The B-52s, “Dance This Mess Around” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=4WSenc2Z5OA
Parece que a noite se abateu na sala. O ar rarefeito grita as dores de ter sido invadido por uma noite de nicotina. O fumo invasivo toma conta dos interstícios do tempo, debate-se nas esquinas da pele, entranha-se nas roupas que assim ficam puídas. A nicotina fala mais alto, emudece as vozes.
Os novelos de fumo crescem em camadas. Entram pelos olhos, embaciando-os. As pessoas, distraídas, fumando furiosamente os cigarros que são culpados pela concentração de nicotina na sala, entretanto exígua, não se incomodam. São curadoras da nicotina que as rodeia. Não diriam estar fora do seu habitat. A nicotina prensada em rolos de fumo pesados é o uso constante. Quando abandonam a sala, estranham a leveza do ar não saturado.
A nicotina também pode ser uma metáfora. Uma impressão infundamentada do pesado ar que se arqueia sobre os corpos das pessoas; um lugar que se tornou irrespirável, se as pessoas não estivessem anestesiadas pela nicotina imperatriz. E, todavia, o olhar não consegue encontrar vestígios de nicotina. A nicotina simbólica medra na tolerância que vai sendo extinta à medida que o calendário é exercido e as posições exacerbadas crescem à conta da desconfiança que estende os seus tentáculos.
A nicotina insinua-se nas veias e convoca as telas baças que despontam de cada vez que há uma alvorada. Confunde-se com o nevoeiro matinal, mas o odor miasmático distingue-se da maresia que rima com o nevoeiro da manhã. Torna-se a matéria intrínseca dos corpos coevos. Anestesiados, devolvem a sua natureza à fórmula química da nicotina. A metamorfose acidental não é notada. As vozes são silenciadas no miradouro, onde são esmagadas pela nicotina usurpadora. Roucas, as vozes esconjuram o silêncio a que foram condenadas. Falam palavras diferentes, palavras que são balas esgrimidas contra o atrevimento de pensar diferente.
A nicotina deixa um legado: as paredes corroídas pelas cores desmaiadas à conta de tanta nicotina vertida. Não somos lúcidos, jamais. O sangue já não é O+ ou A-; é nicotina entranhada, irremediável. E nós, matéria genética adulterada – ou apenas a reificação da matéria de que sempre fomos feitos.
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