Morphine, “Super Sex”, in https://www.youtube.com/watch?v=2_FJn5jGG38
Eu sou um tipo de direita. Hoje, esta afirmação pode ser entendida de muitas maneiras. Para um esquerdista, alguém que se diga de direita ou se protege dizendo que é de direita moderada, ou é logo encostado à extrema-direita (ou ao fascismo, se a avaliação partir de quarteis situados ainda mais à esquerda). Sendo de direita, não me incomodam os ensaios exegéticos que de mim façam. Em comentários a artigos de opinião por aí publicados, divirto-me quando fanáticos de direita me colam aos socialistas e, já aconteceu, à esquerda caviar; e quando esquerdistas de diversas extrações me colam ao fascismo. Se não soubesse o que sou, estaria sitiado por esta esquizofrenia.
O parágrafo prévio serve de declaração de interesses e ajuda o(a) leitor(a) a situar-se perante a “albertogonçalvização das coisas”. Alberto Gonçalves é um cronista que não deixa ninguém indiferente. Há dias, uma jornalista veterana comentava, a propósito da atribuição de um prémio da União Europeia a Cavaco, que Cavaco não deixa ninguém indiferente e tem anticorpos à direita e à esquerda (o que, para a jornalista que frequenta os salões da Quinta da Marinha, é o maior elogio que se pode fazer a Cavaco). Com Alberto Gonçalves, o efeito é semelhante, salvaguardadas as devidas diferenças.
Quem lê Gonçalves aprende a lidar com uma constelação de certezas inabaláveis do cronista e que é a alergia às esquerdas que o mobiliza. Este posicionamento ontológico não me é estranho: a arrogância intelectual das esquerdas (em doses variáveis, da esquerda para a sua esquerda), a pose de superioridade moral, os vieses intencionalmente construídos, os imperativos categóricos que colocam fins à frente dos meios, as causas que são de adesão obrigatória sob pena de motivarem julgamentos sumários que condenam à apostasia, a dificuldade em conviver com a liberdade individual e a consequente liberdade de expressão que pode motivar dissidências – este é um breve resumo que pode motivar alguém de direita a ser de direita (também) porque não consegue ser de esquerda. A “albertogonçalvização das coisas” parte desta rampa de lançamento. O cronista não defende ideias ou, nas vezes em que as defende, é para se defender da litania das esquerdas. Dá a impressão de que Gonçalves é de direita pela alergia que as esquerdas lhe causam.
Daí para a frente, cessa a minha identidade com Gonçalves. Admito que, se lesse este texto, a primeira reação de Gonçalves seria uma daquelas tiradas típicas da soberba de quem se coloca vários degraus acima do oponente, desvalorizando-o como princípio de conversa, que é quase ao mesmo tempo o fim da mesma. Estou a imaginá-lo a dar corda ao sarcasmo verrinoso que desfaz o oponente de cima a baixo, arrumando-o num canto insignificante, qualquer coisa como “não me tira o sono a falta de identidade de fulano comigo, pois tenho coisas mais interessantes para fazer na vida”.
É aqui que começa a minha irritação com a “albertogonçalvização das coisas”. A pose assertiva, as verdades à prova de contestação – ele que, sendo sociólogo, teria muito a aprender com o método de uma ciência humana vizinha, a Filosofia, que ensina a saber fazer perguntas –, o abuso da expressão “a verdade é que”, as comparações improváveis que são infundamentadas (não o sendo, todavia, por serem improváveis), o cinismo que disfarça um humor mal amanhado, as figuras de estilo que escorregam para expressões pueris, a contundência como arma de arremesso contra os que se mobilizam contra aqueles que, por antinomia, são defendidos por Gonçalves, o desdém assíduo, um conservadorismo atávico que o leva à ausência de manifestações contemporâneas de artes (com poucas exceções, o cinema, a literatura e a música de outrora – outrora significa décadas de 50 e 60 – são liminarmente arrumados na categoria de execrável para cima). Não poucas são as vezes em que comete inexatidões históricas ou omite fragmentos que seriam determinantes para chegar a conclusões diferentes das que aparecem vertidas nos seus textos.
O método “albertogonçalvização das coisas” exagera na simplificação, terraplanando partes importantes que são omitidas da análise e que, se não fossem, poderiam desaguar em posições e argumentos diferentes. Os truísmos são frequentemente a arma argumentativa decisiva, deixando de fora uma densidade analítica que causa danos irreparáveis aos seus argumentos.
Na gramática da “albertogonçalvização das coisas” tem de haver lugar às luvas de boxe para as irrecusáveis contendas com os seus opositores – aqueles que caem no seu ringue por exporem opiniões que merecem a oposição veemente do cronista, e aqueles que a ele reagem e não ficam sem resposta, que Alberto Gonçalves tem de ficar com a última palavra, parecendo aqueles adolescentes imaturos que não sabem quando sair de uma peleja. Alberto Gonçalves é um soldado da opinião política (mas dos rasos).
O que me incomoda na “albertogonçalvização das coisas” não é tanto o que é defendido (ou o que é criticado), mas como é defendido ou criticado. Ultrapassa uma questão de estilo. Empurra Gonçalves para um estatuto semelhante a muitos dos esquerdistas cheios de certezas e com pose de superioridade moral. O que os separa são as ideias. O compromisso e o método de intervenção, que não diferem tanto assim.
Alberto Gonçalves está no top 3 dos cronistas que mais irritação me causam. Não deixo de o ler. Tal como não perco uma única prosa publicada de S. Boaventura Sousa Santos (que, lamentavelmente, terá sido “cancelado” depois de conhecida a sua linhagem de irresistível D. Juan), Manuel Loff e outros que tais: a sua serventia é a de servirem de avesso de uma bússola. Quando tropeço na “albertogonçalvização das coisas”, dou comigo a querer ser um tipo de esquerda (o que, todavia, não se materializa por manifesta impossibilidade).