Underworld, “Born Slippy” (live at Glastonbury), in https://www.youtube.com/watch?v=sQGOlawi6n0
“I’ve grown so close to you.”
Um fantasma em carne e osso. Adeja sobre as fundações do futuro, agarrado ao passado que não conseguiu cumprir (ele dirá, ainda ungido do ressentimento que não consegue disfarçar, que não o deixaram ilegitimamente concretizar). Assombra os sucessores com a pose de catedrático de aviário e cobre-os com a humilhação da improficiência.
É um fantasma a cores que já não se esconde atrás de silêncios e exerce o direito (que todos têm) de falar. Diz coisas e muitas. Ajuíza, e muito – dele deve ser o estatuto de superioridade moral. Beneficia de uma incorrigível propensão para o sebastianismo que é apanágio de um povo gasto pela usura do passado que fracassou no cumprimento de promessas. É a centelha que desponta no horizonte de um numeroso séquito que se dividiu em variegadas propostas que participaram nos últimos concursos eleitorais. Os que se exaltam de cada vez que o fantasma de carne e osso assoma à superfície protestam que só ele pode federar os que se dividem em diversas fações dentro da mesma família de ideias.
(Considerar que essas fações fazem parte da mesma família de ideias é um abuso que dissipa as diferenças irreconciliáveis que, se fossem reconhecidas como deviam sê-lo, obstariam a usar a categoria de “fações” como representação de uma só família de ideias dispersa por diferentes sensibilidades).
Um fantasma que não esconde o rancor, pela pose corporal que transpira agressividade por todos os poros, no tom belicoso com que encena a oratória, ainda sem a digestão feita de um casamento de conveniência que o depôs do poder. No verso do rancor avultará a mal escondida intenção de federar as diversas sensibilidades que se reúnem sob a sua saia protetora, mesmo que se proponha aceitar o apoio de radicais e reproduza, com exata simetria, o casamento de conveniência que tanto o indispôs.
Para além dos adeptos que se agarram a messiânicas tábuas de salvação tão do agrado de uma portugalidade fatalmente incorrigível, o fantasma andante é o idiota útil ao serviço dos que se arregimentaram no casamento de conveniência que o condenou ao desterro interior. O trunfo nem precisa de ser atirado para cima da mesa pelos próprios; o seu adversário, em forma de vulto consubstanciado, joga o trunfo a favor daqueles que outrora se mobilizaram para o depor do poder. Validando a teoria dos anticorpos: o cimento de alianças improváveis é provido por personagens que mobilizam a união dos seus detratores.
O fantasma que não esconde o rosto e anda com febre de protagonismo atiça uma retórica combustível que funciona como um arsenal impiedoso sobre o afinal adversário que foi seu delfim no passado. A oposição já não é feita pela oposição, é tecida pelo fantasma extraído da hibernação que já não se limita a gerir silêncios e a atestar as esperanças de uma vasta audiência que não se entusiasma com aqueles em quem votaram. O fantasma continua a povoar muito espaço público para perorar, diagnosticar e subliminarmente criticar sem critério, enredando-se na ambiguidade de quem se limita a falar no exercício da cidadania, mas fundeia as esperanças dos que não escondem uma certa orfandade.
De um lado da trincheira, o aplauso aquece a reabilitação de um cadáver político. Alimentando um sebastianismo sacramental, pois o futuro é sempre a promessa que corrige as fragilidades dos diversos passados – mesmo que este futuro seja, apenas, um passado inteiro como proposta de reciclagem. Do outro lado da trincheira também se aplaude a ressuscitação do fantasma, mas em silêncio. Saberão que a subida a palco do fantasma, já despido da condição de vulto oferecido em promessa, pode ser o gatilho de que precisam para saírem do torpor a que os últimos concursos eleitorais os condenaram. Ser-lhes-ia oferecido o trunfo máximo se o fantasma abrigasse sob a sua asa as várias sensibilidades que agora aparecem divididas, pois precisam da confirmação, como fator de mobilização, da radicalização em curso dos seus adversários. E depois há aquelas verrinosas personagens que se sentam na plateia, exercendo a sua suposta imparcial condição, e que chegam lume à fogueira de um protagonismo em que se procura reabilitar um fantasma saído dos claustros.
A política, e só a política, parece confirmar a teoria da reencarnação, inverificável pela ciência. No caso vertente, uma reencarnação materializada numa versão requentada da mesma pessoa. Os gatos têm sete vidas, segundo a sabedoria popular. E os fantasmas, quantas vidas têm? Mas talvez a interrogação mais avisada seja a seguinte: que serventia tem um fantasma de carne e osso, senão trazer o passado de volta ao futuro (assim condenando o futuro a ser uma mera intermitência do passado), sem acrescentar novidade a um domínio que tanto dela carece?