Sex Pistols, “God Save the Queen”, in https://www.youtube.com/watch?v=02D2T3wGCYg
Sabiam a gramática da irreverência. Estavam sempre alistados contra os bons costumes – aliás, contra qualquer costume, bom ou mau, que um costume, só por o ser, era logo mau. Assustavam avozinhas desprevenidas e a população em geral quando andavam em bando e contrabandeavam a estética estabelecida. A música arranhava ouvidos e esculpia as meninges. Muitos morreram pelo caminho, vítimas dos excessos próprios de uma extravagância que combatia “o sistema”. Mas o punk não morreu com eles.
Tempos depois, com as modas a encontrarem âncoras diferentes, começaram a fraquejar. Os zeladores dos modismos decretaram a sua morte. Foi apenas uma morte simbólica. Os punks podiam escassear, serem aberrações não só porque sempre foram tidos pela conta das aberrações, mas porque os poucos que sobraram eram muito poucos e já não tinham força para partir a louça do “sistema”.
A sorte é que a música, como as artes em geral, fica emoldurada nas estantes do passado e pode ser resgatada para espetar uma agulha no futuro e acordar aquele fantasma que desassossega as consciências. O tutorial das modas vigentes higienizou a estética, aboliu as roupas negras e puídas, a parafernália de adereços que pesavam sobre a roupa envergada, as cristas assustadoras nos cabelos, o ar medonho que propositadamente ostentavam enquanto se punham no lugar de transeuntes. Mas o punk continua a não morrer e todas as notícias que o anunciam são exageradas (ou apenas uma profecia autorrealizável de gente que tem contas a acertar com o punk).
O punk não morreu, ainda que muitos dos seus seguidores tenham feito uma conversão radical a outras estéticas artísticas e modos de vida. Só por curiosidade intelectual, devia-se encontrar o paradeiro dos punks que o deixaram de ser para saber quantos se converteram à heresia burguesa e comparar duas fotografias de cada um dos outrora punks, como naqueles jogos que desafiam a comparar o antes e o agora.
E mesmo que o tempo se abata, implacável como é, e os derradeiros punks mudem de residência para cemitérios, o punk nunca terá as suas cerimónias fúnebres. Não podemos prescindir do que nos provoca o pensamento e desafia a lançar vulcões sobre as convenções. Não podemos deixar morrer o que desassossega as consciências. Mesmo que sejam as nossas.