Slowdive, “When the Sun Hits”, in https://www.youtube.com/watch?v=QSx5zNxiXz4
“A hiperpolítica surge e retrai-se periodicamente, afigurando-se não tanto um corretivo da pós-política, mas tão-somente mais uma manifestação da mesma.” Anton Jäger, Hiperpolítica: Uma análise sobre o fenómeno da politização extrema sem consequências políticas, Lisboa: Penguin Random House, 2026, p. 124.
À esquerda, lamenta-se que os canais de televisão estendam constantemente a passadeira vermelha ao líder da extrema-direita, perdendo-se a conta às vezes que foi entrevistado. À direita, protesta-se contra os jornalistas que tratam “a direita” com desdém e avalizam comportamentos e atitudes das esquerdas que seriam demonizados se partissem da direita. Todos terão um pouco de razão – e, no fim de contas, a ninguém assistirá sequer um módico de razão. Ainda não aprenderam que o jornalismo e as pessoas que o praticam devem ser independentes. O que tanto serve para certificar os protestos de uns e de outros como para os esvaziar, quando a subjetividade do jornalista sobe ao palco.
Nas acampadas em curso, à direita insurgem-se contra o romantismo dos jornalistas que narram os protestos pela falta de habitação digna e a carestia de vida e contra o enlevo com que reportam uma assembleia cidadã. A esta direita, faz espécie como os jornalistas, tão ciosos da defesa dos desprotegidos e da democracia, transigem com a linhagem totalitária dos movimentos que, numa colagem oportunista às causas de origem dos protestos, conseguiram tomar conta dos acontecimentos e da sua narrativa.
À esquerda, nada disso importa, a não ser alinhar e manifestar solidariedade com as causas que atearam os protestos de rua. Os métodos típicos de autogovernação revolucionária e algumas palavras de ordem que, se concretizadas, dariam lugar à implosão do regime político vigente e à sua substituição por um caldo revolucionário de má memória são desvalorizados.
À esquerda, há quem considere desproporcional, e inaceitável, a violência da polícia quando arremeteu contra os manifestantes. A violência policial faz lembrar os métodos da polícia durante a ditadura. Os métodos antidemocráticos das acampadas não merecem comentários às pessoas de esquerda moderada: o “folclore” característico destas ações diretas, com protagonismo de jovens não politizados ou sujeitos a uma politização básica e distorcida, é efémero e esgota-se quando se esgota a causa que os mobiliza para ações de rua. Não chegam a perturbar os alicerces da democracia representativa.
À direita, importa denunciar a linhagem antidemocrática de quem ocupa a rua para protestar e acaba por ser instrumentalizado pelos movimentos subversivos do costume, afastando os partidos tradicionais da luta encenada nas ruas, por mais que políticos desses partidos desçam à rua e tentem uma colagem às causas para evitar mais danos à sua popularidade.
À esquerda, os de direita são fascistas ou cúmplices deles quando branqueiam a violência policial. À direita, os de esquerda que se mobilizam nas acampadas são antidemocráticos. Se todos tiverem razão, já sobram poucos democratas. Não andamos longe do abismo. Paradoxalmente, é o vazio da hiperpolítica que nos vem salvar do abismo.
Como observador dos acontecimentos, algumas perplexidades motivam um punhado de comentários. Primeiro, a violência policial em manifestações que descem à rua é um assunto sensível. Os traumas do Estado Novo continuam a fazer-se sentir. Para quem governa e tutela as polícias, o recurso à força bruta devia motivar uma ponderação cuidadosa. Por mais que à direita argumentem que a polícia foi provocada, a reação epidérmica a episódios de violência policial devia aconselhar a prudência antes de fazer cair os bastões. Para quem governa, o recurso musculado à força evoca “outros tempos” e cola o poder político a um estigma autoritário. No calor da violência policial, houve populares a sentenciar que já estamos no “fascismo”. Já chega do governo se colar ao Chega.
Em segundo lugar, compreendo que seja do interesse de pessoas de esquerda moderada que se concentrem na substância do problema (as causas dos protestos que levaram as pessoas a ocupar praças do Porto e de Lisboa), passando ao lado da forma de organização e da retórica dos manifestantes. As palavras de ordem, quando se limitavam a protestar contra a falta de casas e o elevado custo de vida, começaram a dar lugar a outras palavras de ordem, escritas ou ditas em pregões ou em assembleias populares, que devem motivar preocupação nos democratas.
Podem pessoas de esquerda (esquerda moderada e esquerdas radicais) condescender, alegando que essas palavras de ordem são simbólicas e não devem ser entendidas literalmente. Todavia, são palavras entoadas e ditas; verbalizam ideias que se afastam da democracia liberal e entronizam métodos de decisão que, por mais que os seus proponentes insistam em legitimar como genuinamente democráticos, não o são. Ainda que a voz seja gerada espontaneamente no auge de uma assembleia popular, o método de decisão (o voto de braço no ar) é uma aberração democrática. A autonomia de cada um é comprometida porque o instinto de manada comanda a dinâmica da assembleia popular: uns iluminados, mais esclarecidos do que os restantes, tomam a iniciativa e convidam os outros a aderir irremediavelmente ao que é levado à “votação”. Os braços levantam-se em efeito dominó, uns atrás dos outros, com receio de não contribuírem para uma votação tão democrática e de serem tratados como possíveis párias.
Por mais que reivindiquem o lugar centrípeto da genuína representatividade do povo, as assembleias populares limitam-se a representar as muitas centenas ou os escassos milhares que descem à rua. Chamar a si a representatividade dos que sofrem porque os capitalistas condenam o povo a não ter habitação condigna e alimentam os lucros à boleia da inflação é uma manobra de autojustificação sem cabimento. Primeiro, porque ninguém perguntou aos que ficaram de fora se são representados pelos acampados. Segundo, por maior que seja a apatia que convida a ficar em casa, se são vítimas da coligação entre capitalistas e poder político em exercício, é do seu interesse engrossar as multidões que fazem ouvir a sua voz nas praças D. João I e do Rossio. E, mesmo assim, ficam em casa.
