Radiohead, “Idioteque” (live at Glastonbury), in https://www.youtube.com/watch?v=jX-fDKWGbRs
“We’re not scaremongering
this is really happening, happening
we’re not scaremongering (…).”
Tomara que as pedras angulosas fossem lisas como os melhores xistos tratados pelos pedreiros que rareiam. As horas diriam que um escritor muito desconhecido, vivido nos anos vinte do século passado, ameaçou pela honra dos presentes, que tentavam dissuadi-lo de uma tentativa de suicídio, não fosse o caso da ideia passar de boca em boca e todos os presentes no ato caíssem num suicídio coletivo.
Pelo andar das parangonas dos jornais, dir-se-ia que lá trabalham publicitários frustrados. Ao menos, estes, quando trabalham na sua arte, são pagos devidamente, não é como os plumitivos que recebem uma ninharia (atendendo à importância social da sua função). Não lhes peçam para serem eloquentes como os melhores publicitários, que são tão dotados que até chegam a ser contratados para inventar slogans convincentes para o eleitorado (só se for para o eleitorado distraído, ou para os eleitores frívolos que se deixam encantar por meia dúzia de palavras cimentadas pela vulgaridade dos lugares-comuns).
Dizem: não arranjem cavalos de Troia, que este aparente estado permanente de crise (ou de crises) já deixa, só à sua conta, uma corpulenta dose de angústia. Ao menos, os jornalistas disfarçados de publicitários encenam um jogo de palavras que ironiza as crises em andamento. Heresia! Exclamam, ofendidos (dir-se-ia: ofendidíssimos), os sensíveis aríetes da moralidade em voga, ai de quem tem o topete de parodiar coisas sérias. Depois dizem que a imprensa está em crise – mas eu propunha uma versão alternativa: são estes bastiães dos comezinhos bons costumes que estão em crise, mas ainda ninguém lhes trouxe a novidade.
Se fosse no século XIX, haveria, escondido numa esquina, um qualquer Camilo acastelando a alvura rarefeita para depois a atiçar ostensivamente contra uma poça de lama. Os gentios nunca entenderam que carregar toneladas de seriedade numa vida acaba com acidentes vasculares ou um trombo no coração. É o que acontece a quem tenta beber pedras angulosas como se tivessem a macieza do xisto. Experimentem beber o xisto e depois apresentem, no prazo de quarenta e oito horas, relatório descritivo da experiência.
O que vale é que anteontem foi sábado. Já passou, mas fica a mnemónica para o sábado que vem a seguir. O Camilo oitocentista pertence ao cemitério. Podemos ir dormir descansados, que os pesadelos não passarão (ou passarinho, dependendo do carisma).
Camilos do século XXI, dão-se alvíssaras.