1.4.26

CXXX

The The, “The Mercy Beat”, in https://www.youtube.com/watch?v=It1L2BccjkI


“I was just another Western guy

with desires that couldn’t be satisfied

so one day I asked the angels for inspiration

but the devil brought me a drink

and he’s been buying ever since (…).”


Devia ser preciso fazer uma formação para saber vencer, para saber comportar-se como um vencedor sem descair para a vulgarização do adversário que acabou de receber a medalha de demérito. À falta de valores embebidos, que sejam adquiridos através de uma formação expedita.

Chega a ser dilacerante testemunhar a jactância dos vencedores. Não contentes com a medalha de mérito, humilham os derrotados como se essa fosse a gratificação suprema retirada da marcha triunfal. Evoca os tempos daninhos de outrora, quando a selvajaria humana tinha uma linhagem diferente da atual, e os despojos da guerra – os prisioneiros e um punhado de cadáveres feitos no campo de batalha – eram exibidos diante dos patrícios que assim glorificavam os guerreiros e a vitória obtida, ajudando a cimentar a pertença e a lealdade aos mandantes. 

Não era uma exibição, era pior: era uma ostentação. Como se fosse preciso fazer prova do triunfo obtido nos campos ensanguentados, transfigurados numa sepultura coletiva depois dos cadáveres dos que caíram na batalha terem ficado indignamente para trás. Talvez seja um mal menor do que ser exposto como troféu de guerra, humilhado por uma turba orquestrada. Desses tempos dizem os apóstolos do presente serem tempos datados, em que a humanidade estava sitiada pela incivilidade. Não estou tão seguro de que as atrocidades que os vencedores de diversas laias cometem na atualidade sejam diferentes quando se apura a indignidade a que a humanidade se condena. 

Esse ar infecto de beligerância por outros meios é intrínseco à arrogância com que os vencedores, do que quer que seja, tratam os que ficaram apenas com a medalha de demérito. É de quem não sabe ganhar – e o que se dirá de gente assim quando estiver auspiciada para a derrota? Na pior das hipóteses, se a nobreza de comportamento fosse consequente à vitória, os perdedores seriam esquecidos no meio das celebrações. Na melhor das hipóteses, haveria uma palavra de conforto para os que, com a sua medalha de demérito, enobreceram o triunfo dos vencedores. Os que saldam o hoje com uma vitória não podem fingir que amanhã poderão ser perdedores. Sair de si e tomar a posição do outro devia ser o fiel de qualquer comportamento.

Ganhar e perder faz parte de estar vivo e de ser gregário. A maldita competitividade, que tudo apura na ponta afiada da navalha em que transita a articulação com os outros, devia ser identificada como culpada desta transação indigna que dedica ao adversário que perdeu uma dupla humilhação: porque perdeu; e, ao ter perdido, está destinado à exposição pública da sua humilhação.