1.9.26

Por que tem uma empresa de ser sexy? (Ou: o equívoco entre mercado e sensualidade)

Dave Gahan, “Ocean”, in https://www.youtube.com/watch?v=F_AOgI9yC4g

(Mote: “Andar de autocarro não é uma coisa sexy. Queremos passar a ser uma empresa mais sexy”. Entrevista a Luís Osório, presidente dos STCP, in Público, 28.08.26, p. 16)

Pode ser apenas a língua de trapos dos modernos gestores – em todo o caso, é menos mau do que aqueles gestores cheios de vitalidade que falam uma mistela de português e de inglês, socorrendo-se do inglês para o uso de termos que têm uma tradução em português corrente (os Zeinal Bava deste mundo). A mania de fazer corresponder “sexy” a “atrativo” é, talvez, do domínio freudiano. Só que, neste caso, deve haver uma má convivência com a sensualidade, para tão atrevida ignorância que faz corresponder aquele termo com “atratividade”.

Não é ofensivo, na lógica capitalista, que as empresas se esforcem para conquistar mais consumidores. Em mercados concorrenciais, é assim que se distinguem as empresas que singram das que vegetam e, mais tarde, ficam condenadas à extinção. As empresas não se podem descuidar nas campanhas que conservam clientes e nas outras que querem atrair novos clientes. A criatividade é a pedra de toque. Depois, a publicidade, instrumental àquele objetivo, trata do resto. É preciso saber de psicologia e comunicar com eficácia. 

Vir para um jornal de grande circulação anunciar espalhafatosamente que uma empresa de transportes públicos tem de ser “sexy” é um equívoco dos grandes. É preciso desmontar esta babugem de trás para a frente. O que o gestor quer dizer é que a empresa tem de aumentar o número de utentes; tem de estudar como os atrair – é de atratividade que se trata. Faz sentido, na lógica de uma empresa de transportes públicos, e no contexto da preservação ambiental, que convença as pessoas a usarem meios de transporte que deixem menor pegada ambiental. 

O primeiro erro do gestor é confundir “atratividade” com “sensualidade”. Não se está a ver que características humanas pode a empresa assumir para mexer com a libido dos cidadãos. Quem fica excitado com um autocarro? O segundo erro é semântico (muito embora, no fim de contas, seja irrelevante para o efeito). A sensualidade não é sinónimo fechado de “sexy”. A sensualidade ultrapassa o que podemos julgar ser sexy. Algo que é sensual pode não ser sexy, por a sensualidade ser um conceito que não se restringe aos aspetos carnais do sexo.

A advertência não pode deixar de ser feita: é preciso ter cuidado com este homem, e outros que tais, que podem facilmente confundir os planos e acharem “sexy” algo que o não seja por não ser humano.