Massive Attack, “Hymn of the Big Wheel” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=TYtWyhNC2Os
“(...) Sometime again you’ll turn green and the sea turns red
my son, I said, the power of facts is over my head.”
O que é uma geração? Fala-se e escreve-se sobre gerações como se houvesse um concurso delas. Como se as gerações obedecessem a baias herméticas e fosse possível inventariar as diferenças entre pessoas de diferentes gerações. As gerações estanques têm um problema incorrigível: elas contêm as pessoas semelhantes porque nasceram no mesmo período. Qual é o critério para costurar o período que delimita uma geração? Parece estar vulgarizada a ideia de que uma geração corresponde a uma década – um juízo simplista merecedor de contestação, mas admita-se que a década é o critério. E se uma pessoa nasceu a 30 de dezembro de 1980 e outra a 2 de janeiro de 1981, pode-se dizer que, tendo nascido com uma diferença de quatro dias, pertencem a diferentes gerações?
Para que serve uma geração? No concurso universal de gerações em curso, as gerações são exibidas nas suas diferenças intrínsecas. Quem nasceu na década de noventa é diferente dos que despertaram para a vida na primeira década do século XXI. Será que o tempo, nas suas diferentes medidas, valida diferenças tão impressionantes? Será que o tempo se cola à carne das pessoas que nascem em diferentes décadas, e todos os que pertencem a uma geração são representados com uma homogeneidade que atropela o imenso capital de diferenças que enriquece a espécie humana? Não será a redução das pessoas à fronteira de uma geração um simplismo que desaproveita as diferenças que tecem a sua riqueza?
As gerações são tão diferentes umas das outras? Levar à cena o concurso universal de gerações apatanha outras riquezas da humanidade: o contexto em que nascem e medram as diferentes geografias e os usos embebidos fazem mais pela humanidade do que um artificial arregimentar das pessoas em função da década em que nasceram. E mesmo num lugar próprio, onde a propensão para a homogeneidade de quem aí habita tende a ser confirmada, reduzir a sociologia humana a uma questão de gerações é desprezar a existência de microcosmos geográficos e de exceções que impedem a confirmação de uma regra. Identificar as características da geração Y ou da geração Z (porque acresce o modismo de nomear as gerações, num processo contestável porque, na maioria das vezes, o nome é imposto de fora para dentro) é uma farsa que desvaloriza a riqueza intrínseca da pessoa. Pode haver mais em comum entre alguém que nasceu na década de oitenta e outro que nasceu na década de noventa do que entre a amálgama que é indevidamente agrupada na geração nascida nos anos oitenta.
A que geração pertenço? A nenhuma. Talvez seja pelo temor do envelhecimento, ou pela necessidade de não me deixar abater pelas convenções datadas do tempo; tanto me revejo em certos atributos da geração que nasceu na segunda década do século XX, como noutros me aproximo da geração que veio ao mundo na década de noventa, sem pôr de lado outros predicados que costumam ser representativos da última década do século XX (para não admitir os que me empurram, contra a minha vontade, para a sexagenária década do século XX em que nasci).