(Ou, segundo a nova língua de trapos que por aí se fala, um “exemplo paradigmático”, como se “paradigmático” não fosse “exemplar”...)
Do insucesso que medra no desassombro de julgar e, depois de julgar, decidir. Sem esconder o rosto do erro que pode ser consequência. A covardia dos timoratos leva-os a não sentir a angústia rebentar na boca ao saberem que uma decisão desaguou no insucesso. O medo do erro desumaniza. O mundo parece estar adulterado e agora aprende-se a ser infalível – ou a montar um ludibrioso disfarce que omite a falibilidade intrínseca à condição humana.
Agora, aprende-se a esquecer que errar é humano. Virando as arestas do avesso, como se um eclipse forçasse uma hibernação necessária, ser humano é não errar. Ou esconder o erro ou afastá-lo para a órbita dos outros, mesmo que os outros estejam à margem da responsabilidade por esses atos ou omissões.
O medo de errar soma mais uma camada às muitas origens da angústia que se tatuam na pele. Não passa de uma farsa. A probabilidade de sermos convidados pelo erro é elevada. Assim o dita a complexidade do mundo. A fuga estrénua do erro, como se o erro depois fosse uma tortura que persegue enquanto o tempo não se esquecer, equivale à negação da humanidade.
A desajudar o diagnóstico, o narcisismo surge como uma febre permanente que acomete a autoestima exigível. É uma luta desigual contra a humanidade enquanto condição que participa da humildade: a autoglorificação, intencional ou como pretexto para obnubilar outras fragilidades, e o escapismo da perfeição demandada, como se a humanidade tivesse sido recondicionada e já fosse possível alcançar a perfeição.
Nunca como agora, foi tão importante confessar a falibilidade. O erro é inato e não deve ser omitido num disfarce que o desqualifica. Talvez este seja o tempo para um elogio do insucesso, que deixa de ser o palco do desconforto do erro.
Os heróis modernos deviam ser aqueles que sobem ao palco e reconhecem o erro. Prometendo que, da próxima vez, vão errar com mais diligência.
Quantos graus na escala de Richter teria o sismo se alguém se lembrasse de escrever uma peça de teatro intitulada “Anabela e a beleza de matar esquerdalhos”?
(Primeira observação, para o(a) leitor(a) não tirar conclusões precipitadas: este texto está muito longe de ser um panegírico ao protofascismo – para mim, a modalidade é execrável; mas incluo na confraria dos não recomendáveis os que se alistam na esquerda radical e na extrema-esquerda e pouco ficam a dever aos protofascistas na linhagem dos totalitários.
Segunda observação: a hipótese formulada, que serve de ponto de partida, aproveita intencionalmente um termo – “esquerdalhos” – que é depreciativo segundo a lente de alguns que povoam a direita. Se o recurso a “fascista” se banalizou de tal modo que o termo se esvaziou de significado, os que gravitam na órbita contrária fazem gala em rebaixar os radicais dessa extração, apelidando-os de “esquerdalhos”.)
Pese embora a declaração de interesses deixada como mnemónica para a interpretação das ideias aqui expostas, admito que a cegueira de fação que consome a lucidez dos radicais que não aceitam ser assim tratados depressa tenderá a encostar-me às imediações dos protofascistas. Será um problema de quem julgar dessa forma. A exacerbação dos sentidos e o caldo de emoções destravadas em que fervem os radicais impedi-los-á de reconhecer o lugar em que me situo, o lugar de um moderado que tanto se incomoda com o radicalismo dos protofascistas como dos radicais de esquerda e de extrema-esquerda.
Já vão longos os prolegómenos. Quando assisti à estreia da peça “Catarina e a beleza de matar fascistas”, em Guimarães, fui testemunha de um ataque de fúria (quase) coletivo da audiência quando a personagem do fascista se liberta do cativeiro a que tinha sido condenado pelas Catarinas, sem recurso ao sistema judicial (remetendo para uma a-judicialização muito grata aos mais radicais dos radicais nos tempos do PREC). Assim que se apanha em liberdade, o fascista discursa, longa e eloquentemente, num texto magnífico de exaltação das ideias defendidas por um fascista e com um grau de realismo tal que muitos espetadores bramiram contra o fascista (“morte ao fascista” e “fascismo nunca mais” foram os pregões mais ouvidos na exaltação quase coletiva da audiência).
A peça ganhou tanta popularidade, aproveitando-se da tração do momento político feito de polarização um pouco por todo o lado, que teve récitas de norte a sul e até já foi encenada no estrangeiro (na Alemanha e no Reino Unido, que tenha conhecimento). Há dias, numa das récitas na Alemanha, o ator que interpretava o papel de fascista foi agredido por espetadores que, confundindo realidade com a trama, saltaram dos seus lugares para o palco e acertaram contas com a História com as próprias mãos (julgarão eles).
O que surpreende não é tanto a agressão de um ator por espetadores que não conseguiram perceber que estavam a assistir a uma peça de teatro. O que mais surpreende é que tenha passado tanto tempo desde a primeira récita até que espetadores muito diligentes tenham passado às vias de facto. E assim aproveitaram o ensejo para tirar a palavra ao fascista que tanto quer amputar a liberdade, sem perceberem as consequências do seu ato: quais juízes supremos da liberdade, meteram-se ao caminho para, eles próprios, talvez ungidos de uma predestinação que só eles conseguem discernir, tirarem a liberdade ao fascista que nos quer vedar a liberdade. Já que estes espetadores, e os que em récitas anteriores não reprimiram a ira contra o fascista, não souberam perceber que estavam a assistir a uma peça de teatro, ao menos percebessem que restringir a liberdade mesmo aos que não escondem os seus propósitos totalitários é uma restrição da liberdade, não a sua salvação. Como têm mostrado os efeitos contraproducentes da campanha constante de denúncia dos protofascistas.
(Impõe-se uma advertência ao(à) leitor(a), para não ser treslido outra vez: não, não estou a defender os protofascistas. Apenas estou a argumentar que encomendá-los por conta do diabo tem tido efeitos opostos ao pretendido. A menos que esse mesmo seja o efeito pretendido: há radicais que, sem o mosto pútrido do fascismo e dos fascistas, deixam de ter causa que os mobilize, ficam sequestrados por uma orfandade mórbida.)
O acontecimento ocorreu poucos dias depois de um jovem ativista de extrema-direita ter sido morto nas ruas de Paris por ativistas do France Insoumise de Jean-Luc Mélenchon, um partido de extrema-esquerda normalizado pela sede de combate à extrema-direita de Le Pen e Bardella. A agressão do ator que desempenhou o papel de fascista na versão alemã da peça “Catarina ou a beleza de matar fascistas” confirma o que muitos, sobretudo à esquerda e daí para a sua esquerda, se recusam a admitir: são tão intolerantes quanto aqueles que querem combater.
Normalizar a esquerda radical e a extrema-esquerda apenas porque são instrumentos de combate à extrema-direita é um risco mal calculado. A sua normalização pode trazer radicais de estirpe não muito diferente dos protofascistas para a mesa da democracia, sem que esses radicais tenham um grama de moderação ou se revejam na teoria e na prática da democracia. Nessa altura, os moderados serão os idiotas úteis de uma agenda quase tão totalitária e destruidora da democracia quanto a dos protofascistas.
Uma peça de teatro, por mais que seja um retrato que se aproxime da realidade, é uma peça de teatro. A trama e a linguagem usadas têm muito de simbólico, não devem ser interpretadas literalmente nem ser o pretexto para despertar pulsões violentas fermentadas pela emergência dos protofascistas que alimentam vozes inflamadas do público durante peças de teatro. Ou, pior ainda, agressões que representam uma tremenda injustiça para um ator que está ali na condição de trabalhador.
Regresso à pergunta de partida: desconheço a dimensão dos efeitos sísmicos de uma possível peça que tivesse como título “Anabela e a beleza de matar esquerdalhos”. É impossível tirar a prova do contrafactual. Mas a pergunta fica aí, a adejar sobre o espírito inquisitivo de quem não se deixa sequestrar pelos diferentes padrões que medem situações em tudo semelhantes.
Os cavalos centenários tropeçam nas arestas do tempo. São como vozes emudecidas que projetam os protestos que ficariam órfãos se fossem adivinhados nas entrelinhas. Como estão hibernados, as pessoas esquecem-se deles. E, todavia, sente-se o seu cavalgar nos interstícios dos dias, como se abrisse uma fenda entre as horas e os cavalos centenários ressurgissem, impantes.
À medida que as vozes mordem em surdina, contam-se os verbos fecundos que substituíram os adjetivos. As frases perdem tempo quando lhes são acrescentados adjetivos. É como os ornamentos que podiam ser somados aos cavalos centenários: seriam solenes as ocasiões tais, e como solenes que são, os ornamentos convencionais deviam afeiçoar os cavalos. Seriam suplementos em vão, o acolhimento da vaidade dos Homens que os cavalos seriam obrigados a usar.
Os cavalos em frenético trote sopesam o crepúsculo e tomam conta do horizonte. Os olhos, atentos ou desatentos, não fingem a sua ausência. Ruidosos, deixando um rasto de poeira à passagem do trote tempestuoso, ninguém lhes fica indiferente. Evocam almas perdidas no tirocínio do tempo. À medida que se afastam, confundindo-se com o horizonte, o sobressalto fica a pairar por algum tempo. Os cavalos centenários cumpriram a sua função. Como se fossem embaixadores das almas perdidas para o tempo plausível.
À medida que a poeira volta ao seu lugar, sente-se uma tempestade de palavras. Atropelam-se umas às outras, num tricotado gongórico, a espaços ininteligível. São as almas perdidas a ecoar o que ainda conservam no que sobra das almas. Reclamam dos viventes o seu quinhão de uma herança que já lhes tinha sido legada. Os cavalos centenários apressam as cicatrizes dos tempos acumulados. Num diadema resplandecente, arrancam do tempo as suas costuras puídas. São elas que ajudam os viventes a recusar a sedução do frívolo. Pois são os embaixadores das almas perdidas – houve quem dissesse, a reencarnação dessas almas (mas, para isso, era preciso acreditar na reencarnação).
Ninguém sabe onde estão os estábulos dos cavalos centenários, dos cavalos acusados de sedição. Tal como emergem sem aviso prévio, dissipam-se misteriosamente, sem deixarem pegada. As almas de agora muito gostariam de descobrir o paradeiro destes cavalos, mesmo que precisassem pagar a detetives que fossem seus cúmplices. Para deixarem de ser assombrações que expropriam o tempo que conta.
Dinamita os embaraços com uma anestesia doseada. Aos instantes presentes que resgatam embaraços havidos, e parece que eles são reaviados no instante do seu resgate, lava-os com a cal que embacia a memória. E lembra-te: todos têm à sua conta um inventário de embaraços. Quase sempre, guardam-nos para memória futura, que a sua pública revelação agrava o agravo do embaraço.
Do leito dos embaraços, a formidável observação da tua fragilidade. Por mais que zombes dos embaraços dos outros – os que presencias e os que chegam ao teu conhecimento – e que imagines os demais a escarnecerem dos teus, este é um caldeirão em combustão constante a que ninguém escapa. Propões uma trégua sem prescrição, para que todos se obriguem à circunspeção quando esbarram no embaraço do outro. Um código de conduta: não ridicularizarás o outro quando estiver afogado no seu embaraço; o embaraço do outro é o embaraço que já atravessaste e o que ainda virás a tutelar.
Não interessam os pergaminhos do embaraço. Pode ter sido o acaso de uma distração, ou uma contingência que só talvez os crentes de incidentes cosmicamente revelados acreditem, ou então o resultado de uma ação bem-intencionada, mas mal concluída, ou o saque que um ato desastrado causou na serenidade que querias companhia perene. Aos juízes dos embaraços alheios, por sua vez alheios ao código de conduta por ti proposto e, decerto, largamente não correspondido, não interessa inventariar a linhagem de um embaraço. Esquecendo-se da sua contabilidade privativa com os embaraços havidos, troçam do embaraço dos outros. Ao fazê-lo, sem saberem, acabam por abrir a janela à troça coletiva dos seus próprios embaraços – por muito que os conservem no reduto de segredos zelosamente guardados e estejam convencidos de que os demais não têm conhecimento deles. Nem é preciso: assim que troças dos embaraços dos outros, não só quebras o código de conduta que propuseste como franqueias o conhecimento e a troça coletiva desatados pelo embaraço que te atraiçoou.
A vida de um embaraço é eterna. Por mais que finjas que não te lembras de um embaraço, ele está emoldurado a tinta permanente num qualquer canto da memória. Revelável, a qualquer momento, como um punhal que se encosta à jugular e povoa a insónia com medo de que a revelação aconteça no dia seguinte.
Os heróis estão em terra. Encontraram um cais. Já não são do mar. Deles não se diz que se apropriaram da métrica dos nautas seus antepassados, que nos tempos de antanho partiram em cascas-de-noz para sulcar mares desconhecidos. Esses seriam heróis – ou apenas loucos desapiedados consigo mesmos.
Por terem sido aprisionados em terra, quando antes eram heróis com pergaminhos marítimos, os heróis foram expropriados dessa condição. Quem os chama heróis dá uso a uma metáfora. Ou dá continuidade a um uso semântico oportuno à construção de heróis de que uma terra sempre precisa. Os heróis não passam de uma palavra. Para os desatentos, continuam a ser heróis.
Quando um lugar procura os sinais que cimentam uma identidade, tem de recorrer a heróis. Sem eles, parece que a identidade coletiva se esboroa por falta de comparência. O vazio que se hasteia em mastros que outrora terão sido habitados por bandeiras carregadas de glória está aí à vista dos olhares até desatentos. Ignorá-lo é um disfarce imposto a quem finge que os heróis são matéria em elevada procura, senão todas as bases em que se alicerça uma comunidade não passam de aparências.
E, todavia, os heróis são apenas representações, vultos apessoados em forma fingida de heróis. Com o elevado patrocínio de um povo inteiro que se sente órfão se não encontrar os heróis sem os quais não seria comunidade. Sem estes heróis, o rastilho fica por atear e o povo lamenta a orfandade a que foi destinado. Este é um processo puído à partida. A gesta de heróis não tem substância; são meros fantasmas. Mesmo os de outrora, os tais que terão sido confundidos com meros orates, não merecem o pedestal a que têm direito os heróis. Ou se calhar, falar de heróis é definir uma ilusão.
A fibra fraca de que são feitos os tempos nossos conhecidos anima estas farsas em movimento. Os heróis que dantes eram do mar refugiaram-se em terra. Lá, onde se encontram, dizem os cânones que não há heróis. Parece uma condição exclusiva de marinheiros de antanho que arremataram uma grandeza à qual não estávamos destinados.
Os heróis são todos improváveis, a encenação gasta de uma fábrica coletiva que precisa de bandeiras e mitos. À falta de melhor.
“Enquanto o tigre não pode deixar de ser tigre, não pode destigrar-se, o Homem vive em permanente risco de desumanizar-se.” José Ortega y Gasset.
(Às hordas que aproveitam o efeito de escala para imprimirem uma força bruta aos movimentos que nos desumanizam)
A inocência dos gestos afáveis – um pequeno gesto da empregada de mesa, que pousa a mão no ombro da cliente ao levar o pequeno-almoço, sem que isso seja entendido como uma invasão na integridade do seu corpo – adultera-se quando uma vaga de fundo convoca as pessoas a transformarem-se numa turba. É aí que as pessoas reunidas em turba passam a ser lobos de si mesmas e dos outros que ficam de fora. Como se um vulcão entrasse em erupção violenta e arrasasse tudo ao seu redor.
As modas enquistadas num fervor do momento arregimentam pessoas desprevenidas e outras ávidas de não serem párias para esses movimentos crepusculares. Deixam a atomização de parte, talvez uma sensação que causa desconforto por a confundirem com uma insularidade involuntária que as desprotege. Quando se alistam nesses movimentos multitudinários, passam do minifúndio do ser para o latifúndio de uma multidão inorgânica. A irrelevância da palavra sozinha é substituída pela comodidade de alguém que fala na sua vez. Essa passa a ser a voz de cada um dos membros que se acolhem no santuário que se transforma em turba ruidosa e conspirativa. A turba limita-se a fazer coro aos pregões invetivados pelos gurus que a organiza.
A força gravitacional trata do resto. Como um íman, a horda atrai mais militantes. Multiplica os tentáculos. Os que teimarem em ficar de fora sujeitam-se, primeiro, ao anátema, e, numa hipótese mais exacerbada, possivelmente a alistarem o rol dos defenestrados. A turba perde contacto com a humanização intrínseca à dimensão atomizada dos seus membros. Parece que tudo se transforma porque, atomizados, os membros entretanto alistados na turba receavam ficar à mercê de ataques de uma alcateia que se apodere dos meios de força. É quando a força da razão cede o lugar à razão da força. A caminho da desumanização que se instala grau a grau, até o tempo obrigar a esquecer o que outrora fora estabelecido como fatores intrínsecos da humanidade.
As hordas que avançam triunfantes, estrepitosas e coléricas substituem o genoma humano por outra coisa qualquer que adultera a humanidade, numa metamorfose que a desqualifica enquanto humana, que a coisifica. Uma lobotomia que se aproveita da fragilidade genética da humanidade para desqualificá-la como uma subespécie.
A força da vozearia das turbas, dos que, por falarem mais alto, se fazem ouvir, emudece a lucidez coletiva. Instala-se a autofagia antropológica. Pois se o tigre sobe a palco como animal irracional e não sabe como se destigrar, os humanos desperdiçam a racionalidade que o antropocentrismo lhes ensinou para alcançarem a desproeza de se desumanizar.
Se correr atrás das cicatrizes é a maior loucura que se pode cometer, os manicómios podiam ser extintos. As cicatrizes são o chão a que ninguém pode fugir, nem os diligentes ascetas que se convenceram, num passado remoto, que conseguem dominar todas as circunstâncias da vida (até as que lhe são contingentes). Correr atrás das cicatrizes é o reconhecimento humilde do que se sobrepõe à vontade, tornando-a irrisória quando as sirenes dos contratempos anunciam a alvorada.
Alguém disse que as cicatrizes têm uma gramática própria. Quem comparar as peles de diferentes origens, desde que nelas estejam cartografadas cicatrizes de linhagens diversas, dirá que só ao olhar desatento é que as cicatrizes são transversais às origens dos que se oferecerem à amostra. Elas podem ter uma gramática própria, mas é uma gramática única, que corta a eito as fronteiras, os diferentes idiomas, os diferentes legados transportados por lastros culturais que também são diferentes. Melhor seria dizer que as cicatrizes têm uma semiótica própria, que ultrapassa as fronteiras idiomáticas. Uma cicatriz causada pela partida de um familiar próximo é parecida em todos os lugares. Uma cicatriz fermentada no desamor é igual aqui e noutras latitudes.
Seria demencial fingir que as cicatrizes não são fraturas expostas ditadas por um certo momento e circunstância. Seria estulto disfarçar as cicatrizes com um sorriso permanente, embebê-las num caldo de positividade mental, tão grata aos engenheiros das almas que se oferecem para conduzir os que quiserem fazer parte de um rebanho consumido pelas angústias. As cicatrizes estão à mostra, mesmo quando o inverno convoca sucessivas camadas de roupa e elas estão escondidas sob toda essa roupa.
Aceitar as cicatrizes e esperar que elas vão sendo caldeadas na pele que se regenera contra a obstinação das cicatrizes, é o que está destinado. Sabendo que há cicatrizes inalienáveis, condenadas a serem tatuagens imorredoiras da pele, e outras, menos fundas, menos estruturais, que se dissolvem com um banho de tempo.
As cicatrizes não têm de ser um carrasco do futuro.
As horas sem nome acordavam no estertor da noite. Tinham esconjurado os medos que acompanham a luz diurna. Ficavam à mostra, a sua visibilidade a arcar sobre o peito sobressaltado que atravessava as horas com uma dor lancinante, a dor de um medo que se consumia nas ruas desertas por onde passava o pensamento.
A noite era o exílio; o sono era o autêntico exílio. As pessoas tangíveis não colonizavam os sonhos. Eram apenas personagens que se escondiam das fronteiras que costuravam os limites de suas pessoas tangíveis. Era o sono-refúgio que dava corda aos sonhos que não tinham lugar próprio nem tempo definido.
Esta era a noite que dispensava a luz que a tingia com uma claridade artificial. Era a noite paradeiro, sem nome próprio, a noite que industriava o seu luar através dos dedos diligentes dos arquitetos do sonho. Os dedos levantavam-se em gestos gentis e desenhavam a silhueta das personagens que habitavam o próximo sonho. Os dedos escreviam, sílaba por sílaba, numa ordenação criteriosa das palavras, as que subiam às bocas das personagens que tutelavam o sonho. E depois deixava acontecer, o sonho caminhando pela sua própria vontade e o seu autor, já desapossado dessa condição, a ser levado no caudal dos acontecimentos congeminados pelo acaso do sonho, apenas espetador do sonho.
Um dia, prometeu registar num caderno próprio os contornos dos sonhos. Teria de ser logo ao amanhecer, para impedir que o avanço do dia atraiçoasse a memória possível e adulterasse a gramática do sonho. Nunca cumpriu a promessa. Raras eram as vezes em que se lembrava do sonho; tinha a consciência de que um sonho o tinha visitado durante a noite, mas perdia a noção dos seus exatos contornos. Os sonhos tinham um prazo de validade curto. Ou então, acertara a memória para ser seletiva: ela esquecia-se depressa da matéria dos sonhos porque temia que, se assim não fosse, se os sonhos acabassem vertidos em letra de forma no caderno angariado para o efeito, depressa desertassem para parte incerta.
Era o que menos queria que acontecesse. Os sonhos, mesmo quando eram pesadelos, eram o refúgio das agonias diurnas.
O espaço nunca deixa de beijar o tempo – e não é um beijo de escorpião. (Dedicado aos velhos do Restelo que fazem questão de continuar a sê-lo.)
Ai, os tempos modernos que magoam tanto. Isto dantes é que era bom; ou: antigamente – ah, e como o antigamente, sobretudo aquele antigamente que existiu antes da nascença de quem o invoca, esses é que eram tempos. Agora, assistimos à corrupção do tempo e do modo, e o espaço que acolhe este tempo torna-se dele refém. As pessoas mudam porque o tempo lhes sopra um vento irrecusável ao ouvido. Mudam por mudarem. Esta será a retórica dos antiquados que fazem gala em sê-lo.
Mas o espaço não deixa de beijar o tempo que lhe é oferecido. Pode debater-se, espernear, tentar parar o relógio ou, pelo menos, fazer de conta que o faz, para que o espaço seja imune ao tempo. Em vão. As alocuções saudosistas preferem a dependência do passado, porque o passado terá sido melhor do que o tempo de agora (o que recolhe a concordância de poucos).
Pouco conta o juízo que façamos das diferentes camadas do tempo. Primeiro, muitas vezes estamos a comparar dimensões sem termos conhecimento vivido das dimensões comparadas (não é lúcido comparar o modo de viver do século XIX com o do século XXI). Segundo, a nostalgia cava um fosso entre quem dela depende para respirar e o tempo hodierno onde se congeminam as suas vidas. Essa dissonância pode servir de anestesia intencional ou apenas isolar o nostálgico numa cápsula que finge retirá-lo das consumições de um tempo presente que tanto o desagrada.
Os que se exilam na pré-modernidade procuram assimilar no presente um tempo datado. Fogem do tempo moderno e acabam por fugir de si mesmos, pois os demais não vivem agarrados ao pretérito como tábua de salvação que os exime de suportar os encargos do presente. Por mais que o tempo existente motive um incómodo indisfarçável, os nostálgicos já deviam ter concluído que nem o tempo olha para trás, nem eles conseguem obter exílio na embaixada da nostalgia e fingir que não vivem no tempo que os desagrada.
O olhar, se estiver aberto a usar uma lente diferente, servirá ao menos para contemporizar com a modernidade. Para os atávicos que desse modo façam a gestão do comportamento, esta é uma resignação necessária à modernidade que os acompanha. Se não aderirem incondicionalmente à modernidade, ou pelo menos sob o efeito de reservas bem medidas, que saibam conviver com o tempo que veio beijar o espaço em que se encontram.
Para não sentirem esse tempo como o beijo do escorpião, têm de aprender a ser camaleões.
Avistavam-se eleições no calendário. Ainda faltavam alguns valentes lustros de meses para que os cidadãos fossem alistados e pudessem contribuir para o processo democrático.
À medida que as folhas em falta iam sendo debulhadas pelo tempo no seu sacerdócio usual, ninguém queria comparecer como candidato. As habituais movimentações de “notáveis” foram todas condenadas ao malogro: bem se esforçaram os “notáveis” por empurrar alguns quase notáveis para o protagonismo eleitoral, mas as sucessivas tentativas foram em vão. Por uma ou outra razão, todos os candidatos a candidatos apalavrados pelos movimentos extáticos de “notáveis” saíram de cena.
A certa altura, o conciliábulo dos “notáveis” – onde todos, independentemente da estirpe e da trincheira que ocupam, se reúnem nos momentos mais graves da nação – fez soar o alarme: corriam o risco de ninguém avançar como candidato e a eleição ficar deserta. Os “notáveis” desconfiavam que a apatia seria o húmus ideal para aparecerem candidatos de última hora sem as credenciais para o serem; aqueles naturais arrivistas que de si têm uma imagem superior à devolvida pelos espelhos em que se consomem, mas cujos elevados índices de autoestima fazem disparar a sede de protagonismo, que é saciada com o estatuto de candidato. Mas nem estes arrivistas avançaram. Os “notáveis” não conseguiam perceber se estes desqualificados possíveis candidatos estavam à espera do derradeiro momento para lançarem a candidatura nas costas dos demais, ou se era mesmo uma crise de personalidades e não personalidades que fazia pesar a ameaça de uma eleição deserta.
Alguns peritos que estão de atalaia às placas tectónicas da sociedade puseram o dedo na ferida: esta era uma crise existencial da nação, que não tinha filhos diletos com as credenciais necessárias para concorrer às eleições (desconsiderando todos aqueles que, atendendo aos requisitos mínimos, não estavam motivados a candidatar-se). A vacatura das eleições era sinal de uma terrível doença que se abateu sobre a comunidade. Ninguém prestava para ficar à frente dela.
Outros peritos, menos apocalípticos, viraram o ângulo de análise: a hipótese de as eleições ficarem desertas não era sinónimo de uma crise existencial da comunidade; era o muito humilde reconhecimento de que ninguém tinha as qualidades para assumir o lugar. Em vez de ser considerada uma crise existencial, era o efeito simbólico de que os que têm fracas qualidades (ou não as têm de todo) não merecem ser candidatos e muito menos eleitos. Estes observadores mais realistas aproveitaram a ocasião não só para aliviar a angústia que começava a pesar sobre a comunidade, como também perguntaram aos notáveis senadores, os que teimam em tutelar a comunidade, por que não tiveram eles a coragem de se sujeitar ao escrutínio.
A grande crise existencial não era a eleição ficar deserta por ausência de pergaminhos mínimos para o posto. Era a dependência atávica de figuras senatoriais, que deixam que os chamem “notáveis” sem se incomodarem e que, nos bastidores, cozinham os candidatos que vão a jogo.
Os que levam o dia consoante a bússola dos sonhos sabem que os sonhos trazem uma multiplicação de viveres. Através dos sonhos, a vertigem da verticalidade de vidas alternativas oferece-se como se soubesse que o sono não pode ser desaproveitado. Somos reféns da conspiração dos sonhos, porque a realidade alternativa cingida na pele dormente traduz-se na insatisfação das vidas adestradas pela tirania da consciência. Viver por dentro de um sonho é o exílio necessário da vida tangível.
Pode-se admitir que os sonhos são apenas o prolongamento das vidas que os sonhadores trazem por companhia. Sonhos há que se limitam a uma extensão da vida conhecida. Como se houvesse páginas a eito que pedem um parágrafo novo que a consciência impede de lacrar. Outros sonhos reduzem a vida sentida a um mundo exíguo que se inspira na imaginação fértil, a gramática ideal dos sonhos. Através dos sonhos, fugimos. Experimentamos o que a consciência não deixaria experimentar. Sentimos o indizível, o irrepetível, sob a caução preventiva da consciência, a porta que escancara o desconhecido.
Há quem proteste contra os sonhos. Acusam-nos de serem uma tirania de outra extração. São os que não conseguem amparar dentro dos seus limites a vida que levam, muito menos as vidas paralelas trespassadas pelos sonhos e que são um úbere de sobressaltos. Dispensam os sonhos, invejam os heróis da corte que se ufanam de não saberem dar conta das costuras de um sonho. (Ainda há os que exercem uma heroicidade extravagante ao jurarem a pés juntos que não sonham – gente mitómana que infunde a desconfiança dos que, pela mão da ciência, sabem que os sonhos existem e são vividos.)
Um dia destes, vou-me dedicar a registar em palavras os sonhos que foram visita de véspera. E depois, um ano depois, mais ou menos, vou reler o inventário dos sonhos para aferir quão tempestuosos foram os sonos havidos. Para depois tirar uma conclusão que agora não estou preparado para tirar: o sono é um tempo esbanjado, ou é o viveiro de um tempo enriquecido que não tem par com o tempo conhecido pela consciência?
down I go again, heart swinging like a punch bag.”
Uma das lições de moral que é brandida algumas vezes – uma das poucas lições de moral que não desata o desejo súbito de ser pária em relação a ela – é a reciprocidade. Fazemos o bem aos que bem nos fazem. E podemos fazer depois de o bem nos ter sido feito, devolvendo o obséquio, pois a bondade não é excessiva nem se malbarata quando é espontânea e não está eivada de segundas intenções. Ou nossa pode ser a iniciativa de bem fazer a alguém, sem termos de esperar que, da sua parte, haja reciprocidade. Porque fazer o bem só para estar à espera da reciprocidade esgota o sentido do bem que foi praticado à partida.
Os filósofos fornecem o substrato da reciprocidade ao advertirem as pessoas, possivelmente entretidas com as exigências do quotidiano e com outras coisas do domínio da frivolidade, que é um princípio de comportamento que previne a beligerância entre pessoas e cauciona uma existência pacífica: saber estar no lugar do outro. Ou, como se diz nos países anglófonos, calçar os sapatos do outro (forjando uma medida universal do calçado, sem a qual a metáfora é irrealizável e a compreensão da pessoa comum fica comprometida). Antes de sermos praticantes de uma maldade, ou de o nosso comportamento colocar o outro numa posição desconfortável, devemos inverter os papéis e tentar imaginar a dor ou o desconforto causados por essa inversão de papéis. Temos de ser capazes de sentir a dor por sermos vítimas de nós próprios.
Mas a reciprocidade não deve ser sempre recíproca. Não deve replicar o mal. A reciprocidade deve ser assimétrica. Deve cingir as baias do admitido; é nesta circunstância que devemos ser recíprocos ao bem que nos é feito, não como compensação do outro que nos destinou um ato da sua bondade, mas como gesto intrínseco de um código de conduta que nos coloca nos antípodas do mundo hodierno. Praticar a reciprocidade tem o dom de alargar a rede dos que se comportam de acordo com um código de conduta que esconjura, à partida, os usos indevidos que dele possam ser feitos. A reciprocidade, quando está em causa devolver um mal, adultera o código de conduta. Para a reciprocidade assim entendida, devolver um mal não é reciprocidade: é apenas vingança, com todo o rancor que vem de braço dado com ela.
Se a reciprocidade for recíproca, tecendo uma rede de reciprocidades que se densifica ao ser usada como disfarce da vingança, tingimos a espécie com as nuvens sombrias que se acastelam no horizonte dos seus adversos modos de estar. Se a reciprocidade for recíproca como reação ao bem, ela multiplica-se como se fossem os frutos colhidos num Éden quase só quimérico.
Era tudo uma questão de bastidores. Desenganem-se aqueles que apregoam a transparência, uma marca d'água da modernidade, porque tudo o que conta e bule com as pessoas deve aparecer sem véus opacos que estorvem o escrutínio.
Os preparos em que o entorno é apresentado diferem, e muito, da sua congeminação prática. Há todo um escol que se dedica a perquirir nos arquivos para entender, com décadas de distância, o que se passou nos bastidores que, por sua vez, ajuda a perceber as decisões tomadas e apresentadas como tais às pessoas interessadas. Os assuntos sensíveis sujeitam-se a um embargo, que é tempo de mais para a revelação em tempo útil dos bastidores que serviram de pano de fundo.
Devem os bastidores saltar para o palco principal, onde se encenam todos os fingimentos que a ele podem subir depois de se terem acertado os termos de uma decisão ou de um acordo nos bastidores? Era exaurir os propósitos dos bastidores. O protagonismo dos bastidores, dirão os seus defensores, explica-se porque assim se poupa o cidadão comum aos trabalhos preparatórios que são exaustivos e apenas têm o demérito de distraírem os cidadãos de assuntos mais substanciais.
Segundo os procuradores do estabelecido, os bastidores não são lesivos da transparência que costuma ser invocada como um bastião da democracia sem arestas. Aos cidadãos deve ser servido apenas o sumo que foi decantado nos bastidores. Não precisam de saber das matérias dispensáveis que foram coadas e que apenas servem para alimentar o lixo doméstico. A transparência não é lesada se aos cidadãos for dado a saber que houve bastidores que confecionaram a decisão que lhes está a ser comunicada. É intrínseco aos bastidores serem bastidores, sobre eles caindo uma espessa cortina que não permite ver de fora para dentro.
O problema é que, muitas vezes, os que participaram nos bastidores abrem a boca. Algumas vezes, fazem-no discretamente, em registo informal, possivelmente apenas distraídos, ou sem conseguir omitir a intenção do deslize: espalham para o exterior fragmentos do que aconteceu nos bastidores, para criar confusão ou boicotar algum decisor que está mais acima na escala, assim tirando o lugar ao inconfidente. Outras vezes, a inconfidência faz parte de um registo informal: o rumor institucionalizado, que amiúde se desdobra num palimpsesto de mentiras, até ao ponto em que o próprio que as alimenta deixa de ter mão na prestação de contas do que é verdadeiro e do que é falso.
A persistência dos bastidores serve para a opacidade que não quadra com a transparência tão em moda. E serve para alguns conspiradores atuarem de dentro para fora, abrindo rasgões nos bastidores, apenas para exibir o seu poder enquanto alguém que participa deles.
A transparência é lesada pelos bastidores e pelos hábitos maus que eles ateiam. Meros figurantes, com aspirações bem marcadas nos oráculos que gostam de empunhar em proveito próprio, crescem nos tamancos e ostentam, com narcísico garbo, um poder que ultrapassa, e por fora, o poder dos que são reconhecidos como autênticos mandantes. Não, os bastidores não são inatos à democracia. Contribuem para a sua adulteração – ou para o seu emagrecimento.
Há dias que parecem fotografias Polaroid. Difusos, ligeiramente embaciados, como se uma penumbra se apoderasse dos minutos que correm vagarosamente. E as pessoas fossem todas forasteiras, como são os desconhecidos que se cruzam na perene azáfama dos dias de semana.
Talvez fosse por ser o primeiro dia da semana e os restos da anestesia do fim de semana ainda se fizessem sentir. Razão terão os lúcidos que exigem a semana de quatro dias. A segunda-feira seria reservada para arrematar os efeitos do torpor que se instalou nos dois dias do fim de semana. A segunda-feira seria para fazer a ponte entre o fim de semana e a semana de trabalho (ou de estudo, ou de qualquer coisa para a qual a semana seja destinada). As pessoas desligavam-se da anestesia na segunda-feira e, quando chegassem à terça-feira, estavam pujantes e dispostas a não arranjar subterfúgios porque já era terça-feira.
Isto seria se não se inventasse depois uma causa aprendiz: no terceiro dia de descanso, as pessoas limitar-se-iam ao propósito desse dia e, quando entrasse a terça-feira ainda estariam sob os efeitos anestésicos do fim de semana que agora dura três dias. A terça-feira faria as vezes da atual segunda-feira. E assim sucessivamente, até que a profecia de Agostinho da Silva fosse validada e já poucos quisessem saber dos dias da semana, da serventia que sempre tiveram os dias da semana.
Virando o assunto do avesso, agora que tantos se mobilizam para esconjurar fantasmas do passado que parecem ter ganhado vida nova, protesta-se a favor dos três dias de descanso semanal para que os reavivados fantasmas, se alguma vez tomarem o poder, não decretem um retrocesso civilizacional e obriguem o descanso semanal a emagrecer para um dia. Segundo os que participam do exercício coletivo de exorcismo público destes fantasmas, eles não querem saber dos desprotegidos. A sua retórica, todavia, desmente esse risco, mas pode não passar de um passo astucioso típico da retórica das campanhas eleitorais.
Apurando a probabilidade do retrocesso civilizacional, os mesmos que esconjuram aqueles fantasmas do passado montaram uma campanha permanente de denúncia dos capitalistas que só pensam no lucro e querem oprimir os trabalhadores. O registo das últimas décadas não confirma o espantalho esbracejado: o retrocesso civilizacional não tem confirmação, o que não é de somenos importância, atendendo a que os procuradores que protestam contra a conspiração dos capitalistas têm a certeza de que os mandantes estão a soldo dos capitalistas.
Por cima destas querelas pueris, que muitas vezes servem para fantasmas de outra estirpe fazerem prova de vida, não era mal pensado começar a pensar no tempo sem ser pelo viés da quantidade, medindo-o pela qualidade que ele encerra. E então, talvez deixassem de existir métricas objetivas do tempo que devem servir para toda a gente. Esquecendo que o tempo é feito de uma métrica tão subjetiva quanto as diferenças entre as pessoas.
Dizemos realmente o que queremos, ou queremos dizer o que o ar do tempo espera que digamos? Em que medida a liberdade é paralisada pela boa moeda que se impõe, a que devolve à consciência o dever de seguir os cânones que irrompem num determinado tempo? Se disser “sou a favor do respeito escrupuloso dos direitos humanos” e, depois, fizer de conta que são, muitas vezes, aqueles que conduziram o respeito pelos direitos humanos a uma esquizofrenia confrangedora, não estarei a ser cúmplice por inação com todos os atropelos varridos para o sótão do pensamento?
Por sermos gregários, a liberdade é condicionada ao patrulhamento dos outros a que nos sujeitamos. Fica a adejar a ideia de sermos reféns de um paradoxo: entre a liberdade que nos assiste e o temor de passarmos das marcas ao convocá-la quando ela esbarra contra os cânones vigentes, preferimos sacrificar a liberdade individual para sermos bem vistos entre os pares com quem convivemos. Dirão os admiradores da ordem estabelecida: quando há um conflito entre um objetivo individual e o interesse do grupo, o primeiro cede passagem ao segundo; dirão, ainda: é por sermos gregários que devemos ser levados à ordenação das prioridades e, quando elas chocam de frente, devemos preferir as que correspondem ao grupo em que estamos integrados.
Reconhecer que somos tributários de uma liberdade condicionada não deixa vaga a questão de saber se o paradoxo sela uma contradição de termos. Afinal, a liberdade individual é sacrificada, ou pelo menos suspensa temporariamente, quando se impõe garantir um interesse do grupo. Essa trela constrange a liberdade. As rédeas a que nos sujeitamos limitam o eu, porque a sociabilidade imperativa faz sopesar objetivos que podem ser contraditórios e, no viço da contradição, fazemos boa figura quando somos generosos e altruístas e damos preferência ao bem comum.
Sobra um fantasma não esconjurado. De acordo com Mark Fisher, “queremos realmente o que dizemos que queremos?” Ou o inventário das coisas adquiridas (sejam bens, seja o mais importante inventário de valores que nos conduzem) é uma imagem desfocada dos interesses espontâneos, que são temperados pela sua sujeição ao que cada um julgue ser a lente inquisitiva dos outros? E, assim, queremos aquilo que julgamos ser objeto de boa reação pelas boas consciências que servem de bússola ao nosso comportamento.
Esta adulteração imprime a corrupção do eu, que sucumbe aos imperativos do grupo (ou àquilo que, bem ou mal, julga como tal). Ao querermos aquilo que os outros consideram aceitável, contribuímos para uma farsa em andamento contínuo.
Vamos às compras – habitualmente dizem os consortes um ao outro, ou amigos em momento consumista, e ir às compras tanto significa o aprovisionamento de víveres como mercar coisas mais banais, como vestuário e calçado (se bem que não sejam assim tão banais pela possibilidade do cenário dantesco da sua ausência). Ou, numa nota de modernidade, compra-se online o que dantes exigia a deslocação até a uma loja.
Desta vez, a impressão do tempo que nos calhou em azar trouxe uma novidade: quem vai às compras é um país poderoso que quer mercadejar territórios estrangeiros que estão em boa conta na bolsa dos valores geopolíticos (ou apenas na cabeça dos orates que assim decidiram).
Compra-se uma ilha cheia de gelo aqui, um território remoto ali, um país inteiro, numa situação limite, como se os líderes acordassem depois de um sonho ungido pela grandeza da sua figura, que assim ficará selada nos imorredoiros anais que inventariam os heróis da gleba, e lavrassem a decisão de ir ao centro comercial onde se mercadejam ilhas, protetorados, territórios remotos, micro-Estados e outros que tais.
Para além de se comprarem terras que pertencem a países soberanos em vez de peixe, presunto, batatas, sapatos, vestidos, vinho ou tabaco, não há um mercado onde aquelas terras possam ser mercadas, como existem plataformas que permitem o encontro entre comprador e vendedor interessados em transacionar um apartamento. A ordem de compra é colocada na imprensa internacional, através da retórica a que se soma a exibição de uma ameaça: ou o vendedor admite negociar, tendo como preço de partida aquele que é declarado pelo comprador, ou este ordena o seu imenso potencial beligerante para tomar de assalto o território que o vendedor não quer abdicar. Ou a venda é feita pelo preço decidido pelo vendedor, ou a terra é tomada de assalto pela marinha, força aérea e exército. Eis a negação da lógica de mercado, que sucumbe aos caprichos da vontade do momento do chefe máximo das forças armadas.
É como se alguém fosse a um mercado de mantimentos e, perante a recusa do agricultor em ceder uma determinada quantidade de couves pelo preço proposto, o comprador mandasse avançar a guarda pretoriana para tomar pela força as couves que o agricultor recusou regatear. Ou, já que se está no domínio da mercadorização da política internacional (que a vulgariza ainda mais), perante a recusa de venda pelo legítimo soberano, a terra fosse anexada por decisão unilateral daquele que detém a força bruta. Uma espécie de nacionalização de territórios na ordem internacional.
Estes hercúleos exibicionistas da ordem internacional deviam ler Marx para iniciantes. Para perceberem que a mercadorização de terras que se acolhem sob a égide de outra soberania, dando lugar a uma ocupação unilateral se for inviável mercadejá-las, é semelhante à nacionalização de terras tão grata a marxistas de extração autêntica.
Quando, há uns anos, um tio me disse que a esquerda e a direita deixaram de fazer sentido porque se confundem uma com a outra, e uma toma as dores de causas que sempre foram da outra e vice-versa, não lhe dei crédito. Agora, devolvo-lhe a razão com efeitos retroativos.
Às vezes é preciso tirar o escafandro do armário quando a submersão evita males maiores. Esta é a posição de quem desvaloriza consumições, como se estivéssemos formatados para a resignação e aceitássemos males menores depois de prevenirmos os maiores. Uma modesta pose de vida.
Mas um mal, seja maior ou menor, não deixa de ser um mal. Intuímos que nada podemos contra as contingências que desarrumam as vidas. Desses males estamos condenados a sobreviver por estima, como vítimas passivas apanhadas num remoinho inescapável. Mas há males que são a safra calculada das nossas ações e omissões. Devemos calcular, nem que seja por estimativa, os danos que lhes podem ser intrínsecos. A probabilidade de a teoria das probabilidades que usamos estar mal calibrada não pode ser posta de parte; por vezes, é o que faz a diferença entre ser vítima de um grande mal ou de um mal menor. Outras vezes, é a apatia que faz perder as rédeas de um dano, que se agiganta de um mal menor num mal maior.
O escafandro pode ser o último recurso para forçar um mal maior a tornar-se um mal menor. Pode garantir um módico de oxigénio que nos mantém à superfície, embora desligados das consumições que agridem. Não é aceitável que nos resignemos a um mal menor porque sentimos que conseguimos banir o mal maior do leque das possibilidades. O escafandro traduz o exílio interior, a fuga das contrariedades que são o rosto continuado dos dias consecutivos. Um fingimento. Na mnemónica dos dias correntes, é preciso estimar as possibilidades e agir à medida dos seus efeitos estimados. Sopesar as costuras que nos prendem à linha do tempo e ter a lucidez para escolher uma ação ou uma omissão.
Quando nos dizem, com a paciência pedagógica de quem se habituou a transigir com males como se fosse a tradução da humildade, que temos de aceitar um mal menor se ele for alternativo a um mal maior, devemos interrogar se as duas medidas do mal resumem as hipóteses. Estarmos condenados, numa fórmula muito binária, a duas medidas possíveis de mal, é convocar a desistência de outras, mais ambiciosas, possibilidades. É como condenar a iniciativa de quem se insurge contra as possibilidades binárias do mal pela rebeldia de quem teima em acreditar que por fora do escafandro, se avista uma réstia de bem.
A fórmula da resignação é o avesso da interiorização da apatia, um mal constante da civilização em que dizem vivermos.
Um embaraço com as coisas conhecidas, e as consumições que o conhecimento traz pela calada do dia, fazem perguntar se a felicidade não rima com não querer conhecer o conhecido. Uma espécie de anestesia, que adormece o conhecimento e o condena à apatia – ou que, desfazendo os nós de um paradoxo, transfigura o conhecimento em desconhecimento intencional. Uma maneira de encontrar um exílio sem sair do lugar.
Ler jornais tem efeitos adversos sobre a saúde mental. E, todavia, a sede de conhecimento atiça o irrecusável desejo de abrir um jornal e ir lendo primeiro as gordas e, depois, caso as exigências de conhecimento se unam num matrimónio com a curiosidade, as pequenas letras que narram as vicissitudes de um acontecimento. Muitas vezes caldeadas com uma análise superficial, umas vezes, e a desinformação propositada ou apenas eivada de ignorância, noutras vezes.
Um efeito acessório do conhecimento é a entronização da razão: as pessoas querem ter razão. Querem ser elas a ter razão e não as outras que se movem contra a razão que julgam ter. É um concurso de razões ensimesmadas, frequentemente amoedadas na semelhança entre si, mas que um narcisismo não disfarçado, de braço dado com a popularização de uma conceção distorcida de democracia, leva a tê-las como dissemelhantes e até opostas. Nas olimpíadas da razão, os sábios medram numa densidade por quilómetro quadrado sem precedentes. Ninguém se queixe de que vivemos na idade das trevas.
Tudo devia ser virado do avesso. Os embaixadores do conhecimento, os que se atiram de cabeça ao noticiário de todas as geografias, deviam abdicar da incumbência. Começariam à experiência, um dia primeiro, uma semana depois, a jeito de cumprirem a abstinência de um mês mais tarde. Por etapas, o desmame do conhecimento pode causar efeitos secundários de outra grandeza.
Numa fase mais avançada, já depois de desmatada a sede de conhecimento para não ficar atrás da atualidade, seria a vez de perder o vício da razão. O benefício da dúvida seria dado a quem tanto quer esgrimir a certeza indiscutível da sua razão. Numa pose de passividade congruente com a curiosidade intelectual, à espera de que a razão assim ostentada fosse provada. Sem esta exigência, convocar a razão não passa de um exercício frívolo, como quem diz “é assim porque sim”.
Nessa altura, sem a urgência do conhecimento e a fobia da razão como nome do meio, a lucidez estaria pronta a fazer-se ao caminho, removidos os obstáculos que a embaciam: o conhecimento ciclópico e exibicionista e a fobia destravada da razão que a exclui da posse dos outros em virtude de uma predestinação justificada pelo estatuto sublime do eu.
Não era a favor de dividir para reinar. Até porque as monarquias são atávicas. Tome-se o verbo “reinar” no seu sentido metafórico. Contra aqueles que se extasiavam com a procissão em que se torna o exercício do poder, não capitulava perante o dever de confiar nos outros.
(Não conseguia compreender como expressões idiomáticas como “dividir para reinar” conseguiram escapar ao escrutínio dos vigilantes da nova língua e dos padrões do aceitável. A monarquia está nos seus antípodas, só por distração é que não proibiram o uso da expressão. É como o bolo-rei, que resiste certamente por desatenção dos curadores do nosso bem-estar.)
Nunca admitiu: a confiança nos outros era o eufemismo oportuno para se desembaraçar de assuntos enfadonhos (por um lado) e porque o poder era tão desinteressante que não conseguia reprimir a pulsão para a preguiça (por outro lado). Não o podia admitir. Este é um tempo em que fica mal admitir pecadilhos como a indolência. Por mais que a voz comum chegue a terça-feira já a suplicar pela tarde de sexta-feira, pois trabalhar é um sacrifício, há um certo estar burguês que glorifica o trabalho de tal forma que fora do trabalho quase não existe tempo livre, tantas são as empreitadas que estreitam o túnel do tempo.
Um dia, fartou-se do biombo em que se escondia. Fartou-se de ser elogiado por ser o campeão da delegação nos outros. Não podia ser cúmplice de um logro. Confiava nos outros não pelos outros; era já tempo de eles e elas perceberem que não era pelas suas capacidades que mereciam a sua confiança. Confidenciou, primeiro num círculo restrito: o que o movia era a preguiça que fermentava no desinteresse daquelas empreitadas, no poder como força bruta. Depois foi alargando o número dos que o escutavam, boquiabertos, a admitir o porquê de ser imbatível na delegação nos outros. Depressa saltou para o espanto dos seus pares e dos que aspiravam a figurar entre a casta. O espanto não capitalizava a seu favor.
Depois do passa-a-palavra contagiou-se a rejeição. Os seus pares e até os que o aspiravam a sê-lo escusavam-se a cumprimentá-lo. Os sítios de eleição onde a casta amesenda começaram a recusar as reservas de mesa em seu nome – até que ele desistiu de frequentar esses lugares. Havia muita gente que dantes fazia uma genuflexão evidentemente oportunista e que agora evitava andar pela mesma rua. Colado ao rótulo de uma peste, foi despedido e levou uma indemnização acima do tabelado por lei. Era como se estivesse a ser pago para deixar de ser um deles.
Não se arrependeu. Se ser encurralado no esquecimento é a paga pelo desassombro da franqueza, preferia ser olhado como um pária.