que a qualidade é de uma exuberância à prova de crítica; ou os padrões de quem avalia nivelam-se por baixo e os avaliadores nem dão conta do seu acrítico estatuto.

(Os exemplos são válidos para serviços e produtos, mas a mesma bitola aplica-se na avaliação dos funcionários públicos, com uma diferença: não são os utentes, mas os superiores hierárquicos, que tomam conta da batuta avaliadora. Correspondem ao princípio do dominó – uma peça que se inclina abate outra que se lhe segue e assim sucessivamente: o avaliador é avaliado por quem está acima na hierarquia e por aí acima, até ao ministro da tutela, que assina por baixo as avaliações antecessoras para confirmar que esta terra é a representação de um paraíso. O que fica sempre bem para efeitos de reeleição ou de perpetuação no poder.)

Talvez seja exagerada a primeira hipótese. Pese embora pareça que a qualidade do que consumimos é maior do que no passado, esse é um estalão que peca por excesso. O consumidor reduz-se a uma peça estática e os seus padrões são imutáveis. Apenas ajuíza a qualidade dos serviços e dos produtos. Se esta, que podia ser considerada a variável dependente, tem sofrido mutações favoráveis, não se pode esquecer a que devia ser a variável mais importante (por ser a variável independente): nós, que consumimos e avaliamos o que consumimos. Se o avaliador não atualizar os seus próprios padrões, deixa de fazer sentido enquanto variável independente. Os termos da equação invertem-se. O consumido passa a ser a variável independente e as pessoas são, por causa da sua omissão, transfiguradas em variável dependente. Talvez esta metamorfose explique a tendência da avaliação por excesso e a banalização da qualidade.

A mudança dos termos encomenda a outra hipótese: os nossos padrões de qualidade foram amolecidos por uma anestesia dos consumidores pelos meios sofisticados de sedução a que não conseguem resistir. Tudo é excelente – ou tudo aparenta ser excelente. Mesmo que não seja. O critério, e o rigor do critério, evaporaram-se no nevoeiro onde a publicidade fabrica logros constantes para domesticar o consumidor. A avaliação dos serviços e dos produtos torna-se uma farsa. Os consumidores são simultaneamente intérpretes e vítimas dessa farsa.

O que se segue é uma espiral sem saída possível: as técnicas sofisticadas de publicidade castram a autonomia do consumidor, que é encostado a um canto e tratado como um autómato. A cada avaliação por excesso, repete-se o processo, esvanecendo-se um pouco mais da vontade do consumidor. Até que qualquer fancaria que lhe passe diante dos olhos seja cuidada por ele como se de ouro se tratasse.

20.7.21

O soldado conhecido

BADBADNOTGOOD, “Signal From the Noise”, in https://www.youtube.com/watch?v=gMEto80a2HY

Já não há o soldado desconhecido. Os rigores da identidade impossibilitam a existência do soldado desconhecido. Poupa-se na estatuária e no adereço da mitologia que distrai os cidadãos. 

Nem que sejam rostos escondidos por capacetes e máscaras antigás, os soldados nunca são desconhecidos. Se caírem em combate, é uma profunda impressão digital que confessa a sua identidade. É como nas empresas, com os “colaboradores” exibindo um dístico ao peito com fotografia (não vá dar-se o caso de a bota não bater com a perdigota) e o nome em letras visíveis. As normas da cortesia exigem que nos dirijamos a uma pessoa sabendo por que nome a tratar. 

Os exércitos deviam ser iguais. Os combatentes, de cada vez que fossem esvaziados de mínimos de personalidade e fossem atirados para um campo de batalha, deviam ostentar, e em letras garrafais, nome e patente (não necessariamente por esta ordem). E seriam obrigados a anotar num diário de bordo os nomes dos combatentes inimigos depostos no campo de batalha pelas suas munições.

Os soldados passariam a ser todos conhecidos. O nome exibido impediria que fossem desconhecidos. Ficaria por saber se os exércitos compostos por soldados conhecidos continuariam o vício sacrificial da beligerância, esse teatro de morte que responde pelo nome de guerra. Sem soldados desconhecidos, ficaria órfã a farsa de honrar um soldado caído em combate e sem nome para dar a uma sepultura. Pois as sepulturas ficam incompletas se não forem ornamentadas por um nome.

A todo o Homem é dado um nome à nascença. Um soldado também nasce enquanto soldado. Não perde o nome que traz tatuado na alma. Lega-o ao soldado que, na posse de um nome, não poderia ser destratado como mera carne para batalhas ordenadas por outrem, em nome de causas que perderam o rosto com a sua beligerância. 

O soldado conhecido devia, em homenagem ao nome que carrega no armário onde se esconde a sua vida, pedir escusa do morticínio. Porque o soldado que está do outro lado da barricada também tem um nome. É, como ele, um soldado conhecido.

19.7.21

Perna curta

Courtney Barnett, “Rae Street”, in https://www.youtube.com/watch?v=NUXvlpS0TvE

Um cachecol esconde a pele. A roupa inteira esconde os corpos. Quantas vezes as palavras são a metáfora do fingimento? E é assim que somos, adversários da nudez sem sermos servos da mentira. 

Aos cachos, a voragem dos sentidos, das imagens, das pessoas e das palavras de que são mediadoras (ou que são, as palavras, as suas procuradoras). Um feixe ininterrupto que alimenta a complexidade que somos. Cada um, em si atomizado. E de todos, quando articulamos mesmo quando não queremos. Não se percebe quando as palavras escondem mentiras, quando são, elas próprias, a metáfora viva da mentira. A mentira intencional e a mentira piedosa; a mentira por acaso e a mentira necessária; a mentira que não se dá a saber.

Talvez sejamos ilhas rodeados de mentira. Ou a tradução da mentira, que toma de assalto a fortaleza simbólica que acenamos com orgulho quando afirmamos que somos imunes à mentira. Ainda ninguém inventou uma vacina contra a mentira. E não é possível. Muitas vezes, a indagação da mentira é uma empreitada improfícua. Sobram as dúvidas que se consomem em hesitações. É como se as vidas parassem à espera de saberem se a mentira se confirma. Entretanto, as almas entregam-se na especulação que as adia.

Dizem que a perna curta é a anatomia da mentira. Quando é intencional, o sangue efervescente transtorna a lucidez. O coração acelerado pode atraiçoar o ensaio de mentira. Se não for convincente, o seu autor é denunciado e identificado como mentiroso. Pior acontece quando uma perna curta tenta passar a perna a outra perna curta. Um duelo de pernas curtas salda-se pela perna mais bem adestrada no coxear. 

Alguns desiludidos da hodiernidade protestam contra a banalização da mentira. É como se uma imensa multidão manquejasse por causa da assimetria entre as duas pernas. Falta saber se os que se alinhavam como tutores da lisura são os que mais mancam à verdade. Da vida levamos aprendizagens. Uma ensina que quem mais vocifera contra um estado de alma é o seu bem disfarçado intérprete.

16.7.21

Inquérito de Verão

Jóhann Jóhannsson, “Flight From the City” (live at KCRW), in https://www.youtube.com/watch?v=Lgmtkav_Otk

          (Antecipação da silly season)

- O que é um Verão perfeito?

- Reiquiavique, onze graus Celsius a meio da tarde e uma chuva que aqui seria considerada invernal.

- Quais são os planos para o Verão?

- Sou contra o planeamento central, como sou contra qualquer coisa que tenha ressonâncias marxistas.

- Quando chega o Verão, tomas consciência da imperfeição?

- Não. Tenho consciência perene da minha imorredoira imperfeição. O Verão é irrelevante.

- No Verão, consomes mais livros ou mais álcool?

- Menos roupa. Mas nem assim poupo no suor.

- Verão é sinónimo de?

- Suor e sandálias e pés de fora. A metáfora do terror.

- Se pudesses escolher um Verão que fosse paradigmático, que Verão escolhias?

- Um Verão imaginariamente passado na Islândia.

- O que fazes numa noite de Verão?

- Quando está calor, suo as estopinhas para conseguir dormir. Odeio-me pelo suor, não antes de odiar o Verão conspirador.

- Que pergunta gostarias de fazer ao Verão?

- Estou de relações cortadas com o Verão.

- O Verão tem queixas de ti?

- Se houver reciprocidade – e desconhecendo se o Verão é generoso e tem elevação de espírito para evitar a reciprocidade – o Verão dirá cobras e lagartos de mim por dele ter este público ódio de estimação.

- De que cor pintavas o Verão?

- Da cor da tortura.

- As pessoas são diferentes no Verão?

- As pessoas são diferentes por andarem com menos roupa, suadas, pés à mostra e artificialmente bem-dispostas?

- Que prato associas ao Verão?

- Amêijoas à Bulhão Pato.

- O que te faz lembrar o Verão?

- O Inverno. Qualquer Inverno. Em qualquer lugar.

- Se pudesses ser o arquiteto do Verão, como o compunhas?

- Como na Islândia.

- Ficas à espera do Verão com ansiedade ou com indiferença?

- Fico à espera que o Verão corra depressa e dê lugar à mais bela estação de todas, o Outono que lhe sucede.

- Quando o Verão chega ao fim, tens saudade dele?

- A saudade é evocativa de portugalidade, e eu fujo tanto da portugalidade como de qualquer coisa que tenha laivos de marxismo.

15.7.21

Nota de rodapé (short stories #338)

The Cure, “A Forest” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=hnVldyHRcjU

          Não era o ar pesado da catedral que tecia as sombras sobre a memória. Todas as pedras gastas continham muita História que não vem nos livros. É como inventariar o paradeiro das mãos de um padeiro quando temos o pão entre as nossas mãos. Não nos serve afivelar as espadas que interpelem esse paradeiro. No caso das pedras da catedral, elas têm embebido um lastro que se perde na memória dos tempos. São notas de rodapé. E quem lê as notas de rodapé, se são secundárias ao texto principal? Provavelmente, até um leitor meticuloso deixa de as inventariar. Que a página seja virada do avesso: se as notas de rodapé existem, não são objetos decorativos. É como os detalhes que preenchem a arquitetura da catedral. Não é por acaso que é gótico o seu selo arquitetónico. Os estudiosos, os que se demoraram a dissecar cada centímetro da catedral, sabem identificar os detalhes e cuidaram de os sufragar nos manuais que explicam a catedral. Acontece o mesmo com as vidas. Muitas vezes, só nos preocupamos com o quadro geral e é para ele que olhamos com a distância exigida para termos uma breve ideia. Dispensamos os pormenores. E, todavia, são os pormenores, que só num olhar meticuloso teriam cabimento, que instruem o lastro das coisas que não entendemos. Oxalá não dispensássemos as notas de rodapé que foram sendo arquivadas num quarto furtivo da memória. São elas que permitem avivar o que esteja esquecido. Omiti-las é granjear a desmemória. Como desvalorizar os pequenos recantos de uma catedral não ajuda a entendê-la. Os olhos sentem o apelo do irresistível. Os tempos, que reivindicam para si o epíteto de modernos, não transigem com a criteriosa hermenêutica das notas de rodapé. São tempos que cultivam a desmemória e esse é o seu labéu. São tempos à espera de um tempo que se esgota no efémero.

14.7.21

Dicionário dos náufragos

The Jesus and Mary Chain, “Cracking Up” (live at Later With Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=PIhzlXxuLaU

A filantropia não se aprende. Enquanto as sombras colonizam as claraboias, é melhor que o sono sobressaia. O resto, é por conta dos sonhos. Do acaso dos sonhos. Pode ser que os sonhos sejam generosos, que pratiquem a sua particular filantropia. E que não adeje o espectro de naufrágios entre o seu elenco. Os marinheiros não podem ser os mecenas dos seus sonhos.

O mar é um caleidoscópio de incógnitas. Por mais que os peritos o estudem, e que cotejem essa ciência com a meteorologia, há golpes surdos que mudam o mar de um momento para o outro. O melhor é estar sempre de atalaia. Não confiar na instrumentação do navio, que há o mar de fundo que se soergue sem pré-aviso para terminar a viagem que não tinha contratempos. Os marinheiros têm de estar sempre preparados. Para a distração há os dias em que não estão embarcados.

Eles não podem ter mão nos sonhos. Por mais que confiem na generosidade dos sonhos, não passa de um desejo que se armadilha no seu contrário. As claraboias ora escondem o mar iracundo, ora patenteiam o dia soalheiro e estranhamente calmo que se extraiu às garras da noite. Entre a noite e a alvorada, a intermediação dos sonhos. É aí que os marinheiros se entregam. Como se acreditassem que os sonhos são presságios de viagens vindouras. 

Aprendem com a solidão. Porque o tempo em que estão embarcados é o rossio da solidão. Os mesmos rostos por dias a fio rivalizam com a extensão infinita de mar que os cerca quando navegam longe da costa. Essa é a definição de solidão no dicionário dos marinheiros. Já o navio nunca se sente só. Ele tem o lastro da tripulação que o conduz e que dele cuida. Os marinheiros protestam, em silêncio, contra a tirania dos mares. Protestam, e juram que se pudessem esta era a última vez que embarcavam. Mas regressam ao navio, como se ele fosse a sua pátria legítima.

Às vezes, um ou outro marinheiro escreve umas parcas palavras e enche uma garrafa (entretanto esvaziada) com o papel amarrotado onde elas foram depositadas. Às escondidas, atiram a garrafa borda fora. No código de conduta dos marinheiros, são os náufragos que atiram ao mar garrafas com mensagens. Um marinheiro não pode dar parte de fraco. Guarda as fragilidades para os seus insondáveis armários.

13.7.21

Ultimato (short stories #337)

New Order, “Bizarre Love Triangle”, in https://www.youtube.com/watch?v=3IJ3XXomxiM

          Todavia, chorava. As lágrimas tingiam a lucidez. Sabia que a obsolescência não gravitava em pose ameaçadora. Havia uma parte que renegava. Uma parte, funda, que despertava a almofada do arrependimento. Mas não se corrigia. Era como se andasse em círculos, partindo da admissão do erro para chegar à sua repetição, uma e outra vez, ampliando as dores excruciantes que tinha de si mesmo. As pesadas censuras exteriores não importavam; mais pesada era a censura que partia da medula. Incorrigível, sentia que os corredores se estreitavam e o labirinto apertava-se contra os limites do corpo. Em vez do exorcismo, era o corpo que empurrava os corredores, fundindo-os numa amostra liquefeita que desenhava os estilhaços em que se compunha. Era preciso o ultimato. Já fora preciso o ultimato muitas vezes. Soubera-o formular, com palavras poucas e certeiras, como convém para o ultimato ter a utilidade desejada. Mas o ultimato evaporava-se no crepúsculo onde levedava a repetição do passado. Era como se não houvesse presente, apenas a reprodução constante do passado – ou o tempo pretérito que saltava as barreiras e desafiava os limites do tempo, dissolvendo o presente. As lágrimas eram interiores. Ácidas e abundantes, alimentando um rio caudaloso que fazia da lucidez uma forasteira. Estava às ordens do instinto. Mesmo sabendo, por experiência própria, que os instintos eram quase sempre um logro e veneravam o oposto da lucidez. Aproveitava a noite para fugir da tutela dos que, de dia, julgava as divindades protetoras. Afinal não eram: as divindades não se distraem, nem perdem de vista os que tutelam. Ou talvez as divindades guardassem mensagens subliminares para que fosse industriado pelos instintos. Talvez os azimutes estivessem errados. E as divindades fossem um disfarce dos demónios que orquestravam a noite não irrisória. Como se os pés estivessem no céu e a cabeça estruturada no chão.

12.7.21

Quem não teme, não deve

Arlo Parks, “Too Good”, in https://www.youtube.com/watch?v=-gFCd5CE4bg

Mote: “Now I can go to the bank?”, António Costa para Ursula von der Leyen depois de confirmar que Portugal vai receber o seu quinhão da bazuca europeia.

Temos quadros mentais que desfilam no pensamento para enquadrar certas representações com personagens próprios. Admita-se que o humor pode sair torcido (ou, melhor dizendo: distorcido) e uma graçola fica emoldurada como uma frase dita na circunstância errada e no lugar errado. Quem não conhece aqueles que se têm em elevada consideração como humoristas, mas não passam de um logro – aqueles que narram a anedota e soltam a gargalhada antes de todos os outros? Até podia ser. Até seria melhor que assim fosse, um tiro ao lado na verve humorista, ou apenas a confirmação de um dia em que as palavras deviam ficar cingidas à sua expressão minimalista. Há poetas que o são só de estarem calados. 

No teatro da política, onde tudo se polariza cada vez mais, é difícil encontrar um meio termo. Tudo se perdoa a uma personagem, do mesmo modo que o menor deslize pode ser transfigurado numa boutade que daria lugar a retratação (ou até, para os mais exagerados, à demissão). A pose do primeiro-ministro não passaria de uma desengonçada manifestação de humor perante o embaraço da presidente da Comissão Europeia. Como poderia ser o epitome de um devir nacional, a revelação do estatuto de dependência dos subsídios da União Europeia (UE), como se a nossa participação na UE se resumisse aos subsídios que ela nos destina. 

Por outras palavras, para sintetizar os dois cenários alternativos que se perfilam: ou é o primeiro-ministro que desastradamente ensaiou um momento de descontração, para contrariar a solenidade do momento (versão de quem desvaloriza o acontecido, ou de quem avaliza todos os atos e as palavras de membros do governo); ou são os críticos que se assanham pela imagem de um país de cócoras perante os subsídios que proveem da UE, talvez sem darem conta que, afinal, essa indigência corporiza uma parte importante da idiossincrasia nacional. Fica ao critério do leitor. 

Se o acaso (ou a convicção) colocar o leitor na primeira hipótese, tenderá a não imputar uma interpretação literal às palavras do primeiro-ministro à presidente da Comissão Europeia. Poderá, até, arranjar justificações que passem pelo atropelo gramatical de quem não domina o idioma inglês (pois teria de interrogar “can I now go to the bank?”). Ou poderá tender a aligeirar o episódio, no ensaio hermenêutico de quem desvaloriza as palavras que saíram da boca de Costa. 

Se o acaso (ou a conveniência) fizer do leitor um crítico do acontecido, argumentará que o humor (mesmo que em manifesto ensaio falhado) não quadra com a solenidade do momento. Argumentará, ainda, que o primeiro-ministro foi autor de um melodrama que sintetiza muito do sentir nacional, se o leitor estiver incluído entre os que alinham no incorrigível pessimismo da portugalidade. Pois o leitor não perdoará a Costa a imagem de indigência que se cola às palavras que proferiu assim que findou a cerimónia que selou a vinda da bazuca europeia que, dizem, nos vai salvar da catástrofe económica ajuramentada pela pandemia.

A vantagem da dialética é a de colocar em confronto as diferentes posições e de se reconhecer que elas são antagónicas porque se cimentam em diferentes pressupostos (e, talvez, em diferentes interesses, cuja geometria é variável consoante o tempo e as circunstâncias). O melodrama pátrio terá sido servido naquele momento em que o primeiro-ministro pergunta (como se fosse necessário confirmá-lo – afinal, o contrato acabara de ser selado!) se já pode ir ao banco. Tudo depende da hermenêutica do leitor quando confrontado com o palco onde a cena foi servida. Sem os grilhões dos imperativos categóricos que têm origem nas fações que se polarizam. Nem os adeptos do governo podem impedir que os seus críticos mordam nas canelas do primeiro-ministro por causa das suas desastradas palavras; nem os perenes críticos de Costa devem fazer uma tempestade num copo de água, a menos que insistam em mergulhar no magma semântico das suas palavras e invertam o adágio, advertindo: “quem não teme, não deve.”

9.7.21

Desordem criativa (short stories #336)

Massive Attack, “Protection”, in https://www.youtube.com/watch?v=Epgo8ixX6Wo

          “Sempre gostei de puzzles. De ver as peças todas espalhadas sobre a mesa, o selo da desorganização, e saber que o meu encargo era montar uma ordem. E, todavia, sou estruturalmente hostil à ordem” – dizia, sem lamentos, enquanto apreciava os estilhaços que o despedaçaram. Uma vez mais, a vida estilhaçada, a franquia de toda uma vida em que o sobressalto se dissolveu num insignificado. As mãos entrelaçadas falavam quase tanto como as palavras que pareciam arrancadas à lava que endurecera. Recusava atirar a cabeça para o cabisbaixo. “Nunca deixei um puzzle órfão.” Tentava perceber se havia vestígios que não fossem ferro-velho, disponíveis para um heurístico recomeçar. Sem eles, a empreitada agiganta-se. Sem eles, é preciso criar tecido próprio, do nada, firmá-lo à procura de esteios. É preciso ser criativo. Há pessoas que só são criativas quando a criatividade fala como dever, quando ela é a condição para emergir de um labirinto asfixiante. “Eu nunca deixei um puzzle órfão. Não me cansarei de repetir. Foi a minha estrénua vontade que dirimiu os contratempos que não tinham solução.” Não olhava para trás. Não havia legado que pudesse emendar. Só interessava dirigir o olhar por cima do umbral que separava o futuro do dia presente (por esta ordem). Arrumando o que estava cristalizado como material perdido. Não lhe falassem de palavras categóricas – sempre e nunca e definitivamente e impossível e agora. “Eu sei dizer que houve puzzles que ergui e que foram dizimados a seguir. E eu ergui-os, outra vez, depois de decantar as peças perecíveis. Nunca capitulei.” Não se atemorizava pela cor do nada que se fundia com o horizonte. As paredes não são feitas de um material frágil. As paredes são o seu corpo, que ele sabe ser à prova de munições. Os puzzles ficam à espera. De um esgar da sua vontade. 

8.7.21

Sonhos por procuração (short stories #335)

Mogwai, “Every Country’s Sun” (6 Music Live), in https://www.youtube.com/watch?v=AAdZNBKCyi0

          Acendemos as candeias que se apuram nos dedos. Dizemos: à noite, quando o sono tem inventário, arrematamos os sonhos sem redenção. Não precisamos deles (diríamos, em dúvida). O chão que tateamos é o mapa do tesouro que é o aval dos sonhos que se transfiguraram. Os rostos colam-se ao vidro embaciado. Vemos a chuva de Verão que se abate com uma ira invernal. “Eu gosto das coisas fora do seu lugar”, confidencias, para eu tomar nota que as estações deviam ter lugares trocados até que as pessoas não se cansassem do tempo que é inato às estações. Se as vozes se fundirem no silêncio, não as deixamos sem apeadeiro. Como se fôssemos artesãos, moldamos as paredes necessárias com a ajuda do vento que nos desarruma os cabelos; não queremos que as vozes fiquem órfãs, ou que passem pelo apeadeiro como se fossem um comboio de alta velocidade. São as nossas vozes, a gramática que ecoa. À medida que desenhamos as estrofes, subimos no dorso dos sonhos de que não temos paradeiro. Somos um sonho que emerge por dentro de nós, a carne que se cimenta no lugarejo de que fazemos a nossa cidade. Não arrastamos a indiferença pelas planícies consagradas pela Primavera. As flores que deitamos na fala são mais coloridas e odorosas, são exuberantes. Não precisamos de jardins se somos um fértil canteiro. Se perguntássemos a um erudito, dir-nos-ia que somos o contraste do privilégio – e o contraste está-nos tatuado no olhar que traduz um sortilégio. O nosso sortilégio, que soubemos marear nos confins de uma redenção que não pedimos. É possível que nos despojos estejam as sílabas que encontrámos nos sonhos que são nosso lugar. As sílabas tiradas ao estuário que nos oferece morada sem endereço. A morada onde tiramos as roupas e sabemos que somos apenas a simplicidade da nudez.

7.7.21

Viver por dentro do part time (short stories #334)

Yo La Tengo, “Ohm”, in https://www.youtube.com/watch?v=Py2KOyrtq6o

          O passatempo favorito é meter conversa com desconhecidos. Tem uma teoria: se não meter conversa com desconhecidos eles nunca passam a ser conhecidos. Poucos concordam com a teoria. Não é por meia dúzia de palavras avulsas e conversa de circunstância que um desconhecido se transfigura em conhecido. Discorda. As conversas furtivas não chegam para cimentar amizades. Mas as parcas palavras mercadas com um desconhecido produzem a sua metamorfose num conhecido: da próxima vez que se cruzarem, não será a primeira vez que darão corda à conversa – são, portanto, conhecidos. As palavras avulsas são sobre temas ao acaso. Uma circunstância do momento, a notícia mais comentada, uma desgraça ampliada pelos canais de televisão que semeiam sangue e sobressalto, o futebol (sempre o maldito futebol), a maleita responsável pela visita a uma sala de visitas de um consultório médico, o nada numa esplanada de café, o galanteio invariavelmente frustrado. Parece ter faro. As pessoas com quem mete conversa são como ele, faladores natos. Se lhe perguntassem quantos amigos tem, diria que não passam de uma mão cheia. Alega não precisar de mais. Todavia, traz a tiracolo um abundante inventário de conhecidos. Muitas vezes sai da conversa convencido da transfiguração do desconhecido em conhecido, pese embora não tenham permutado o essencial: as credenciais que determinam a identidade, ficando sem saber os nomes. Às vezes, quando a angústia sobe a cena e a positividade da vida aprendida de manuais iliteratos é anestesiada, tem a impressão que vive uma vida paralela à que seria a sua. Lado a lado com os desconhecidos que só um convencimento trivial eleva à condição de conhecidos. Essa é a sua vida em part time. Desfocada de si mesmo, com uma sede tremenda da vida dos outros. Não por acaso, o seu relógio estilhaçado só mostra uma metade.

6.7.21

Bater três vezes na madeira e esbarrar no sortilégio

Nitin Sawhney and Brian Eno, “Prophesy”, (live), in https://www.youtube.com/watch?v=iyiJHNB-P5U

O chapéu protegia dos demónios que acirandavam. Era como os contratos com as letras pequenas que ninguém lê e depois atraiçoam os contratantes; mas ele estava sempre três passos à frente dos contratempos, mesmo que os contratempos não viessem com aviso de receção.

A superstição era código de conduta. As superstições consabidas e as outras que eram parte da sua idiossincrasia. Ele era pessoa de bater três vezes na madeira para escorraçar o azar. Era incapaz de passar sob uma escada. Ficava sobressaltado quando se partia um copo. Não lhe falassem em amesendar com doze pessoas. Julgava – erradamente, como em todas as superstições – que a aparição de um aranhiço chamava dinheiro. Se olhasse para a conta bancária e o magro património saberia que os aranhiços não contam para estas contas. Já tinha idade para ter aprendido que as superstições quase nunca se confirmam. Mas insistia. Mesmo que alguns azares o tenham escolhido como vítima – como acontece, em doses variáveis, com qualquer um, como devia saber. 

Na falta de comiseração alheia, era aquele que se considerava a pessoa a quem calhou o maior quinhão de infortúnios. Era como se estivesse a suplicar pela comiseração dos outros. Não percebia como se sufragava num mar de contradições: se era tão metódico no alijar dos azares batendo três vezes na madeira, como era possível ser assaltado tantas vezes pelo infortúnio?

Um amigo avançou uma hipótese. Talvez não soubesse que era madeira o material em que batia quando queria exorcizar azares antes do tempo. Teria a certeza que a superfície era de madeira? Obrigou-se a um demorado exercício de lembrança para inventariar se era madeira ou um ardiloso sucedâneo. A superstição só se valida se a mão fechada bater três vezes numa superfície de madeira. Ao menos, enquanto prendeu a memória à revisitação dos lugares que receberam os três batimentos com os nós dos dedos, não repetia o ritual que se armadilha numa inutilidade.

Não sabia aprender. Uma e outra vez, contrariado por um contratempo, culpava tudo e mais alguma coisa pelo sucedido. Não lhe era dado a admitir que bater três vezes na madeira não era sequer um paliativo.  

5.7.21

Espólio (short stories #333)

Gorillaz, “Stylo” (live at Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=NJOQiKKsoUM

         O rebanho é a ideia ancestral da irrelevância do espírito livre e nem quando se sujeita à transumância desagua num bastião de liberdade. Dizem que há palavras que merecem ser começadas por letra maiúscula e liberdade é uma delas – quase como se fosse deificada. Não sejamos atraiçoados por uma contradição de termos: se entronizarmos semanticamente a liberdade, grafando-a com L maiúsculo, tropeçamos nos nossos despojos por exaltarmos o oposto do pretendido. A liberdade só o é se não estiver amarrada a essa teia semântica. Não sejamos tarefeiros involuntários dos ventos que não são da nossa feição. Ao contrário dos rios, que são domados por barragens, o vento não está à mercê da influência dos Homens. Se deixarmos cada átomo falar por si, sem nada forjar a seu favor, teremos a mais descomprometida liberdade. Não se diga que a liberdade se congemina, pois ao ser congeminada está moldada numa camisa-de-forças e acaba mergulhada noutra contradição de termos. Deixemos que o conceito se faça pela espontaneidade que o encerra. Sejamos seus rendeiros natos. Sem esquecer um dever geral de denúncia dos apóstatas que forçam uma certa liberdade sobre os demais – uma liberdade condicionada, a antítese da liberdade. A liberdade não se proclama, apenas. Pratica-se. Respeitando o que os outros têm a dizer sobre o que entendem ser a sua liberdade. É no vagar desta recompensa que assenta o espólio que deixamos para memória futura. Uma catedral sem deus, um palácio sem suserano, uma ideia sem autor, o ser-se sem o corpo e a fala amordaçados, sem tutor. A liberdade não obedece a mapas, do mesmo modo que um espólio não tartamudeia na fala dos outros. A tempo de sermos uma vida vivida por dentro de nós, destinando aos outros o respetivo ser, deixamos por nossa conta as fronteiras do espólio. Cada um desenha a sua liberdade.

2.7.21

Flor vadia (short stories #332)

Ólafur Arnalds, “saman”, in https://www.youtube.com/watch?v=jzcWhWrDnAY

          Não precisa de fotossíntese. A flor vadia fala pela sua boca hirsuta. A ela não vêm abelhas famintas. Não é conhecida por ser uma fábrica de pólen. Nem por isso deixa de ser cantada por poetas. Diz-se que os poetas não capitulam perante o logro das facilidades. Preferem que o olhar se demore nas coisas que não habitam no adro da obviedade. A flor vadia não se distingue pela beleza. Os mecenas da estética diriam encontrar flores que são mais belas. A flor vadia nem sequer é conhecida por ser odorosa. Nada disso interessa. É uma flor rebelde. Há um certo fascínio na flor vadia. A pose imponente é o aval da resistência às tempestades – ela não quebra por mais proceloso que seja o vento. Sobrevive ao calor exótico, quando outras flores congeminam a decadência se não forem regadas. A flor vadia não obedece às regras que a botânica definiu para as demais flores. É uma flor invulgar, uma exceção aos cânones. Um exórdio de liberdade. Não se deixa aprisionar por elementos exteriores que sejam a fraqueza de uma agressão. Ela não promete futuros quiméricos a quem a recebe; a flor vadia não consta do cardápio das flores vendáveis. As floristas abjuram-na: não tem valor comercial. É uma flor de que só os botânicos sabem o nome. As outras pessoas não dão conta do seu paradeiro. Ou, se a inventariam, é para a deixarem no labéu do anonimato – a flor vadia é uma flor sem nome. Por isso é tão especial. Por não ter nome, não responde a ninguém. Desembaraça-se dos embaraços que possam coagir a sua liberdade. A flor vadia é uma lição para as pessoas. Os direitos de personalidade cimentam-se nos nomes que as pessoas têm. A sua âncora é uma desliberdade. Pudéssemos aprender com a flor vadia. Ninguém queria ser famoso. 

1.7.21

As perguntas difíceis (short stories #331)

Dry Cleaning, “Spoils”, in https://www.youtube.com/watch?v=wNqrABbRJGU

          Não guardes o implausível para o dorso dos aplausos. As flores falam contigo, escondidas das sombras onde o mundo dança a decadência. Se nem os verbos puídos contracenam com o medo, é porque capitulámos na altura em que de nós eram esperadas as perguntas difíceis. Diriam: fugimos das perguntas difíceis porque as respostas não estão à altura; ou, por outras palavras, acabamos por descobrir que as respostas fáceis são o paradoxo acabado das perguntas difíceis. A pele pede um luar desembaraçado para poder entregar aos olhos um chão basalto. É o que precisamos para adestrar o pensamento sob a égide da temperança. Há quem se oponha: reclamam dos sobressaltos a matéria-prima para o arrevesar da alma, como se precisássemos de ir à lava fundente e deixar o magma falar por nós. Diz-se que é nos instintos que medra a espontaneidade. Diz-se: que devíamos ser desprovidos de verniz e devolver a diplomacia (o embuste perene dos falsários) à penumbra da antropologia. Não tiramos das medidas as baias das perguntas difíceis. A quimera pavoneia-se na orla do precipício e nós, como adolescentes inconscientes, fechamos os olhos e avançamos pelo fio fino que divide o abismo em dois. E prometemos: assim que abrirmos os olhos (só pode ser em terra firme), não deixaremos sem lugar as perguntas difíceis. Não nos interessam as respostas. Apenas formulamos as perguntas. À espera que as ruínas se esqueçam do passado e as mãos untadas de sede desçam ao poço onde as águas reparadoras esperam pelos corpos exangues. As manhãs são o rosto dos amanhãs que se emancipam das incertezas – o seu rasto. Não adiamos a coreografia em que se entretece a vontade. Ela não se dedica ao locupletar tardio das perguntas inofensivas. Fica por conta da dialética por desarmadilhar. É esse chão minado que as perguntas difíceis sabem ladear.

30.6.21

Leme

Dead Can Dance, “Opium” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=tFk0cPwULD8

Podia lançar à água mil navios sem as letras maiúsculas a debruarem o casco. Provavelmente, falharia. Mas a tentativa é todo um poema que interessa reter. O processo de intenções. A linhagem dos ardis precisos para alinhavar a proeza. Saber se se tratava mesmo de uma proeza. Antes de apurar os augúrios, confirmados ou não.

Precisava de um leme. As mãos precisam de solo firme, não se agarram ao vento promitente. O leme dar-me-ia sentido. Sem ele, são vãs as tentativas de lançar mil navios à água, ou qualquer outra empreitada. Precisava de saber se o leme foi devidamente polido. Se não tinha arestas que pudessem calejar as mãos, conferindo-lhes a anestesia que é o tear dos fingimentos. Para não mergulhar nas profundezas de uma ilusão, convencido de um rumo que traz a lugar algum.

Às vezes, parece que as empreitadas perdem sentido assim que são concebidas. Dissolvem-se num jogo de sombras que as torna uma miragem, sem contornos que permitam às mãos agarrar-se. O leme não precisa de coordenadas milimétricas. Mover-se-á por uma ordem espontânea, que não obedece ao rigor matemático de equações laboriosamente fixadas. Mover-se-á, sem saber para aonde. Os mil navios lançados à água são os seus plúrimos intérpretes. E os sonhos já não são apenas uma medida líquida, abstrata, mas o aval de um fado irrepetível.

Não há ondas temíveis a assombrar os mil navios lançados à água. O inventário dos medos será emparedado por operários diligentes, a soldo das ordens bondosas que confundem política com poesia. Ou talvez não: a poesia não merece tamanha contaminação. Os navios, os mil navios sulcando os mares inteiros, serão como estrofes desenhadas na cartografia dos oceanos. Dizendo-lhes, em sílabas docemente ciciadas, que os mares são apenas o avesso dos pés que se firmam em terra sólida. 

E o leme, à espera das intenções, luzidiamente inerte até que umas mãos sejam o seu depositário. 

29.6.21

O salva-vidas usava baton

Zero 7 ft. Lou Stone, “After the Fall” (live session), in https://www.youtube.com/watch?v=u55upGlscKg

O dia estava fresco, o sol levantara-se há pouco. Ninguém na praia. Não era preciso obedecer à sinalética que descruza os veraneantes consoante estejam de entrada ou de saída da praia. Não havia vivalma. Rareavam, até, os automóveis. A cidade acordava tarde. Deu ao dia umas horas de avanço.

Só os homens do lixo e um autocarro de passageiros aqui e outro ali tinham a ousadia de desterrar a noite que, ao que parece, entrara pelo dia adentro. Os mandamentos dos ensonados faziam fé na penumbra que se disfarçava de claridade matinal. Talvez a véspera tivesse sido de folia, uma daquelas celebrações próprias do início de Verão em que, a pretexto de consagrar um santo padroeiro, liberta as pessoas para o hedonismo. Mas a consulta ao calendário não revelou uma efeméride. Talvez fossem apenas as pessoas a adiar o começo da segunda-feira.

Parecia que o dia estava mandatado sob consignação. À espera dos primeiros bravos que se cansassem do sono tardio. Na praia, as primeiras almas começaram a sondar as sobras da maresia que sinaliza a humidade, aquela ponte entre a noite e o dia que tem o nevoeiro como mediador. O nevoeiro não tardava a dissipar. As pessoas começavam a não precisar de agasalho. À medida da sua temperada subida, o sol fazia sentir o abrasear. Era como se um chamamento silencioso trouxesse mais pessoas para junto do mar. Dizia-se: antes que esteja a nortada que afeia a tarde, aproveitemos o sol temperado.

O salva-vidas estava de atalaia à entrada da praia. A sua musculatura impunha respeito. Com um gesto firme, direcionava as pessoas para os lugares certos. A peste ainda amedronta os temerários. De acordo com o salva-vidas – devidamente instruído pela propaganda do ministério da tutela – os despachados que se aliviaram de medos devem ter o devido acompanhamento pelos mais esclarecidos. Ele estava entre os mais esclarecidos.  

Umas mulheres menopáusicas, em magote, estavam deslumbradas com o salva-vidas. Avivando memórias, segredavam desejos com o salva-vidas. Se soubessem que o dia não começa a meio da manhã, o rapaz talvez não as destinasse à indiferença. Não sendo assim, elas só puderam notar (descontadas as fantasias sem confissão) o baton nos lábios do salva-vidas. 

Deve ser umas destas modernices. Homens com laivos femininos – pressentiu uma das mulheres.

 - Não sejas parva. Então não se percebe que é baton para proteger do sol? – ripostou outra, mais conhecedora da indústria dos cosméticos.

Num salto no tempo, a véspera da noite, quando o entardecer desmaia no estertor da luz diurna, devolveu o lugar ermo que era a praia fora da estação alta. A nortada ainda não dera tréguas. O fim do dia era o sinónimo do vendaval. Àquela hora, o salva-vidas já não personificava o salva-vidas. À civil, devolveu aos lábios a sua cor natural.