Bauhaus, “Passion of Lovers” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=0YPahEmS-74
A vergonha é uma conversa fiada. Porque, quase sempre, quem mais suporta o ónus da vergonha são os que acusam os outros de serem trespassados pela vergonha.
Uma das expressões idiomáticas que corporiza a vergonha ajuda a sistematizar o fenómeno: fala-se de “ter vergonha na cara”, uma medida minimalista de vergonha, pois de fora dela fica o resto do corpo. Os juízes do comportamento irrepreensível dos outros (apenas dos outros) disparam a interrogação “não tens vergonha na cara?” com a veemência própria de um inquisidor que zela pelos bons costumes e pelo cimento da moralidade do grupo a que pertence. Não obtêm resposta. Os delituosos não reconhecem o estatuto do inquisidor e recusam-se a dialogar com ele, ou estão tão embaraçados com o tamanho da vergonha em que foram arrolados que a vergonha dessa vergonha emudece-os.
Ao formularem a questão naqueles termos, os modernos inquisidores correm o risco de um despudorado subir tão alto na escala da vergonha que soma mais uns metros na vergonha que o cobre ao responder “só tenho vergonha na cara, no resto do corpo, não.” Estão cobertos de razão (outros diriam: estão cobertos de vergonha – mas não se nota). Para que hão de os inquisidores ter o trabalho de endossar a nota de culpa por uma vergonha que cobre apenas o rosto, se cerca de oitenta por cento do corpo fica protegido da vergonha? Uma vergonha a vinte por cento será uma vergonha que chega para acender os holofotes da censura social?
Dirão: o problema está a ser treslido, a vergonha, quando existe, percorre o corpo de cima a baixo. O problema é a literalidade da expressão idiomática que consagrou apenas o rosto como selo da vergonha que cobre a pessoa. A expressão idiomática deixou de fora a parte mais importante da vergonha. Quem for acusado de não ter vergonha na cara tem matéria-prima qualificada para se defender: dirá que pior seria se lhe perguntassem se não tem vergonha da cabeça aos pés.
Sobra ainda a hipótese de os inquisidores não serem tão implacáveis como se julga, medindo a vergonha dos outros apenas pela área correspondente ao rosto. Será uma forma generosa de tratar a vergonha alheia. A vergonha já magoa os próprios; não é preciso que juízes de fora a agravem com o seu juízo.