The The, “Angels of Deception”, in https://www.youtube.com/watch?v=hLbzi0Dr6lc
“(...) I’m the lonesome cowboy ridin’ across the range
With just a hand radio to keep me sane.”
Quem nunca fez fretes, dê um passo em frente – sentenciava, com um pundonor próprio de quem tem uma fortuna cheia de certezas. Tão preenchido por mais uma certeza categórica que podia ser o seu grupo sanguíneo, não teve lucidez para cair em si: aquela petição de princípio tinha um carimbo autobiográfico.
Os que ouviam aquela proclamação não disfarçavam uma reação que fundia o incómodo com a indulgência. Metera na cabeça que era escutado por uma “pequena multidão” (uma contradição de termos que inventara), mas essa multidão não tinha como recusar ouvi-lo: durante a viagem do cacilheiro, acantonados na sala dos passageiros, não se podiam exilar das suas prédicas diárias. Uns, cansados de começar assim o dia, sabendo que o homem que fazia do cacilheiro das sete e quinze o seu Speakers’ Corner privativo, passaram a viajar quinze minutos antes ou quinze minutos depois. Muitos outros não se prestaram a esse incómodo: seria juntar um incómodo ao incómodo de aturar o orador público todas as manhãs. Não lhe dariam tanta importância. Os mais engenhosos passaram a refugiar os sentidos no exílio de uns auriculares.
Naquele dia, alguém contradisse (era a primeira vez que alguém interagia com o orador público do cacilheiro): “se coloca a questão nesses termos, é porque já fez os fretes que insinua serem próprios de todas as pessoas. Devia ser o primeiro a dar um passo em frente.”
O homem ficou perturbado. O silêncio, que talvez não tivesse durado sequer um minuto, parecia ter consumido uma estrada inteira. O orador público do cacilheiro das sete e quinze não esperava que alguém o desafiasse a virar as palavras do avesso, já que as habituais prédicas eram estados de alma projetados para o exterior, dos quais o homem se excluía como se pairasse acima dos demais, ungido por uma moralidade acima de todas as suspeitas. Por uns instantes, intuiu que a sua audiência se revia no mote da oratória do dia: aqueles passageiros que não podiam escapar às públicas palavras do orador do cacilheiro das sete e quinze eram obrigados a fazer um frete. (O orador não conseguia inventariar as perdas de audiência dos que passaram a viajar quinze minutos antes ou depois e, de tanto se empenhar na oratória do dia, não discernia que alguns passageiros se isolavam no refúgio dos auriculares.)
No dia seguinte, começou com as mesmas palavras: “quem nunca fez fretes, dê um passo em frente” e, sem se deter, quase em simultâneo com a última sílaba dita, deu um passo em frente. Convidou os ouvintes a fazerem o mesmo: “não se intimidem aqueles que estão a fazer um frete enquanto me ouvem, sim, esses e essas façam o desfrete de dar um passo em frente.”
Só ficaram sentados os que se tinham exilado nos auriculares e um ou outro passageiro que nunca tinha apanhado o cacilheiro das sete e quinze.