22.10.26

Mercúrio (short stories #526)

Rhye, “Shadow in the Storm”, in https://www.youtube.com/watch?v=Al-g9Akdh5U

Não cumpri promessas. Não me juntei a causas generosas que exigem militância e desprendimento. Só fugi das responsabilidades monstruosas. Cumpri as profecias do luar. Esta é a lisura não exigente de que me orgulho. Não disse o que devia ter sido dito e descaí para as palavras desastradas em momentos avulsos. Sabia que de mim se exigiam máximos, ou pelo menos pressenti-o, e quis estar à altura da exigência. Joguei com a sorte sem saber que ela é contingente, como cada dia que vai para o inventário. Tomei partes pelo todo, ignorando que as metáforas ateiam a complexidade. Não quis, mas às vezes fui gongórico (se houvesse pecados a confessar, o meu ódio de estimação). Quis voltar atrás e demovi-me da redenção. Deixei de ir para o estirador esboçar planos a régua e esquadro; os contratempos e as incertezas trataram de invalidar os planos. Escondi lágrimas por causa da insofismável vergonha de que homem que é homem não verte lágrimas. Escondi-me de sacerdotes de causas abrigadas e das verdades incorruptíveis, dos curadores da moral pública, dos honestos mecenas das virtudes, todavia desmentidas pelo mundo que teima em ser um lugar perfeitamente imperfeito. Dei-me às impurezas, ao desacato interior que subleva a alma, não encolhi as mãos perante a lava interior. Consegui o despenhor parcial que me dá uma ideia aparentada de ascese. Muitas vezes, não disse adeus, mesmo sabendo que essa seria a formulação acertada, por medo do que é efémero e da finitude das vidas. Parei de pensar na parábola da última vez (será que é a última vez que faço isto, ou ouço aquilo, ou vou a este lugar?) para não ficar aquartelado pela angústia. Aprendi a conviver com as falésias sem ser refém de vertigens. Tomei partido do esgotamento do tempo, no sentido de extrair dele o máximo que contiver. Emancipei-me. De mim mesmo. E agora que aprendi a apreciar esta liberdade, não há nada diferente que queira alcançar.

21.10.26

Introdução à Introdução à Ciência Política

New Order, “Leave Me Alone” (live at the Haçienda), in https://www.youtube.com/watch?v=-NJlIjYTjhY

(Manel Cruz, depois da acampada do Porto: “A polícia que pagamos com os nossos impostos vem aqui tirar esta gente a mando de um gajo que nós elegemos.”)

Começo pela semântica: a linguagem informal presta-se às informalidades que lhe são óbvias. Fosse o lugar de onde partimos um institucional arreio, e chamar “gajo” ao primeiro-ministro seria um deslize impróprio para consumo. Mas, se parto do pressuposto de que sou um gajo imerso numa multidão de gajos e de que nos engajamos (tradução bastarda de “engaged”), que mal vem ao mundo se tratar o chefe do Executivo como gajo? Mal de nós se a igualdade, tão aclamada nos compêndios que servem para balizar o engajamento, não admitisse tratar um primeiro-ministro como se trata qualquer um dos confrades daquele engajamento – o conceito que substituiu a cidadania para melhor expressar a nossa condição de gajos.

Primeiro equívoco: o músico enganou-se ao fazer a radiografia do sistema político. Talvez aldrabado pela prática instituída pelos gurus de marketing político, que usam e abusam do Photoshop quando congeminam os outdoors com o rosto do candidato, Manel Cruz deve ser daqueles que são levados a acreditar que, nas eleições legislativas, escolhemos o primeiro-ministro. É errado, caro Manel: tu, que vives no Porto, com o teu voto ajudas a escolher quarenta deputados eleitos pelo distrito do Porto. Somados os votos dos distritos e conhecida a distribuição de mandatos pelos partidos, o Presidente da República convida o líder do partido mais votado a formar governo. 

Segundo, não entendi a relação causal entre a polícia que é paga com os nossos impostos e as ordens que recebe do gajo que a maioria de nós ajudou a escolher como primeiro-ministro. Terei entendido mal ou o artista está a validar o critério contributivo (nós, gajos que pagamos impostos que servem para pagar a polícia) acima do critério que emerge da legitimidade democrática (o gajo escolhido pela maioria dita ordens à polícia)? Portanto, o dinheiro (o que pagamos de impostos) sobrepõe-se ao critério imaterial, mas axiologicamente superior, da legitimidade derivada das regras do sistema político. É o raio do capitalismo que, de tão enraizado até ao tutano, nos leva a estas contradições de termos. Afinal, Manel Cruz é um embaixador do vil metal e nós não sabíamos.

Terceiro, e como extensão da anterior perplexidade: Manel Cruz está a insinuar que a polícia deve lealdade a quem lhe paga impostos e não a quem é o seu mais alto superior hierárquico? Os agentes enviados para repor a ordem deviam recusar as ordens do “gajo que nós elegemos” se os protestantes se recusassem a sair do lugar ilegal em que se encontravam? Pelo andar das coisas, uma manifestação de rua tem mais legitimidade do que o “gajo que nós elegemos”. Fico sem perceber se Manel Cruz tresleu o sistema político em que vivemos, , ou se ignora os seus fundamentos, ou se perorou em forma de “wishful thinking” (abaixo a democracia representativa).

No primeiro caso, aconselho-o a inscrever-se num curso rápido de Introdução à Introdução em Ciência Política e num módulo rápido sobre Instituições Políticas Portuguesas, seguido de um posfácio abreviado sobre Filosofia Política que o ajude a distinguir entre os contornos desagradáveis da realidade e os desejos que estão longe de corresponder aos desejos da maioria dos gajos recenseados. 

No segundo caso, desejo-lhe má sorte.

20.10.26

“Os ricos são parasitas que alimentam-se [sic] da nossa desgraça”

In Público, 18.10.26, p. 1

Arsénio é um sexagenário que teve a sorte de nascer num literal berço de ouro: uma família burguesa que enriqueceu no ramo imobiliário à custa de negociatas de duvidosa ética, só permitidas porque, nos tempos de antanho, era possível aos poderosos atestarem, por mote próprio, que um terreno — prédio rústico depois anarquicamente transformado em prédio urbano — era sua propriedade.

Arsénio nunca soube o que eram dificuldades materiais. Das outras, as emocionais, também não, por simplicidade (para não dizer simplismo) comportamental: durante a sua vida, só contavam as coisas com mensuração material. O dinheiro vinha antes de tudo. Aliás, não havia dimensão para além da material. O propósito da vida de Arsénio foi engordar a fortuna à medida que também engordava e as adiposidades o iam deformando. 

Alguém de fora, sabendo da prosperidade de Arsénio, diria que ele nem sabe a fortuna que tem. Mas sabe. Dia após dia, não acaba o dia sem fazer o cálculo da fortuna. Detesta os dias em que o portfólio emagrece. Deita-se emocionalmente empolgado quando o dia termina com ganhos financeiros. 

Entre o seu abundante património, Arsénio não perdeu a conta aos prédios urbanos. Começou pelo Porto natal, mas foi ampliando o inventário de apartamentos, primeiro, e de prédios inteiros, depois, comprando pelo país fora. Já era senhorio e tornou-se ainda mais senhorio, assenhoreando-se dos proveitos materiais que um mercado ensandecido permite aos senhorios enquanto castiga os inquilinos. 

Com a moda do turismo e com a perspicácia para o negócio (“esperto como o alho” é o seu lema, de que se gaba sem perceber o alcance do que diz), alargou o negócio ao ramo do alojamento local. Se os turistas são mais endinheirados do que os nativos e pagam, sem tugir, os preços para se alojarem em cidades que caíram no goto dos turistas, a “racionalidade económica” obriga a desviar recursos do arrendamento para o alojamento turístico. Arsénio sabe que engorda a sua fortuna e desgraça ainda mais a vida de quem queira arrendar um apartamento: por efeito deste desvio de recursos, contribuiu para o encarecimento do arrendamento de apartamentos. Não quer saber – aliás, quer saber, mas apenas porque assim tem enriquecido ainda mais.

Arsénio é insensível aos argumentos de gente bem-intencionada que aviva as injustiças sociais por haver Arsénios de mais. O egoísmo de Arsénio só deixa ver os números que precedem o sinal do euro. Se os mais pobres têm dificuldade em arranjar habitação, esse não é um problema seu. Castrar os pobres ajuda ao seu enriquecimento. Entre um mínimo de dignidade para os pobres e mais umas centenas de milhares de euros na sua fortuna, Arsénio não hesita de que lado está. Cada um por si – foi o que aprendeu do avô, o patriarca da família que congeminou maneiras pouco éticas de alastrar a fortuna.

Arsénio não percebe que este comportamento pode ser suicidário. Se soubesse de História, lembrar-se-ia de episódios de sublevação das massas contra os privilégios dos poderosos que terminaram mal para estes. Se fosse humanista, não seria insensível às provações por que passam as pessoas que não conseguem encontrar uma casa condigna a um preço que não seja usurário. Se não fosse politicamente datado, não passaria ao lado do fermento da revolta quando pessoas injustiçadas saem à rua e procuram resolver na rua o que o sistema político é incapaz de resolver. 

Arsénio, e os da sua laia, deviam saber que podem deitar tudo a perder se teimarem em fazer crescer as fortunas enquanto os remediados empobrecem e os pobres ficam reféns da miséria. Podem deitar tudo a perder, pagando com a vida e com a perda de todo o património se as propostas revolucionárias vingarem na rua e forem transferidas para o sistema político. Ele e os da sua laia que não se convençam de que o socialismo foi derrotado pela História.

Arsénio não sabe que uma rua assim vulcânica, quase no limiar da explosão, o considera um parasita. É dono do seu tempo, como é dono de sabe-se-lá-quantos apartamentos e alojamentos locais. Não tem de acordar de madrugada para apanhar um transporte público decadente, apinhado e que chega ao destino com atraso. Não tem de fingir um almoço porque os parcos rendimentos obrigam a racionar as compras no supermercado. À noite, não tem de dormir mal por causa do frio no Inverno e do calor no Verão que tornam o modesto apartamento sempre desconfortável. Não tem de adiar planos porque o dinheiro do mês não chega até ao final do mês. E depois passeia-se, untuosamente, na sua berlina Mercedes, almoça perdiz e bebe um vinho que custou quase o salário mínimo, à tarde joga golfe (essa atividade tão produtiva) com outros da sua laia.

Arsénio teve de ir ao médico e o consultório ficava na praça adjacente à manifestação contra a falta de habitação condigna e a carestia da vida. Encheu-se de coragem e atravessou a praça de forma longitudinal. Deu de caras com uma menina que, enquanto apregoava as palavras ditadas pelo coordenador da comissão do momento, hasteava um cartaz: “os ricos são parasitas que alimentam-se [sic] da nossa desgraça”. Parou junto à menina e percorreu demoradamente o cartaz com o olhar, como se lesse sílaba a sílaba, uma e outra vez. E disse à menina: “eu sou rico. Sou o retrato do seu cartaz. Mas tem de ter cuidado com as generalizações. Conheço alguns ricos como eu que não são como eu.”

19.10.26

Couraçado

Fontaines D.C. ft. Rosalía, “Where Is Gone”, in https://www.youtube.com/watch?v=JxS3kEhO4zk

A correr. A vida passa a correr. E não pede licença para passar, às vezes ao nosso lado, e nós somos espectadores prostrados do lustro invejável da vida que se move na linha ao lado. 

Depois, esbarramos na pungente verificação do tempo efémero. Digo, verificação do tempo efémero. A aritmética conspira contra nós: a soma da vida que passa ao lado com a efemeridade do tempo é como uma granada que rebenta à nossa passagem. Não pressentimos a catástrofe que pode apoderar-se de nós e seguimos, tresloucadamente, a caminho do precipício que assim validamos. O culto do arrependimento é o passaporte de uma fraqueza irremediável. Oxalá não perseguíssemos a redenção, como se fosse a caução dos erros que têm o futuro como paradeiro. 

Não precisamos de pedir licença ao arrependimento. Entaipemos as janelas com cortinas baças; ninguém consegue alcançar as paredes puídas que são a marca do tempo e de algum desleixo que se verte em camadas na pele desautorizada. 

Detesto relógios. E aquilo que eles mexem, ainda mais. Quando peroram sobre tiranias, esquecem-se de convocar o tempo, a pior delas todas. Não queremos estar num lugar porque ele obedece a um tempo. Seja onde for, esse tempo é implacável. Imoderado. Deita-se sobre nós sem lhe darmos consentimento. Absorve a vontade. Quando olhamos para o tempo, ele acabou de se extinguir na medida instantânea que se sucede na moldura arrastada numa medida do tempo maior. Cometemos um erro fatal: somos juízes de nós mesmos sem sermos juízes em causa própria. Mesmo quando terçamos a função na casa própria, não pomos limites ao julgamento implacável. Por mais que seja uma vida que, aos olhos dos outros, é invejável. As vidas dos outros são as mais fáceis de adestrar. 

Tanta ciência junta, tantos avanços que atiram a civilização para o espaço sideral, e ainda ninguém inventou um modo de atrasar o tempo sob a égide de uma potestade irrebatível. A ousadia não chega a duplicar com a suspensão temporária do tempo quando há atritos matriciais por dirimir, as pendências que se arrastam para além do tempo e deixam cicatrizes intratáveis. Os cientistas são os piores inimigos da humanidade. 

São tantas as crises que se evocam que, distraídas por platitudes, as pessoas escondem-se da esgrima para que o tempo nos açambarca. Nós, que tanto maltratamos o tempo por não sabermos que ele não faz saldos nem promove descontos, só nos lembramos dele quando a angústia do entardecer murmura ao ouvido. Inscritos no mapa das pendências, ficamos à mercê do tempo, corpos improváveis que não se saciam da vontade autónoma exortada por exércitos de iludidos. 

Ou então, designados a avivar estas fragilidades, entregamo-nos como presas de um tempo maquiavélico. Se não fôssemos reféns desta displicência, não seríamos contumazes de nós próprios.

16.10.26

Dar sapatos à corda

Moderat, “A New Error” (live in Berlin), in https://www.youtube.com/watch?v=ael9kfsi3RM

Os sapatos de vela foram de vela. Já ninguém come bifes como solas de sapato. Ou arroz de pato. Ninguém quer ganhar deste modo uma gastronómica estrela.

Entram em cena querubins contratados a peso das nuvens. Cantam em surdina cantos gregorianos, não se entende uma só palavra. Ou talvez seja das suas vozes frágeis e desafinadas que não se fazem entender. Os querubins entram no palco descalços. Há muitos artistas, músicos especialmente, que também se descalçam quando sobem ao palco. Será para sentirem a energia que transborda do palco, a força abastecida pela energia contagiante do público sentado na plateia; ou apenas porque, não satisfeitos com a estética dos sapatos do dia, despojam-se deles para reivindicarem créditos estéticos (sem perceberem que passear os pés descalços é uma visão dantesca).

 Os sapatos são como o champô para os calvos. Com a diferença de que uma cabeça calva não tresanda a pés ungidos em suor quando estes se livram dos sapatos. Os sapatos são uma das maiores descobertas da civilização. São a nossa salvação de pés quase nus que descem às ruas da cidade como se viessem da praia, poupando-nos à inestética dos dedos retorcidos e com unhas mal aparadas, que servem para atear pesadelos, existentes e vindouros.

Mas ninguém fala de cordas. São como figurantes, e de terceira categoria, meros instrumentos que servem para que outros objetos se distingam numa função. As cordas, ainda por cima, são as culpadas de enforcamentos e aprisionamentos – ainda que, no primeiro caso, seja um ato volitivo, enquanto, no segundo, seja contra a vontade de quem é por elas imobilizado. 

Os sapatos em usura podiam ajudar as cordas. Nós de marinheiro, aqueles emaranhados que os não peritos não conseguem desatar, podiam ser espezinhados por sapatos treinados até se desfazer a atadura. Era a vez de inverter uma fórmula avalizada pelos lugares-comuns: em vez de dar corda aos sapatos, seriam os sapatos a dar à corda.

15.10.26

Somos nós que estamos a dar palco aos neofascistas (e nem damos conta)

Nine Inch Nails, “Where Is Everybody”, in https://www.youtube.com/watch?v=JZvBRU_FNo4

Anteontem, duas meninas da extrema-direita pátria, por sinal deputadas, invadiram a Rádio e a Associação Académica coimbrãs. Protestavam contra a exclusão de um debate político, porque o partido de que são deputadas tinha sido banido da voz pública por magna decisão dos representantes dos estudantes. 

Não me importa a argumentação que legitimou a exclusão. Receio por igual os autoarvorados polícias da democracia e as figuras miasmáticas que a assombram (qualquer que seja a sua linhagem). Por mais que justifiquem que não aceitam os neofascistas na ágora onde parlamentam os democratas, excluir é típico dos totalitarismos. Democrático é incluir. Até para sermos testemunhas da oratória desrazoável dos mandatários da extrema-direita pátria. É deixá-lo(a)s eructar a consabida boçalidade. Deixá-lo(a)s falar o tanto que puderem é o melhor antídoto, mesmo que muitos se fiem no jogo das sondagens para desmentir o meu pressentimento.

Contrariar a lógica da democracia com medo de que os antidemocratas a liquidem é um assassinato da democracia, perpetrado por quem se diz seu defensor; uma contradição de termos, ou talvez apenas (no caso de alguns) um mal disfarçado complexo de Édipo com a democracia. Na democracia, os outros não ficam à porta nem lhes é vedada a palavra. Se os escondemos, constituímos-nos em quem os faz crescer por fora. 

E se, um dia destes, em eleições legislativas, uma maioria quiser que os neofascistas subam ao poder, o que fazemos a seguir: cancelamos as eleições? Antes de lá chegarmos, não percebem os democratas (os genuínos e os que assim se fazem passar) que ostracizar os neofascistas é o comburente do seu crescimento? Ainda poucos perceberam que encostar neofascistas às cordas, colando-lhes ainda mais peçonha do que a que lhes é intrínseca, os coloca no lugar da vítima. O cidadão comum – prova-o a idiossincrasia nacional – adora solidarizar-se com a vítima de turno. 

Estamos a fazer tudo ao contrário. Não nos queixemos, depois.

14.10.26

A volta do século

David Sylvian, “Let the Happiness In” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=7nsvt2LQ-JQ

Durante o sono, houve marés insubmissas que estilhaçaram as janelas. Os anciãos não fugiam do tempo. Já não havia viúvas. O murmúrio da manhã estava à distância do contrabando de uma insónia a destempo. Ainda na cama, o teto do quarto por testemunha, destapava as palavras acasaladas com o despensamento. A vida não foge assim tão depressa. 

As coisas ensinadas só são válidas se não forem esquecidas. Mas onde temos espaço para conservar tanto tempo havido? Se fizesse agora os cálculos, quantos minutos já vivera? As nozes por abrir são a metáfora do tempo por haver. Contra ele arremessam-se as moedas corrompidas que intuem o futuro. Não quero saber do futuro. Já me fui esquecendo do abismo do passado e de outras circunscrições por onde cavalgam os juízes amordaçados por costumes estéreis. 

Às vezes, procuro um lugar onde o silêncio não seja tarde. Um piano pousado numa duna, à espera de ser tamborilado. A noite precoce, como se do Norte tivessem sido encomendadas noites invernais que colonizam as horas aqui deixadas à mercê da claridade. Passeava pela umbria de uma aurora boreal, extasiado; sentia que as mãos remexiam a coreografia de luzes coloridas que assanhavam o céu. 

Deixo de agora os provérbios gastos, a usura que me fez refém de mim mesmo. Calculo que seja forte o espelho estilhaçado se não fosse o terramoto das almas a despojá-lo de toda a cintilação. Deixo que seja o sortilégio a entrar pelo peito, como se visse uma mão farta ser sua tutora, e às dores pontiagudas se sucedesse o desamparo hospedeiro. Alcanço o seráfico devir nas estrofes arrumadas em papel ancestral, resgatado à moldura das memórias.

Ainda vou a tempo de ser tempo que contraria o tempo desavindo. Peço à manhã para se aformosear. Nua, que seja; nem que nu seja meu o haver por estimar.

13.10.26

O granito que molda os homens

Royal Blood, “Dead Company”, in https://www.youtube.com/watch?v=XPbeRzzMp7Q

Há terras que são o epíteto dos homens que lá nascem. As terras que se fortalecem em leitos de calcário são assim. Quem as olha desconfia da sua severidade. A paisagem não é generosa. Para o observador treinado para se extasiar com paisagens bucólicas, as terras feitas de calcário que deixam à mostra arestas vivas estão nos antípodas daquelas paisagens. Os que nasceram nesta maceração de calcário não se importunam. A beleza descobre-se até na fealdade. Desde que a perseverança não seja descartada.

As pessoas que nasceram nestas terras montanhesas parecem ter sido moldadas pela austeridade rochosa do lugar. São corpos avantajados, mãos largas (não no sentido metafórico de generosidade) e pele marcada, como se fossem cicatrizes impostas pelas arestas de calcário que ferem diariamente as pessoas. 

A vegetação rara combina com o calcário que amanhece em altitude, sacrificando o oxigénio respirado pelas pessoas. Estão habituadas à provação do oxigénio. Não lamentam as desvantagens quando lhes chegam notícias sobre outros lugares mais generosos. Foi aí que nasceram e sempre viveram. Foi assim que se habituaram a viver, cercados pelos sacrifícios de uma vida dura herdada da geografia do lugar. Alguns migraram para lugares onde a vida se tornou aprazível. Muitos preferiram ficar. Aprenderam a viver sob os auspícios da dureza do calcário, quase como se pisar as terras assentes em plataformas de calcário fizesse parte do seu respirar intrínseco. Sair dali para os tais lugares aprazíveis seria como viver submetido a um habitat estranho, agressor.

Quando envelhecem, ganham rugas que mais parecem a forma exata das formações calcárias que se moldam à pele. Não prescindem dessa tatuagem que se enraíza na sua identidade. As rugas parecem mais fundas do que as marcas das rugas dos habitantes de outros lugares ermos sem terras calcárias.

Tal como os mananciais de água se purificam nos aquíferos impermeáveis pelo calcário limítrofe, os habitantes destes lugares pedregosos exibem uma autenticidade. Tudo neles é frontalidade. A rudeza é rudeza quando tem de ser rudeza; a generosidade é ímpar quando se ajeita a ser generosidade. A irascibilidade é temível (ninguém os veja virados do avesso); a entrega descomprometida é singular quando são levados pelos bons instintos das pessoas que lidam com eles. Quando são atraiçoados, reagem como bestas furibundas que carregam o calcário no sangue em ebulição. Ferem como se fossem as arestas vivas do calcário em que medraram.

12.10.26

O teatro dos horrores em contínuo

PJ Harvey, “Voyager”, in https://www.youtube.com/watch?v=XzCjzFsGl_c

Lugares há onde se imagina um chão sem sangue, mátria com os nomes justos nos murais onde se ensina a lucidez. Em seu chão atapetado, fingem-se as atrocidades de outrora, como se a mentira da memória servisse para esquecer os nomes das vítimas. 

Não são os nomes que importam. Cada nome é uma história de sofrimento, as dores incalculáveis sentidas antes de deixarem de fazer parte do mundo. O esquecimento não é uma banalidade, é um insulto. Um insulto aos que foram vítimas da demência apadrinhada pelos poderes em função; insulto a todos nós, viventes e antepassados perecidos. 

Por cada gota de sangue derramada contra a vontade de alguém; por cada morto indecorosamente arregimentado para campos de batalha; por cada general que esconde a hipocrisia na ordem que encomenda mancebos para avançarem para uma morte inglória; por cada guerra travada contra as advertências da razão – experimentamos o abismo e confirmamos a indigência da espécie que de si diz, tão ufana, que é a única empossada de racionalidade. Participamos deste ultraje, por endossarmos a louca política dos políticos loucos, ou pela cumplicidade de quem se refugia na letargia. 

Os olhos não se marejam com as dores arrancadas a ferros aos outros, vítimas que nem podem alegar a sua inocência. Todo o tempo gasto a fingir o contrário é usura. Somos reféns, voluntários ou por omissão deliberada, de gente pouco gente que devia ser julgada pelo delito máximo de quem espezinha uma vida humana como se não valesse nada. Andamos a correr atrás do tempo quando ainda não acertamos as contas com o tempo pretérito. Somos esta farsa terrível que nos atira para o lugar pútrido onde se congeminam os desexemplos. É inútil darmos corda aos relógios se o passado ainda está pendente. 

Este espectro devia inquietar-nos, as sombras povoadas por vultos que oprimiram quando o seu foi um tempo presente e continuam agora a oprimir por procuração dos sucessores. E nós, a fingirmos que somos humanidade.

9.10.26

Mais coriscos do que raios (os mamíferos não têm barbatanas)

David Byrne, “Let Me Sell You a Dream”, in https://www.youtube.com/watch?v=wcFdiEcQdTc

Às vezes, as pessoas invocam canídeos e o seu ladrar para concluírem que não é por muito ladrarem, nem por transparecer agressividade, que se dá por garantido que vão ferrar o dente a alguém. É um caso típico de desproporção entre meios e fins: ao atestar pelo chinfrim, em decorrência do latido agressivo, dir-se-ia que o canídeo estava preparado para uma investida e exercitar furiosamente o maxilar para deixar uma marca registada na perna da vítima.

A lua não se fez em sete dias. A precipitação arregimenta as pessoas para um coletivo cadafalso. São esses passos em falso que as tolhem, sequestradas pela armadilha do tempo irrisório: como se extingue sem vagar, a pressa é tirana e acalenta as precipitações que, por vezes, encerram consequências irremediáveis.

A resplandecência de certos egos é desta natureza. Intuem clarões vívidos que tornam a noite em dia por instantes, amparados num raio que se desmultiplica como se fossem os ramos de uma árvore frondosa, toda a claridade bolçada a tornar ilusório o dia a meio da noite. Não passa de uma ilusão fermentada pelo próprio. Ele não é fautor de um raio que, exuberante, se abate sobre a paisagem limítrofe. Não passa de um corisco que mal se distingue na ampla escuridão do momento. 

Os eruditos asseguram que os mamíferos não têm barbatanas. São traídos pela evocação de uma generalidade, sem admitirem que uma generalidade se distingue por contemplar exceções. Contam com a inércia da turba: aceitam a primeira informação que lhes chega, o espírito crítico luta contra o desleixo e está condenado a perder a peleja. Os eruditos com televisiva aparição periódica sabem que podem disfarçar a erudição num mal amparado processo de transmissão de conhecimento. O rigor perdeu-se nos anátemas da existência, que exaltam a veia mundana e exilam a certificação do saber e a inventariação da verdade. 

Muitas vezes, a verdade não chega a ser póstuma, sequer. A lua não se fez em sete dias, nem atrás do sono distraído de divindades que não se esperava que fossem tributárias do sono. Oxalá a verdade não tivesse barbatanas. Os coriscos não passavam de coriscos, nem mesmo nos (piores) sonhos dos indigentes. 

8.10.26

Cair de brusco

Bel Canto, “Unicorn” (live at Mexico), in https://www.youtube.com/watch?v=DLagWxmFEYE&list=RDDLagWxmFEYE&start_radio=1

Cortejo a sorte por diáfano destino que se joga ao acaso. Uma lotaria escusada; o corpo avança a direito para a tempestade, não se intimida, conspira nos acasos que erradicam a lucidez. Se subisse ao miradouro, alcançava o medo e não caía de brusco no improvável abismo. As lágrimas seriam a gramática do vento escondido.

Os dias imperturbáveis parecem assassinos. O torpor alarga o tempo dedicado aos dias, como se os dias se mascarassem de semanas, meses às vezes, num tempo exarado numa medida extinta. Um tempo como metáfora da tortura que fala através do silêncio. Até a fronteira da noite amordaçar os corpos cansados, destinando-os à insónia paradoxal, servida como se fosse um canapé fora de validade, só à espera de ser ingerido para somar a todas as contrariedades mais uma.

É quando o corpo, refém da letargia, se subleva. Agita-se nos contrafortes de mares tempestuosos: sempre me fascinaram os efeitos das tempestades no mar, como se as ondas se revolvessem desde as entranhas e cuspissem a ira enroupada contra os beneplácitos dos deuses. E essa ira fosse o critério exigível para não ficar preso às teias da indiferença, com o olhar sempre atento à procura dos lugares onde alojados estão os motins interiores. 

O corpo atira-se no vazio. Caio de brusco no imenso espaço livre que se emancipou das regras. Não se esconde de um pressentido voo agitado. Há convulsões necessárias, um vulcão atravessado enquanto a miragem sobreposta não se aclara. Até à morada dos espíritos insubmissos, que falam o idioma da liberdade e esconjuram os medos que colonizam o sono com pesadelos impertinentes. 

Caio de bruscos. Acredito na bondade do precipício. Mesmo que seja o nome da turbulência, mesmo que seja em nome da turbulência, que se desarrume à passagem da lava e cicatrizes venham a cerzir a pele doravante. Os nomes do medo, não chegam para se sobreporem ao nome que sou.

7.10.26

A cunha, essa instituição

DIIV, “Trillions”, in https://www.youtube.com/watch?v=6Fb97C_dv0A

Vai um pé de vento por causa das exéquias de umas cunhas alegadamente metidas por um ex-secretário de Estado a favor de pessoas que vinham “bem recomendadas” – uma, alegadamente (a insistência no “alegadamente” não é por acaso ou por distração), com bênção institucional irrecusável, duas por obrigação partidária, uma última (que se saiba) porque partiu de uma figura pública com elevada sensibilidade humanista e a linhagem certa. 

De resto, grassa o oportunismo: dos populistas incorrigíveis que segregam ódio contra uma casta que esteve muito tempo no poder, tudo servindo para derramar sangue em público; do lado contrário, por reflexo condicionado (há que combater a extrema-direita, nem que seja preciso militar no paradoxo), faz-se a defesa de honra de um ex-secretário de Estado invocando um argumento à la Luís Neves: há cunhas que se metem por comiseração (todas as cunhas mencionadas estavam relacionadas com hospitais ou a saúde de pessoas), há um módico de decência justificado por exigências de humanidade que atiram a ética republicana para segundo plano. Ou seja, há circunstâncias (o apelo à humanidade e à compaixão) que justificam a cunha.

Foi Ana Sá Lopes que o defendeu, num artigo de opinião no Público, misturando argumentos com pretextos e banalizando a cunha, aumentando-a àquilo que ela é: uma instituição, informal, mas uma instituição (daí a analogia com o ministro da administração interna). Só faltou à jornalista erguer o dedo em riste e acusar os acusadores: o primeiro que nunca pediu uma cunha que levante o braço — como quem insinua que todos já contribuímos para um arranjinho à margem das leis e da igualdade.

O problema deste comportamento é que se espalha como um vírus para as demais relações sociais. Pessoas bem posicionadas em partidos ou em instituições do poder recebem convites para favorecer alguém que tem a cunha certa. Isso dá o poder de decidir a quem satisfazer, no tira-e-põe entre os que passam à frente e os que ficam para trás. A palavra certa à pessoa certa no momento certo pode desbloquear impasses que, de outra forma, permanecem como bloqueios. 

Os que estão fora desses círculos e desses contactos ficam à margem de regalias e, por vezes, de sinecuras, instalando-se uma desigualdade que os melhores esforços dos que exercem a paternidade da cunha não conseguem omitir. E depois há a cunha virada do avesso, que é pouco subtilmente ativada através das palavras ou de pedidos (disfarçados de ordens) dos poderosos.  Já me aconteceu ser chamado a justificar a um reitor a classificação de cinco valores num exame da sobrinha-neta do então presidente da Assembleia da República. Já recebi um telefonema de um colega, (na altura) muito bem colocado na universidade onde ensinava, a recordar que a sobrinha ia a exame comigo pela terceira vez, fazendo questão de sublinhar (disse-o três vezes) que não me estava a pedir nada – e a estudante, que nunca passou de quatro valores, subitamente produziu conhecimento para ser classificada com dezasseis valores. Ou, ainda nessa universidade, tendo a meu cargo um processo disciplinar instaurado contra um colega por suspeitas de assédio sexual, ouvi o reitor dizer: “Tenha muito cuidado com o que vai decidir. Muito cuidado”, num tom ambíguo que levará o(a) leitor(a) a perceber que mensagem me estava a ser dirigida.

Os favorecimentos decididos por quem tem poder, ou por intercessão de terceiros com acesso às pessoas que detêm o poder, são uma forma ostensiva de exercer o poder. Tendo sido pressionado algumas vezes (ficam, para memória futura, os três exemplos acima mencionados), esses favorecimentos inquietam-me. Primeiro, a venerada ética republicana, insistentemente convocada pelos socialistas, fica para segundas núpcias quando se trata de validar a minudência da cunha ativada por um correligionário. A ética republicana comporta exceções, sobretudo se elas partirem de pessoas de perfil público e com responsabilidades políticas e tiverem o cartão de militante correto. (Para que não sobrem dúvidas, esta inquietação é tão válida para o PS como para o PSD, com as suas engrenagens bem oleadas de favorecimentos seletivos.) 

Segundo, alguns dos que são capazes de considerar a normalidade da prática esquecem-se de que são zelosos defensores da igualdade como valor político. Ao admitirem a normalidade da cunha, desfiguram a igualdade. Não é possível defender a seletividade das cunhas, baseada em critérios de filiação ou afinidade partidária, ou qualquer outro critério remoto de favorecimento, e o princípio da igualdade: ou as cunhas enraízam-se e destrói-se a igualdade, ou defende-se a igualdade e não se transige com as cunhas.

Admito, ao lado de Ana Sá Lopes, que Lacerda Sales está a ser a vítima sacrifical dos proponentes de um moralismo social cansativo e frequentemente contraditório. Lacerda Sales é a vítima útil de outras contendas e foi apanhado pela métrica da cunha, como se fosse o único cidadão pátrio a promover essa prática. Alegadamente (outra vez...), num dos episódios em que o seu nome veio a lume, há peixe graúdo que conseguiu passar entre os pingos da chuva. Lacerda Sales carrega às costas o opróbrio de um país que se habituou a viver no meio, atrás e através de cunhas. 

6.10.26

Quem quer um(a) babysitting? (Sobre a tirania dos consultores de comunicação)

Gorillaz ft. Spark, “The Happy Dictator” (live at Jimmy Kimmel Live), in https://www.youtube.com/watch?v=q6sa6pWz1NQ&list=RDq6sa6pWz1NQ&start_radio=1

Este é o século de muitas coisas, aquelas que as pessoas quiserem que ele seja, ou aquelas que, no momento, deem mais jeito para subir ao trono do que o que é indispensável. É o caso da comunicação. 

É preciso comunicar com cuidado. Há tantos exemplos de palavras mal colocadas, de uma palavra fora do sítio, de amputar intencionalmente declarações para que fujam do contexto e saiam com um significado que não seria assimilado caso o contexto não tivesse sido adulterado, de quem tem a língua solta e conta o que não deve e guarda o que devia ter sido dito. E também se multiplicam os casos que não são controláveis: como o destinatário entende a mensagem, se a treslê e se é intencional ou por falta de capacidade hermenêutica. São exemplos abundantes. É preciso ter cuidado com a forma como se comunica. Nunca foi tão acertado lembrar o adágio: pela boca morre o peixe. (Descontando os exageros da morte como consequência de acidentes de comunicação e da comparação entre qualquer um de nós e um peixe.)

Para não sermos traídos pela palavra escorregadia, pela distração convexa, pela inépcia semântica, ou sermos vítimas da indigência interpretativa, de processos de intenções à boleia de palavras mal escolhidas, do contexto adulterado que serve para tresler o que dizemos, é sensato recorrer aos consultores de comunicação. 

Como as palavras que dizemos são o rosto da comunicação com o exterior, devemos escolhê-las com critério. Urge a contratação de conselheiros de comunicação, teoricamente dotados de uma capacidade hermenêutica e de uma visão esclarecida acima das nossas capacidades. Além desses predicados, possuem uma capacidade de persuasão que nem os advogados palavrosos e cartesianos conseguem ter. Os conselheiros de comunicação treinam os consultados para uma comunicação desejável, à prova de acidentes e incidentes. O que deve ser dito, em que momento, com que expressão corporal e quais palavras devem ser evitadas para não desarranjar a comunicação metodicamente ensaiada. 

Tanta é a convicção com que convencem os consultados que estes se limitam a papaguear os consultores. Ficam nas suas mãos. Nos bastidores, sem revelar os seus rostos, os consultores exercem uma ditadura sobre os consultados e sobre a audiência a que querem chegar. Se os consultados fogem das diretrizes, os consultores apressam-se à prestação de contas – “eu avisei!”, lavando as mãos para não assumir a responsabilidade pelo que foi dito ser tão diferente do que foi aconselhado a dizer.

Quem se entrega nas mãos dos consultores de comunicação fica penhorado. É uma prisão da qual dificilmente sai (a não ser que o caso evolua para a rutura). É como se precisassem de babysitting para tomar conta deles, o tempo todo e a toda hora. 

É caso para dizer: ainda mal que nos empenhamos a estes babysitters.

5.10.26

Exclusão de partes (short stories #525)

Slowdive, “Alife”, in https://www.youtube.com/watch?v=MhQht-YK8rw

          Não era preciso um miradouro para fazer a triagem das partes que dedicaram o dia a um contencioso. Ainda insisti que não era qualificado para resolver contendas, quaisquer que fossem, e menos ainda aquelas que estavam para ser dirimidas por partes, estas sim, tão qualificadas. Não era que temesse ser olhado com sobranceria caso as partes se considerassem num patamar superior ao meu; muito menos receava que, em validação da pesporrência estatutária, declarassem que não me reconheciam capaz para o papel que me tinha sido atribuído. Seriam coisas menores, se acontecessem, e não seriam capazes de me perturbar. A minha perturbação vinha de ter sido requisitado para a função. Queria tanto estar sossegado no meu canto, agarrado aos livros e a contemplar a crueza das paredes. Ainda cheguei a perguntar por que se tinham lembrado de mim. Soube que tinha sido por exclusão de partes. Homenageio quem teve a honestidade de me dizer – não que tivesse a pretensão de ser a primeira escolha para o que quer que fosse, mas a pessoa que me informou podia ficar inibida, possivelmente a suspeitar que eu teria a mesma sensibilidade. Não era o caso. Para o que estava em questão, era indiferente que tivesse sido escolhido por exclusão de partes, assim como era irrelevante saber das partes que se autoexcluíram e por que se colocaram à margem. Ensaiei uma, admito, manobra pouco convicta de recurso: seria a minha vez de me declarar indisponível; mas, pela pouca convicção, quem fez o convite fingiu que não me tinha ouvido. E ali estava, impossibilitado de ficar fora da equação e sem vontade de decidir o que havia para decidir. Até porque desconfiava que teria de o fazer por exclusão de partes – ou melhor, exclusão das partes que me eram levadas a concurso, por privação de legitimidade da excluída.

2.10.26

Conservo metodicamente o meu direito constitucional ao disparate

Mogwai ft. Iggy Pop, “Undergound”, in https://www.youtube.com/watch?v=agOOQ2wTS8I  

(Uma amostra do ar dos tempos)

Viva os direitos oferecidos pela Constituição, que, ao menos, impedem que os serventuários de uma suposta moralidade instituída com o beneplácito dos poderes venham perorar sobre o que é admissível no espaço público e o que deixa de o ser. Exerçamos o direito ao disparate, uma ramificação do constitucional direito de exercer a liberdade de expressão. Deixemos de lado os zelosos guardiões que decretam o que é verdade à prova de contestação, pois é contestável pelo simples destino (a contestação) a que deve ser votada a arrogância de quem determina os moldes da verdade.

Deixemos o usufruto do disparate para cada um de nós e, por maioria de razão, para os demais. Protesta-se que o espaço público está inundado de comentário sem rigor, fraco, irregular, às vezes indisfarçavelmente mentiroso – o comentário sobre tudo e mais alguma coisa pelos “tudólogos” encartados que posam erudição enquanto do lado de lá uma audiência sequiosa absorve acriticamente as aulas dedilhadas em canais de televisão que privilegiam o comentário. O conhecimento exige a destreza dos peritos.

Queixam-se as virgens ofendidas: qualquer sujeito ostenta à lapela a condição de “perito” num qualquer conhecimento. A assimetria causa danos que podem ser irreparáveis: de um lado, os peritos que enxameiam os canais de televisão e as colunas de opinião dos jornais; do outro, um público que, honra lhe seja feita, procura informação para assimilar conhecimento. Quem, desde a audiência, não ocultar o estatuto de desconhecimento perante o conhecimento bombardeado pelos tudólogos de variada espécie fica à mercê da sapiência segregada pelos peritos admitidos como emissores de conhecimento (e de opinião). Quando os eruditos asneiam, disfarçando a sua erudição com a arrogância intelectual de quem esconde o desconhecimento quando são desafiados a comentar um assunto que desconhecem, a audiência assimila conhecimento distorcido (ou, na pior das hipóteses, total desconhecimento).

Uma extensão do direito constitucional à liberdade de expressão é a liberdade de selecionar as fontes que ajudam a consolidar o conhecimento e a situar as pessoas perante o mundo estranho e complexo em que são peões. Quem acredita em vendedores de banha da cobra e sabe, ao fim de algum tempo, que vendem granadas de conhecimento enviesado, está no seu direito.

O direito constitucional ao disparate é legítimo tanto para quem é o agente ativo do disparate como para os agentes passivos que consomem as pérolas envenenadas de conhecimento e não se importam com isso.

1.10.26

E se falássemos por sinais de fumo?

The B-52’s, “The Deadbeat Club”, in https://www.youtube.com/watch?v=JXy0XnzTQuc

Sobram as palavras nas entrelinhas. Um modesto pacto contra o silêncio. Sem a exuberância das falas copiosas que se esgotam em quase nada quando a intenção das palavras é apurada.

Olhares também servem como sucedâneos das palavras. Interrompem o silêncio sem precisar da fala. Especialmente entre os amantes; especialmente quando os amantes se amam e os corpos são embaixadores das palavras que, por mais destras que sejam, não traduzem a linguagem vertida pelo amor.

Estar presente quando a ocasião justifica a presença não é um acaso. A ausência seria como um desterro voluntário, tida como uma punição, ainda que por omissão, de quem se devia prestar tributo. A ausência tatuada a fogo, a ausência que não é remível, convoca as palavras derradeiras que são como um legado póstumo lacrado na sepultura. Os que se mantêm vivos querem o conforto de acreditar que assim é. Sua será a vez futura de se acharem do lado oposto e acreditam que serão gratas as homenagens que lhes forem consagradas. Esse é um turno a que ninguém escapa.

Entre o sortilégio do amor e o dissidio da extinção, a subtração avaliza uma longa temporada em que se funde a validação das palavras com os silêncios metódicos que as substituem. Parcas as palavras que se congeminam na consagração de sentidos plenos; esvaziadas as palavras prolixas, fica o ruído bruto que distrai da finalidade que lhes é imputada – terem um sentido. O resto é cobrado nas entrelinhas, na lógica averbada pelas palavras ambíguas, nas intenções afetadas às meias palavras, porque nem tudo exige clareza e a semântica não se esconde dos enigmas quando a fusão de falas e silêncios se assemelha às palavras cruzadas.

Só depois de cruzados os sentidos múltiplos das palavras e dos silêncios é que se podem desfazer as incógnitas. Não é uma charada; é outro sortilégio: jogar com as palavras e os silêncios, deitando na lousa os possíveis significados para deduzir aquele que leva vencimento. Às vezes, nem assim se previne os mal-entendidos.

Dantes, havia antepassados que falavam por sinais de fumo e ainda não tinham inventado os serviços secretos (e os políticos laudatórios que claudicam sob as esporas de oratórias gongóricas).