Podem-se arrancar as páginas seladas no bronze do tempo, mutilando o livro como se ele renascesse depois? Pode um arrependimento trespassar as palavras desemudecidas pelo averbamento em páginas escritas? Pode o arrependimento exercer esta tirania?
E o que pode mais do que a vontade do autor – a vontade de qualquer pessoa que é inteiramente tutora da sua vida e do que ela transporta através das várias camadas do tempo? O arrependimento é apascentado pelo próprio, isento dos juros tomados por quem queira ser síndico exterior. Por mais que as páginas arrancadas sejam um axioma de insensatez, pois podem ser património imaterial que transcende a vontade de qualquer pessoa, o autor é a única instância que decide sobre o seu destino?
Como conciliar a vontade do autor com o clamor que se mobilize em sentido contrário? Pode o autor isentar-se das suas responsabilidades de autor, do contributo que deu, exercendo um mutismo unilateral que atropela a obra enquanto bem cultural? Pode o desejo de exílio interior do autor sobrepor-se à força gravitacional da sua obra, truncando-a de páginas que a podem ferir como obra?
Dirão os que se sentam no lugar dos juízes da vontade alheia: não se pode emendar os passos do passado, o que foi dito e o que foi feito, e o que não tendo sido dito havê-lo-ia sido se não imperasse o silêncio, as pessoas que passaram a ser presente durante o tempo em que tiveram tempo para o ser, os vícios havidos e os que continuar a haver, os lugares aonde se foi, as decisões tomadas – e as suas consequências; o arrependimento não desterra os atos e as palavras e as pessoas, nem a história se refaz ou se omite por ato unilateralmente estalinista. O que seria suficiente para travar as intenções de todos os autores que, querendo repudiar partes da sua obra, cobram um metafórico arrancar de páginas como ónus da sua soberana vontade.
Os leitores ficam a saber que essas páginas mentalmente arrancadas pelo autor são páginas que, a ser respeitada a sua vontade, não devem ser lidas porque foram amputadas pela vontade de quem as concebeu. Mas o leitor também tem a sua vontade. Que pode coincidir com a do autor, omitindo da leitura as páginas arrancadas; ou pode dele se emancipar, não resistindo à curiosidade mórbida de ler, e talvez com mais atenção, as páginas mutiladas.
O arrependimento não oblitera o tempo correspondente. Os silêncios que o arrependimento impõe ao tempo havido são um dicionário por sua conta. Das páginas arrancadas, sendo elas resgatadas, pode-se aprender muito sobre quem ordenou a mutilação. As palavras também valem pelo silêncio que impõem.