New Order, “True Faith” (live on Top of the Pops), in https://www.youtube.com/watch?v=KzKRyDu1RnM
“I feel so extraordinary
something’s got a hold on me
I get this feeling I’m in motion
a sudden sense of liberty.”
Dizemos realmente o que queremos, ou queremos dizer o que o ar do tempo espera que digamos? Em que medida a liberdade é paralisada pela boa moeda que se impõe, a que devolve à consciência o dever de seguir os cânones que irrompem num determinado tempo? Se disser “sou a favor do respeito escrupuloso dos direitos humanos” e, depois, fizer de conta que são, muitas vezes, aqueles que conduziram o respeito pelos direitos humanos a uma esquizofrenia confrangedora, não estarei a ser cúmplice por inação com todos os atropelos varridos para o sótão do pensamento?
Por sermos gregários, a liberdade é condicionada ao patrulhamento dos outros a que nos sujeitamos. Fica a adejar a ideia de sermos reféns de um paradoxo: entre a liberdade que nos assiste e o temor de passarmos das marcas ao convocá-la quando ela esbarra contra os cânones vigentes, preferimos sacrificar a liberdade individual para sermos bem vistos entre os pares com quem convivemos. Dirão os admiradores da ordem estabelecida: quando há um conflito entre um objetivo individual e o interesse do grupo, o primeiro cede passagem ao segundo; dirão, ainda: é por sermos gregários que devemos ser levados à ordenação das prioridades e, quando elas chocam de frente, devemos preferir as que correspondem ao grupo em que estamos integrados.
Reconhecer que somos tributários de uma liberdade condicionada não deixa vaga a questão de saber se o paradoxo sela uma contradição de termos. Afinal, a liberdade individual é sacrificada, ou pelo menos suspensa temporariamente, quando se impõe garantir um interesse do grupo. Essa trela constrange a liberdade. As rédeas a que nos sujeitamos limitam o eu, porque a sociabilidade imperativa faz sopesar objetivos que podem ser contraditórios e, no viço da contradição, fazemos boa figura quando somos generosos e altruístas e damos preferência ao bem comum.
Sobra um fantasma não esconjurado. De acordo com Mark Fisher, “queremos realmente o que dizemos que queremos?” Ou o inventário das coisas adquiridas (sejam bens, seja o mais importante inventário de valores que nos conduzem) é uma imagem desfocada dos interesses espontâneos, que são temperados pela sua sujeição ao que cada um julgue ser a lente inquisitiva dos outros? E, assim, queremos aquilo que julgamos ser objeto de boa reação pelas boas consciências que servem de bússola ao nosso comportamento.
Esta adulteração imprime a corrupção do eu, que sucumbe aos imperativos do grupo (ou àquilo que, bem ou mal, julga como tal). Ao querermos aquilo que os outros consideram aceitável, contribuímos para uma farsa em andamento contínuo.