Morphine, “Cocoon”, in https://www.youtube.com/watch?v=UqIfuVG4xUo
Os eco pessimistas exsudam insatisfação pelos tremendos males feitos ao ambiente e porque os poderes dominantes (países com mais peso na ordem mundial e grandes empresas, não necessariamente por esta ordem) se aligeiram de responsabilidades, contentando-se com medidas pífias que apenas mitigam timidamente os atentados ao ambiente.
Os eco pessimistas erguem uma trincheira contra os combustíveis fósseis pelos danos que causam ao ecossistema. Quando são chamados a dizer de sua justiça sobre as energias alternativas (solar, eólica, hídrica, elétrica), carburam o raciocínio pela maximização de ganhos compatível com as ideias que defendem, sem concessões para soluções que limem arestas entre os que se mantêm em estado de negação ambiental e os advogados de defesa da ecologia.
Por exemplo: para não sermos tão dependentes de energias fósseis, multiplicam-se parques eólicos que adulteram a paisagem das serranias. As cumeadas estão apinhadas de torres eólicas, o que, à noite, deixa vir ao de cima um ambiente esquizofrénico composto por milhentas luzinhas que piscam e não deixam ninguém indiferente.
Outro exemplo: o sol, outra fonte de energia limpa (e que é inesgotável, até o próprio sol se extinguir), exige uma solução inestética e que afeia as paisagens. Quem anda pelo interior (pela Beira Baixa, sobretudo) já deparou com parques solares que ocupam pedaços extensos da paisagem. Há dias, um ativista conseguiu achegar-se a um destes parques, ficando assustado com a dimensão da infraestrutura; não é só o estragar da paisagem (fator intrínseco do meio ambiente), é também toda a infraestrutura pesada que fica depositada em cima do solo.
Mais um exemplo: a transição energética, que também depende da circulação de veículos movidos a eletricidade, é atacada pelos eco pessimistas. Embora diminua a dependência dos combustíveis fósseis, estamos a empurrar o problema para o futuro, porque ainda não há respostas sobre ao destino a dar às baterias de lítio quando chegarem ao fim da sua vida útil.
Dos três exemplos emerge uma mão cheia de perplexidades sobre as perplexidades, e a desconfiança metódica, dos eco pessimistas. Primeiro, deviam ter aprendido com Pareto: devemos hierarquizar prioridades e partir para o segundo ótimo (e o terceiro e o quarto...) quando o primeiro ótimo não é praticável. Infelizmente, os anticorpos dos poderosos (senão mesmo o seu estado de negação) exige uma estratégia realista, por mais que acenem com a irreversibilidade de certos danos ambientais.
Segundo, os ativistas exacerbados na defesa da sua causa destilam uma insatisfação perene sobre as soluções que, com timidez e vagar, vão sendo oferecidas à humanidade. Alguns misturam o debate das questões ambientais com teorias da conspiração que dão por certa a captura dos órgãos políticos pelas grandes empresas para as quais continua a ser mais barato produzir com poluição desenfreada.
Terceiro, não se antevê como o ideal dos eco pessimistas, que os faria transfigurar-se em eco otimistas, possa ser materializado num par de décadas – bem-vindos à malfadada realidade, onde medram poderes que rejeitam a pureza dos interesses eco pessimistas. Na lógica da minimização de danos, pergunte-se: o que é menos mau, adulterar a paisagem para nos irmos libertando do jugo das energias que dependem de combustíveis fósseis, ou atirar o arsenal argumentativo contra as energias limpas que, todavia, deixam cicatrizes perpétuas na paisagem?
Quarto: se a utilização crescente de veículos elétricos tem ajudado a diminuir (marginalmente, é certo) a emissão de monóxido de carbono para a atmosfera, um defensor do meio ambiente não deve ficar moderadamente contente? Mesmo que sejam legítimas as reticências sobre o destino a dar às baterias de lítio, não seria melhor critério aguardar que a inovação tecnológica (tão galopante, ao arrepio da vontade dos eco pessimistas) possa oferecer uma solução no futuro?
Por fim, quinta perplexidade: se os eco pessimistas denunciam a cumplicidade dos dirigentes políticos com os grandes interesses capitalistas, não ficam a jeito de contra teorias da conspiração que os situam como instrumentos do perseguição ideológica do capitalismo?
O ativismo e a desconfiança dos eco pessimistas não são infundamentados. Foi tempo a mais de agressões ao ambiente sem qualquer sensibilidade política para o preservar do seu pior inimigo, o Homem. Contudo, fico perplexo com as perplexidades sistemáticas dos eco pessimistas que encontram, invariavelmente, argumentos para criticar até as energias limpas e a, muito certamente timorata, transição energética.
A páginas tantas, os eco pessimistas tornam-se, talvez sem darem conta, inimigos da causa de que se apregoam os lídimos defensores. É só imaginarem como reagira a grande mole humana se todas as vontades dos eco pessimistas (nessa altura transfigurados em eco otimistas) fossem feitas e muito do seu bem-estar, adquirido como faceta civilizacional, recuasse sabe-se lá quanto tempo.