21.5.26

A história que não começa com “era uma vez uma história” (short stories #509)

Propaganda, “Dr. Mabuse”, in https://www.youtube.com/watch?v=bHKm4mLTLs8&list=RDbHKm4mLTLs8&start_radio=1

A história não podia começar com “era uma vez uma história”. Porque esta história ainda não tinha História. Era uma história que ainda queria ter um lugar próprio. Ela sabia que seu seria um futuro qualquer. O verbo não podia ser conjugado no passado. A história ainda estava à espera das personagens. Era como um rio a conhecer o seu caudal, colhendo à passagem os nutrientes minerais que são transformados em personagens mal o rio se aproxima do estuário. Enquanto era caudal apertado, a história era um enredo por experimentar. A estreiteza do desfiladeiro criava uma urgência para a história: ela não podia perder forças ao procurar personagens antes do tempo; o melhor critério era assentar as bases da trama para depois dar entrada às personagens. Parecia o processo de levar uma peça de teatro à cena. O autor pensa na narrativa, não imagina a história à medida deste ator ou daquela atriz. As personagens chegam muito depois. A história tem de estar sedimentada. Ter a sua própria ossatura. Ser um espaço mínimo que consiga resistir a sismos e intempéries iracundas. Uma história dessas não pode começar pelas proverbiais palavras “era uma vez uma história". A história cresce ao contrário, tal como os rios. Estes nascem em altitude e vão descendo os contrafortes, esmoutando o seu caminho à força da água atirada contra os blocos de granito ou de xisto que encontra pelo caminho. Como o rio, a história nasce em altitude e tem o seu epílogo no nível do mar, quando este a recebe nos braços, terminada. As personagens, que então sim autorizam a história a ter a sua própria história feita de gente de carne e osso, vivem junto das povoações que bordejam o mar. Só os ascetas e os poucos pastores habitam as montanhas. Não chegam para ser a intenção de uma história. Por isso não se pode dizer, desta história, que era uma vez. Porque as vezes só existem se o quórum estiver completo.

20.5.26

Águas fundas

Einstürzende Neubauten, “Total Eclipse of the Sun”, in https://www.youtube.com/watch?v=MIZkjPVzUvQ&list=RDMIZkjPVzUvQ&start_radio=1

Enfim, as águas fundas. Aquelas em que nos podíamos despenhar e sentir a demora de um abismo. Artesãos de um refrigério, exilados da terra firme que é o cais desejado, combinamos o sortilégio das águas fundas com um desassossego que amanhece a liberdade.

Quando o resgate do torpor contamina as veias, a gramática passa a ser comandada por um vocábulo impiedoso: inquietação. O que inquieta não é a espera pelo desconhecido, a pauta gongórica da incerteza; é arrancar o corpo da habituação a rituais que repetem um tempo decepado. Olhamos para a pele como uma amostra dos passos em falso que se foram cimentando numa lousa autobiográfica. Era mais fácil pedir autorização para ser admitido ao papel de julgador dos outros, mas a moralidade atirada para cima dos outros nunca foi uma aspiração.

As águas fundas exercem um efeito paradoxal. Se não se esconde o medo intrínseco de saber que os ossos repousam num precipício, ao mesmo tempo contempla a quietude de um espelho de água que parece não ter finitude e que dança uma inércia típica das águas calmas fermentadas num anticiclone. O corpo entra em hibernação enquanto o mar calmo cicia versos avulsos extraídos da pessoal coletânea de poesia. Dizer que as águas fundas são a expressão poética da serenidade não é uma metáfora.

As águas fundas transfiguram-se quando o tempo muda e o vento troa uma ira versada. O mar de fundo que é atingido pela fúria da tempestade descompõe as águas fundas. Parece que elas se tornam ainda mais fundas, mas pode ser apenas uma impressão, os efeitos de uma tempestade no estado do mar não são para estômagos fracos. 

As águas fundas não deixam de ser fundas quando a tempestade é deposta. A profundidade do abismo não mudou. Há quem diga que a calmaria que depôs a tempestade é ardilosa. A fundura que corporiza as águas fundas disfarça a sua linhagem. Ao menos, numa tempestade, recolhem-se as velas e a embarcação protege-se como pode, com a diligência dos marinheiros. Quando se sulcam águas fundas que não conhecem momentaneamente ondas que se vejam, os marinheiros tendem a desleixar-se.

Não é de admirar que haja naufrágios em águas fundas durante a ausência de tempestades. Capitula-se perante a desexigência do momento e da circunstância.

19.5.26

Vamos ensinar às criancinhas que não há desemprego no céu

Nick Cave & the Bad Seeds, “Conversion” (live at Kraków), in https://www.youtube.com/watch?v=BW_2v34Wbco

Crianças, escutai com atenção: não tendes de recear a morte, porque ao serem as vossas almas encomendadas ao céu sabereis que no céu ninguém precisa de encontrar um emprego para prover o seu sustento. O mercado de trabalho foi banido do céu. O trabalho é uma tortura imputada ao sacrilégio do tempo em que andam no domínio terreno. Se assim não fosse, como poderia a entidade divina convencer os mortais de que a morte é uma aparência, podendo esperar do céu não menos do que um Éden celestial? 

Ter um emprego na vida terrena é um sacrifício que os mortais têm de arcar para depois viverem na morte sem os ónus inerentes à passagem pela Terra. O céu alivia os Homens de todos os penhores que desviam a liberdade dos mortais. Desinteressem-se dos conspiradores que atestam a inexistência do céu. Eles procuram transportar as virtudes da vida celestial para a vida terrena. Não é de admirar: se não acreditam na existência de vida após a morte, têm de maximizar a única vida que lhes é dada a conhecer.

O céu não é um lugar recomendado para os economistas. Primeiro, porque fartam-se de fazer prognósticos que erram sempre. O futuro é lancinante para os economistas. Se não fosse o futuro, talvez os economistas fossem mais diligentes – sobretudo se fossem autorizados a fazer previsões económicas sobre o passado. Segundo, como os economistas estudam o desemprego e, como não há desemprego no céu, eles não conseguem entrar no céu, são inúteis naquele domínio. E, como os economistas não são de confiar (alguns não escondem ambições políticas), aplica-se com rigor o direito de admissão que trava a sua entrada no céu. Para evitar que os economistas alterem as regras do céu e semeiem desemprego entre os coabitantes. Com os economistas, nunca se sabe.  

No céu também não há inflação, porque não há mercado para mercar o que quer que seja. Como tudo é gratuito – não há Estado social tão exemplar quanto o céu –, não há preços para mercadorias e serviços. Sem preços, não há inflação. A não ser que os economistas infiltrados no domínio celestial conseguissem subverter os códigos de conduta e inventassem preços, só para terem algo com que se entreter.

Com os economistas, nunca se sabe. Por isso, aos economistas está destinado o inferno, como paga pelas asneiras que andaram a espalhar em vida. Assim sendo, crianças, é fortemente desaconselhável tornarem-se economistas futuros. A menos que não dispensem a estadia celestial depois de mortos.

18.5.26

Dente de leão (short stories #508)

The The, “Sinking Feeling” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=k-qopl03EiQ

            Dentro deste dente de leão guardo as luzes que voluteiam na erupção da aurora boreal. Chamo os pássaros matinais a depor sobre os objetos do medo. As árvores imóveis traduzem o vento omisso. Se a maré alta não estivesse anunciada, os pés desenhavam um caminho no areal molhado deixado para memória futura. Tudo é efémero, tão efémero. Não é um lamento. É o sortilégio de quem se entedia com a probabilidade dos dias iterados, como quase tudo se reduz a um ritual que esvazia a espontaneidade. Por isso trago um dente de leão escondido, reservo-o para os dias penhorados pelos demónios destemidos, para aquelas alturas em que uma força indomável coloniza a vontade e as estrofes que embelezam o mundo são vítimas de um motim interior. O dente de leão lembra que a manhã se agiganta na tela onde se compõem as cores belas e o olhar é convocado a aprender que nos é devido um momento heurístico, num momento a determinar. Um dia, um ancião, sábio como só os anciãos sabem ser, segredou-me que os demónios são criaturas propositadamente criadas para as sepultarmos. Em vez da hibernação, que é um eufemismo do fingimento, o rosto dá-se de frente às contrariedades. Se é com o dente de leão como amuleto, ou apenas sendo artesão dos próprios propósitos, é indiferente. Cada manhã é um triunfo sobre as conspirações que ficam a levitar se a vontade se virar do avesso, sobrando como um mero simulacro do que é. O dente de leão abranda os medos e serve como mnemónica que a vontade emana do interior, não pode ficar à espera de ser ativada por vontades exteriores. Um amuleto não é uma conspiração da superstição. É um ritual que ganha significado à medida que as metáforas diletantes se embebem no tempo que ainda falta. 

15.5.26

Madeira! (short stories #507)

Bauhaus, “Stigmata Martyr”, in https://www.youtube.com/watch?v=LGl_Cn-H05g

Claro que sei perfeitamente que Deus não existe. Mas há beleza na ideia de um ser omnipotente nos amar. Amar-nos seja lá quem for, mas alguém amar-nos. É melhor amar-nos um ser de ficção do que ninguém nos amar. Manuel Vilas, “E, de repente, a alegria”, Lisboa: Alfaguara, 2020, p. 149.

            Há quem diga “madeira”, com uma previsível exclamação. Ai de quem diga “madeira” sem que a proclamação soe como um aviso aos desprevenidos. E ela cai estrepitosamente sobre os braços que anunciam o visível. Não se conte com a realidade desejada; esse é um ardil de quem se constitui intencionalmente refém para se evadir de outras sindicâncias irrefutáveis. Sobrevoa uma pergunta lesante: seremos donos de nossa própria indulgência, praticando os fingimentos necessários em vez do que for dolorosamente impingido pela realidade que temos em mãos? As pessoas dividem-se. Os mais circunspetos, aqueles que talvez não avaliem lamentos excessivos que desvalorizam a própria vida, protestam contra a supressão do real pela falta de lucidez de quem se atira desalmadamente aos fingimentos. Opõem-se-lhes os que já fundiram a esperança com o nada, tantas as cicatrizes deixadas em legado, e que preferem ser intérpretes principais dos fingimentos necessários para emudecer a realidade. Aqueles gritam “madeira” enquanto empreendem a fuga que os ponha a salvo da queda da árvore. Estes deixam-se ficar no mesmo lugar, apreciam a queda da árvore num camarote ímpar, como se ela tombasse em câmara lenta e esses instantes fossem uma metáfora de camadas mais duradouras do tempo, toda a sua vida passando em relance por um periscópio amador. Quem contestar os ardis que servem de refúgio (e não de fortaleza) amotina-se contra os farsantes que, à menor contrariedade, se refugiam num lugar de fantasias, como se fossem cobradores de fraque da própria estultícia. Do lado contrário, o diálogo não cessa: partindo do princípio de que reifica a vontade de cada um, desprezam o manual de boa conduta que deixam ao cuidado de seus autores, deixando-o deserto. A noite dura o mesmo tempo, para um e para o outro. Os dias também. Distingue-os a profundidade que abraçam em cada medida do tempo.

14.5.26

Trezentos paus

Hooverphonic, “Unfinished Sympathy”, in https://www.youtube.com/watch?v=7Oox5S-HM74

Publicidade a uma plataforma de reserva de hotéis. Uma personagem revela que pagou “trezentos paus” pelo hotel. Depois o enredo publicitário prossegue, sem outras referências ao nome de uma moeda que se julgava ser outro. Sabe-se que não é o caso, que o nome da moeda é conhecido e que moedas há que ganham um nome alternativo popularizado pela prática diária de quem a usa. Essas alcunhas manifestam o carinho com que os utentes de moeda a ela se referem.

Só que agora a moeda é a mesma em vinte e um países. Aposto que nenhum outro país usa a alcunha “paus”. Possivelmente, a moeda terá diferentes alcunhas consoante as idiossincrasias nacionais. Aqui será “paus”, em Espanha será “duros” e por aí fora. 

A adulteração do nome não é um exercício depreciativo da moeda. Quem diz “paus” em vez de “euros” não está a rebaixar a moeda. É uma forma carinhosa de chamar a moeda. Há pessoas que preferem chamar “paus” à moeda porque estão obrigadas a uma familiaridade tão próxima, ou até mais, do que as relações familiares e de amizade. Perante tanta cumplicidade, perante uma coabitação tão frequente (quantas vezes ao dia, direta ou indiretamente, usamos moeda?), as pessoas rebatizaram a moeda para espelhar essa proximidade. Se são unha com carne com a moeda, não é de admirar que prefiram um nome por elas popularizado.

O que talvez seja mais inesperado é a reabilitação de uma alcunha que funcionou para a moeda retirada da circulação. Os escudos também eram paus. Os paus ressuscitaram como alcunha dos euros. Seria interessante ensaiar um exercício arqueológico que estabelecesse a responsabilidade pela manutenção da mesma alcunha para diferentes moedas. 

Ora, o euro entrou em circulação em 2002. Há mais de vinte anos. Do que me é dado perceber – pela convivência familiar, pelas pessoas que ouço nas mesas do lado dos restaurantes e cafés, pelos estudantes que se cruzam comigo nos corredores da universidade, pelas conversas ouvidas no comboio – quem usou em primeiro lugar “paus” foram os mais novos, os que habitam a segunda década de vida. Não conheceram em vida o escudo ou, se já tinham nascido, não têm consciência da antiga moeda. Não sabiam que os seus antepassados usavam “paus” para tratar carinhosamente o escudo. Na altura da transição entre a moeda defunta e a moeda nascitura, as pessoas usavam apenas a denominação oficial; desabituaram-se da alcunha “paus”. Que veio a ser reabilitada, cerca de vinte anos depois, por uma geração que não era viva quando essa alcunha era usada na moeda transata.

Será caso para dizer que a recorrência de “paus” como alcunha da moeda é um traço genético da idiossincrasia nacional? Ou apenas o reavivar de um uso reabilitado pela atual geração dos “vintes” depois de ter passado entre gerações por tradição oral?

13.5.26

Saber ir ao fundo com um espírito olímpico

Talking Heads, “Stay Up Later”, in https://www.youtube.com/watch?v=agnEV5frxC0

Mergulha nas profundezas de onde a vista não alcança saída e aprende com a angústia pressentida. Que o horizonte atolado pelas nuvens acumuladas não te demova; não és só tu que sente o olhar assim trespassado. O segredo para apreciar as coisas belas é saber encontrar o contraste com as outras que gostarias de não levar no recobro das recordações. 

Por mais que os sismos façam tremer o quotidiano e te amedrontes com o estilhaçar dos esteios que emprestam um sul, não és só tu que tens desses padecimentos. Se fizéssemos o inventário das pessoas amaldiçoadas pela angústia, não teríamos lugar para as arrumar. Dirás que sentes a boca esfaimada da injustiça a morder a jugular, bebendo através do teu sangue a paz interior que não sabes doravante encontrar. Repetirás que tens essa circunstância como uma paga perversa para a qual não te sabes contribuinte.

Do bando dos lugares-comuns podes sempre resgatar o lema “não há mal que sempre dure”. A menos que ofendas as coisas boas que seguem coladas ao teu paradeiro, sendo tu a devolver, com juros usurários, a injustiça para o espaço sideral onde fica a medrar eternamente. Se num momento és acossado pela angústia e te encontras refém de uma prolongada agonia, e sentes que o precipício exerce uma força gravitacional à qual não sabes se consegues fugir, só de ti depende mudar esse estado de alma para o seu avesso.

Ir ao fundo é uma empreitada dispensável – dirão todos aqueles que já o experimentaram com o desprazer de sentir engastado na carne o espigão da angústia que se demora. Ao ir ao fundo saberás que o fundo tem um fundo e que só a ti caberá a vontade de te entronizares como alpinista para, com firmeza, começares a derrotar esse estado de alma. Não resistas ao processo de ir ao fundo antes do tempo, para não despenderes a força de que precisarás quando descobrires o caminho de regresso. 

Não percas o espírito olímpico, esse tirocínio quimérico que ajuda a pagar as contas da angústia invasora. Depois de chegares ao fundo, atemorizas-te com os contrafortes que te separam da omissão da angústia. Se não derrotares o medo, serás perenemente seu refém. Cabe-te dar regimento à vontade que sirva de superação do pântano que te sitia.

12.5.26

O que temos a dizer sobre a pose “à patrão” do senhor vereador?

Angine de Poitrine, “Mata Dyklek” (live Ubisoft Rooftop Session), in https://www.youtube.com/watch?v=Ws3EAdMpEVA

Faz tudo girar à sua volta. Gesticula, desmesuradamente. Ordena, e o séquito obedece. Dinamiza. Cumprimenta as “personalidades” que estão acima do seu estatuto, pois a sua visibilidade é local e a das personalidades é nacional (e até internacional) – mas não perdem pela demora, a sua especialidade é atravessar degraus e ufanar-se disso. É cumprimentado pelos aspirantes que não escondem as suas intenções e sabem que têm de cair nas boas graças do edil (o que engrandece o seu pequeno poder grande). 

É a sua vez de subir ao palco, substituindo a chefe. Nota-se que o perímetro do peito engordou e que só respira vaidade. O frenesim do olhar frenético, o olhar que gira constantemente em todas as direções a uma velocidade insuperável, recrudesce: tem de perscrutar todos os outros que estão de olho nele, anotando mentalmente os que o olham com aquele ar embevecido próprio dos imbecis que descem ao estatuto de serviçais para depois poderem colher os frutos ambicionados. 

Detém-se com mais demora nos olhares dos outros que o olham, dos desconhecidos que o fitam, atónitos, e dos conhecidos com visibilidade superior à dele que se perguntam, divertidos (sem que o edil se aperceba), “quem é aquele?” A cada protagonista que se apresenta diante do público para receber uma ovação, ele mete conversa. Não disfarça a largueza corporal, coerente com a excentricidade da pose “à patrão” que alardeia abundantemente. Um sociólogo amador faria o diagnóstico célere: em linguagem corrente, e não tecnicamente validada, este indivíduo saiu debaixo de um calhau. E agora compensa, no exercício da sinecura.

Ao edil deve passar pela cabeça que, perante o sexo feminino, tem de parlapatear o charme irresistível dos galãs. Desfaz-se em sorrisos marotos, meneios de cavalheiro que disfarçam a pose soezmente marialva, um sussurro evitável que, invariavelmente, causa desconforto à senhora visada. 

Quando sobe ao palco e empunha o microfone para encerrar a função, um pequeno, mas ruidoso, exército de seguidores aplaude freneticamente cada frase proferida (como se estivesse numa reunião da claque, a que se costuma chamar “comício”). Essa é a praça favorita do edil que, a cada dia que passa, engorda a pose “à patrão”.

11.5.26

A bordo, diário

Peter Hook & The Light, “Isolation” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=XWvXFsS5Bj8  

Para memória futura, diziam. Porque a memória não é nada senão se projetar no futuro. Se o passado não vier a ser cuidado no futuro, ficará como um inerte, condenado à indiferença, um nado-morto que assim que se constituiu em passado foi obliterado porque futuro algum o terá evocado.

Temos de ser todos notários do nosso passado. Recusar a maquinação de trancar o passado na irrelevância de algo que aconteceu e não deve ser apascentado num futuro que lhe é posterior. Notários, para não despedaçarmos os fragmentos do passado na tentação hedonista da desmemória. E para nos disciplinarmos numa moldura mínima que retenha para consulta os fragmentos que tiveram um tempo no passado.

Enquanto notários do tempo que por nós passou, convocamos o diário para subir a bordo. No diário de bordo anotamos num livro acessível a herança que o passado se encomenda ao futuro. Para não sermos privados de um lastro que nunca se desapega, porque somos um legado feito de sucessivas camadas de tempo que selam os fragmentos relevantes para a leitura de um passado representativo. 

Um diário de bordo não pode ser exaustivo. Não pode ser uma descrição ciclópica de tudo o que teve acolhimento num dia, num mês, num ano, no tempo inteiro. Como notários do tempo que legamos ao futuro, temos de ser seletivos. São selecionados os momentos mais significativos, aqueles que se traduzem na embocadura do passado que depois é recebido pelo tempo subsequente. Pedimos ao diário que suba a bordo e depois passamos a ser o seu curador, deixando criteriosamente os pedaços de passado que podem ser matéria-prima à consideração do futuro. 

Um diário de bordo não é uma empreitada rígida. Se for preciso despromover um acontecimento a nota de rodapé, ou se outro entretanto for considerado irrelevante, o diário de bordo aceita as metamorfoses ditadas pela revisão dos tempos e pela ponderação dos que são capazes. 

Um diário de bordo é um livro sempre aberto.

8.5.26

Assaltaram o restaurante, prepararam o jantar e foram apanhados em flagrante confeção de iguarias de elevada qualidade

Silk Rhodes, “Pains”, in https://www.youtube.com/watch?v=V1IHp28TXXE  

(Baseado numa notícia real, mas depois sujeito a um enxerto de romantismo propositado)

Há assaltos que correm mal – se é que, sem a cobertura de um viés moralista, se possa dizer que um assalto, só por ser assalto, corre bem. Um grupo de “amigos do alheio” invadiu as instalações de um restaurante. Porventura por não comerem há horas de mais, depararam-se com a cozinha e os ingredientes, uns armazenados na despensa, outros no frigorífico, e trataram de preparar o repasto. Sendo um assalto noturno e tendo ligado as luzes para saberem o que estavam a fazer, a luz que vinha de dentro para fora alimentou (em sentido impróprio) a suspeição.

Alguém reportou o “ocorrido” à polícia, que, como é habitual quando a força policial é importunada durante a hora da refeição, demorou a chegar ao “local da ocorrência”. O que deu tempo aos meliantes para avançarem na função gastronómica (“já agora”, pensaram ingenuamente os assaltantes). 

De atalaia, a uma distância de segurança, que a lucidez aconselha a manter de fora do corpo a pose de herói quando um grupo de assaltantes está nas imediações e pode, em desespero, cometer atos tresloucados, o dono do restaurante e, ao mesmo tempo, chefe da cozinha observava as movimentações com impaciência. Apesar da preocupação com o assalto em curso, não pôde deixar de notar os odores que vinham da cozinha: os assaltantes tinham metido mão à obra e estavam a cozinhar. Os aromas davam a entender que estavam a ser preparadas iguarias de qualidade.

Quando os polícias chegaram e fizeram notar a sua contrariedade – devia existir um código de conduta dos assaltantes que os impedisse de concretizar assaltos durante a hora da refeição dos polícias –, entraram no restaurante e deram ordem de prisão aos assaltantes. Eram três os assaltantes, que não ofereceram resistência. Aliás, as únicas armas que tinham à mão eram os utensílios de cozinha que estavam a usar enquanto preparavam a refeição.

O chefe da cozinha e dono do restaurante provou os preparados. Ficou admirado com a qualidade das iguarias. Ato contínuo, trocou impressões com os assaltantes para perceber o que tinham preparado e como o tinham confecionado. Ao lado, os agentes da polícia mantiveram o ar de contrariedade e repreenderam o dono do restaurante pelo diálogo impróprio com os meliantes. Um dos “agentes da autoridade”, virando as costas a caminho do “veículo”, disparou: “que falta de respeito! Prendemos os ladrões e ainda mete conversa com eles.”

Meses depois, os três homens foram a julgamento. O dono do restaurante depôs como testemunha abonatória, recordando a elevada qualidade dos pratos preparados pelos homens que expropriaram temporariamente a sua cozinha. Os juízes não se comoveram com o desprendimento do chefe de cozinha nem com a ingenuidade dos assaltantes, que se inebriaram com os ingredientes do restaurante e com a possibilidade de exercer um hobby

Os três homens foram condenados pela justiça impessoal e insensível, sem direito a circunstâncias atenuantes que poderiam ter sido, se fossem consideradas, a ingenuidade e a elevada qualidade dos cozinhados.

7.5.26

Dizer, prego a fundo, e praticar

The Sundays, “Here’s Where the Story Ends”, in https://www.youtube.com/watch?v=FHsip5xOenQ

O motor não pode arrefecer. A luz é sempre vívida, mesmo que anoiteça, mesmo que os corpos, dormentes, esmaeçam pelo cansaço. Não há tempo a perder – e, se há algo em que somos pródigos quando estamos sitiados pela anestesia dos sentidos, é perder tempo. Os verbos conjugam-se no tempo válido. Um dia bom é aquele que passou a correr, sabendo que corremos ainda mais depressa do que ele. Sabendo que não foi perda de tempo.

Podem os argonautas do medo atirar adversativas para cima da mesa, escolhendo a tibieza como modo de proceder. São os que, timoratos, abrandam a marcha, tergiversam, amedrontados com uma rampa inclinada, só faltando meter a marcha-atrás para não serem reféns de um precipício todavia apenas imaginado. São eles que congelam de medo, sem premir o gatilho da roleta-russa. Os que empatam a vida, as vidas. É contra estes testamentários da usura que devemos carregar a fundo no acelerador. Cobrindo com uma velocidade estonteante os caminhos que nos separam de uma empreitada.

Por isso, prego a fundo. Sem ficar pela teoria; muitos são os intrépidos argonautas que apressam intenções ousadas e ficam-se pelo esquecimento, ou não conseguem arregimentar as forças necessárias para validar a coragem. As intenções são só o primeiro passo, o mais difícil. Mas não é suficiente. As intenções que não passam à prática acabam por valer tanto quanto as de quem se amedronta com a hipótese de acelerar todo o mundo à sua volta, a começar por si próprios.

Se o prego não for a fundo, o futuro será colonizado por um prego avulso e destemido, que aproveita a apatia para conspirar. A validade não se objeta na velocidade desenfreada que procura amputar a efemeridade do tempo que nos é creditado. Sem ser preciso um curso de condução desportiva. A lucidez de cada um é o critério para medir a velocidade vertiginosa. Sempre de prego a fundo, para não ser vítima da usura da apatia.

6.5.26

Descolonizar

Flea ft. Nick Cave, “Wichita Lineman”, in https://www.youtube.com/watch?v=73P2drWXulM

Se as sombras são uma métrica, devemos uma dívida impagável aos estetas que nos tutelam?

Não se assustam os espíritos embaciados, convencidos de que precisamos de uma bússola perene e de alguém que tenha como empreitada calibrá-la quando somos atirados para um desequilíbrio que amedronta. Somos colonizados e isso é produto da vontade. Dirão: se é consequência da vontade, não chega a ser colonização. A lucidez a soldo empresta-nos o crédito de que precisamos para testemunhar a entrega aos tutores que calibram a bússola que nos orienta. Somos seus devedores.

E se não for o resultado de uma vontade espontânea? Se for a tradução de uma vontade predeterminada do exterior, com sucessivas camadas sobrepostas que vão anestesiando a lucidez? A complexidade do presente é um ónus que se abate sobre nós. Não sabemos responder às múltiplas solicitações. Agradecemos a ajuda que vem do exterior, que nos situa no farol onde as resoluções são afinadas. Se não fosse essa ajuda, seríamos espíritos tresmalhados, apartados do demais grupo ao qual passaríamos a pertencer apenas como formalidade. 

Hipotecados na vontade que também passa a ser uma formalidade, vegetamos como seres acríticos que aceitam amputar a vontade para não ficarem condenados a uma misantrópica condição. Somos átomos considerados, pois se não formos gregários vamos sendo extintos do mapa da existência (ou dele somos exilados na exiguidade do nosso reduto, de onde deixamos de contar para o cimento da comunidade). A vontade cedida não é um anátema; é um custo da oportunidade de continuarmos a ser considerados, nem que seja como figuras irrelevantes que, somadas, se agigantam num todo coletivo e, todavia, anónimo de rosto e de vontade própria.

Esta é uma dependência que nos infantiliza. Uma metáfora da colonização interior à qual estamos condenados, sucumbindo perante o império disfarçado daqueles que, numa farsa fingida de generosidade, tomam conta de nós a partir do magma e de todo o sangue, até sermos meros autómatos que se limitam a seguir os mandamentos dos ordenantes.

Se não quisermos ser reduzidos à insignificância de um número e pouco mais, convoquemos a descolonização. Sem receio dos que protestam que a descolonização é um retrocesso. A descolonização é a restituição da lucidez que havia sido empenhada no processo de colonização dos espíritos.

5.5.26

A dançar entre as linhas

Royal Blood, “Ten Tonne Skeleton”, in https://www.youtube.com/watch?v=eD7NZTQ3QxY

Disse às palavras para calçarem os seus melhores sapatos, os sapatos de dança. Era a altura de elas dançarem no chão desamparado de figuras de estilo, só elas, descarnadas, cortando o passo ao subtexto ou às metaanálises que se desdobram em múltiplos significados. As palavras sentar-se-iam nas linhas devidas e ser-nos-ia endossada a empreitada de decantar os seus sentidos entre as linhas.

Não se diga das palavras que são ambíguas. Ambíguas são as interpretações dos seus leitores; é a eles que pode ser atribuída a subjetividade que é um custo irrecusável das palavras. Fora disso, elas são de uma objetividade atroz. Quem as usou imputou-lhes um significado. As palavras assim emolduradas não têm culpa dos olhares diferentes que sobre elas se detêm. São esses olhares que fabricam as linhas escondidas entre as linhas que albergam as palavras. São elas que abrem mil sentidos alternativos que podem ser colados às palavras: como se cada entrelinha recebesse, em lápis enevoado, a revisão das palavras embebidas nas linhas autênticas. 

As palavras que dançam entre as linhas são instáveis. Por mais que sejam firmes os seus passos que saracoteiam entre as linhas, saltando entre a terceira e a sétima linha, e depois entre a sétima e a décima primeira linha, espraiam-se numa caligrafia legível que se opõe à caligrafia descuidada das linhas visíveis. Como se as palavras que dançam entre as linhas se esmerassem na caligrafia porque sabem que aparecem como espectros, são baças, ambicionando a nitidez de quem está condenado a não sair dos bastidores.

O periscópio atento sabe que não há apenas as linhas onde se agigantam as palavras contingentes. No desacampado entre as linhas, as palavras ficam nuas. Desembaraçam-se do sentido despótico do autor, abrindo-se a um mar de possibilidades que inventa uma comunidade que colabora na ressignificação das palavras averbadas nas linhas.

A dança das palavras entre as linhas aumenta as possibilidades de as palavras não ficarem presas a um sentido despótico. Essa é uma dança que homenageia a liberdade. Porque as palavras também são seres vivos que merecem a sua liberdade.

4.5.26

O homem que andava sempre com guarda-chuva

The Cure, “Push” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=5YJ2H-5a09E

Parecia a “velha Albion” (glosando aqueles comentadores de futebol que adoram a erudição que não passa de platitudes), mas não era. Este é um lugar na orla do Mediterrâneo, onde a pluviosidade fica sempre aquém do inventário de chuva habitual em “terras de sua majestade” (idem aspas). O homem não prescindia do guarda-chuva. Estivesse no inverno ou no verão, ou numa das outras estações. Não queria saber se os peritos em meteorologia previam a “queda de precipitação” (de acordo com o jargão da classe) ou se anunciavam dias soalheiros, sem a menor probabilidade de chuva. Andava sempre com o guarda-chuva a tiracolo.

No inverno, o portador constante do guarda-chuva não dava nas vistas. Muitas outras pessoas também saíam à rua na posse do objeto. No verão, sobretudo nos dias de canícula – outra vez: este era um lugar pré-mediterrâneo, no verão as temperaturas ultrapassam os trinta graus centígrados – lá estava o homem, absorto como sempre, uma das mãos segurando religiosamente o guarda-chuva.

Se havia algo que o homem do guarda-chuva não lamentava, era a perda de guarda-chuvas. Muitas pessoas têm esse lamento, penhoradas por uma distração inata que as faz perder o objeto entre duas paragens. Para o homem do guarda-chuva, o guarda-chuva era como a roupa interior. Se saísse à rua sem o guarda-chuva, sentia-se nu. Ninguém se esquece da roupa interior (vamos partir deste pressuposto), como o homem não se esquecia do guarda-chuva. 

No verão, fazia-se notar. Nos dias tórridos aligeirava o vestuário, como toda a gente. Mas o guarda-chuva estava sempre de atalaia, e ele garbosamente ostentava o guarda-chuva até nos dias de estio a fio, aqueles dias, lamentados apenas por poucos, em que a chuva passara a ser uma memória distante. 

Um dia, uns rapazolas a contas com a estupidez típica da adolescência repararam no homem do guarda-chuva. Um dia, e outro, e uma sequência deles, o homem passava apressado à mesma hora pelo lugar onde estavam os mariolas. Riam-se do seu jeito desajeitado, mas riam-se acima de tudo, porque o homem parecia desafiar o anticiclone dos Açores quando estacionava demoradamente nas imediações e afugentava a chuva para outras latitudes e longitudes. Especulavam: um adivinhava que o homem não largava o guarda-chuva porque o usava como bengala. Outro acreditava que tinha uma fobia e só conseguia sair à rua com o guarda-chuva. 

O terceiro estarola decidiu, ao quinto dia, desfiar o homem do guarda-chuva. Quando passou por ele, ensaiou um gesto furtivo para apartar o guarda-chuva do homem. Soube então a serventia do guarda-chuva, como pôde atestar pelas nódoas negras, avulsamente distribuídas pelo lombo, depois de o homem ter usado o guarda-chuva para acertar umas bengaladas exemplares.

Foi quando os madraços perceberam a teima do guarda-chuva. Se alguém o assaltasse, teria de lidar com o guarda-chuva como arma de defesa. 

1.5.26

Pedestal (short stories #506)

Death Cab for Cutie, “Punching the Flowers”, in https://www.youtube.com/watch?v=P1KTbDxOuuQ

          Torci a roupa para que toda a água se escorresse. Às vezes, lembro-me disso quando as pessoas acreditam que podem pôr o conta-quilómetros a zero, desencomendando o passado. O esquecimento pode ser manipulado com propósitos diversos. Correr com o tempo havido pode ser um deles. Se o processo for convincente, não se dá conta que o esquecimento foi enxertado no tempo para que o passado fosse desmobilizado. As pessoas estão habituadas a mentir a si mesmas. Procuram lugares desconhecidos. É nesses lugares que (acreditam) podem ser seletivas com o tempo que (acreditam) conspira contra elas. Mas são elas que conspiram com o tempo quando o querem varrer do paradeiro pretérito. São autoras e vítimas dessa conspiração. É mais fácil esconjurar fantasmas que tomaram conta de um pedaço do passado do que procurar uma vacina que limpe todo o tempo havido. Em vez de procurarem um pedestal onde sejam juízes das suas circunstâncias, é melhor não se esconderem dos contratempos, como se esperassem que um exílio interior compusesse as máscaras necessárias para abater o tempo de outrora de uma só vez. Usam tanto tempo como combustível dessa empreitada que nem percebem como gastam, sem serventia, um tempo que é raro. As pessoas parecem convencidas de que podem ambicionar a perfeição, continuam a tropeçar nessa usura. Ou então, magoadas por estilhaços do passado, acreditam que podem sanar as dores se obliterarem todo esse tempo de uma só vez. O pedestal que devem procurar é outro. Um pedestal que rime com humildade. Um pedestal onde sejam a expressão viva da imperfeição e de como isso é a matéria-prima do dia a dia. Se souberem descobrir esse pedestal, as feridas do passado cicatrizam. A mágoa e a angústia herdadas do passado podem ser compensadas com o olhar que criteriosamente escolhe viver do presente.