Hooverphonic, “Unfinished Sympathy”, in https://www.youtube.com/watch?v=7Oox5S-HM74
Publicidade a uma plataforma de reserva de hotéis. Uma personagem revela que pagou “trezentos paus” pelo hotel. Depois o enredo publicitário prossegue, sem outras referências ao nome de uma moeda que se julgava ser outro. Sabe-se que não é o caso, que o nome da moeda é conhecido e que moedas há que ganham um nome alternativo popularizado pela prática diária de quem a usa. Essas alcunhas manifestam o carinho com que os utentes de moeda a ela se referem.
Só que agora a moeda é a mesma em vinte e um países. Aposto que nenhum outro país usa a alcunha “paus”. Possivelmente, a moeda terá diferentes alcunhas consoante as idiossincrasias nacionais. Aqui será “paus”, em Espanha será “duros” e por aí fora.
A adulteração do nome não é um exercício depreciativo da moeda. Quem diz “paus” em vez de “euros” não está a rebaixar a moeda. É uma forma carinhosa de chamar a moeda. Há pessoas que preferem chamar “paus” à moeda porque estão obrigadas a uma familiaridade tão próxima, ou até mais, do que as relações familiares e de amizade. Perante tanta cumplicidade, perante uma coabitação tão frequente (quantas vezes ao dia, direta ou indiretamente, usamos moeda?), as pessoas rebatizaram a moeda para espelhar essa proximidade. Se são unha com carne com a moeda, não é de admirar que prefiram um nome por elas popularizado.
O que talvez seja mais inesperado é a reabilitação de uma alcunha que funcionou para a moeda retirada da circulação. Os escudos também eram paus. Os paus ressuscitaram como alcunha dos euros. Seria interessante ensaiar um exercício arqueológico que estabelecesse a responsabilidade pela manutenção da mesma alcunha para diferentes moedas.
Ora, o euro entrou em circulação em 2002. Há mais de vinte anos. Do que me é dado perceber – pela convivência familiar, pelas pessoas que ouço nas mesas do lado dos restaurantes e cafés, pelos estudantes que se cruzam comigo nos corredores da universidade, pelas conversas ouvidas no comboio – quem usou em primeiro lugar “paus” foram os mais novos, os que habitam a segunda década de vida. Não conheceram em vida o escudo ou, se já tinham nascido, não têm consciência da antiga moeda. Não sabiam que os seus antepassados usavam “paus” para tratar carinhosamente o escudo. Na altura da transição entre a moeda defunta e a moeda nascitura, as pessoas usavam apenas a denominação oficial; desabituaram-se da alcunha “paus”. Que veio a ser reabilitada, cerca de vinte anos depois, por uma geração que não era viva quando essa alcunha era usada na moeda transata.
Será caso para dizer que a recorrência de “paus” como alcunha da moeda é um traço genético da idiossincrasia nacional? Ou apenas o reavivar de um uso reabilitado pela atual geração dos “vintes” depois de ter passado entre gerações por tradição oral?