Propaganda, “Dr. Mabuse”, in https://www.youtube.com/watch?v=bHKm4mLTLs8&list=RDbHKm4mLTLs8&start_radio=1
A história não podia começar com “era uma vez uma história”. Porque esta história ainda não tinha História. Era uma história que ainda queria ter um lugar próprio. Ela sabia que seu seria um futuro qualquer. O verbo não podia ser conjugado no passado. A história ainda estava à espera das personagens. Era como um rio a conhecer o seu caudal, colhendo à passagem os nutrientes minerais que são transformados em personagens mal o rio se aproxima do estuário. Enquanto era caudal apertado, a história era um enredo por experimentar. A estreiteza do desfiladeiro criava uma urgência para a história: ela não podia perder forças ao procurar personagens antes do tempo; o melhor critério era assentar as bases da trama para depois dar entrada às personagens. Parecia o processo de levar uma peça de teatro à cena. O autor pensa na narrativa, não imagina a história à medida deste ator ou daquela atriz. As personagens chegam muito depois. A história tem de estar sedimentada. Ter a sua própria ossatura. Ser um espaço mínimo que consiga resistir a sismos e intempéries iracundas. Uma história dessas não pode começar pelas proverbiais palavras “era uma vez uma história". A história cresce ao contrário, tal como os rios. Estes nascem em altitude e vão descendo os contrafortes, esmoutando o seu caminho à força da água atirada contra os blocos de granito ou de xisto que encontra pelo caminho. Como o rio, a história nasce em altitude e tem o seu epílogo no nível do mar, quando este a recebe nos braços, terminada. As personagens, que então sim autorizam a história a ter a sua própria história feita de gente de carne e osso, vivem junto das povoações que bordejam o mar. Só os ascetas e os poucos pastores habitam as montanhas. Não chegam para ser a intenção de uma história. Por isso não se pode dizer, desta história, que era uma vez. Porque as vezes só existem se o quórum estiver completo.