Brendan Perry, “Babylon”, in https://www.youtube.com/watch?v=7rTFsWzXyl0
O castiço pleiteava em tribunal uma indeminização porque foi à caça e bebeu de mais durante os prolegómenos, tendo despistado um jipe e ficado ferido. Ficou meio ano sem trabalhar enquanto não curou as feridas da aventura. Compareceu em tribunal a imputar a culpa à herdade que organiza as caçadas e prepara uns petiscos e põe vinho à disposição antes de os intrépidos caçadores pegarem nas armas e se atirarem às presas.
No douto entendimento do castiço, a culpa pelo sucedido teria de ser atribuída a quem disponibilizou bebidas alcoólicas antes de uma caçada. Nunca a ele, coitado, destituído de livre arbítrio, como se a sua obrigação fosse empilhar sucessivos copos de vinho só porque o vinho estava ali exposto diante dele. Eis um grande problema civilizacional dos tempos correntes: os demónios que atuam por interposta pessoa e esvaziam o livre arbítrio.
O caso começou mal desde o início: se a herdade prepara um ritual de iniciação à caçada que consiste em embuchar petiscos cheios de colesterol, fica por conta de uma certa idiossincrasia nacional; juntar à festarola garrafas de vinho pode ser a tentação a que castiços como aquele não conseguem resistir, pois a sua vontade individual é substituída pelos demónios que esbracejam a tentação da bebida. Há anos ouvi numa mesa de café ao lado outro castiço a atestar, com segurança cem por cento científica, que o cunhado, motorista de camiões TIR, só conduzia bem depois de beber uma garrafa de vinho tinto ao almoço. O castiço que apareceu em tribunal a pedir que o juiz culpasse a herdade organizadora da caçada por ele ter abusado do vinho deve ser da mesma cepa.
Não somos ninguém para travar as tentações que aparecem pela frente. É tão fácil encomendar a responsabilidade aos outros quando é o próprio a decidir meter pela goela abaixo o segundo copo, e o terceiro e o quarto e o quinto – e assim sucessivamente. Como se o castiço fosse obrigado a beber só porque na sala estavam abertas, ou prestes a abrir, garrafas de vinho à disposição dos comensais. Talvez lhe caíssem os parentes à lama se tivesse ativado a responsabilidade de fazer o que devia ter feito. Ir à caça sob efeito do álcool é o cocktail para uma catástrofe. O castiço acabou por ter sorte: a aventura saldou-se pelo capotamento do jipe que conduzia e por umas costelas partidas.
(Não sei se isto faz lembrar as informalidades de um certo ministro que tutelou anos a fio a polícia judiciária.)