David Sylvian & Ryuichi Sakamoto, “Forbidden Colours” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=9lWcdwzfPR8
“I’ll go walking in circles
while doubting the very ground beneath me
trying to show unquestioning faith in everything
here am I, a lifetime away from you (...).”
Enrubescido na sua ira erudita contra os que ele próprio avaliava como eruditos de faz-de-conta, o erudito atirou-se contra o gongorismo e a falaciosa atração pela erudição dos falsos eruditos. Manifestou-se contra a erudição de cordel, as citações só para impressionar e, todavia, com pouca adesão ao contexto, daqueles que querem brilhar ao citar grandes vultos e, descobrir-se-ia se fosse possível fazer as vezes de uma mosca, as citações tinham sido arrebanhadas a jeito de uma oportunidade para cintilar diante da audiência.
O erudito especula (não se pode transfigurar numa mosca, hélas). Não pode assegurar, não tem meios para garantir, que o conhecimento dos pretensos eruditos que ataca é ciclópico ou se foi apenas um arranjo oportunista para se colar a uma oportunidade; e que, antes de resgatar essa citação do vulto da humanidade, nunca lera uma frase da sua obra. A não ser que o erudito esteja, distraidamente, a escorregar para um espelho de si mesmo.
Ao colocar-se na posição de meta-analista da erudição, o sumo erudito paira sobre os que se candidatam ao estatuto de erudito ou que usurparam esse estatuto sem serem reconhecidos no mercado da erudição. Se estendêssemos a teoria da especulação como força motriz da avaliação dos outros, poder-se-ia questionar se o erudito não tem inveja dos demais que se colocaram no pedestal da erudição. Quando os pares se consomem em rivalidades espúrias, é sinal de que dispensam a concorrência. Um erudito é espécie única. Um estatuto que cimenta o lugar cimeiro de uma linhagem que se autojustifica com uma pose de aristocrata cultural. Sendo espécime único, os outros que se candidatam ao estatuto, ou que o reivindiquem para si, são aldrabões que não respeitam o erudito como espécime singular.
A tanta erudição não é suficiente para abrir os olhos do autonomeado erudito? Não chega para o educar nas virtudes da concorrência? E no método da tolerância (até como critério para o erudito exercer alguma pedagogia junto das massas)? Quando denuncia o logro que os outros (não por si reconhecidos) eruditos são, quando apresenta provas de como a sua erudição é feita de uma linguagem e da articulação de argumentos impenetráveis para a maioria, o erudito-mor não refém de um autojulgamento?
Se estas almas que deviam ser exemplares não se incomodassem com questões insignificantes, talvez tivessem mais tempo para se dedicarem à sua especialidade – serem eruditos, reconhecendo que a pluralidade de eruditos é legítima. Não alcançam que, de cada vez que escorregam para a mesquinhez e atacam aqueles que, na sua pobre cabeça, disputam consigo a sinecura de erudito-mor, estão a perder tempo que seria útil se fosse utilizado no património da erudição que está à espera de ser levantado.
Ou então, cientes de que a erudição pode conviver com a humildade, dispensar-se-iam destes pecadilhos de porteira. Porque uma porteira é uma porteira e um erudito é um erudito (sem ofensa às porteiras).