The Divine Comedy, “The Frog Princess”, in https://www.youtube.com/watch?v=gYsACdyMxRs
(Isto não é uma despedida)
Escrevo diariamente (nos dias de semana) há quase vinte e quatro anos. É um momento diário terapêutico. Exercitar a escrita é arranjar um pedaço do dia para hibernar, como se fosse um refúgio necessário por causa do mundo mau que há lá fora.
(Que não seja treslido: o mundo lá fora tem muitas pessoas e coisas belas que merecem contemplação e elogio e também a atenção da escrita.)
A escrita torna-se um biombo. Sem preencher todos os requisitos de um biombo, pois um biombo é feito para ocultar algo do olhar exterior, e o produto deste exercício terapêutico é a escrita que fica à disposição da curiosidade do(a) leitor(a). Mas é um biombo, na medida em que o processo que dá origem à escrita exige uma hibernação temporária em que procuro um desligamento do tempo e do espaço. Em que me escondo do mundo.
Todos estes anos depois, chega ao meu entendimento outra virtude deste artesanato da escrita. O biombo serviu para ficar vacinado contra o exercício de funções públicas em regime de notoriedade pública. Vinte e quatro anos de escrita diária cobrem imensos assuntos, desde o ensaio, ao comentário da atualidade, à (tentativa de) ficção, ou à revelação de estados de alma (mesmo que muitas vezes disfarçados pelo uso da terceira pessoa do singular ou da primeira pessoa do plural). Nos anos iniciais, a atualidade interessava-me mais. É nesses anos que se encontram os textos mais analíticos e sem o cuidado de usar a diplomacia para não ferir suscetibilidades nem me comprometer (ou as possíveis ambições, todavia ausentes à partida). Amigos que me liam na altura comentavam a propensão para a crítica fácil e alguns deles não compreendiam como me comprometia com os textos aqui publicados; esses textos podiam funcionar como espantalhos junto dos outros.
Nunca tive ambições de ser um servidor público – entenda-se, um servidor público por nomeação política para o exercício de funções de uma forma ou de outra políticas e com pelo menos alguma visibilidade pública. Assim sendo, nunca senti a necessidade de impor à escrita os freios exigíveis para não ser o elefante na loja de porcelanas, terraplanando as hipóteses de ascender a sinecuras que me pusessem a perorar em público com a mesma gravitas do ministro da administração interna. Nem o faria mesmo que trouxesse à colação essa ambição (inexistente, não me canso de repetir); a liberdade pessoal e as suas ramificações (para o que interessa neste contexto), que são a liberdade de expressão e a liberdade de escrita, estariam sempre acima de outras considerações.
Quase vinte e quatro anos depois, dou conta de um propósito oculto que ajudou a concretizar a minha liberdade pessoal e a desambição de cargos públicos com visibilidade: a exposição da escrita por este meio não foi por acaso, foi intencional. Acrescento duas notas para contextualizar o raciocínio.
Por um lado, o que está aqui escrito é público e sem filtros. Não o é como exibição de narcisismo ou deleite de coragem ao jeito de um forcado ribatejano. Mesmo que sejam pouco(a)s leitore(a)s, a disponibilidade pública dos textos torna-os um capital de leitura potencial para quem, por qualquer razão, se sirva de um motor de pesquisa para chegar ao meu nome e à minha pessoa. Já me aconteceu, em provas académicas, ouvir uma conversa entre três membros do júri que tinham descoberto estes textos e sobre eles comentavam.
Por outro lado, não quero que o(a) leitor(a) tresleia as minhas intenções e conclua, precipitadamente, que me estou a colocar num pedestal, exagerando na importância que atribuo a mim mesmo. Essa pode ser a conclusão que retiram depois de lerem o que acabo de confessar: estes textos, o seu desassombro e a sua exposição pública, funcionam como o antídoto necessário para ninguém me incomode com convites para ser um alto servidor público nomeado (que teriam sempre o não como resposta). Nunca aconteceram, esses convites, nem insinuo que fosse tão recomendável para estas sinecuras que seriam elevadas as probabilidades de ser para uma delas convidado.
À outrance, descobri que a escrita neste formato foi o antídoto para apagar as probabilidades de vir a ser considerado ao menos como hipótese para o exercício de cargos daquela natureza. Os potenciais interessados (se é que alguma vez existiram – muito duvido que tenham existido) terão mudado de intenções assim que encontraram estes textos. Esta escrita, assim tornada pública, foi o meu contributo para que esses potenciais, eventuais (e se calhar nunca existentes) interessados na minha contratação tirassem o cavalinho da chuva – pedindo de empréstimo um anexim ao povo.
Há quem diligentemente construa currículo para propósitos futuros. E há quem monte pacientemente o seu descurriculo, somando provas incontestáveis de como não é recomendável para sinecuras destas.