9.9.26

O perigo da repetição da História é como os discos de vinil: tem o lado A e o lado B

Billy Bragg, “Waiting for the Great Leap Forwards”, in https://www.youtube.com/watch?v=sHd2O_KuCxA  

Enfatuado com a epifania anual no Seixal, Manuel Loff não perdeu tempo a comentar os (preocupantes) resultados das eleições na Saxónia-Anhalt e a extrair as habituais extrapolações. Os eleitores exerceram a democracia no domingo e dois dias depois a prosa do historiador dava à estampa no Público

Regresso ao parágrafo anterior para esclarecer que não é contraditório considerar preocupante o resultado de umas eleições ganhas pelo partido neonazi e argumentar que os eleitores exerceram a democracia. O problema poderá estar a montante e foi finamente evocado por Tiago Rodrigues, numa entrevista que o diretor do Teatro de Avignon concedeu à CNN Portugal. Eis o (nosso) dilema moral: devemos ser tolerantes com aqueles que gravitam na órbita da intolerância, correndo o risco de, ascendendo eles ao poder, porem fim à democracia (e assim seremos os notários do fim da democracia)? Ou devemos ser intolerantes com os intolerantes, correndo o risco de repudiar os nossos princípios? 

Se os neonazis foram admitidos a concurso eleitoral, que legitimidade temos nós, os que estamos vivamente preocupados com a sua cavalgada rumo ao poder, para desprezar os votantes neste partido, como se houvesse eleitores de primeira e de segunda? A democracia deve conter as suas próprias linhas vermelhas. A Constituição portuguesa delimitou esse perímetro de segurança e, mesmo assim, um partido de direita radical, com pessoas que não escondem em público a sua afeição pelo salazarismo ido, está em vias de rivalizar com os partidos centrípetos do regime (de acordo com as sondagens mais recentes). 

Aqui entram em campo as extrapolações e alguns laivos de alucinação de Loff. Primeiro, convocando a veia de historiador, aviva a memória do(a) leitor(a): no pós-Segunda Guerra, foram governos democrata-cristãos que toleraram a existência de movimentos neonazis na Alemanha. A nossa memória é refrescada ao ponto de ser identificado o autor das leis antissemitas de Nuremberga (1935), Hans Globke, que serviu como chefe de gabinete de Konrad Adenauer entre 1953 e 1963. O cronista imediatamente aproveitou o dado histórico para uma das suas habituais extrapolações: Adenauer, um dos “pais das Comunidades Europeias”, teve durante dez anos Globke, um nazi reciclado, como chefe de gabinete. Talvez se possa inferir que esta é a estirpe maligna da União Europeia.

O melhor vem depois. Para provar o erro que foi a reunificação alemã –  não discordo que o processo enfermou de erros, pelas precipitações políticas que o sequestraram –, Loff aproveita para matar saudades da República Democrática Alemã (RDA) ao elencar as profusas virtudes que estavam ao alcance dos cidadãos deste país. A páginas tantas, o historiador identifica um dos deleites usufruídos: “(...) a vida previsível sempre e quando não quisessem emigrar para a Alemanha ocidental ou contestar a natureza autoritária do sistema político (...)”. A História desse período testemunhou o que acontecia aos cidadãos da RDA quando, cansados da vida previsível (viva a rotina comunista!), ensaiavam a “emigração” (aqui tratada como eufemismo de “fuga”) para a Alemanha ocidental. Consegue Loff inventariar o número das pessoas que caíram sob o jugo das balas da polícia da RDA? 

Loff – deito-me a adivinhar – será daqueles saudosos da União Soviética e da incomparável democracia que aí prosperava que contesta com veemência todos os relatos, tão históricos como a História que Loff cuida como ciência, das atrocidades da URSS e dos países que viveram sob o comunismo. Serão alucinações de gente empenhada em destruir o comunismo, relatos feitos por autores sem credibilidade, e por aí fora. A credibilidade está reservada aos cientistas sociais que continuam a crer na fé do socialismo científico e em todas as quimeras prometidas. Nem de propósito, no mesmo dia em que este artigo de opinião foi publicado, dezanove páginas à frente o enviado especial ao Festival de Veneza, Vasco Câmara, noticiava um filme notável sobre a era soviética: “Imperium”, de Sergei Loznitsa. Na entrevista ao jornalista, o realizador, adverte que “[e]nquanto a verdade não for dita, há sempre o perigo de a História se repetir.” A História pode-se repetir tal como um disco de vinil tem dois lados. Já este filme não será aconselhável a Manuel Loff.

Ainda amparado pelos (talvez) efeitos lisérgicos da anual Festa do Avante, ao meu conhecimento chegou uma publicação numa rede social do ex-deputado Miguel Tiago. Começando por destilar o incómodo de ver como anticomunistas primários reagem à Festa do Avante, Tiago conclui, numa extrapolação típica de quem adivinha as intenções dos adversários: “não gostamos, não aceitamos, faremos tudo para impedir, que um grupo de trabalhadores organizados proponha aumentos de salários, fim (sic) da corrupção das privatizações, fim (sic) do desvio dos recursos para os nossos hospitais privados, cultura livre e gratuita, escola para todos e transporte e casas acessíveis para todos. Não gostamos e não aceitamos que alguém se atreva a impedir ou sequer limitar a nossa capacidade de saquear os trabalhadores e os recursos de Portugal.” (Miguel Tiago escreve na primeira pessoa do plural, colocando-se na posição do “anticomunista primário”.)

Compreendo que o emagrecimento eleitoral do PCP, aliás não correspondente à atração da comunicação social, sirva de mote para lídimos comunistas se colocarem, e ao partido de que são militantes, na posição de vítimas. A vitimização costuma compensar, faz parte da idiossincrasia nacional. O exercício de vitimização servirá para arregimentar as emagrecidas hostes e, a partir daí, tentar catequizar jovens para travar o envelhecimento do partido, que a prazo poderá selar a sua decadência. 

Caros Miguel Tiago e Manuel Loff, e demais militantes e simpatizantes da causa comunista, não tresleiam as minhas palavras: das últimas coisas que um tipo de direita (se me permitem, duvidando no entanto que aceitem o epíteto: “direita civilizada”) deseja é a extinção do partido comunista, ou de qualquer outro partido. Se for preciso, assino uma petição a favor da continuidade da Festa do Avante, para poderem continuar empenhados na liturgia do que vos aprouver. Talvez estejam a ser vítimas de um complexo de Estocolmo virado do avesso: quem se distinguiu na ação política com proibições a eito foram os comunistas. Eu prefiro aceitar apenas uma proibição: é proibido proibir. 

Era o que mais faltava, proibir a Festa do Avante, ou o PCP, pá!

8.9.26

Páginas arrancadas

The Cure, “Shake Dog Shake” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=JinxOfDJ4K4

Podem-se arrancar as páginas seladas no bronze do tempo, mutilando o livro como se ele renascesse depois? Pode um arrependimento trespassar as palavras desemudecidas pelo averbamento em páginas escritas? Pode o arrependimento exercer esta tirania?

E o que pode mais do que a vontade do autor – a vontade de qualquer pessoa que é inteiramente tutora da sua vida e do que ela transporta através das várias camadas do tempo? O arrependimento é apascentado pelo próprio, isento dos juros tomados por quem queira ser síndico exterior. Por mais que as páginas arrancadas sejam um axioma de insensatez, pois podem ser património imaterial que transcende a vontade de qualquer pessoa, o autor é a única instância que decide sobre o seu destino? 

Como conciliar a vontade do autor com o clamor que se mobilize em sentido contrário? Pode o autor isentar-se das suas responsabilidades de autor, do contributo que deu, exercendo um mutismo unilateral que atropela a obra enquanto bem cultural? Pode o desejo de exílio interior do autor sobrepor-se à força gravitacional da sua obra, truncando-a de páginas que a podem ferir como obra? 

Dirão os que se sentam no lugar dos juízes da vontade alheia: não se pode emendar os passos do passado, o que foi dito e o que foi feito, e o que não tendo sido dito havê-lo-ia sido se não imperasse o silêncio, as pessoas que passaram a ser presente durante o tempo em que tiveram tempo para o ser, os vícios havidos e os que continuar a haver, os lugares aonde se foi, as decisões tomadas – e as suas consequências; o arrependimento não desterra os atos e as palavras e as pessoas, nem a história se refaz ou se omite por ato unilateralmente estalinista. O que seria suficiente para travar as intenções de todos os autores que, querendo repudiar partes da sua obra, cobram um metafórico arrancar de páginas como ónus da sua soberana vontade. 

Os leitores ficam a saber que essas páginas mentalmente arrancadas pelo autor são páginas que, a ser respeitada a sua vontade, não devem ser lidas porque foram amputadas pela vontade de quem as concebeu. Mas o leitor também tem a sua vontade. Que pode coincidir com a do autor, omitindo da leitura as páginas arrancadas; ou pode dele se emancipar, não resistindo à curiosidade mórbida de ler, e talvez com mais atenção, as páginas mutiladas. 

O arrependimento não oblitera o tempo correspondente. Os silêncios que o arrependimento impõe ao tempo havido são um dicionário por sua conta. Das páginas arrancadas, sendo elas resgatadas, pode-se aprender muito sobre quem ordenou a mutilação. As palavras também valem pelo silêncio que impõem.

7.9.26

Telhados depois

The B-52’s, “Legal Tender”, in https://www.youtube.com/watch?v=mBRr_TqLDf4

A inocência, não sei se é como um vulcão ou um eclipse. 

As vozes, num vai e vem, encantam as possibilidades, como se os poetas admitissem a polissemia e o sentido dos poemas ficasse sempre sob reserva de entendimento do leitor. De todas as providências, a inocência enfeita-se de incoerência (e não é por ser rima). Há alturas em que andamos nas alturas sem que professemos a imodéstia. Subimos às alturas para melhor ser a visão sobre o demais, e os miradouros são lâmpadas que cevam a lucidez.

Não se estranhe a deambulação pelos telhados, como fazem os gatos (a quem se convencionou chamar) vadios. De telhado em telhado, os pés suaves como se estivessem calçados em pantufas armadilhadas de silenciadores, que não queremos que as pessoas que habitam sob os telhados sejam desassossegadas pela nossa audácia.

Como a cidade é finita, os telhados hão-de acabar. Descemos à terra com o apetite de conhecimento saciado. Sem arrogância, apenas com a ousadia que compete aos audazes, os pés beijam o chão empanturrados de tão despejadas paisagens que são dadas a conhecer quando se anda de telhado em telhado. 

Aos que perguntam se a demanda se faz na posse de arnês, solicitamente respondemos, no auge da nossa lúcida loucura, que vamos sem amparo. A audácia é maior e com o frémito em que se consome apura-se a lucidez, por mais que, incrédulas, sejamos contestados. Saltamos de telhado em telhado, mesmo que seja por dentro da prisão do pensamento. O combustível é o sonho de que somos hospedeiros. Podem os pés estar sensatamente enraizados no chão-âncora, que os sonhos o levitam para cima dos telhados onde se hasteiam metáforas heurísticas: os cartazes esvaziam-se de palavras e ficam apenas as paisagens mentais que vieram ao regaço com a dávida dos sonhos. 

Ao anoitecer, cumprem-se os rituais singulares. As bandeiras dedilhadas já não estão puídas pela orfandade. Uns chamam-lhe identidade e perseguem a pertença que se destila do nosso magma. Outros, mais desligados e aptos ao tirocínio da poesia, preferem continuar a sonhar enquanto prosseguem o intrépido atravessamento de telhados. Até que telhados depois, já exangues, se entregam ao próximo sonho.

4.9.26

Princípio geral do avestruz

New Order, “Thieves Like Us”, in https://www.youtube.com/watch?v=54VCnq9yx9w  

Que não falte areia, ou outro solo abundante, mole ou pétreo, onde se possa imitar o avestruz, de quem se diz ser sua perícia o enterrar da cabeça. A imagem serviu para fixar uma metáfora que do avestruz não lega uma imagem digna: enfia-se a cabeça na areia para evitar os problemas, seja os que chovem copiosamente, seja um só que, pela sua contundência, arrebate a dimensão de todos os demais. 

Esconder a cabeça como o avestruz é passar à prática a conduta do fingimento. Se o corpo estiver todo à mostra, o arsenal de contrariedades, para o qual não se está preparado, abate-se com toda a impiedade. Não se estando preparado para lidar com tantos contratempos (ou sequer com um só), emerge o fingimento como panaceia. Pode ser que ao enterrar a cabeça na areia a falta de visão impeça a tomada de consciência das apoquentações. Ou, visto desde o ponto de vista das flagelações que irrompem sem contemplações, como a cabeça não está à mostra, procura-se outra vítima. 

Contudo, os contratempos não são apenas pica miolos. Contentam-se em aferroar qualquer parte do corpo de quem seja escolhido como vítima. A fuga programada segundo o princípio geral do avestruz nem paliativo chega a ser. Muito embora a cabeça esteja escondida, grande parte do corpo restante continua exposta. Os contratempos não dependem da tomada de consciência que é ativada pela visão desembaraçada. Qualquer parte do corpo serve para ser validada a contaminação de um contratempo. O restante corpo à mostra será a porta de entrada e, em pouco tempo, a tomada de consciência do contratempo materializa-se. Esconder a cabeça como o avestruz não evita os problemas. 

Mesmo assim, com toda a experiência que faz parte do envelhecimento do mundo, não há um dia que não se multipliquem cabeças escondidas na areia. A nossa estultícia ofende o avestruz.

3.9.26

Polido (short stories #523)

Angel Olsen, “Eyes Without a Face”, in https://www.youtube.com/watch?v=CQg2hdkgfY8

          Passou tempo de mais a escarnecer do futuro. Nas rondas em que promovia a convivência da noite com o silêncio, ao invés de arrumar as ideias povoava a cabeça com o caos. E se, todavia, podia definir as bissetrizes do descontentamento, talvez fosse austero no diagnóstico. Havia momentos em que a lucidez parecia soerguer-se e palmilhava umas léguas. Era quando se lembrava de uma tia que dizia repetidamente: “há sempre quem esteja pior”. Faltava fazer a estatística, apurar se a tia tinha razão antes do tempo ou se não eram apenas os paninhos quentes de quem testemunha a imaturidade dos que fogem da serenidade. Talvez precisasse de uma árvore centrípeta que ajudasse a situar o pensamento; que não fosse tão corrompida pela parcialidade de quem corre contra a conspiração enfatuada do tempo, ou de como acabamos a ser fautores dos nossos próprios logros. Talvez precisasse de um exílio mais fundo do que o interior exílio por onde flanavam os poetas transviados. Um exílio que fosse além do seu sentido geográfico. Não sabia onde procurar o asilo que fosse o lugar de partida desse exílio. Aparecem sempre pedras pontiagudas que ferem o caminhar. Em grande parte do tempo, parecia que se limitava a fugir dessas pedras, como se o caminho fosse um slalom sinuoso para evitar as feridas extensas que o importunavam enquanto errava. Se polisse as pedras e o caminho fosse alisado, a demanda deixaria de ser um fardo. Podia ser que o exílio necessário não fosse uma tortura: ninguém precisa de se entregar a uma proposta de redenção que rime com sacrifícios quotidianos. É preciso saber que a vida que se ajaeza não deve ser palco para a exoneração interior que em vez de ser remédio é desarrumação maior. O comboio dos dias polidos trataria da reconciliação com o futuro.

2.9.26

Carrinhos de rolamentos (short stories #522)

Trentemøller, “Terrified”, in https://www.youtube.com/watch?v=yELt4GcVsrE

          Cotovelos esmurrados e outra vez esmurrados antes de ganharem cicatrizes. Nódoas negras (vulgo hematomas, antes de sabermos do uso de palavras dispendiosas). O mérito de uma trajetória desenhada de acordo com os cânones dos melhores pilotos de automóveis (víamos na televisão, desde pequenos, as corridas de Fórmula 1). As mãos encardidas, ganhar velocidade no auge da subida exigia tomar lanço e o uso de luvas não nos passava pela cabeça. Com o tempo, a procura de sofisticação (possível): ir a oficinas e perguntar aos mecânicos se tinham rolamentos para dispensar e se podiam dispensar os melhores rolamentos que estavam prestes a acabar os seus dias no entulho. Não sabíamos que os mecânicos punham o ar sério de quem fingia interessar-se pela função e prometiam entregar rolamentos pantagruel que por sua vez prometiam velocidades estonteantes com o corpo quase colado ao chão. Cada descida era sempre breve – não vivíamos em terreno acidentado, mas sonhávamos descer a Serra da Estrela em carrinho de rolamentos. Mal terminávamos a descida, pegávamos na traquitana a tiracolo e subíamos apressadamente até ao alto da modestamente inclinada subida. Quantos quilómetros fazíamos ao fim do dia? Estávamos em forma. Não nos crescia a barriga e não tínhamos colesterol a mais, nem pressão arterial no limiar de doenças terminais. Num certo ano, um de nós, o que tinha mais jeito para trabalhar madeiras, prescindiu da carreira de piloto de carrinhos de rolamentos para se dedicar à sua fabricação. Veio na altura certa: as carcaças que se apoiavam nos quatro rolamentos estavam a ganhar predicados através do científico tratamento da madeira. Era o prenúncio da revolução aerodinâmica nos bólides de Fórmula 1. Convencemo-nos que estávamos muito à frente. Os cotovelos em carne viva, as mãos sabujadas pela fricção no chão e, ocasionalmente, um ou outro galo na cabeça prepararam-nos para os contratempos da vida adulta. Agora fala-se em bater com a cabeça na parede. Dantes aprendemos a bater com ela no chão ou nos adversários que, tão teimosamente, não abriam a trajetória para a ultrapassagem.

1.9.26

Por que tem uma empresa de ser sexy? (Ou: o equívoco entre mercado e sensualidade)

Dave Gahan, “Ocean”, in https://www.youtube.com/watch?v=F_AOgI9yC4g

(Mote: “Andar de autocarro não é uma coisa sexy. Queremos passar a ser uma empresa mais sexy”. Entrevista a Luís Osório, presidente dos STCP, in Público, 28.08.26, p. 16)

Pode ser apenas a língua de trapos dos modernos gestores – em todo o caso, é menos mau do que aqueles gestores cheios de vitalidade que falam uma mistela de português e de inglês, socorrendo-se do inglês para o uso de termos que têm uma tradução em português corrente (os Zeinal Bava deste mundo). A mania de fazer corresponder “sexy” a “atrativo” é, talvez, do domínio freudiano. Só que, neste caso, deve haver uma má convivência com a sensualidade, para tão atrevida ignorância que faz corresponder aquele termo com “atratividade”.

Não é ofensivo, na lógica capitalista, que as empresas se esforcem para conquistar mais consumidores. Em mercados concorrenciais, é assim que se distinguem as empresas que singram das que vegetam e, mais tarde, ficam condenadas à extinção. As empresas não se podem descuidar nas campanhas que conservam clientes e nas outras que querem atrair novos clientes. A criatividade é a pedra de toque. Depois, a publicidade, instrumental àquele objetivo, trata do resto. É preciso saber de psicologia e comunicar com eficácia. 

Vir para um jornal de grande circulação anunciar espalhafatosamente que uma empresa de transportes públicos tem de ser “sexy” é um equívoco dos grandes. É preciso desmontar esta babugem de trás para a frente. O que o gestor quer dizer é que a empresa tem de aumentar o número de utentes; tem de estudar como os atrair – é de atratividade que se trata. Faz sentido, na lógica de uma empresa de transportes públicos, e no contexto da preservação ambiental, que convença as pessoas a usarem meios de transporte que deixem menor pegada ambiental. 

O primeiro erro do gestor é confundir “atratividade” com “sensualidade”. Não se está a ver que características humanas pode a empresa assumir para mexer com a libido dos cidadãos. Quem fica excitado com um autocarro? O segundo erro é semântico (muito embora, no fim de contas, seja irrelevante para o efeito). A sensualidade não é sinónimo fechado de “sexy”. A sensualidade ultrapassa o que podemos julgar ser sexy. Algo que é sensual pode não ser sexy, por a sensualidade ser um conceito que não se restringe aos aspetos carnais do sexo.

A advertência não pode deixar de ser feita: é preciso ter cuidado com este homem, e outros que tais, que podem facilmente confundir os planos e acharem “sexy” algo que o não seja por não ser humano. 

31.8.26

A impossível sorte (short stories #521)

Tricky, “Because I Don’t Know” (Lita Lores version), in https://www.youtube.com/watch?v=aTaS_q-djAc

A sorte corteja o azar como este atraiçoa a sorte com a sua mansa fala. Nos interstícios onde se tecem os disfarces, a pele prepara-se para um dia risonho e silenciosamente encomenda-se à sorte. Esqueceu-se que mais importa o que se esconde sob a pele, e toda essa matéria ficou em silêncio, à mercê dos acasos – e os acasos, às vezes, são madrastos. A sorte, tão generosa, desconta a probabilidade do azar. Este, insidiosamente, veste o arnês e lança as esporas nos contrafortes do dia, à espera. Só à espera que o dia se distraia ou que a sorte se deslumbre com as suas próprias proezas, para os silenciar num eclipse. Então lamenta-se o infortúnio. Sobem à boca de cena os prantos que ornamentam o arrependimento, de como o olvido do azar foi o pecado maior atestado à sorte que não soube cuidar da sua própria sorte. Fala-se da impossível sorte. Antes se falasse de negligência, de como foi a sorte decadente que deu tempo de avanço ao azar. Um concurso de palcos a desfavor impediram a consagração da sorte e convidaram o azar a fazer-se imperador. Tornou-se num azar inamovível: um azar chama outro azar e torna a sorte uma miragem, tão esmaecida que chega a ser omissa. Tudo não passa de uma negligência de quem sabe que tudo se torna mais fácil para o azar do que para a sorte. Oxalá as armas terçadas pela sorte e pelo azar fossem iguais, mas não são. O plano está inclinado a favor do azar. Os dias repetitivamente tratam de o trazer à colação, para o dia consecutivo o apagar da memória e tudo se reconstituir como se nunca tivesse acontecido. A sorte é o seu próprio contencioso. Impossível deve ser ter a sorte como impossível.

28.8.26

Pérgula (short stories #520)

Angine de Poitrine, “Yor Zarad” (live at the Montreal International Jazz Festival), in https://www.youtube.com/watch?v=bir6zLAb0A0  

O destino das flores é adoçar o dia, não as pessoas que as recebem ou as pessoas que são involuntárias testemunhas da sua exposição e beneficiam da dilatada exposição à estética. As flores são arrancadas em nome da nobre (assim se diz) presunção da estética, mas não deixa de ser um massacre. As que ficam nas estufas enviúvam temporariamente; está-lhes reservado o mesmo destino, deixando outras viúvas flores enquanto ateiam o negócio que se apresenta como curador dos bons propósitos da estética. Não se entende como podem irradiar tanta beleza pressentindo que estão vocacionadas para o sacrifício em nome da estética e do egoísmo de uns quantos. Um dia, alguém disse que não gostava de receber flores. Na altura, imberbe ainda e incapaz de elucubrações tortuosas, interrompi o cavalheirismo por se ter mobilizado a simpatia pelas flores que são sempre prematuramente arrancadas à vida sob pretexto de irradiarem o dia de quem as recebe e de quem é involuntário tradutor da beleza falada pelas flores ornamentais. (Essa pessoa confessou que preferia receber vasos com plantas, e percebi os malefícios causados às flores que foram cultivadas para serem prematuramente arrancadas à vida.) As pessoas não entendem que as flores mercadas estão em coma. Arrastam artificialmente o seu viver, munidas pela rega metódica, para ser adiado o seu murchar. Disfarçam bem o coma em que as mergulharam. Da mansarda em que me encontro vejo viçosas flores silvestres que se desprendem dos arbustos, vejo como embelezam a paisagem no seu crescer anárquico e isento de indústria. Como prova da homenagem às flores que o passado condenou a caírem nas jarras dos falazes adoradores de flores, deviam instruir as crianças a contemplarem as flores silvestres no seu habitat natural. E as demais flores, as que agora são negócio, deixariam de o ser e estariam disponíveis para contemplação em espaços dedicados. 

27.8.26

Direito de admissão

Jamie XX, “Gosh” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=ipFtrue-Axo

Guardo em mim o direito de admissão, o prazer de conhecer os que sei estarem nos antípodas do meu pensar. Guardo em mim o direito de demissão daqueles que, sei-o de antemão, convergem com o meu pensar.

Um direito não tem de ser exercido para se tornar válido. Bastante é a sua existência: prevê uma situação potencial que, sendo verificada, legitima o exercício do direito. Um direito não se traduz num dever. É uma faculdade que pode ser ativada se a vontade do seu titular o determinar.

Quando se invoca o direito de admissão dos que gravitam numa órbitra diferente, não se defende a sua admissão compulsiva no quadro do pensamento que se dá a conhecer a um pensamento a ele forasteiro. No cotejo daqueles que convergem com aqueles que divergem, o direito de admissão prescreve uma tendência: devem ser admitidos em maior número os que têm um pensamento diferente, devem ser demitidos em maior número os que estão em linha com o pensamento antemurado. Com os últimos já pouco se aprende.

Os que merecem a ativação do direito de admissão iluminam o conhecimento desconhecido. Passar a ser conhecidos os pressupostos e as linhas de conduta que navegam em águas desconhecidas ao pensamento oposto. O pensamento no qual o observador não se revê tem de ser conhecido pelo menos nos seus rudimentos. É importante saber como esse pensamento se declara perante os assuntos contemporâneos. Este pensamento também serve para situar o pensamento próprio: quais são as linhas de fratura e porquê; se essas divergências ajudam a compreender presunções e linhas de conduta do pensamento próprio; em que medida são distantes o pensamento próprio e o pensamento conhecido através do direito de admissão dos que pensam diferente. 

Chame-se a este exercício da admissão do pensamento diferente um ecumenismo que estimula o convívio de pensamentos. No mundo em ebulição, com a polarização que transfigura adversários em inimigos, todos achacados a uma improfícua beligerância latente, o ecumenismo de pensamentos é um pré-armistício antropológico. Para os Homens aprenderem que não podem excluir, ou até matar, por causa das divergências que os separam. 

26.8.26

O gato maldisposto

The Cure, “Lovecats” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=iSEhhRbLCG4

Desenvolveu uma teoria sobre o gato de rua que alimentava todas as manhãs antes de tomar o pequeno-almoço: o gato era oportunista, só aceitava festas antes de ser servido porque sabia que se seguia a primeira refeição do dia. Assim que enchia a barriga, afastava-se com desdém, recusava a tentativa de carinho. Soava a ingratidão. 

Com a passagem do tempo, o gato maldisposto foi dando o flanco. Não limitava as carícias ao período prévio da comida. Aceitava festas depois de comer, enquanto cuidava da higiene e limpava os bigodes, com o critério higiénico que é próprio dos gatos. À medida que o afagava, o gato serpenteava a coluna, que ficava numa posição côncava. Conseguia escutar um tímido ronronar. Aceitava-o como prova de confiança que tanto custara a conquistar. 

Um dia o gato seguiu-o e entrou no prédio. Parecia que queria deixar de ser um gato de rua. Não deixou que o pegasse ao colo, rejeitando a tentativa com um miar abrupto, sacudindo as mãos com as unhas à mostra. Olharam-se, ele com o regresso ao olhar desconfiado que só após alguns meses deixou de exibir. Virou as costas e olhou para a porta do prédio, a linguagem corporal e exigir que a porta fosse aberta para ele sair. 

Esteve três dias à revelia. Supôs que tivesse aparecido uma gata com cio nas redondezas, um gato adulto fica obcecado quando apura o cio de uma gata. Quando reapareceu, o pelo estava estragado e tinha um ar tristonho. Supôs que não tivesse conseguido cortejar a gata, os gatos concorrentes seriam mais fortes e ele ficou à míngua. Quando veio ter com ele, massajou o pelo e reparou numa ferida funda no pescoço, quase junto a uma orelha. Tinha sido um dente canino de um rival felino a marcar o terreno na dança do enamoramento com a gata cheia de cio. 

Enganou o gato e enjaulou-o para ser observado por uma veterinária. Não era grave. Ferida desinfetada e um ponto para encerrar a ferida, mais antibiótico durante uma semana. Quando chegou a casa, abriu a transportadora para perceber como o gato ia reagir: ia miar ruidosamente para abrir a porta? Aceitava o asilo e adotaria a casa como sua?

O gato estava maldisposto quando foi devolvido à liberdade. Atrapalhado, olhou felinamente nas várias direções, sem saber o que fazer. Não começou a miar. Andou pela casa, como se fosse um inspetor a esquadrinhar a qualidade de vida do lugar. Quando encontrou um sofá, acomodou-se, em sinal de aprovação da casa. Só saiu de casa dezasseis anos depois, quando a velhice levou a vida. 

Nunca deixou de lhe chamar maldisposto, apesar de nunca mais ter sido o gato maldisposto que conhecera no início. 

25.8.26

Com remédio

Pond, “Two Hands”, in https://www.youtube.com/watch?v=oTf47abqECc

(Antónimo de “sem remédio”)

Exumam-se as sombras que acrescentam adjetivos fúteis. É preciso resgatar o significado da manhã, devolver-lhe a serventia como criterioso barómetro do dia válido. Deixá-la, cristalina mesmo que acorde possuída pelo nevoeiro, ser o xisto dos ossos.

O arrependimento, banido do léxico em uso, participa da avareza de quem se isenta de responsabilidade. É preciso redescobrir uma teoria da culpa. Correr contra o medo seráfico, contra os estetas que nos amordaçam à sua consciência moral, endossá-los ao lixo que espera pelo remate do dia. As falas não são trocadas no obituário dos medos. Que não seja esquecido que os medos cobram juros usurários, asfixiam o magma que, de outro modo, seria campeão de cada pessoa. 

A pele que se enruga a cada dia segreda as palavras válidas que desautorizam o vilipendiar que se abate. Essa é a pele que conserva os segredos que se acastelam contra os olhares invasores. Contra as sentenças costuradas pelo bisturi puído de engenheiros das almas que mal podem com o peso da sua própria alma, que os arqueia numa pose falsamente majestática. Contra essas vozes banais, tão insuportavelmente banais, levanta-se o imperativo silêncio contumaz. Astutamente, escolhem-se as palavras não ditas que sentenciam o silêncio. 

Aos que averbam a certeza de que não tenho remédio, não preciso de elevar a fala que desminta as vozes banais que condenam a errar sem prescrição. Os olhos francos escolhem a trincheira; são eles que desenham a gramática da alma. Ao contrário do destino gravemente ditado pelas vozes que açambarcam a luz do dia, trago em mim a impressão de que tenho remédio enquanto assim o ditar a vontade que se excede sobre as costas do dia. As estrofes herdadas do tempo sem mordaça são o passaporte vitalício para o remédio que trago em mim. Até que, imperador da minha vontade, decida em contrário.

De cada vez que dizem que não tenho remédio, pergunto se lhes foi pedido aconselhamento nesse sentido.

24.8.26

Como explicar às criancinhas (e não só) que os beligerantes continuam a disparar balas e bombas durante as tréguas

Moby, “Porcelain” (live at Montreux Jazz Festival), in https://www.youtube.com/watch?v=RKaq-jSX7n4

Tréguas: “(Militar) suspensão temporária de hostilidades”. (In Infopédia)

Não sei se os arquitetos do mundo propositadamente o fizeram complicado de mais para o entendimento da pessoa comum, e mais ainda das crianças que comecem, talvez prematuramente, a mostrar interesse pelas andaduras do mundo. Ou se a semântica é atraiçoada por homens outros que, no comando de exércitos e mergulhados a fundo numa guerra, atraiçoam o sentido comum das tréguas (o que se extrai de um dicionário). A empreitada não é fácil para os cidadãos do mundo que se queiram inteirar sobre as voltas e reviravoltas que o mundo dá sob a ordem de mandantes inescrupulosos.

Acontece amiúde: os beligerantes assinam as tréguas, por definição temporárias (ver o sentido da palavra no dicionário). No dia seguinte, disparam balas e bombas, com acusações cruzadas: é sempre o inimigo que deu o mote, o outro limitou-se a ripostar na mesma medida, e vice-versa. Os inimigos não se conseguem capacitar que pouco interessa quem dedilhou o gatilho em primeiro lugar. Tanto incorre nessa violação o que rompe as tréguas em primeiro lugar, como o que retaliou só porque a honra militar e o pundonor pátrio exigem que a afronta do inimigo não fique sem resposta.

Se perguntarem aos políticos que estão na retaguarda dos militares, dirão, com ar tão cândido como conspurcado, que as tréguas estão vigentes e que os disparos registados foram incidentes isolados que não prejudicam a “suspensão temporária das hostilidades”. Se morrerem inocentes durante as tréguas, dirão que foi um efeito colateral, um incidente. Essa é a sua forma de encarar o (des)valor de uma vida humana. 

Já o cidadão do mundo que anda com os sentidos acordados para as beligerâncias, e que se limitam a confirmar a autofagia da espécie humana, deixa de perceber como é possível fazer durante as tréguas o oposto daquilo para que as tréguas foram feitas. Os famosos realistas, que ditam o compasso das Relações Internacionais, apressar-se-iam a explicar, naquela língua de trapos que é típica de muitos deles, que as tréguas não são um armistício. Ainda que a consulta ao dicionário revele que “tréguas” e “armistício” são sinónimos, os peritos das andaduras do mundo dirão que o armistício acaba com uma guerra, não tem a natureza temporária das tréguas. 

Para os cardiologistas do mundo, os que identificam as cardiopatias que fazem o mundo frequentemente estar em desanda, é legítimo que os beligerantes se socorram do arsenal durante as tréguas, sem que as tréguas sejam oficialmente desmentidas. As pessoas comuns, e mais ainda as criancinhas, aprenderão, com as dores próprias de quem esbarra numa parede e sai da experiência com uma concussão cerebral, que é possível defender uma coisa e o seu contrário sem cair em contradição. 

Assim é o jaez deste mundo que habitamos.

21.8.26

Contrato com o futuro

The The, “Out of the Blue (Into the Fire), in https://www.youtube.com/watch?v=HyIVQEZqkVk

Acerta os termos da decadência. O tempo move-se como um carrasco que não deixa sentenças por liquidar. Só se ficares para trás, por teimares que és o antídoto do tempo.

As memórias são uma tortura. A cada vez que tentares esmaecer a decadência com a nostalgia, em socorro das memórias como se fosse possível travar a decadência afivelada pelo tempo algoz, maiores serão as cicatrizes por fechar. Maior será o ónus que carregas como paga da decadência. 

Em vez disso deves negociar os termos da decadência. O teu papel na negociação é limitado. Não podes entrar nas linhas vermelhas, nem as podes arrastar segundo as conveniências, não consegues alterar o fado que a ordem natural das coisas te reserva na sua aliança com o tempo. Não podes negociar a tua posição perante a finitude do tempo. Podes chamar a resignação e assim fazer as pazes com o tempo que podes erradamente julgar que conspira contra ti. O tempo não tem tempo para te retirar do grande anonimato que dedica a todas as pessoas. 

Se conseguires acertar os termos desta pacificação interior, a aceitação de tudo deixará de ser um processo violento. Serás admitido à convivência com a ordem natural dos fatores e não insistirás em desvendar interiores elixires da juventude que são miríficos, um logro que não logra o recuo do tempo que nos julga a todos. 

Os termos que acertares são, afinal, um diálogo interior. É um contrato que se esgota em ti. Ninguém, nem essa entidade tão abstratamente objetiva que é o tempo, participará dessa negociação. Não intuas uma megalomania que se estilhaça à primeira oportunidade, assim que o tempo te escolher como demonstração da finitude. Aceita o teu lugar e as tatuagens que o tempo vai deixando. 

Só assim serás digno do tempo sobrante sem o exaurires a destempo.

20.8.26

Bêbado, por culpa de quem oferece vinho

Brendan Perry, “Babylon”, in https://www.youtube.com/watch?v=7rTFsWzXyl0

O castiço pleiteava em tribunal uma indeminização porque foi à caça e bebeu de mais durante os prolegómenos, tendo despistado um jipe e ficado ferido. Ficou meio ano sem trabalhar enquanto não curou as feridas da aventura. Compareceu em tribunal a imputar a culpa à herdade que organiza as caçadas e prepara uns petiscos e põe vinho à disposição antes de os intrépidos caçadores pegarem nas armas e se atirarem às presas.

No douto entendimento do castiço, a culpa pelo sucedido teria de ser atribuída a quem disponibilizou bebidas alcoólicas antes de uma caçada. Nunca a ele, coitado, destituído de livre arbítrio, como se a sua obrigação fosse empilhar sucessivos copos de vinho só porque o vinho estava ali exposto diante dele. Eis um grande problema civilizacional dos tempos correntes: os demónios que atuam por interposta pessoa e esvaziam o livre arbítrio.

O caso começou mal desde o início: se a herdade prepara um ritual de iniciação à caçada que consiste em embuchar petiscos cheios de colesterol, fica por conta de uma certa idiossincrasia nacional; juntar à festarola garrafas de vinho pode ser a tentação a que castiços como aquele não conseguem resistir, pois a sua vontade individual é substituída pelos demónios que esbracejam a tentação da bebida. Há anos ouvi numa mesa de café ao lado outro castiço a atestar, com segurança cem por cento científica, que o cunhado, motorista de camiões TIR, só conduzia bem depois de beber uma garrafa de vinho tinto ao almoço. O castiço que apareceu em tribunal a pedir que o juiz culpasse a herdade organizadora da caçada por ele ter abusado do vinho deve ser da mesma cepa.

Não somos ninguém para travar as tentações que aparecem pela frente. É tão fácil encomendar a responsabilidade aos outros quando é o próprio a decidir meter pela goela abaixo o segundo copo, e o terceiro e o quarto e o quinto – e assim sucessivamente. Como se o castiço fosse obrigado a beber só porque na sala estavam abertas, ou prestes a abrir, garrafas de vinho à disposição dos comensais. Talvez lhe caíssem os parentes à lama se tivesse ativado a responsabilidade de fazer o que devia ter feito. Ir à caça sob efeito do álcool é o cocktail para uma catástrofe. O castiço acabou por ter sorte: a aventura saldou-se pelo capotamento do jipe que conduzia e por umas costelas partidas.

(Não sei se isto faz lembrar as informalidades de um certo ministro que tutelou anos a fio a polícia judiciária.)

19.8.26

Torcicolo

Radiohead, “2+2=5” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=FxlYPR8MEvY

Apanha as linhas direitas como se estivessem tortas. Pensa: deve estar com o olhar, ou pelo menos o pensamento, oblíquo. Não se apoquenta. Os ângulos de aproximação aos objetos são como as obras de arte, exigem margem para uma apreciação que não pode deixar de ser subjetiva.

Quando lhe dizem que uma curva à esquerda é, afinal, uma curva à direita, o seu espírito desassossega-se. Como pode alguém dizer que uma curva à esquerda é para a direita? A resposta improvável não demora: a curva que para ti é a esquerda é para a direita para quem circula em sentido contrário. Não se deve ficar refém dos determinismos que esgotam as possibilidades.

Assim se poupa a um torcicolo. Se teimasse em olhar para a direita quando a curva é para a esquerda, a relatividade e o peso dos corpos tratariam de fermentar um legítimo torcicolo. Em vez disso, o peso leve valida os olhares que de outro modo não teriam vez. Se as pessoas não se agarrassem a dogmas, se não procurassem verdades definidas à partida para casarem com ideias pré-formatadas, poupavam-se a torcicolos que se agarram contundentemente ao sangue quando descobrem que um sentido afinal tem um significado à partida improvável. Quantas deceções seriam evitadas a pessoas muito seguras de si mesmas quando descobrem que a sua direita é para a esquerda e vice-versa?

Não há bússolas infalíveis que atestem o paradeiro dos quadrantes. O busílis defuma-se nos interstícios das descobertas que sobem aos ramos da árvore onde entronca o conhecimento. O que somos de hoje não é garantia que seremos amanhã. Mesmo que seja preciso atravessar uns pares de torcicolos sequazes como critério para dissolver ideias feitas que agarram as pessoas a atavismos estéreis. 

O torcicolo é a fatura necessária para prevenir as fraturas do pensamento causadas pela rigidez da musculatura. É através dos torcicolos que aprendemos a ser flexíveis e a nunca deixar as perguntas em lugar incerto. 

18.8.26

Protocolo (short stories #519)

Nine Inch Nails, “Something I Can Never Have (Still)”, in https://www.youtube.com/watch?v=4dYyP0borq8

           Dizem que as pessoas que não seguem regras são impurezas de si mesmas, como se lhes faltasse uma bússola que as traz pelo caminho certo – elas detestam ser tidas como entes tresmalhados de um rebanho ordeiro que segue as regras, sem as quais, de outro modo, seriam imprudentes indivíduos perdidos em lugar incerto, que os lugares incertos são sítios não recomendáveis porque as pessoas de bem gostam de saber do seu paradeiro, não sendo de afastar a hipótese que as pessoas de mal também sintam desprazer por se saberem perdidas, sem poderem sindicar o horizonte que lhes dá, neste caso, desorientação – importa reconhecer que os protocolos existem para que as pessoas saibam por onde seguir, pois sem essa orientação não conseguem saber do seu paradeiro e fica-lhes mais difícil ordenar comportamentos que sejam entendidos pelos seus pares, pois é importante haver identidade com os semelhantes para que exista o cimento que os deixe como partes de um mesmo todo, as pessoas angustiam-se só de anteciparem a possibilidade de os demais não as considerarem parte do seu todo, o que equivale a uma geografia pessoal de orfandade identitária e essa é uma dor que as pessoas, em sentida homenagem à sua gregária condição que lhes é diligentemente ensinada desde os bancos da escola, não conseguem suportar para não serem coagidas a celebrar a atomização de si mesmas, o que transporta uma dor excruciante de quem é afastado dos grupos onde as pessoas afins (e as outras que forem acolhidas sem preconceito) convivem e através dessa convivência, e da sujeição aos protocolos necessários que lhes emprestam sentido de orientação coletivo, passam a ser tidas como parte de um todo a que querem pertencer, a menos que alinhavem uma escrita saramaguiana que desalinha dos cânones e possa ser entendida como um hino à ininteligibilidade intencional que afasta os demais de uma pertença que se qualifica como meramente individual.

17.8.26

Dores de crescimento (versões A e B)

Spain, “Untitled #1” (live NPA Canal+), in https://www.youtube.com/watch?v=1u5sQuad41o

    O partido mais votado fez a sua festa anual lá para os lados onde o país se tornou país há menos tempo, depois de espadeirados os muçulmanos. Foi notícia de destaque nos jornais (lembram, os jornais, que nos anos anteriores o timoneiro do governo aproveitou a festança para anunciar grandes medidas que afinal se reduziram a pouco mais do que nada, a não ser para a imagem auto-desejada do governo). 

    Num dos jornais, a fotografia do timoneiro do governo no entardecer prévio da festa em pose semi-estival: camisa branca, mangas arregaçadas, dress code obrigatório. O que despertou a minha atenção foi um jovem adolescente em pano de fundo, envergando uma bandeira do partido e olhando com admiração para o líder do partido. 

Versão A

        O jovem cresceu e, trinta anos depois, a veia inquisidora (na boa aceção do termo) de uns jornalistas encontrou-o à frente da Secretaria de Estado da Inteligência Artificial. Os traços faciais mudaram muito, talvez porque o outrora jovem engordou como sinal do sucesso profissional e material que foi amealhando, frequentando restaurantes de elevada craveira e não deixando por créditos alheios as constantes tainadas bem nutridas e bem regadas. O jovem, vieram a saber os jornalistas trinta anos depois, sulcou pacientemente o seu caminho na estrutura partidária. Primeiro na “jota” e depois na vida típica dos partidos, feita de conspirações, manobras desleais, comícios e correspondentes jantares com carne assada como ementa predefinida, discursos arrebatados, favores trocados e promessas de sinecuras que estão mais a jeito quando o partido está no governo. Se não se cuidar – já o avisou o médico pessoal, companheiro de partido, aliás –, vai ser encomendado precocemente ao além. Quando os jornalistas perguntaram se se recordava daquela fotografia, não hesitou, com a voz plena de orgulho: “nunca faltei à festa anual do partido” (numa resposta que podia encaixar no militante típico do partido ancestral português).

Versão B

         O outrora jovem foi encontrado, a muito custo, a trabalhar no barrocal algarvio, num turismo natural de que é coproprietário. A outra proprietária é uma holandesa que conheceu quando foi estudar para Inglaterra. Casaram-se quando regressou depois dos estudos e de muitas manifestações anti-capitalismo, anti-globalização, anti-sistema e muitos outros anti que se possam imaginar. Esqueceu-se dos pergaminhos partidários que começara a cultivar desde tenra idade. Foi por amor e por causa do ativismo frenético da namorada. Como a família dela tinha posses (malgré tout...), compraram uma quinta e criaram um turismo que está nos antípodas do turismo do Algarve. Quando os jornalistas perguntaram se se recordava daquela fotografia, não hesitou: “têm a certeza que sou eu?” Depois de um gesto abruto que tirou a fotografia do seu olhar, disse com uma agressividade comprometida: “nunca participei em atividades desse partido fascista”. E virou costas aos jornalistas, talvez para esconder o rosto programático da mentira.

14.8.26

A morte, depois de Tolstoi

The Art of Noise, “Beat Box” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=Cx97aXpc0mA

Um turista tem de ser turista quando está pela primeira vez num lugar. Assim foi. Com a diferença horária ainda a trocar os sonos, saiu à rua a uma hora em que, não fosse a tortura do jet-lag, estaria a dormir. Nem sequer era hora do pequeno-almoço no hotel. Tomá-lo-ia fora, o primeiro banho de multidão em que se ia misturar com os habitantes locais nos preparativos para se lançarem a um dia novo. 

Com o pequeno-almoço tomado, atirou-se às ruas movimentadas da cidade. Vinte minutos depois, a terra tremeu. O terramoto parecia interminável. Viu as pessoas a fugir para o meio da rua. Sabiam como reagir, corriam para o meio da rua e olhavam, cheias de medo mas com de orientação, para os edifícios limítrofes. Tinham de estar preparadas para fugir assim que um prédio desabasse. Também fugiu para o meio da rua. A terra tremera com uma força espantosa. Nunca imaginou que pudesse abanar assim.

No meio do pânico, paredes-meias com uma nuvem de poeira que se agigantava à medida que edifícios se transformavam em escombros, perdeu a noção de onde estava. Parou para se acalmar. Ele, que sempre dissera que gostava de experimentar um terramoto dos grandes, agora que tinha passado pela experiência percebeu a frivolidade. A poeira começou a assentar. Muitos prédios tinham caído. Os gritos passavam de um lado para o outro, já havia pessoas próximas dos escombros para saber se havia sobreviventes a pedir socorro. 

Não estava longe do hotel. Não era má ideia regressar ao hotel. Ficava numa praça ampla, se houvesse réplicas não ficava à mercê dos aluimentos – estando atento a notícias sobre grandes sismos, sabia, quase como se fosse um cientista da área, que um grande sismo traz sempre um palimpsesto de réplicas.

O hotel tinha caído como se fosse feito de papel. Teve um tremendo aperto no coração. Se não fosse pelo jet-lag, ainda estaria a dormir à hora do tremor de terra. Não teria tempo para sair do hotel e estaria preso entre os escombros. As probabilidades de estar morto eram elevadas; ninguém estava a sair do que sobrava do hotel. 

De repente, os quarenta e seis anos de vida passaram à frente do pensamento numa breve constelação de memórias. Temeu que estivesse a ter um pesadelo já na condição de morto; estes flashbacks devem ser típicos de quem acabou de perder a vida. Caiu em si. Os mortos não têm sonhos, nem sequer pesadelos. A angústia sitiou-o. Estava dividido entre a sensação de que tinha salvo a vida por acaso (um duplo acaso: devia ter chegado de véspera à cidade, não fosse uma avaria no avião que adiou a viagem) e ajudar no resgate de sobreviventes. Na maior parte do tempo, foi a apatia que o dominou, ateada pelo pânico de se saber morto se o acaso não tivesse jogado a seu favor. Assim esteve até ao anoitecer. Nem se lembrou de telefonar para avisar que estava vivo e em segurança. Percebeu que o telemóvel não tinha sinal, as redes estavam inativas.

Passou-lhe pela cabeça o livro de Lev Tolstoi, “A Morte de Ivan Ilitch”, quão detalhadas e violentas eram as páginas que narravam a decadência de Ilitch até se demorar num agónico estertor. Apetecia-lhe um exercício oposto: como nunca sentiu o “cão da morte a bafejar no pescoço”, percorriam-no imagens em câmara lenta que eram um repositório ilustrativo da vida arquivada. Da frente para trás, como se o tempo andasse para trás neste olhar didático sobre o retrovisor da vida.

Perdeu a noção do tempo, mas já era noite. Não sabia onde estava – a última vez que se lembrava de um local era do hotel derruído pela força telúrica do sismo. Não soube por onde andou, nem se por ele passaram pessoas ainda em pânico, ambulâncias a levarem feridos para o hospital e outras já transportando cadáveres que não tiveram salvação perante a implacável natureza das entranhas da terra. Este egoísmo era reprovável aos olhos dos outros, sobretudo dos que, à distância, tinham a frieza de encestar juízos morais na baliza da (sua) consciência moral.

O fantasma da morte pairava, diletante, por toda a cidade. Ele, que tinha acabado de escapar às suas garras medonhas, queria recuperar o fôlego para fazer a sua parte. O resto ficava para depois. Teria tempo para acertar as contas com o futuro.

13.8.26

Desde o meu biombo (autobiográfico, et pour cause!)

The Divine Comedy, “The Frog Princess”, in https://www.youtube.com/watch?v=gYsACdyMxRs

(Isto não é uma despedida)

Escrevo diariamente (nos dias de semana) há quase vinte e quatro anos. É um momento diário terapêutico. Exercitar a escrita é arranjar um pedaço do dia para hibernar, como se fosse um refúgio necessário por causa do mundo mau que há lá fora. 

(Que não seja treslido: o mundo lá fora tem muitas pessoas e coisas belas que merecem contemplação e elogio e também a atenção da escrita.)

A escrita torna-se um biombo. Sem preencher todos os requisitos de um biombo, pois um biombo é feito para ocultar algo do olhar exterior, e o produto deste exercício terapêutico é a escrita que fica à disposição da curiosidade do(a) leitor(a). Mas é um biombo, na medida em que o processo que dá origem à escrita exige uma hibernação temporária em que procuro um desligamento do tempo e do espaço. Em que me escondo do mundo. 

Todos estes anos depois, chega ao meu entendimento outra virtude deste artesanato da escrita. O biombo serviu para ficar vacinado contra o exercício de funções públicas em regime de notoriedade pública. Vinte e quatro anos de escrita diária cobrem imensos assuntos, desde o ensaio, ao comentário da atualidade, à (tentativa de) ficção, ou à revelação de estados de alma (mesmo que muitas vezes disfarçados pelo uso da terceira pessoa do singular ou da primeira pessoa do plural). Nos anos iniciais, a atualidade interessava-me mais. É nesses anos que se encontram os textos mais analíticos e sem o cuidado de usar a diplomacia para não ferir suscetibilidades nem me comprometer (ou as possíveis ambições, todavia ausentes à partida). Amigos que me liam na altura comentavam a propensão para a crítica fácil e alguns deles não compreendiam como me comprometia com os textos aqui publicados; esses textos podiam funcionar como espantalhos junto dos outros. 

Nunca tive ambições de ser um servidor público – entenda-se, um servidor público por nomeação política para o exercício de funções de uma forma ou de outra políticas e com pelo menos alguma visibilidade pública. Assim sendo, nunca senti a necessidade de impor à escrita os freios exigíveis para não ser o elefante na loja de porcelanas, terraplanando as hipóteses de ascender a sinecuras que me pusessem a perorar em público com a mesma gravitas do ministro da administração interna. Nem o faria mesmo que trouxesse à colação essa ambição (inexistente, não me canso de repetir); a liberdade pessoal e as suas ramificações (para o que interessa neste contexto), que são a liberdade de expressão e a liberdade de escrita, estariam sempre acima de outras considerações.

Quase vinte e quatro anos depois, dou conta de um propósito oculto que ajudou a concretizar a minha liberdade pessoal e a desambição de cargos públicos com visibilidade: a exposição da escrita por este meio não foi por acaso, foi intencional. Acrescento duas notas para contextualizar o raciocínio. 

Por um lado, o que está aqui escrito é público e sem filtros. Não o é como exibição de narcisismo ou deleite de coragem ao jeito de um forcado ribatejano. Mesmo que sejam pouco(a)s leitore(a)s, a disponibilidade pública dos textos torna-os um capital de leitura potencial para quem, por qualquer razão, se sirva de um motor de pesquisa para chegar ao meu nome e à minha pessoa. Já me aconteceu, em provas académicas, ouvir uma conversa entre três membros do júri que tinham descoberto estes textos e sobre eles comentavam. 

Por outro lado, não quero que o(a) leitor(a) tresleia as minhas intenções e conclua, precipitadamente, que me estou a colocar num pedestal, exagerando na importância que atribuo a mim mesmo. Essa pode ser a conclusão que retiram depois de lerem o que acabo de confessar: estes textos, o seu desassombro e a sua exposição pública, funcionam como o antídoto necessário para ninguém me incomode com convites para ser um alto servidor público nomeado (que teriam sempre o não como resposta). Nunca aconteceram, esses convites, nem insinuo que fosse tão recomendável para estas sinecuras que seriam elevadas as probabilidades de ser para uma delas convidado.

À outrance, descobri que a escrita neste formato foi o antídoto para apagar as probabilidades de vir a ser considerado ao menos como hipótese para o exercício de cargos daquela natureza. Os potenciais interessados (se é que alguma vez existiram – muito duvido que tenham existido) terão mudado de intenções assim que encontraram estes textos. Esta escrita, assim tornada pública, foi o meu contributo para que esses potenciais, eventuais (e se calhar nunca existentes) interessados na minha contratação tirassem o cavalinho da chuva – pedindo de empréstimo um anexim ao povo. 

Há quem diligentemente construa currículo para propósitos futuros. E há quem monte pacientemente o seu descurriculo, somando provas incontestáveis de como não é recomendável para sinecuras destas.

12.8.26

Ao arrepio dos costumes (short stories #518)

Radiohead, “Bodysnatchers” (live at Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=yWAlhxCoGrk

         Não sabia que os costumes têm arrepios. Seriam alérgicos – faltava apurar as alergias concretas, para não sujeitar os costumes a arrepios. Se estivessem constantemente à prova, os costumes desfaziam-se em estilhaços. As pessoas, alarmadas, não queriam o caos. Um lugar sem costumes fica entregue ao deus-dará, perde um pilar da sua coesão. As pessoas não gostam de pensar que o grupo passa a ser regido pela anomia. A ausência de regras (ateadas por costumes prévios) pode ser desfavorável. Preferem os costumes. Mesmo que sejam atávicos, mesmo que desconfiem da sua bondade. Assim nasceu uma lei de bronze: ter maus costumes é preferível à sua falta. As pessoas têm de chegar a um acordo sobre os costumes sobreviventes. Têm de calcular, costume a costume, para descobrirem os costumes de que não podem prescindir. Não acrescentam nada ao cimento social, são pesos mortos que se arrastam pelo calendário. O número de pessoas que se revê nesses costumes datados é insignificante. Os costumes são as suas próprias leis de bronze, inamovíveis apenas porque muitas pessoas se habituaram a eles – e essa passa a ser a sua única virtude, sendo costumes fora do tempo e das circunstâncias. Fazer inaugurações com a presença obrigatória do bispo da diocese para abençoar a obra inaugurada é um exemplo. Se a Constituição manda dizer que o Estado é laico e as inaugurações de obras públicas desmentem todos os dias, tudo indica que a Constituição deve ser mudada. Mas é o contrário: para os autarcas e ministros e presidentes da república não andarem todos os dias a torpedear a Constituição, melhor será que o costume de convocar o bispo da diocese deixe de fazer parte do código de conduta das inaugurações públicas. Se todos ficarem ofendidos com a sugestão, que sejam encomendados à Constituição para que se decida, em nosso nome, se a Constituição é letra morta ou se a bênção bispal não passa de superstição.

11.8.26

Rock the Casbah (short stories #517)

The Clash, “Rock the Casbah” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=pD034gjGD4M

          Os óculos nunca saem da frente do olhar. Os pequenos detalhes, a filigrana que se antepõe entre nós e divindades imaginadas, compõem a semântica do tempo e do espaço. Metemos por uma rua gasta, que é, todavia, nova para nós. Devolvemos a sua integridade através dos passos neófitos que a açambarcam aos nossos pés. Os mercadores salivam propostas de comércio, vão disfarçando a generosidade em camadas sucessivas, como se a cada demão de verniz caísse uma máscara e outra e outra. Sabemos, pelo tom das ladainhas, que os sons guturais não querem mal aos fregueses. Se não fosse pelo que se merca, não haveria tradição entre pessoas que habitam em lugares diferentes. Os sons e os cheiros e os vocábulos que compõem idiomas ininteligíveis sabem a casa quando somos forasteiros e os vamos decifrando à medida que os passos se somam pelas ruas cheias de passado. Mas nós também temos passado. Doamos parte desse passado aos mercadores que ocupam as ruelas estreitas enquanto o vozear gongórico, a soma caótica dos pregões que procuram convencionar os fregueses, vai ficando tatuado na pele. Não se é snob ao tentar perceber os usos e costumes que são estranhos. Aprender com os outros sempre foi a melhor maneira de fazer avançar o mundo. Quanto mais aprendemos com a constelação de gentes e línguas e costumes, mais nos fazemos cidadãos plúrimos, um mosaico de diferentes lugares e tempos. A noite é noite em todos os lugares. Pode ter um vocábulo diferente a tutelá-la nos diferentes lugares, mas não se desleixa enquanto noite. As pertenças arrumadas em gavetas estreitas são uma miragem, um atavismo que merece ser denunciado. Somos tão nativos dos lugares forasteiros como os nativos assim que andamos pelas mesmas ruas, comemos nos mesmos restaurantes, nos extasiamos com os mesmos odores, aprendemos vocábulos do idioma local. E isso merece uma dança ao som de uma música que teça a ponte entre as culturas.

10.8.26

Plenisfério

Morrissey, “Suedehead”, in https://www.youtube.com/watch?v=0AvuweztG4Q

I

Os destroços da noite arqueiam-se sobre os sonhos. Os corredores puídos tecem medos que tudo colonizam com o silêncio. No tirocínio do dia, a janela aberta transpira a maré baixa. Em vez da agonia causada pelo pesadelo recente, o vazio da manhã desembaraça o novelo da quietude que oxalá se abraçasse ao tempo consecutivo. 

II

São tantas as pessoas, os rostos desconhecidos, a impaciência que se deita em forma de motim, o entardecer que irradia a claridade desmaiada como metáfora do dia que decai no seu lampejo de finitude. Os lugares são sempre forasteiros.

III

As coincidências são apenas coincidências. Não atribuía significado, a não ser o jogo fértil dos acasos que se sobrepõe à memória cabalística. Os suores frios percorriam o mapa do corpo, dedilhavam múltiplos labirintos que o tornavam um enigma. Não há dicionários que descodifiquem esta complexidade. 

IV

Os bichos são bichos com alma como gente. Daquela vez que viu um homem a pontapear um cão vadio que teve o azar de aparecer na mesma rua (um caso típico de hora errada no lugar errados – para o cão), cruzou a rua e, iracundo, inaugurou uma nova fase da sua vida: a agressão física. Considerou-a legítima defesa, enquanto procurador do cão. A seguir, recebeu o cão em sua casa. Guardou com orgulho a cicatriz nos punhos como prova de ter esmurrado o homem sem alma que tinha agredido o cão com alma respeitável. 

V

O dia estava sempre aberto a traduzir os sonhos da noite anterior. (Os de noites pretéritas a ela já tinham prescrito.) De repente, uma sucessão de acontecimentos, ou uma palavra que desata o nó górdio do sonho, a revelação irrompia. Mas um sonho é só um sonho. Sempre ouviu dizer que a dependência dos sonhos é uma substância proibida; uma droga, em português simplificado. Aos que abjuravam os sonhos dos outros, apetecia oferecer-lhes um módico de alma para se humanizarem e desistirem da atalaia dos sonhos que não eram seus. 

VI

O Outono, ainda uma miragem, sossegava-o enquanto se debatia com a tortura do suor. Reconfortou-o pensar que ninguém consegue fugir à sua agonia. A paciência astutamente treinada teria de provocar a hibernação. Nem que fosse em forma de sonho(s).

7.8.26

Compadrio (uma exegese cínica – em jeito de legenda para os desatentos)

Flea, “Maggot Brain”, in https://www.youtube.com/watch?v=I6rB5I7QV1Y

As pessoas com formação moral às direitas devem escolher os seus conhecidos se precisarem de distribuir sinecuras ou contratar serviços. É um imperativo de integridade. Os conhecidos e os amigos e os familiares são conhecidos, atributo que não pode ser estendido aos desconhecidos. Quem se insurge contra a preferência por conhecidos é hipócrita: desses, que levante o dedo o primeiro que nunca se inclinou a favor de um conhecido na hora H; ou quem nunca foi agraciado com um favor.

As pessoas escolhem os conhecidos porque os conhecem. Sabem com o que podem contar. É mais fácil confiar num conhecido do que num desconhecido. Um ministro não escolhe para seu assessor um desconhecido, precisa de alguém da sua confiança para o tornar conselheiro. Não pedimos conselhos aos desconhecidos (a exceção é aberta para os que, fracos de espírito, se refugiam nos braços de gurus de alma).

As pessoas ficam credoras de favores quando os recebem. Quem é destinatário de um favor não pode esquecer os cânones básicos da socialização (e da boa educação): um favor a seu favor determina a inscrição, na coluna das dívidas, de um dever vindouro. Em nome da gratidão, um sentimento que não deve ser renunciado quando um favor se aloja na coluna do haver. A memória fica penhora do favor futuro, para não cair em esquecimento.

A reciprocidade de comportamentos ajuda a compor a teia. Hoje concedo uma regalia porque lá atrás fui beneficiado por regalias concedidas. O povo popularizou o adágio segundo o qual temos de ser uns para os outros. Os adágios não são por acaso. A rede dos favores que exige futura retribuição em forma de favor começa a ser cerzida e segue a sua marcha imparável até se tornar um império. Todos fazemos favores e todos devemos favores. Não há melhor teia de solidariedade recíproca. A gratidão ativada (quando recebemos favores) e a generosidade desembaraçada (quando atribuímos benesses) estão entrelaçadas. 

Se estes sentimentos estivessem ausentes do tabuleiro social, seríamos impessoais uns com os outros e não promovíamos a teia de favores que se fazem e se pagam como cimento social que impede a sociedade de se estilhaçar. Os que protestam contra a lógica de favores enraizada fazem-se passar por falsas consciências morais, atraindo a si os iludidos da moral republicana que esteriliza relações sociais, ou são farsantes que se amotinam em público contra o que praticam às escondidas, em privado.

O compadrio devia ser despido da conotação negativa que anda nas bocas do mundo tão a despropósito distraído.