Desaparecem os vestígios atravessados na paisagem, como se dissolvidos fossem pela erosão do tempo. Muitos são os que se entregam à nostalgia tirânica. Desinteressam-se do vento que se alimenta do tempo corrente: dizem que desse tempo não levam nada para aprender.
As algemas franqueiam uma fortaleza. Têm consciência disso, mas recusam um movimento que contrarie a moldura do passado, não o querem esconjurar. Olham de frente para o vindouro à espera da maioridade do dia que atravessa o presente e cansam-se da incerteza desse tempo. Não querem estar sitiados por uma moldura que desconhecem.
Já ouviram dizer que perder a pele no passado é das perdas maiores. Se for intencional, é um paradoxo: só conhecem o passado, essa é a sua zona de conforto. Olham para trás pelo canto do olho, até o campo de visão assim devolvido ser uma nesga. Por mais que ouçam, em jeito de advertência, para não olharem para trás, é o que melhor sabem fazer. Empenham toda uma vida que está ainda por servir. Se fosse revogado o medo do futuro, não procuravam no mundo conhecido.
Um dia alguém perguntou à confraria dos historiadores das suas próprias vidas se concordavam estar sob a égide de bandeiras que invocam o passado, sem se esquecerem que hinos e bandeiras são um atavismo próprio de quem faz o salvo-conduto do passado, um tempo que já só interessa aos arquivistas e aos cientistas que selam a História dessas circunstâncias. Ninguém soube responder. Ninguém quis responder. Fingiram.
O cavalo selvagem passou a correr no campo de visão. Não abrandava o trote, parecia fugir de um espectro que o amaldiçoava. A árvore centrípeta estava no caminho do corço jovem que bebia água no riacho que ainda sabia ao degelo. Os corpos moviam-se em uníssono, como se tivessem feito o tirocínio de uma coreografia. Tinham de se convencer a não olhar para trás. Contudo, tinham medo de se arrepender. Omitiam da pele o tempo sensível. Não se entregavam a esse risco. A redenção é sempre para os outros, não queriam ser assaltados pelo sobressalto de quem se entrega a esse violento ato interior.
Somos nós, assim teimosos, os responsáveis pelo adultério do tempo.
Desde que a extrema-direita começou a crescer pela Europa fora (e não só), tem prosperado uma análise catastrófica que a associa a pressões existenciais sobre a democracia liberal. As reações variam entre o clamor pungente dos que temem a progressão eleitoral dos neofascistas como presságio da extinção da democracia e a minimização dos efeitos telúricos da direita radical, porque os “autênticos democratas” estão de atalaia e não deixarão passar os que, atropelando a História, esgrimem as trevas totalitárias como um “novo amanhã” que sobressalta os que vigiam a saúde da democracia.
Entre o estado de pré-apocalipse de uns e a minimização de outros, vai um imenso espaço onde cabe uma análise temperada e refletida sobre as ameaças que pendem sobre a democracia, nas quais, por imperativos de equidade, deviam ser incluídas pulsões totalitárias de outra linhagem. (Os “democratas autênticos” conseguem ficar indiferentes ao cenário dantesco, e cada vez mais perto de se consumar – a crer nas sondagens recentes –, da segunda mão nas presidenciais francesas entre Marine Le Pen e Jean-Luc Mélanchon?)
Matt Tempest, no editorial do EUobserver, abre um parêntesis (literalmente) na análise às eleições em Berlim marcadas para 21 de setembro para regressar à digestão das eleições da Saxónia-Anhalt, a primeira vitória eleitoral dos neonazis desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Nesse parêntesis, como quem ainda está mergulhado num pesadelo mas precisa dele se libertar, o jornalista relativiza a vitória da AfD. O universo de eleitores era de apenas 1,7 milhões, num total de cerca de 83 milhões de habitantes na Alemanha. Há terramotos devastadores, os que deitam abaixo cidades inteiras e semeiam mortes a eito. E pequenos sismos, que mal são sentidos pelas pessoas, tão fraco o abanar da terra. O que Tempest está a sugerir é que as eleições na Saxónia-Anhalt correspondem a um “sismozinho”. Não passam de um epifenómeno.
E assim depressa passamos da certificação do neofascismo antes do tempo para a sua desvalorização também apressada. Há quem esbraceja o fantasma do fascismo com ligeireza; e há quem, com idêntica ligeireza, condena a vitória eleitoral dos neonazis à irrelevância só por causa da insignificância dos números. Se os primeiros, alguns deles exibindo muito duvidosas credenciais democráticas, partem de um pressuposto catastrofista por antecipação, os que se revirem no método de Tempest escorregam para um negacionismo oportunista. Faz lembrar aquelas pessoas que tiveram um sério contratempo na vida e se esforçam por fingir que tudo não passou de um pesadelo.
Fico com uma impressão negativa de alguém que se serve de números para negar uma realidade dolorosa. Como há quem torture os números até confirmarem o efeito pretendido no início, esta análise no EUobserver congemina uma manipulação criteriosa dos números para desvalorizar a vitória dos neonazis na Saxónia-Anhalt. Em rigor, Tempest não foge da dura realidade, mas doura a pílula ao procurar situar os números (de eleitores) no contexto em que coloca. Agarra-se aos números que são convenientes, à espera que desfaçam o pesadelo político que, contudo, não se pode escamotear ao tropeçar na vitória eleitoral dos neonazis num Estado federado da Alemanha.
O povo aconselha a que não sejamos reféns do oito nem nos excitemos com o oitenta. É o caso dos efeitos sísmicos que invariavelmente se levantam quando partidos de extrema-direita ou da direita radical ganham eleições ou, não as ganhando, conquistam presença significativa na geografia política de um país ou de uma região. Não é aconselhável cair no logro dos apocalípticos que pressentem o fim da democracia com o beneplácito de todos nós, os que tolerámos que os intolerantes pudessem concorrer a eleições. Nem é bom critério disfarçar uma vitória eleitoral da extrema-direita à boleia da manipulação de números, como o fez o editor do EUobserver. Há quem se sinta bem com uma temperatura exterior de dez graus centígrados, advertindo que seria pior se estivessem dez graus negativos e, como não estão, a temperatura está agradável, conclusão que nunca será secundada por aqueles que adoram viver sob os efeitos da canícula sentida acima dos trinta graus.
O critério matemático de Tempest é duvidoso. A vitória dos neonazis é um problema, nem que fosse num minúsculo lugarejo habitado por trezentos eleitores. O problema é pressentir que a semente foi lançada e que, a prosperar noutros lugares, pode dar origem a mais vitórias eleitorais da extrema-direita e da direita radical, espalhando o neofascismo e o neonazismo pelo mundo fora. Esse efeito, que o futuro tratará de confirmar ou desmentir, não pode ser marginalizado a coberto de um utilização distorcida dos números. Sem ser contestável a validade aritmética da análise de Mark Tempest, a sua significação simbólica não pode ser afastada pela fria leitura dos números apresentados. A vitória da AfD vale muito mais do que esses frios números possam sugerir (e preocupa outro tanto).
Andam os ianques aos tiros como os sucessores dos persas e o estrangulamento de um estreito por onde navega muito petróleo tem atirado o preço da prima matéria-prima para a estratosfera, dando corda à inflação que costuma ser boa para os orçamentos dos Estados e má para toda a demais gente.
Dispendioso que está o petróleo, os combustíveis que dão o mantimento essencial aos veículos seguiram a mesma tendência. Tudo encarece, porque tudo, ou quase, é transportado por estrada e os camiões de elevada tonelagem só sabem beber gasóleo (cinicamente, o combustível que mais envenena a atmosfera). O efeito dominó varre a economia de uma ponta à outra e os dias amanhecem sequestrados pela carestia que trepa a cada dia que passa. A inflação começa a morder até ao osso.
Se protestas pelo preço dos combustíveis, deixa o governo em paz que não foi o governo que invadiu os outrora persas, nem foi ele a estrangular um tão estratégico estreito marítimo por onde navega tanto petróleo. Não venhas insistir na ladainha do IVA que devia ser diminuído, como se o governo decidisse subsidiar os contribuintes de cada vez que pegassem na mangueira do combustível, enquanto os mais necessitados, que não têm o luxo do automóvel próprio, se isentam desta regalia. Nem menos invoques o país do lado, que de exemplo não tem nada.
Em vez dos lamentos profissionais a que te queres dedicar, interioriza um anexim que o povo (dizem: tão sábio) legou à cultura popular. Não te esqueças que se não te é dado ter a ajuda de um canídeo para caçares, contenta-te com o felino que esteja à mão (até porque os felídeos são exímios caçadores, de melhor cepa do que os canídeos – e ao sabê-lo por mote próprio, darás um contributo para desfazer um indefensável mito popular; o povo é assim, paradoxal).
Em assim sendo, mentaliza-te dos recursos que os teus disponíveis recursos, os que ainda não foram sorvidos pelo vulto da inflação, possibilitam. Se o orçamento emagreceu e és forçado a desviar réditos para prioridades urgentes, deixa a carripana a descansar e passa a andar a pé. Assim como assim, as adiposidades acumuladas nos últimos anos podem começar a ser derretidas com as caminhadas. Sabes lá se não te pouparás a isquemias possivelmente fatais.
Eis outro paradoxo dos tempos modernos: a carestia de vida é amiga da saúde das pessoas. Para de protestar, ou preferes encomendar-te ao desviver súbito?
Calçava botas sem cordões e usava casacos puídos. Não era por carência. Nunca se importou com os predicados da estética e ainda menos com as considerações, avulsas ou sistemáticas, que sobrem ele os outros faziam. Menos ainda quando misturavam a sua austera, propositada condição, com a confortável condição material a que teria acesso, caso fosse da sua preferência.
Não primava pela cortesia. Menos ainda pela simpatia. Não se lhe conhecia família própria – por ser um lobo solitário, sem ser dado ao próximo, ninguém se candidatara a apurar a sua situação familiar; era mais fácil concluir que não tinha família conhecida. Não se prestava a grandes conversas, mesmo quando era obrigado a articular umas palavras na interação obrigatória ao dedicar-se às coisas do dia-a-dia de que não se podia furtar (compras na mercearia, o café diário, a extravagância de um gelado nos dias em que o calor apertava a jugular – mas só nesses). Era como se rosnasse quando pedia o pão, ou os legumes, ou o café; rosnava menos quando decidia sobre os sabores do gelado.
A higiene pessoal não figurava nas suas preocupações. Espaçava os banhos para além dos padrões ora considerados: uma semana, uma semana e meia. Como dizia um poeta, uma pessoa habitua-se depressa à falta de banho, o corpo fica a cheirar a frutos tropicais. Como não partilhava a vida com ninguém, só prestava contas do mau cheiro a si mesmo.
Quando o Verão entrava em força, e não conseguindo aturar o termómetro quando subia dos trinta graus centígrados e as pessoas se aliviavam de indumentária e calçado, vingava-se nos figos garbosamente exibidos nas mercearias, para gáudio dos comerciantes que abusavam da margem comercial porque sabiam que as pessoas faziam rimar Verão com figos. O homem, com o cenho carregado, movia-se como um agente secreto, criteriosamente apurando se ninguém o estava a ver. E depois pegava num boião de mel e borrava os figos, como se os estivesse a marcar com a doçura que não devia estar em falta aos figos.
Um dia distraiu-se e o merceeiro apanhou-o em plena função. Perguntado sobre a razão do gesto, respondeu: borro os figos em mel, não vão alguns estar azedos. O homem carrancudo preocupava-se com o negócio dos merceeiros, não fossem ser acusados de venderem produto danificado. Afinal não era tão misantropo.
Há economistas e economistas. Ainda bem que a pluralidade existe na ciência. Todavia, a Economia continua a manifestar tendências dominantes, um sinal que atravessa transversalmente os tempos. O paradigma dominante pode mudar, mas existe sempre um paradigma dominante. Na Economia dominante, ou ortodoxa, um dos principais pressupostos é a escassez de recursos. Ao reconhecer que os recursos são escassos, a Economia discute as possíveis utilizações alternativas de uma combinação de fatores que são, por definição, escassos. A escassez é intrínseca à natureza finita do mundo.
Os economistas são confrontados com esta restrição. Devem procurar uma combinação ótima na afetação de recursos que maximize os resultados económicos. As circunstâncias (geográficas, culturais, políticas e os constrangimentos e oportunidades herdados do momento) pesam na comparação das várias alternativas de utilização dos recursos escassos. A promoção de um conjunto de recursos em detrimento de outro resulta da combinação daquelas circunstâncias e do próprio sopesar que os economistas (enquanto consultores de políticas públicas) e os políticos (enquanto titulares da decisão) fazem de todos os fatores que possam pesar mais do que outra utilização alternativa.
Um dos maiores paradoxos da Economia ortodoxa é basear-se no axioma dos recursos escassos e consagrar o crescimento como o valor máximo que norteia a economia (e a Economia). Se os recursos são escassos, esbarrando na finitude do mundo e, em casos mais sensíveis, na irreparabilidade dos recursos a partir de certa fasquia de degradação, como pode a Economia ser comandada pelo imperativo categórico do crescimento? Para crescer mais é preciso usar recursos com mais intensidade, o que contraria a lógica da sua escassez. Talvez os economistas ortodoxos se vejam como alquimistas: ser-lhes-á pedido o milagre de conciliarem crescimento com escassez de recursos. Terão de fazer (ou apenas propor) o milagre de fazer mais com menos. O que, atendendo à dependência da Economia em relação à matemática, desafia a ponderabilidade aritmética.
(Os economistas ortodoxos contraporão, nesta altura: é possível o milagre da “multiplicação dos pães” se as condições em que funciona a economia forem alteradas – um salto tecnológico é um exemplo de que como passa a ser possível fazer mais com menos. O que não é considerado, neste conto de fadas promovido pela Economia dominante, é o dispêndio de recursos inicial para alcançar aquela inovação tecnológica, e que esse dispêndio, em vez de ser calculado como custo, é interiorizado como um custo de oportunidade e disfarçado enquanto custo).
Muitos dos recursos que alimentam a quimera do crescimento provêm do planeta. Saltando por cima da querela permanente entre os que enfatizam os danos irreparáveis no ambiente e os, do outro lado da trincheira, que ora suavizam esse diagnóstico, ora negam o estado de pré-apocalipse ambiental, movendo-se fora dos círculos da ciência, parece mais interessante isolar a contradição de termos entre reconhecer que os recursos são escassos e a mobilização dogmática a favor do crescimento. Se tenho um quilo de farinha e consigo produzir 150 papos secos, se amanhã tiver meio quilo de farinha, só conseguirei produzir 75 papos secos. Se me movo, no lado inicial da equação, pelo reconhecimento que a disponibilidade de recursos aponta para o menos em vez do mais, não posso pretender que, no lado final da equação, o mais seja o resultado.
A Economia ortodoxa continuar a depender de modelos que foram dados a conhecer na década de cinquenta do século XX e de teorias que encontram os seus alicerces no segundo quartel do século XIX. A escassez de recursos do final do século XIX era diferente do entendimento que passou a ter em meados do século XX e mais ainda no final do primeiro quartel do século XXI. Prolongar este quadro mental de uma época tão distante e tão diferente é um atavismo que condena a Economia a ser uma espécie em vias de extinção – ou, se a imagem for acutilante, uma ciência em vias de desatualização.
Está é a Economia que mergulha num mundo muito próprio dela mesma, exíguo e desprendido da realidade e do diálogo com outras ciências humanas e sociais. Teimar no crescimento como alfa e ómega da Economia resulta numa colonização forçada da sociedade pela Economia: o crescimento passa a perna aos outros objetivos económicos. Com a agravante de que ao continuar viciada em crescimento, a Economia pode comprometer o bem-estar das gerações vindouras, que podem ser confrontadas com o esgotamento dos recursos e, então sim, com a inevitabilidade do decrescimento.
Uma Economia alternativa devia começar a desalojar a Economia ortodoxa. Em vez de suportar o decrescimento à bruta quando o crescimento deixar sequer de ser mirífico, seria sensato começar a desescalar a Economia e a reconverter as prioridades, tirando o acelerador do crescimento para enfim o tornar compatível com o pressuposto que lhe é intrínseco: a escassez de recursos.
Há-de um de nós saber ler a partitura onde cifrados se escondem os segredos que se desenfastiam da rotina que condena as pessoas à baça homogeneidade. Os verbos e os substantivos, dispensando a desajuda de adjetivos que soem contaminar a lisura das frases, serão antecipados ao tempo tirano. E nós, recusando rituais por não querermos ser reclusos de prisões que caucionámos, afastamos os medos que tremem as veias inferiores, ameaçando com vulcões medonhos.
Estamos reféns do tempo. Quantas vezes por dia olhamos para o relógio? Não se diga, a nosso favor, que pedimos contas ao relógio só para não estarmos perdidos no tempo; a incorrigível pontualidade não ajuda a situar um, todavia, fortuito vício do tempo. Dizemos que as clepsidras que nos inundam são os mapas do tempo. Para sossego próprio, um pretexto.
Sem reconhecermos que estamos sequestrados pelas viagens que fazemos pelas várias camadas do tempo, amarramos a vontade ao domínio exterior, hipotecando-a. Ninguém é livre nesta armadilha que chega ao palco sem se anunciar. Ninguém é livre enquanto a liberdade se hipoteca na floresta onde o que nos é exterior acaba por impor a vontade.
Na mesa do lado, dois estroinas em andrajos de trabalho deslizam o olhar viscoso à medida que uma mulher vistosa se encaminha para o balcão. Na mesa da frente, duas senhoras sexagenárias trocam impressões sobre os cochichos das revistas cor-de-rosa, alarvemente transformados em matéria noticiosa. Ao lado, dois senhores aparentemente bem compostos comentam a atualidade política, não escondendo o encanto pela fação do parlamento onde têm lugar os taberneiros. Na mesa atrás, dois reformados discutem a arbitragem do futebol e como os clubes dos outros são sempre os favoritos dos árbitros.
O café devia anestesiar o som à volta, como se uns auriculares subissem aos ouvidos para silenciar as conversas de café. Para o café não se tornar um lugar indigesto.
Temos direito a destroços, e ninguém contesta que é um direito irrecusável. Podem ser as lágrimas que respiram os tempos de outrora que são curadoras da melancolia. Pode ser um espectro que se abate sobre o entardecer, como se a deposição do dia homenageasse as espadas que ficaram embainhadas. Pode ser pungente olhar para o porvir a pressentir os espelhos em estilhaços.
Os espelhos que estão intactos são uma ferramenta valiosa para os sequazes do amor-próprio. Mas os espelhos podem não resistir ao efeito do tempo que os deixa puídos. Podem não resistir a tempestades ou outros apocalipses em forma tentada, estilhaçando-se irremediavelmente. Ninguém colhe os estilhaços do espelho e os cola metodicamente, como se estivesse entretido a fazer um puzzle. Uma das maravilhas da sociedade do consumo é rejeitar os destroços e substituí-los pelo novo.
Um espelho novo consegue o que o deposto e transfigurado em estilhaços não consegue: tornar-se estilhaços se um contratempo contra ele conspirar. Os estilhaços não conseguem ser estilhaços de si mesmos. São estilhaços em forma acabada, só à espera de serem sepultados num aterro. Quando um espelho feito em estilhaços é substituído por um espelho impecavelmente novo, começa a contagem decrescente para acabar estilhaçado.
Os rostos não são lúcidos quando procuram a reverberação nos estilhaços despojados ao acaso. Só deixam vestígios desse rosto, como se ele estivesse condenado a ser tutor de uma pessoa cortada em postas. Por isso, cuidam dos espelhos. Sabem que assim que forem destronados e acabarem por ser apenas estilhaços derramados no chão, o rostos deixam de se poder olhar a si mesmos – deixam de ser reconhecíveis por quem os tutela. Não são precisas ordenanças feitas ao milímetro para acabar com o sortilégio de um rosto que precisa do espelho para se reconhecer. É preciso guardar com cuidado os espelhos que estão a serviço, mantê-los úteis para prolongar a sua existência.
Os estilhaços dos espelhos derramados não têm serventia. Podem servir de arma de agressão a quem passa, mas esse não é um préstimo legítimo. Mas os estilhaços não são a candeia onde ferve a melancolia. A sociedade do consumo não deixa que a demora se constitua batuta do tempo.
Um espelho novo não demora. E com ele não chega a decair o amor-próprio que se viciou nos espelhos e amaldiçoou os estilhaços que despedaçaram espelhos idos.
Os fantasmas invadem a carne dormente e forçam o organismo ao fingimento. Os fantasmas querem colonizar a vontade que é nossa e só os travamos enquanto o olhar for nu, corajosamente movendo-se entre os interstícios da luz, procurando nas sombras os vestígios, ainda que escondidos, da luz.
Gostávamos de ser como os gatos, que conseguem ver na escuridão. Sentimos o acaso a morder no estuário onde se congemina o dia. Por mais que deixemos o olho ser um nu olhar, ele sente-se cego e os movimentos tornam-se vacilantes, avançando milímetro a milímetro para o chão não fugir sob os pés e todo o corpo ser açambarcado pelo vazio ao cair na falésia. Por mais que nu seja o olhar e nada separe o olhar da franqueza, ele é inútil sob os auspícios das trevas que desenfreiam o medo.
Paradoxalmente, o olhar nu não se desaquartela quando a claridade se faz imperatriz. Intimida-se com os traços nítidos que conseguiram desembaraçar a claridade dos vestígios baços que despontaram com a manhã, mas o olhar esconde-se na epígrafe do medo. Uma constelação de fingimentos, que passa de mão em mão e não deixa ninguém deles isentos, asfixia as tentativas do olhar se extricar das roupagens várias que o candidatam a ser uma impostura. Os contrassensos sempre foram nosso anátema: quando podemos exercer a nudez do olhar, escondemo-lo da claridade; quando o queremos avivado, ele anoitece limitado pelo esmaecer da claridade. Somos reféns dos disfarces que arranjamos para passar ao lado da verdade.
Devia ser inventada uma maquineta para desenvencilhar o olhar das trevas que o sequestram. Como há armas que conseguem ver de noite como se fosse dia, o olhar devia ser treinado para ser perenemente nu. Porque só o olhar nu deixa de fora todas as camadas que são feitas de disfarce e que nos adulteram. Deixaríamos de ter o pretexto para encontrar noites – noites factuais e noites metafóricas – para nos escondermos.
Enfatuado com a epifania anual no Seixal, Manuel Loff não perdeu tempo a comentar os (preocupantes) resultados das eleições na Saxónia-Anhalt e a extrair as habituais extrapolações. Os eleitores exerceram a democracia no domingo e dois dias depois a prosa do historiador dava à estampa no Público.
Regresso ao parágrafo anterior para esclarecer que não é contraditório considerar preocupante o resultado de umas eleições ganhas pelo partido neonazi e argumentar que os eleitores exerceram a democracia. O problema poderá estar a montante e foi finamente evocado por Tiago Rodrigues, numa entrevista que o diretor do Teatro de Avignon concedeu à CNN Portugal. Eis o (nosso) dilema moral: devemos ser tolerantes com aqueles que gravitam na órbita da intolerância, correndo o risco de, ascendendo eles ao poder, porem fim à democracia (e assim seremos os notários do fim da democracia)? Ou devemos ser intolerantes com os intolerantes, correndo o risco de repudiar os nossos princípios?
Se os neonazis foram admitidos a concurso eleitoral, que legitimidade temos nós, os que estamos vivamente preocupados com a sua cavalgada rumo ao poder, para desprezar os votantes neste partido, como se houvesse eleitores de primeira e de segunda? A democracia deve conter as suas próprias linhas vermelhas. A Constituição portuguesa delimitou esse perímetro de segurança e, mesmo assim, um partido de direita radical, com pessoas que não escondem em público a sua afeição pelo salazarismo ido, está em vias de rivalizar com os partidos centrípetos do regime (de acordo com as sondagens mais recentes).
Aqui entram em campo as extrapolações e alguns laivos de alucinação de Loff. Primeiro, convocando a veia de historiador, aviva a memória do(a) leitor(a): no pós-Segunda Guerra, foram governos democrata-cristãos que toleraram a existência de movimentos neonazis na Alemanha. A nossa memória é refrescada ao ponto de ser identificado o autor das leis antissemitas de Nuremberga (1935), Hans Globke, que serviu como chefe de gabinete de Konrad Adenauer entre 1953 e 1963. O cronista imediatamente aproveitou o dado histórico para uma das suas habituais extrapolações: Adenauer, um dos “pais das Comunidades Europeias”, teve durante dez anos Globke, um nazi reciclado, como chefe de gabinete. Talvez se possa inferir que esta é a estirpe maligna da União Europeia.
O melhor vem depois. Para provar o erro que foi a reunificação alemã – não discordo que o processo enfermou de erros, pelas precipitações políticas que o sequestraram –, Loff aproveita para matar saudades da República Democrática Alemã (RDA) ao elencar as profusas virtudes que estavam ao alcance dos cidadãos deste país. A páginas tantas, o historiador identifica um dos deleites usufruídos: “(...) a vida previsível sempre e quando não quisessem emigrar para a Alemanha ocidental ou contestar a natureza autoritária do sistema político (...)”. A História desse período testemunhou o que acontecia aos cidadãos da RDA quando, cansados da vida previsível (viva a rotina comunista!), ensaiavam a “emigração” (aqui tratada como eufemismo de “fuga”) para a Alemanha ocidental. Consegue Loff inventariar o número das pessoas que caíram sob o jugo das balas da polícia da RDA?
Loff – deito-me a adivinhar – será daqueles saudosos da União Soviética e da incomparável democracia que aí prosperava que contesta com veemência todos os relatos, tão históricos como a História que Loff cuida como ciência, das atrocidades da URSS e dos países que viveram sob o comunismo. Serão alucinações de gente empenhada em destruir o comunismo, relatos feitos por autores sem credibilidade, e por aí fora. A credibilidade está reservada aos cientistas sociais que continuam a crer na fé do socialismo científico e em todas as quimeras prometidas. Nem de propósito, no mesmo dia em que este artigo de opinião foi publicado, dezanove páginas à frente o enviado especial ao Festival de Veneza, Vasco Câmara, noticiava um filme notável sobre a era soviética: “Imperium”, de Sergei Loznitsa. Na entrevista ao jornalista, o realizador, adverte que “[e]nquanto a verdade não for dita, há sempre o perigo de a História se repetir.” A História pode-se repetir tal como um disco de vinil tem dois lados. Já este filme não será aconselhável a Manuel Loff.
Ainda amparado pelos (talvez) efeitos lisérgicos da anual Festa do Avante, ao meu conhecimento chegou uma publicação numa rede social do ex-deputado Miguel Tiago. Começando por destilar o incómodo de ver como anticomunistas primários reagem à Festa do Avante, Tiago conclui, numa extrapolação típica de quem adivinha as intenções dos adversários: “não gostamos, não aceitamos, faremos tudo para impedir, que um grupo de trabalhadores organizados proponha aumentos de salários, fim (sic) da corrupção das privatizações, fim (sic) do desvio dos recursos para os nossos hospitais privados, cultura livre e gratuita, escola para todos e transporte e casas acessíveis para todos. Não gostamos e não aceitamos que alguém se atreva a impedir ou sequer limitar a nossa capacidade de saquear os trabalhadores e os recursos de Portugal.” (Miguel Tiago escreve na primeira pessoa do plural, colocando-se na posição do “anticomunista primário”.)
Compreendo que o emagrecimento eleitoral do PCP, aliás não correspondente à atração da comunicação social, sirva de mote para lídimos comunistas se colocarem, e ao partido de que são militantes, na posição de vítimas. A vitimização costuma compensar, faz parte da idiossincrasia nacional. O exercício de vitimização servirá para arregimentar as emagrecidas hostes e, a partir daí, tentar catequizar jovens para travar o envelhecimento do partido, que a prazo poderá selar a sua decadência.
Caros Miguel Tiago e Manuel Loff, e demais militantes e simpatizantes da causa comunista, não tresleiam as minhas palavras: das últimas coisas que um tipo de direita (se me permitem, duvidando no entanto que aceitem o epíteto: “direita civilizada”) deseja é a extinção do partido comunista, ou de qualquer outro partido. Se for preciso, assino uma petição a favor da continuidade da Festa do Avante, para poderem continuar empenhados na liturgia do que vos aprouver. Talvez estejam a ser vítimas de um complexo de Estocolmo virado do avesso: quem se distinguiu na ação política com proibições a eito foram os comunistas. Eu prefiro aceitar apenas uma proibição: é proibido proibir.
Era o que mais faltava, proibir a Festa do Avante, ou o PCP, pá!
Podem-se arrancar as páginas seladas no bronze do tempo, mutilando o livro como se ele renascesse depois? Pode um arrependimento trespassar as palavras desemudecidas pelo averbamento em páginas escritas? Pode o arrependimento exercer esta tirania?
E o que pode mais do que a vontade do autor – a vontade de qualquer pessoa que é inteiramente tutora da sua vida e do que ela transporta através das várias camadas do tempo? O arrependimento é apascentado pelo próprio, isento dos juros tomados por quem queira ser síndico exterior. Por mais que as páginas arrancadas sejam um axioma de insensatez, pois podem ser património imaterial que transcende a vontade de qualquer pessoa, o autor é a única instância que decide sobre o seu destino?
Como conciliar a vontade do autor com o clamor que se mobilize em sentido contrário? Pode o autor isentar-se das suas responsabilidades de autor, do contributo que deu, exercendo um mutismo unilateral que atropela a obra enquanto bem cultural? Pode o desejo de exílio interior do autor sobrepor-se à força gravitacional da sua obra, truncando-a de páginas que a podem ferir como obra?
Dirão os que se sentam no lugar dos juízes da vontade alheia: não se pode emendar os passos do passado, o que foi dito e o que foi feito, e o que não tendo sido dito havê-lo-ia sido se não imperasse o silêncio, as pessoas que passaram a ser presente durante o tempo em que tiveram tempo para o ser, os vícios havidos e os que continuar a haver, os lugares aonde se foi, as decisões tomadas – e as suas consequências; o arrependimento não desterra os atos e as palavras e as pessoas, nem a história se refaz ou se omite por ato unilateralmente estalinista. O que seria suficiente para travar as intenções de todos os autores que, querendo repudiar partes da sua obra, cobram um metafórico arrancar de páginas como ónus da sua soberana vontade.
Os leitores ficam a saber que essas páginas mentalmente arrancadas pelo autor são páginas que, a ser respeitada a sua vontade, não devem ser lidas porque foram amputadas pela vontade de quem as concebeu. Mas o leitor também tem a sua vontade. Que pode coincidir com a do autor, omitindo da leitura as páginas arrancadas; ou pode dele se emancipar, não resistindo à curiosidade mórbida de ler, e talvez com mais atenção, as páginas mutiladas.
O arrependimento não oblitera o tempo correspondente. Os silêncios que o arrependimento impõe ao tempo havido são um dicionário por sua conta. Das páginas arrancadas, sendo elas resgatadas, pode-se aprender muito sobre quem ordenou a mutilação. As palavras também valem pelo silêncio que impõem.
A inocência, não sei se é como um vulcão ou um eclipse.
As vozes, num vai e vem, encantam as possibilidades, como se os poetas admitissem a polissemia e o sentido dos poemas ficasse sempre sob reserva de entendimento do leitor. De todas as providências, a inocência enfeita-se de incoerência (e não é por ser rima). Há alturas em que andamos nas alturas sem que professemos a imodéstia. Subimos às alturas para melhor ser a visão sobre o demais, e os miradouros são lâmpadas que cevam a lucidez.
Não se estranhe a deambulação pelos telhados, como fazem os gatos (a quem se convencionou chamar) vadios. De telhado em telhado, os pés suaves como se estivessem calçados em pantufas armadilhadas de silenciadores, que não queremos que as pessoas que habitam sob os telhados sejam desassossegadas pela nossa audácia.
Como a cidade é finita, os telhados hão-de acabar. Descemos à terra com o apetite de conhecimento saciado. Sem arrogância, apenas com a ousadia que compete aos audazes, os pés beijam o chão empanturrados de tão despejadas paisagens que são dadas a conhecer quando se anda de telhado em telhado.
Aos que perguntam se a demanda se faz na posse de arnês, solicitamente respondemos, no auge da nossa lúcida loucura, que vamos sem amparo. A audácia é maior e com o frémito em que se consome apura-se a lucidez, por mais que, incrédulas, sejamos contestados. Saltamos de telhado em telhado, mesmo que seja por dentro da prisão do pensamento. O combustível é o sonho de que somos hospedeiros. Podem os pés estar sensatamente enraizados no chão-âncora, que os sonhos o levitam para cima dos telhados onde se hasteiam metáforas heurísticas: os cartazes esvaziam-se de palavras e ficam apenas as paisagens mentais que vieram ao regaço com a dávida dos sonhos.
Ao anoitecer, cumprem-se os rituais singulares. As bandeiras dedilhadas já não estão puídas pela orfandade. Uns chamam-lhe identidade e perseguem a pertença que se destila do nosso magma. Outros, mais desligados e aptos ao tirocínio da poesia, preferem continuar a sonhar enquanto prosseguem o intrépido atravessamento de telhados. Até que telhados depois, já exangues, se entregam ao próximo sonho.
Que não falte areia, ou outro solo abundante, mole ou pétreo, onde se possa imitar o avestruz, de quem se diz ser sua perícia o enterrar da cabeça. A imagem serviu para fixar uma metáfora que do avestruz não lega uma imagem digna: enfia-se a cabeça na areia para evitar os problemas, seja os que chovem copiosamente, seja um só que, pela sua contundência, arrebate a dimensão de todos os demais.
Esconder a cabeça como o avestruz é passar à prática a conduta do fingimento. Se o corpo estiver todo à mostra, o arsenal de contrariedades, para o qual não se está preparado, abate-se com toda a impiedade. Não se estando preparado para lidar com tantos contratempos (ou sequer com um só), emerge o fingimento como panaceia. Pode ser que ao enterrar a cabeça na areia a falta de visão impeça a tomada de consciência das apoquentações. Ou, visto desde o ponto de vista das flagelações que irrompem sem contemplações, como a cabeça não está à mostra, procura-se outra vítima.
Contudo, os contratempos não são apenas pica miolos. Contentam-se em aferroar qualquer parte do corpo de quem seja escolhido como vítima. A fuga programada segundo o princípio geral do avestruz nem paliativo chega a ser. Muito embora a cabeça esteja escondida, grande parte do corpo restante continua exposta. Os contratempos não dependem da tomada de consciência que é ativada pela visão desembaraçada. Qualquer parte do corpo serve para ser validada a contaminação de um contratempo. O restante corpo à mostra será a porta de entrada e, em pouco tempo, a tomada de consciência do contratempo materializa-se. Esconder a cabeça como o avestruz não evita os problemas.
Mesmo assim, com toda a experiência que faz parte do envelhecimento do mundo, não há um dia que não se multipliquem cabeças escondidas na areia. A nossa estultícia ofende o avestruz.
Passou tempo de mais a escarnecer do futuro. Nas rondas em que promovia a convivência da noite com o silêncio, ao invés de arrumar as ideias povoava a cabeça com o caos. E se, todavia, podia definir as bissetrizes do descontentamento, talvez fosse austero no diagnóstico. Havia momentos em que a lucidez parecia soerguer-se e palmilhava umas léguas. Era quando se lembrava de uma tia que dizia repetidamente: “há sempre quem esteja pior”. Faltava fazer a estatística, apurar se a tia tinha razão antes do tempo ou se não eram apenas os paninhos quentes de quem testemunha a imaturidade dos que fogem da serenidade. Talvez precisasse de uma árvore centrípeta que ajudasse a situar o pensamento; que não fosse tão corrompida pela parcialidade de quem corre contra a conspiração enfatuada do tempo, ou de como acabamos a ser fautores dos nossos próprios logros. Talvez precisasse de um exílio mais fundo do que o interior exílio por onde flanavam os poetas transviados. Um exílio que fosse além do seu sentido geográfico. Não sabia onde procurar o asilo que fosse o lugar de partida desse exílio. Aparecem sempre pedras pontiagudas que ferem o caminhar. Em grande parte do tempo, parecia que se limitava a fugir dessas pedras, como se o caminho fosse um slalom sinuoso para evitar as feridas extensas que o importunavam enquanto errava. Se polisse as pedras e o caminho fosse alisado, a demanda deixaria de ser um fardo. Podia ser que o exílio necessário não fosse uma tortura: ninguém precisa de se entregar a uma proposta de redenção que rime com sacrifícios quotidianos. É preciso saber que a vida que se ajaeza não deve ser palco para a exoneração interior que em vez de ser remédio é desarrumação maior. O comboio dos dias polidos trataria da reconciliação com o futuro.
Cotovelos esmurrados e outra vez esmurrados antes de ganharem cicatrizes. Nódoas negras (vulgo hematomas, antes de sabermos do uso de palavras dispendiosas). O mérito de uma trajetória desenhada de acordo com os cânones dos melhores pilotos de automóveis (víamos na televisão, desde pequenos, as corridas de Fórmula 1). As mãos encardidas, ganhar velocidade no auge da subida exigia tomar lanço e o uso de luvas não nos passava pela cabeça. Com o tempo, a procura de sofisticação (possível): ir a oficinas e perguntar aos mecânicos se tinham rolamentos para dispensar e se podiam dispensar os melhores rolamentos que estavam prestes a acabar os seus dias no entulho. Não sabíamos que os mecânicos punham o ar sério de quem fingia interessar-se pela função e prometiam entregar rolamentos pantagruel que por sua vez prometiam velocidades estonteantes com o corpo quase colado ao chão. Cada descida era sempre breve – não vivíamos em terreno acidentado, mas sonhávamos descer a Serra da Estrela em carrinho de rolamentos. Mal terminávamos a descida, pegávamos na traquitana a tiracolo e subíamos apressadamente até ao alto da modestamente inclinada subida. Quantos quilómetros fazíamos ao fim do dia? Estávamos em forma. Não nos crescia a barriga e não tínhamos colesterol a mais, nem pressão arterial no limiar de doenças terminais. Num certo ano, um de nós, o que tinha mais jeito para trabalhar madeiras, prescindiu da carreira de piloto de carrinhos de rolamentos para se dedicar à sua fabricação. Veio na altura certa: as carcaças que se apoiavam nos quatro rolamentos estavam a ganhar predicados através do científico tratamento da madeira. Era o prenúncio da revolução aerodinâmica nos bólides de Fórmula 1. Convencemo-nos que estávamos muito à frente. Os cotovelos em carne viva, as mãos sabujadas pela fricção no chão e, ocasionalmente, um ou outro galo na cabeça prepararam-nos para os contratempos da vida adulta. Agora fala-se em bater com a cabeça na parede. Dantes aprendemos a bater com ela no chão ou nos adversários que, tão teimosamente, não abriam a trajetória para a ultrapassagem.
(Mote: “Andar de autocarro não é uma coisa sexy. Queremos passar a ser uma empresa mais sexy”. Entrevista a Luís Osório, presidente dos STCP, in Público, 28.08.26, p. 16)
Pode ser apenas a língua de trapos dos modernos gestores – em todo o caso, é menos mau do que aqueles gestores cheios de vitalidade que falam uma mistela de português e de inglês, socorrendo-se do inglês para o uso de termos que têm uma tradução em português corrente (os Zeinal Bava deste mundo). A mania de fazer corresponder “sexy” a “atrativo” é, talvez, do domínio freudiano. Só que, neste caso, deve haver uma má convivência com a sensualidade, para tão atrevida ignorância que faz corresponder aquele termo com “atratividade”.
Não é ofensivo, na lógica capitalista, que as empresas se esforcem para conquistar mais consumidores. Em mercados concorrenciais, é assim que se distinguem as empresas que singram das que vegetam e, mais tarde, ficam condenadas à extinção. As empresas não se podem descuidar nas campanhas que conservam clientes e nas outras que querem atrair novos clientes. A criatividade é a pedra de toque. Depois, a publicidade, instrumental àquele objetivo, trata do resto. É preciso saber de psicologia e comunicar com eficácia.
Vir para um jornal de grande circulação anunciar espalhafatosamente que uma empresa de transportes públicos tem de ser “sexy” é um equívoco dos grandes. É preciso desmontar esta babugem de trás para a frente. O que o gestor quer dizer é que a empresa tem de aumentar o número de utentes; tem de estudar como os atrair – é de atratividade que se trata. Faz sentido, na lógica de uma empresa de transportes públicos, e no contexto da preservação ambiental, que convença as pessoas a usarem meios de transporte que deixem menor pegada ambiental.
O primeiro erro do gestor é confundir “atratividade” com “sensualidade”. Não se está a ver que características humanas pode a empresa assumir para mexer com a libido dos cidadãos. Quem fica excitado com um autocarro? O segundo erro é semântico (muito embora, no fim de contas, seja irrelevante para o efeito). A sensualidade não é sinónimo fechado de “sexy”. A sensualidade ultrapassa o que podemos julgar ser sexy. Algo que é sensual pode não ser sexy, por a sensualidade ser um conceito que não se restringe aos aspetos carnais do sexo.
A advertência não pode deixar de ser feita: é preciso ter cuidado com este homem, e outros que tais, que podem facilmente confundir os planos e acharem “sexy” algo que o não seja por não ser humano.