David Byrne, “Road to Nowhere” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=9kwRl1Zv5Q4
“(…) we know where we’re going
but we don’t know where we’ve been
and we know what we’re knowing
but we can’t say what we’ve seen.”
Todos os dias parecia que apenas subíamos a palco. E o palco era a geografia de uma contínua encenação (um esforço moderado para fingir que no palco não se levava à cena uma farsa contínua). Como se todos nos limitássemos a desempenhar papéis atribuídos ao acaso. Não se tratava de estarmos à mercê de divindades; era apenas o peso fortuito de palavras encadeadas e de pessoas que apareciam nas entrelinhas do tempo.
Todos os dias, o palco parecia mais gasto. O chão começava a ficar descarnado. Notava-se a fragilidade do solo, que começava a ceder sob o peso de quem o pisava. Ao mesmo tempo, o ar limítrofe era o espelho dos estragos feitos nos elementos que compõem a casa que habitamos, uma mistura de malefícios diversos, dos quais poucos se arrependiam.
Na subida a palco, para onde éramos atirados contra a nossa vontade, tanta a estranheza com que encarnávamos os papéis que não pareciam à nossa medida, a tensão eviscerava a lucidez. Dizíamos o que a lucidez não deixaria dizer, como se fosse nossa a missão de desafiar os outros que aparecessem pelo caminho. Alguém disse: não estranhem, este é o lastro comum que carregamos, o devir a que não sabemos resistir. As palavras transfiguravam-se em arsenais que sabiam a morte, como se a agressividade tivesse colonizado o sangue e nos limitássemos a cumprir a injúria demorada que desabilitava a espécie.
Uma centelha teimava em despontar no horizonte onde a madrugada irrompia. Havia sempre alguém que não se contentava com a capitulação, que encorpava a empreitada de desmentir o determinismo que cavalgava no ódio que cimentava desavenças. Alguém que se recusava a cumprir um fado forçoso, partindo a pedra da recusa dos palcos puídos que nos condenavam à apatia e, a partir dela, à decadência longamente dolorosa. Alguém que esgrimia poesia contra a beligerância, que ensinava a compaixão contra a insensibilidade, a tolerância contra os imperativos categóricos, a bondade contra a autofagia.
Seria uma empreitada intrépida. Limar as arestas que ferem o futuro por conta do passado desexemplar tem o custo do tempo e da militância que não oferece recompensas tateáveis. Os poetas não desistiam: continuariam a dançar com a poesia como uma adocicada ostentação contra a desesperança bolçada todos os dias.