dEUS, “Keptman”, in https://www.youtube.com/watch?v=zVDTIfy4ag0
Estamos dependentes de um lobo mau que sobre nós adeja em forma de ameaça imorredoira. Outro, agora autoemproado em (candidato a candidato a) figura salvífica, prefere esbracejar a figura do demo. Nós, simples mortais à mercê das contingências da vida, da governação e de outros sortilégios avulsos, acordamos com medo, atravessamos o dia penhorados pelo medo e vamos dormir um sono sobressaltado por pesadelos tingidos por um medo que há de ser ainda pior.
A crise – as crises – nunca saem de cena. Às vezes ponho-me a pensar se sabemos (saberíamos) viver sem que o fantasma da crise faça cair os seus tentáculos pegajosos sobre nós. Desafiados pelos contornos de uma crise, não baixamos a guarda, estamos sempre de atalaia. Até estamos preparados para exagerar os sintomas da crise para não cairmos na letargia provavelmente suicida própria de quem se desmazela no apuramento das contrariedades.
Há pensadores que embainham um lugar-comum quando a crise desponta: a crise é um desafio, às vezes um desafio existencial, mas pode ser uma oportunidade. Para os apologistas da crise irremediável, que não se desliga dos oráculos por cumprir, a mnemónica da crise como oportunidade é lesiva. Podemos distrair-nos do essencial (a crise) enquanto sonhamos com o reverso da crise, se algum dia for achado. A crise como oportunidade é um achado de quem está dominado pelo efeito anestésico e convida os outros a serem súbditos da crise. Uma crise só pode ser uma oportunidade quando os seus efeitos são saldados. O que, para a teoria apocalíptica que salta de crise em crise sem intervalo para a sua antítese, é um comportamento doloso. A crise exige vigilância permanente.
É tanto o vício na crise estrutural e eterna que não se consegue reconhecer um período que não seja delimitado por uma crise. As pessoas habituam-se à contingência da crise e saltitam de uma crise ainda inacabada para uma crise nascente. A crise deixou de ser a exceção, constituiu-se em regra. Temo que, para os viciados na perpetuação da crise, a ausência objetiva de uma crise seja sintoma de crise. Quando não estamos a ser afetados por uma crise qualquer, estamos em crise por não estarmos em crise.
Não há remédio possível. Parece que vivemos enfeitiçados pela palavra crise, como se fosse o abalo telúrico contínuo que desperta os sentidos e previne a hibernação que, por omitir a constatação de uma crise e dos seus efeitos deletérios, pode ser negligente. Por ser curador de uma maré de sentido oposto, desconfio que, na maior parte das vezes, a crise existe porque a palavra começa a ser entoada por uns iluminados (a quem interessa o agitar de consciências provocado pela crise) e depressa contagia-se de boca em boca, até sobrarem poucos resistentes à retórica entranhada das crises que não acabam.
