Bodywash, “La Renommée”, in https://www.youtube.com/watch?v=j6Q7NZtvnHA&list=RDj6Q7NZtvnHA&start_radio=1
Só conseguia olhar-se se estivesse numa cabine fotográfica, daquelas que tiram fotografias instantâneas para as pessoas renovarem o passaporte. Seguia as instruções. Olhava atentamente para o dispositivo e ficava à espera da obturação, sem pestanejar. Colecionava estas fotografias. Numa parede do quarto, estavam dispostas por ordem cronológica. Era uma manha que descobriu para não recear o envelhecimento.
Quando ia almoçar fora nos dias de semana, começava pela sobremesa. Nos restaurantes limítrofes, habituados a tê-lo como o cliente mais bizarro, os empregados de mesa já sabiam que tinham de abrir a ementa na página correspondente às sobremesas. Também sabiam que, fosse qual fosse a sobremesa escolhida, tinham de trazer uma colher de café. Deliciava-se com o vagar das sobremesas, por ter de as esquartejar em pequenos pedaços devido à exiguidade da colher.
Não percebia nada de artes. Como as pessoas com quem se dava falavam muito sobre as exposições que visitaram, os filmes a que assistiram, os livros que estavam a ler, os concertos na Gulbenkian, e o faziam com uma aparência de erudição que o assustava, fazia questão de se documentar. Lia meticulosamente suplementos culturais dos jornais e seguia em formato digital alguns soi-disant influenciadores na área cultural. Na maior parte das vezes, estava longe de alcançar a leitura de um quadro ou de uma escultura, de um filme que parecia realizado em câmara lenta, de um livro escrito em negação da gramática e da sintaxe que aprendera na escola, ou da música minimalista que não lhe soava a música. Acreditava que nunca destoou nas conversas culturais com as pessoas com quem se dava. Pode dar-se o caso de estar enganado. As pessoas com quem se dava raramente reagiam às suas intervenções culturais.
Sendo ateu desconfiado, tinha interesse em conhecer os rituais das diferentes religiões. Informava-se antes de marcar presença numa missa (ou equivalente). Continuava a ser um ateu desconfiado. Quando lhe pediam para explicar o estatuto, dizia que as pessoas temem a morte e não escondem que suavizam esse medo com a adesão tardia a uma religião.
Nunca tirou a carta de condução, porque tinha a certeza de que, à primeira oportunidade, ia ser apanhado a circular na via da esquerda – em sua defesa, invocaria o britanismo estrutural que, segundo ele, era intrínseco. Depressa se afastava dos pergaminhos britânicos por ser viciado em alho nos cozinhados que preparava só para si e por a monarquia ser das poucas intolerâncias. Não bebia álcool e odiava o ambiente poluído dos pubs (sobretudo se fossem frequentados por súbditos britânicos que, ao chegarem a uma terra estrangeira, a primeira coisa que querem encontrar é o pub britânico ou, vá lá, irlandês).
Nunca casou. Gostava de mais de mulheres para se comprometer na conjugalidade (sem ser defensor, para si mesmo, da poligamia). Nas eleições, votava no partido que mais vezes o tinha irritado durante a campanha eleitoral. Deixou de assistir a manifestações desportivas porque acabava por apoiar sistematicamente a equipa adversária.
O seu grande sonho era correr às arrecuas. Podia ser que amealhasse tempo passado, assim resgatado da sua estática moldura.
