Kae Tempest, “Europe Is Lost” (live at KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=ffxrCDvJ8LI
Eis o otimismo armadilhado do EUobserver, ao fazer contas às contas das eleições da Saxónia-Anhalt (tradução da minha responsabilidade):
“Não é uma consolação, mas é um contexto que, infelizmente, esteve ausente na maioria da cobertura mediática internacional. A população da Saxónia-Anhalt é de 2,1 milhões de habitantes. Destes, apenas 1,7 milhões tinham direito de voto. A população da Alemanha é de aproximadamente 83,5 milhões de habitantes. Isto não minimiza o choque da “primeira vitória da direita fascista na história da Alemanha do pós-guerra, etc., etc.”, mas coloca a situação numa perspetiva que vi ser mencionada em precisamente zero órgãos de comunicação social estrangeiros.” Matt Tempest, EUobserver, 16.09.26.
Desde que a extrema-direita começou a crescer pela Europa fora (e não só), tem prosperado uma análise catastrófica que a associa a pressões existenciais sobre a democracia liberal. As reações variam entre o clamor pungente dos que temem a progressão eleitoral dos neofascistas como presságio da extinção da democracia e a minimização dos efeitos telúricos da direita radical, porque os “autênticos democratas” estão de atalaia e não deixarão passar os que, atropelando a História, esgrimem as trevas totalitárias como um “novo amanhã” que sobressalta os que vigiam a saúde da democracia.
Entre o estado de pré-apocalipse de uns e a minimização de outros, vai um imenso espaço onde cabe uma análise temperada e refletida sobre as ameaças que pendem sobre a democracia, nas quais, por imperativos de equidade, deviam ser incluídas pulsões totalitárias de outra linhagem. (Os “democratas autênticos” conseguem ficar indiferentes ao cenário dantesco, e cada vez mais perto de se consumar – a crer nas sondagens recentes –, da segunda mão nas presidenciais francesas entre Marine Le Pen e Jean-Luc Mélanchon?)
Matt Tempest, no editorial do EUobserver, abre um parêntesis (literalmente) na análise às eleições em Berlim marcadas para 21 de setembro para regressar à digestão das eleições da Saxónia-Anhalt, a primeira vitória eleitoral dos neonazis desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Nesse parêntesis, como quem ainda está mergulhado num pesadelo mas precisa dele se libertar, o jornalista relativiza a vitória da AfD. O universo de eleitores era de apenas 1,7 milhões, num total de cerca de 83 milhões de habitantes na Alemanha. Há terramotos devastadores, os que deitam abaixo cidades inteiras e semeiam mortes a eito. E pequenos sismos, que mal são sentidos pelas pessoas, tão fraco o abanar da terra. O que Tempest está a sugerir é que as eleições na Saxónia-Anhalt correspondem a um “sismozinho”. Não passam de um epifenómeno.
E assim depressa passamos da certificação do neofascismo antes do tempo para a sua desvalorização também apressada. Há quem esbraceja o fantasma do fascismo com ligeireza; e há quem, com idêntica ligeireza, condena a vitória eleitoral dos neonazis à irrelevância só por causa da insignificância dos números. Se os primeiros, alguns deles exibindo muito duvidosas credenciais democráticas, partem de um pressuposto catastrofista por antecipação, os que se revirem no método de Tempest escorregam para um negacionismo oportunista. Faz lembrar aquelas pessoas que tiveram um sério contratempo na vida e se esforçam por fingir que tudo não passou de um pesadelo.
Fico com uma impressão negativa de alguém que se serve de números para negar uma realidade dolorosa. Como há quem torture os números até confirmarem o efeito pretendido no início, esta análise no EUobserver congemina uma manipulação criteriosa dos números para desvalorizar a vitória dos neonazis na Saxónia-Anhalt. Em rigor, Tempest não foge da dura realidade, mas doura a pílula ao procurar situar os números (de eleitores) no contexto em que coloca. Agarra-se aos números que são convenientes, à espera que desfaçam o pesadelo político que, contudo, não se pode escamotear ao tropeçar na vitória eleitoral dos neonazis num Estado federado da Alemanha.
O povo aconselha a que não sejamos reféns do oito nem nos excitemos com o oitenta. É o caso dos efeitos sísmicos que invariavelmente se levantam quando partidos de extrema-direita ou da direita radical ganham eleições ou, não as ganhando, conquistam presença significativa na geografia política de um país ou de uma região. Não é aconselhável cair no logro dos apocalípticos que pressentem o fim da democracia com o beneplácito de todos nós, os que tolerámos que os intolerantes pudessem concorrer a eleições. Nem é bom critério disfarçar uma vitória eleitoral da extrema-direita à boleia da manipulação de números, como o fez o editor do EUobserver. Há quem se sinta bem com uma temperatura exterior de dez graus centígrados, advertindo que seria pior se estivessem dez graus negativos e, como não estão, a temperatura está agradável, conclusão que nunca será secundada por aqueles que adoram viver sob os efeitos da canícula sentida acima dos trinta graus.
O critério matemático de Tempest é duvidoso. A vitória dos neonazis é um problema, nem que fosse num minúsculo lugarejo habitado por trezentos eleitores. O problema é pressentir que a semente foi lançada e que, a prosperar noutros lugares, pode dar origem a mais vitórias eleitorais da extrema-direita e da direita radical, espalhando o neofascismo e o neonazismo pelo mundo fora. Esse efeito, que o futuro tratará de confirmar ou desmentir, não pode ser marginalizado a coberto de um utilização distorcida dos números. Sem ser contestável a validade aritmética da análise de Mark Tempest, a sua significação simbólica não pode ser afastada pela fria leitura dos números apresentados. A vitória da AfD vale muito mais do que esses frios números possam sugerir (e preocupa outro tanto).