Mayura, “Summer of Hate”, in https://www.youtube.com/watch?v=KLjTa1epTck
O cenário do costume: estudantes universitários fazem o que se convencionou chamar “tristes figuras”, agora que abriu a época das festividades estudantis. Há sempre um repertório de novidades quanto às bizarrias e aberrações às quais os estudantes, sob o efeito abundante de álcool, se entregam com galhardia e inventividade. De ano para ano, surgem imagens públicas de estudantes que inventam algo que os diferencia dos seus antecessores.
Este rosário de bizarrias e aberrações motiva a intervenção diligente dos habituais procuradores dos bons costumes. Aproveitam para tecer juízos contundentes sobre a frivolidade dos estudantes que, perdidos de bêbados, se entregam a estes rituais (se é que se lhes pode chamar assim). Os procuradores dos bons costumes, alguns habituais residentes nas esquerdas, exibem um conservadorismo que só é inesperado para os distraídos ou os preconceituosos. Atiram-se furiosamente aos jovens que, desgraçados com tanto álcool ingerido, são o alvo preferencial de filmagens anónimas que nem sequer se lembram de violar leis que defendem escrupulosamente os dados pessoais – ou será que a filmagem das estudantes bêbadas a tomarem banho numa fonte coimbrã, sem terem despido os trajes académicos, foi obtida com o seu consentimento? Eis como estes conservadores disfarçados dão o pior exemplo do que é, afinal, esvaziar leis que procuram enraizar novos costumes fundados na dignidade das pessoas.
Mas o que interessa – de permeio com umas alfinetadas à academia coimbrã, tão vetusta e, consta, nos antípodas do que deve ser uma universidade – é cobrar as tristes figuras que os estudantes andam a fazer em plena luz do dia. Há pior coisa do que estar com uma bebedeira descomunal ainda antes do anoitecer? Os juízos morais são implacáveis e desaguam num lamento que se mistura com perplexidade: estes estroinas, que não se sabem comportar em público e se voluntariam para um exercício circense de si mesmos, são as gerações que amanhã vou ter o poder na mão. Triste fado o que nos está destinado, lamentam estes velhos do Restelo.
O que estes procuradores da moralidade vigente (ou de uma moralidade inventada por eles) não percebem é que sucessivas gerações passaram por figuras semelhantes quando tinham a idade dos estudantes que agora são alvo do apedrejamento público. O que querem? Prendê-los em casa, numa espécie de castração que será do agrado desses sectores que não escondem a sua propensão autoritária? Ou, numa versão menos radical, deixá-los sair à rua, mas obrigá-los a respeitar um código de conduta enquanto se divertem (que é outra forma de castrar a liberdade de quem se quer divertir)?
O que é mais injusto é que (pode-se adivinhar) estes moralistas cobertos de naftalina também terão tido a idade dos jovens que agora são duramente criticados, também passaram pelos seus momentos de insanidade boémia e à sua conta foram autores de figuras que também se têm por tristes. Quando os vejo, cheios de soberba, a sentenciarem fulgurantemente estes estudantes a um futuro desprezível, imagino-os a desfilarem como autênticos bobos da corte porque no seu tempo, dentro ou fora de celebrações académicas admitidas ou não pelos costumes, se prestaram a esse papel.
Quando os vejo neste papel, sinto pena deles. A sua acerba é a confissão, por palavras intermediárias, da nostalgia que os consome. Envelheceram mal. Tão mal que disfarçam, na dura censura a que encomendam os jovens no exercício do legítimo direito à boémia, a nostalgia do que já não conseguem ser. Estes procuradores rezingões estão a morrer e ainda não deram conta.