The Cure, “A Strange Day” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=FzJUWfbx-T0
“(...) I close my eyes
move slowly through drowning waves
going away on a strange day.”
Dinamita os embaraços com uma anestesia doseada. Aos instantes presentes que resgatam embaraços havidos, e parece que eles são reaviados no instante do seu resgate, lava-os com a cal que embacia a memória. E lembra-te: todos têm à sua conta um inventário de embaraços. Quase sempre, guardam-nos para memória futura, que a sua pública revelação agrava o agravo do embaraço.
Do leito dos embaraços, a formidável observação da tua fragilidade. Por mais que zombes dos embaraços dos outros – os que presencias e os que chegam ao teu conhecimento – e que imagines os demais a escarnecerem dos teus, este é um caldeirão em combustão constante a que ninguém escapa. Propões uma trégua sem prescrição, para que todos se obriguem à circunspeção quando esbarram no embaraço do outro. Um código de conduta: não ridicularizarás o outro quando estiver afogado no seu embaraço; o embaraço do outro é o embaraço que já atravessaste e o que ainda virás a tutelar.
Não interessam os pergaminhos do embaraço. Pode ter sido o acaso de uma distração, ou uma contingência que só talvez os crentes de incidentes cosmicamente revelados acreditem, ou então o resultado de uma ação bem-intencionada, mas mal concluída, ou o saque que um ato desastrado causou na serenidade que querias companhia perene. Aos juízes dos embaraços alheios, por sua vez alheios ao código de conduta por ti proposto e, decerto, largamente não correspondido, não interessa inventariar a linhagem de um embaraço. Esquecendo-se da sua contabilidade privativa com os embaraços havidos, troçam do embaraço dos outros. Ao fazê-lo, sem saberem, acabam por abrir a janela à troça coletiva dos seus próprios embaraços – por muito que os conservem no reduto de segredos zelosamente guardados e estejam convencidos de que os demais não têm conhecimento deles. Nem é preciso: assim que troças dos embaraços dos outros, não só quebras o código de conduta que propuseste como franqueias o conhecimento e a troça coletiva desatados pelo embaraço que te atraiçoou.
A vida de um embaraço é eterna. Por mais que finjas que não te lembras de um embaraço, ele está emoldurado a tinta permanente num qualquer canto da memória. Revelável, a qualquer momento, como um punhal que se encosta à jugular e povoa a insónia com medo de que a revelação aconteça no dia seguinte.