21.7.26

Virtudes (um descompasso)

Ladytron, “In Blood”, in https://www.youtube.com/watch?v=4fkdizZ1lBw

As virtudes procuram a sua vertigem até se tornarem sonhos. A madrugada estima o crepúsculo que se amotina enquanto as vozes sonolentas vão desmaiando até ao silêncio. Para afastar a fuligem que adormece à conta do fim da noite, quando as pessoas se desembaraçam do sono e deixam a noite por conta de uma véspera.

A compostura das almas não se mede. Quem são as pessoas para se porem no lugar de juízes dos outros, se nenhuma admite ser réu em processos de intenções? As virtudes são sempre areias movediças que se desencontram dos fados prescritos. Uma propaganda estulta que coloniza os espíritos distraídos. Neste idioma não há santos que levam as comendas dos deuses.

São assim as virtudes: assembleias desertas, com tantos lugares por ocupar, mas as pessoas desconhecem o paradeiro desses lugares e ficam a terçar as suas vozes noutros parlamentos sem nome nem geografia. Se viajassem pelos lugares por conta das mentiras hibernadas, seriam vetustos antes do tempo por causa de tantas palavras esgotadas na deslucidez.

Há um mercado para as virtudes, dizem. Só não sabem dizer onde é esse mercado, quais são as virtudes mercadas, como são delimitadas. Parece o vento que se tenta agarrar com os dedos, o vento sem ser represado pelos dedos a continuar o seu caminho e as mãos possuídas pela invasão de um nada que fica agarrado aos dedos. 

Afinal, ainda está por existir um dicionário das virtudes que delas faça um inventário e estabeleça conceitos. Quem se propuser a ser seu procurador é um farsante, um navegador de doca seca, aprendiz tutelar dos piores fingimentos. 

O nó fingido aperta a jugular, mas a tirania das convenções impede o seu alívio. Temos o peso do mundo a abater-se sobre as costas e todo um mar de fingimentos a cobrir a pele. Para que servem as virtudes se não acreditamos nelas, nem sequer em nós mesmos?

20.7.26

Manifesto anti Calimero

Pond, “Daisy” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=wsZys428FGU

As pessoas adoram vítimas. Algumas, sabendo dessa preferência enquistada, tornam-se mestras na engenharia da vitimização. Assim apanham as pessoas que se amiseram quando estão diante de uma vítima, independentemente da vítima ser uma vítima legitimada ou um farsante que se faz passar diligentemente por vítima. 

Tornou-se uma especialidade de uns quantos que já perceberam que o papel de vítima traz proveitos que, de outro modo, não conseguiriam obter. Para o efeito, fingem. Recorrem à usura dos sentimentos. Multiplicam por muitas vezes as consequências de pequenas moléstias que, de outro modo, seriam consideradas cicatrizes normais do viver. Quem se apresenta como vítima depende da audiência que o consome – em bom rigor, que se predispõe a exibir uma solidariedade comprometida com os estados de alma que o atiram para o papel de vítima. 

A simbiose entre a vítima e os que dele se comiseram é a prova de que ser vítima é uma especialidade que medra como nunca. A larga audiência que consome as depressões e angústias das vítimas profissionais não hesita em mostrar a sua comiseração porque sabe que, se chegar a altura de serem eles a ocupar o lugar de vítimas, outras pessoas – temporariamente à margem de serem vítimas, ou outras que estejam em luto decorrente de um qualquer estado de alma que legitima a sua entronização como vítima – cuidarão de as abrigar no refúgio preparado para apascentar as vítimas. 

De acordo com um adágio, temos de ser uns para os outros. O enlaçar de sucessivas vitimizações é o fermento necessário para que haja um grupo numeroso de vítimas. Uns credenciados, por já terem cadastro enquanto vítimas; outros são vítimas promitentes, sabendo que se amanhã for necessário terão a solidariedade de outras pessoas quando chegar a sua vez de se exibirem como vítimas. 

Deviam-se chamar todos Calimero. E ostentar em público sinal identificativo de Calimero.

17.7.26

Aperta bem o parafuso para não cair

Beck, “In the Night”, in https://www.youtube.com/watch?v=XNYj8R1Aq3s

A maquineta cambaleante segue errática a cada dia que passa. É uma sensação estranha, talvez a prova indesmentível de que a decadência já somou os seus primeiros pontos. Ou pode ser apenas um pesadelo a rondar, aperaltando-se para a sua função ao deixar sementes (o desassossego contínuo) para os tempos que estão para vir.

A fonte da juventude não é inesgotável, já diziam os antepassados, que passaram, antes de nós, pelos contratempos da finitude do corpo e da alma. Por mais elixires que sejam inventados, o máximo que se consegue é adiar o raiar da decadência. Não venham os subitamente esperançados com promessas de juventude não se dirá eterna, mas estendida para além dos padrões de atualidade. Será sempre um paliativo. Um disfarce.

O elixir da juventude dado a tomar a quem está no limiar da decadência é uma injeção de confiança que ajuda a adiar a decadência. Se um parafuso se desaperta e ameaça deixar as engrenagens ao deus-dará, não deixamos que este acaso seja o patíbulo prometido. Erguemos uma muralha que dificulta a decadência. Quando ela se acercar, abranda por não conseguir manter a usura à medida que começa a trepar a muralha. O tempo herdado tem de ser magnificamente aproveitado, sob pena de não sermos merecedores das vidas extras que a muralha nos entregou em mãos. Como se fôssemos gatos a usar cada uma das sete vidas, ou tivéssemos um bónus como acontece nos videojogos que aldrabam a realidade.

O elixir inclui uma inspeção meticulosa para reapertar parafusos lassos e substituir aqueles que prescreveram sem hipotecar a sobrevivência. Acrescentem-se algumas excentricidades – um parágrafo imprevisto, um ponto e vírgula que soma mais uma curva no caminho, um adjetivo no lugar próprio, a agenda com os números dos anos que, de outro modo, seriam invisíveis por caducidade nossa – e, sobre as fragilidades apostadas, levaremos vencimento na forma de um tempo acrescentado ao que é nosso tempo capital.

16.7.26

Sem rede

The Chemical Brothers, “Do It Again”, in https://www.youtube.com/watch?v=UVrwzjtBHq0

O corte raso averba as palavras austeras. Ditas do abrigo do crepúsculo, as vozes parecem anciãos recolhidos no vagar da decadência. As sombras dançam, baixas, como lençóis de linho despenteados pelo vento marginal que se aproveitava da janela distraidamente aberta. 

A manhã esbelta pousou no meu peito. Queria-se demorar em novelos de ternura, como se os poemas tivessem invadido o quarto e assentado como esteios inamovíveis. Contávamos as vírgulas que repousavam entre as palavras sem ser ao acaso: testemunhavam as bocas artesanais que se saciavam na saliva aberta, deixando uma promessa de suspensão da manhã. 

A luz não se intimidava com as sombras coreografadas. Dividia-se em braços, estava mesmo a pedir para ser um delta em vez de estuário. Pedimos às palavras franquia para reter aqueles instantes como quem inventa o adiamento do tempo para demorar o eclipse. O porte imperial colonizava os fragmentos da manhã que cresciam avulsos. Não demos o tempo por perdido quando nos fizemos seus procuradores. Dissemos: é deste mecenato que somos alcateia; podemos arranjar as palavras que forem a despropósito, torná-las no lar que passamos a habitar. 

Depois fomos sufragados pelo dia. Os olhos avivavam as paredes que ocultavam desenhos pressentidos. Aos nossos olhos, aquele quarto era um amontoado de arte escondida dos olhares intrusos. Sabíamos ser assim. Sabia-nos a iguaria irrepetível, esbracejando contra o dolo da rotina. 

Encontramos um promontório onde as mãos fruíam do vento ousado. Ficamos extáticos, à espera de que os segundos fossem emoldurados na paisagem que os nossos olhos desenhavam. Mentimos aos deuses: tínhamos sido os arquitetos daquele lugar, ele haveria de ser cunhado com a fusão dos nossos nomes. Antes que o luar disfarçasse o vento frio, metemos o lugar à mercê das memórias que não se entregam ao olvido. 

Fomos nós que inauguramos a noite, que ficou a saber, pelas nossas vozes uníssonas, que era noite. Alguém sussurrou que havia fantasmas à espera de vez. Não demos ouvidos. Se entrassem na casa, esses ou outros fantasmas seriam esconjurados só de esgrimirmos os poemas avulsos recolhidos das paredes. Os fantasmas, convencidos, foram dormir à espera dos sonhos ausentes. E nós ficamos a contemplar os rostos acordados enquanto enfeitiçávamos a noite magistral.

15.7.26

Dois minutos de silêncio

Interpol, “Iron City”, in https://www.youtube.com/watch?v=wzCMFpzbywg

Dois, os minutos de silêncio. Não apenas um, como ficou estabelecido quando, por luto, se homenageia um falecido. E dois minutos podem ser escassos: prolongue-se o silêncio, estes lugares são gongóricos pelas vozes ruidosas e abundantes, e o ruído é sempre poluição. Um anticlímax despoético.

Por que não se instituem horas certas para o silêncio? Porque devemos ser contra as obrigações que derivam de lei; porque é preciso toda a oposição à desarte estatal que se insinua entre os ossos e se infiltra nos poros. Os minutos de silêncio não precisam de convenção que se imponha aos relógios das pessoas. Seria suficiente que as pessoas aderissem espontaneamente, quando lhes aprouvesse. Podia ser que se desse o efeito de contágio: a pessoa ao meu lado, mergulhada nos seus dois minutos de silêncio, seria o mote para eu aplicar os meus dois minutos de silêncio diários.

Seria o silêncio sem ser um luto por alguém desvivido. O silêncio como terapia. As pessoas falam de mais. É só andar nos transportes públicos e nem precisa de ser hora de ponta. Parece que têm medo do silêncio. Os mais otimistas advertem que a fala contínua é um sinal de que somos gregários. Precisamos de comunicar para fazer jus à condição gregária. Estarmos presentes e armadilhados de silêncio é mal visto pelas pessoas dominantes.

O silêncio deve ser receitado por médicos e outros engenheiros sociais com competência para as lides em coletividade. As pessoas têm de aprender a ouvir-se. O que não é compatível com o ruído exterior, nem com o ruído interior debitado pelas suas muito audíveis vozes. Não seremos uma espécie condenada à extinção se dedicarmos alguns minutos por dia ao silêncio profundo.

O silêncio, nos seus dois minutos higiénicos ou na duração que as pessoas quiserem, não é uma fuga interior nem uma agressão composta pela recusa em falar. Quem não quer falar tem direito ao seu tempo de silêncio. Sem serem necessárias sinaléticas exteriores que substituam a fala como sinal de comunicação. 

O silêncio também é comunicação. Comunicação poética.

14.7.26

O realizador de paisagens

PIL, “This Is Not a Love Song”, in https://www.youtube.com/watch?v=Az_GCJnXAI0

Tinha o olhar inquisidor – nos melhores modos que a inquisição podia ter, sem a pejorativa conotação que lança as redes no pior que a História tem para ensinar: era um caçador de paisagens. Não se limitava a descobrir paisagens que merecessem um lugar especial no olimpo das paisagens; retinha-as no seu olho humano e depois capturava o instante em que as paisagens ficavam fulgurantemente destacadas como fragmentos que mereciam pertencer à História. Das paisagens e da fotografia.

Há filmes feitos de paisagens filigrana, com demorados planos que se detêm em paisagens magníficas. É como se fosse uma procissão de paisagens, em desfile telúrico, as paisagens sem roupagens. O filme, ao desembaraçar as paisagens, deixa-as nuas. Há as paisagens remotas, as que são epílogo de roteiros turísticos, mas que são reveladas através de ângulos singulares ou depuradas com uma luz invulgar, as que parecem extraídas a lugares extraterrestres, para logo a seguir se ampliar o inventário de paisagens para acolher as que seriam assim consideradas se não fossem reveladas pela lente de um filme, e as que vêm somadas de rostos humanos marcantes, marcados pela turbulência da vida, que pode ser tão árdua quanto as movimentações geológicas que deram origem a uma paisagem nos seus moldes atuais. São os olhos que interpretam essas paisagens. São os seus tutores. 

O que seria das paisagens, remotas ou não, inéditas ou banalizadas pelo conhecimento turístico, se não fossem tuteladas pelo olhar? Seriam apenas paisagens sem a decifração que as pessoas delas fazem, paisagens porventura excluídas do conhecimento – paisagens potenciais, mas ausentes por não terem sido caucionadas por um olhar. Ou talvez apenas fossem paisagens já expostas ao olhar de uma pessoa ou de uma casta composta pelas poucas pessoas que tiveram acesso a essa paisagem privilegiada, sem terem sido cristalizadas numa moldura que as deixe à mostra apenas para quem as emoldurou, ou para todos os que vierem a ter conhecimento dessa moldura. As paisagens dependem de um olhar que seja seu embaixador. 

A mesma paisagem pode ter tradutores diferentes. Se fosse pedido às pessoas que retrataram uma paisagem que a traduzissem em palavras, os diferentes ângulos, as diferentes camadas de luz às quais foram expostas e os diferentes momentos do ano em que foram visitadas dariam origem a diferentes guiões. É possível que a diversidade seja tanta que o leitor dessas traduções pense que está perante diferentes paisagens. 

A mesma paisagem sujeita-se a diferentes olhares. O que a multiplica por uma diversidade que quadra com a subjetividade dos olhares. Quase como se fosse possível que a objetividade da paisagem (pois ela é como é) fosse desconstruída pela subjetividade dos olhares e que a mesma paisagem se tornasse diferente de outras paisagens. 

Somos todos realizadores de paisagens.

13.7.26

Teoria geral do apocalipse

Pond, “Terrestrials”, in https://www.youtube.com/watch?v=2ZgxqzNY3nA

Ah!, aqueles desafortunados que carregam o peso inteiro do mundo às costas sem ficarem corcundas. São coevos militantes nos céus carregados de plúmbeas nuvens, sem nunca o sol ter força para romper o teto de nuvens, assim condenando os gentios a um padecimento que só não é imorredoiro porque tamanho fado é cerceado com o desviver.

Não pedem favor à desventura para tornarem qualquer contratempo num raio espectral que depressa se transfigura em apocalipse. Parece que estão cansados do mundo como é e pressentem a sua finitude para um prazo que ainda coincidirá com o seu viver. Se ao menos tivessem um laivo construtivo, propondo uma alternativa ao mundo que caminha a passos largos para o abismo irredimível, a teoria do apocalipse teria serventia. Não é o caso (da serventia da teoria e do sangue novo (que não é) injetado pelos estafetas desta teoria).

O apocalipse esbracejado como um fado aterrador transtorna os seus próceres e torna-os amargos. Desaprendem o que é o sorriso, a beleza, desaproveitam toda a beleza poética de um mundo carregado de defeitos, é certo, mas que não esconde as muitas facetas que o expõem como paradigma de sortilégios vários. O apocalipse só tem vencimento entre os seus teorizadores porque eles estão viciados no negrume típico de quem tem lucidez seletiva para identificar as muitas fragilidades de que o mundo e as pessoas são compostas. Eles vivem sitiados pelo seu apocalipse privativo.

Os embaixadores contínuos do apocalipse são pródigos numa teoria que se esgota no seu próprio enunciado. No dia em que o terrífico apocalipse vingar e o mundo desabitado se tornar, findam as angústias existenciais dos que tão diligentemente contribuíram para o enquistar de uma teoria geral do apocalipse. Deviam varrer toda esta pressão existencial para o armazém dos desperdícios: se a demonstração do apocalipse for irrecusável, essa é a medida da sua própria incapacidade. 

Não podendo evitar a extinção do mundo, a teoria do apocalipse extingue-se ainda antes da extinção do seu objeto, pois o resultado é transcendente à vontade humana.

10.7.26

E derrotas, também há

The Cure, “One Hundred Years” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=V0K9wbvHTxs

Aprendemos na escola: quando vamos a jogo, podemos ganhar ou perder. Temos de aprender a saber perder como a saber ganhar, para que o jogo seja um exercício cívico. 

Depois crescemos, levamos sucessivos banhos de realidade e a realidade teima, muitas vezes, em ser um choque térmico semelhante ao de um balde de gelo despejado sobre um corpo febril. Chocamos de frente com essa realidade que os despossuídos de um módico de lirismo apelidam de “pragmática”: como entender que os fins justificam os meios (em transgressão do que foi aprendido na escola)? 

No fim de contas, parece que desaprendemos tudo. Gostamos de ir a jogo quando é para ganhar. Elogiamos os que vão a jogo quando ganham. Quando perdem, merecem a nossa indiferença (na melhor das hipóteses) ou a acrimónia intratável dos que não perdoam a inclinação para a derrota. Desaprendemos tudo o que foi capitalizado na escola ou em inúteis esforços pedagógicos que recomendam uma abordagem cívica do jogo. Pois tanto se pode ganhar quanto perder – e, pelo caminho, convém lembrar que, num jogo, não jogamos sozinhos.

Nas competições mais populares, o jogo mobiliza o público. Constroem-se esperanças com base nas promessas dos atletas e na sua correspondência com as probabilidades de vitória, como se da vitória dependessem o pão e a saúde do público. Quando as esperanças estão em alta e o jogo se salda por uma derrota, os apoiantes desertam. Uns remetem-se a um silêncio assassino: o silêncio é o ónus da desilusão, o custo de não quererem criticar os atletas que não cumpriram as esperanças. Outros dedicam-se à crítica verrinosa. Onde outrora havia um rosário de elogios, entre a bazófia dos “melhores do mundo” e a sobranceria de um estatuto que entrou a jogo mas que ficou por cumprir, estes críticos são os primeiros a cair no esquecimento de que um jogo, qualquer jogo, é para ganhar, mas o resultado pode ser uma derrota.

Se o público não tivesse esquecido o que aprendeu com os que hoje são vistos como ingénuos, acolheria os atletas derrotados numa cerimónia discreta e respeitosa. Mas o público só se mobiliza quando as vitórias são cumpridas e lhe apetece gritar, a plenos pulmões, que são os maiores do mundo. Essa lição maior de qualquer jogo deveria ser resgatada de um túmulo sem paradeiro: jogar é perder e ganhar. E reagir da mesma forma se o jogo for ganho ou tiver sido perdido.

9.7.26

Espera deferimento (short stories #515)

The Durutti Column, “Royal Infirmary”, in https://www.youtube.com/watch?v=D_-_k__W4S4

          Possivelmente, posso. Possivelmente posso. A ativação da vontade não é suficiente. Depende de outras, exteriores, vontades. Indago: que vontades são essas? Onde estão? Têm horário de expediente – ou posso enviar um e-mail a más horas? Como devo apresentar o pedido? Essas são vontades sensíveis, e devo ser meticuloso na escolha das palavras para não ferir de morte o pedido por uso desastrado de palavras que não deviam ter sido arregimentadas para o caso em apreço? Devo ser ainda mais meticuloso, apurando casos semelhantes para perceber o histórico desses casos e com eles aprender? Devo-me preparar para o desvencimento de causa? Nessa hipótese, dou por encerrada a demanda ou procuro saber se há instâncias de recurso? O processo repete-se: onde estão as instâncias de recurso? Reúnem vontades ainda mais sensíveis do que a instância de baixo ou são mais recetivas a este pedido? Os termos do recurso devem evitar fórmulas e palavras usadas no pedido inicial ou, por se tratar de uma instância diferente da recorrida, não estou refém desse constrangimento? Devo, em ambos os casos, concluir o pedido com a fórmula sacramental “espera deferimento” (escrevendo na terceira pessoa do singular para me referir à primeira pessoa do singular)? Juntar “espera deferimento” pode ser entendido como o exercício de pressão sobre a vontade que decide sobre o meu pedido, com os efeitos contraproducentes que se adivinham, ou as vontades que decidem (a recorrida e a de recurso) devem ser tolerantes e aceitar a fórmula como o exercício da liberdade de expressão que não pode ser cingida, sob pena de essas vontades arrastarem consigo um anátema antidemocrático? Quando concluo com “espera deferimento”, estou apenas a coroar um raciocínio: se exponho os fundamentos do pedido que quero ver atendido, é compreensível que o raciocínio termine num cabo; esse cabo chama-se “espera deferimento”. Não podem, as vontades decisoras, acusar a suscetibilidade de quem se sente pressionado a decidir de uma certa forma só porque o pedido é coroado com “espera deferimento”. Para que a tolerância não seja assassinada pelos verdugos que se vestem de vontades alheias. Se a justiça não for democrática, não é justiça.

8.7.26

Os que falam de si mesmos na terceira pessoa do singular

Heaven 17, “Let Me Go” (live at Popcorn 1983), in https://www.youtube.com/watch?v=_PgvjTmq14Q

Há artistas (no sentido metafórico do termo) que gostam de falar de si mesmos, mas fazem-no como se outros o fizessem. Usam a terceira pessoa do singular. Deve-lhes saber bem entoarem o próprio nome como se estivessem a falar de outra pessoa, sabendo, contudo, que é de si mesmos que falam. 

Os filólogos, no rigor da análise semântica, desvalorizam: trata-se de uma figura de estilo, aliás documentada na literatura (e depois estariam prontos para fornecer exemplos). O uso adulterado da fórmula exige análise: por que usamos o nosso nome como se estivéssemos a falar de outra pessoa, se estamos a falar de nós mesmos e usamos o nosso nome como se de terceiro estivéssemos a falar?

Pode dar-se o caso de o artista em causa sentir uma pulsão para sair de si mesmo (ou pelo menos fazer de conta), sem de facto sair, para simular a situação em que se consegue ver de fora de si, como uma antena parabólica que transmite o sinal de satélite sem estorvos desnecessários. É como se tivesse encomendado a oratória a um procurador, que é um alter ego seu com o mesmo nome. Serve para reforçar a persuasão do que é dito: não é apenas ele, é também o seu nome, fazendo-se de conta que se trata de outra pessoa. Trata-se de um argumento fundado na autoridade de um terceiro, que, não por acaso, é o seu outro eu verbalizado na terceira pessoa do singular.

Ou então, ao falar de si na terceira pessoa do singular, o artista vira-se do avesso e admite que o sujeito que transporta o mesmo nome é um clone exato. Dá jeito quando é preciso dar explicações por um acontecimento que deixa muita confusão pelo caminho: a justificação fica mais confortável se for endossada ao nome dito na terceira pessoa do singular.

A explicação favorita para o recurso estilístico é a vaidade. Narcisistas deste tamanho adoram falar de si mesmos. Uma falsa modéstia cobre-os de um módico de vergonha quando se ufanam de si próprios. Para não parecer um exercício descarado de narcisismo, usam a terceira pessoa do singular. Assim como assim, não são eles a falar; é alguém (o outro, a terceira pessoa do singular) que fala em seu nome. Uma vaidade disfarçada de encomenda.

7.7.26

Sobre a megalomania

Interpol, “Set Out Loud”, in https://www.youtube.com/watch?v=GoQ5f1lYmLM

Há sempre aqueles casos de alguém que de si tem uma imagem multiplicada por cem ou mil quando se contempla no espelho. Querem realizações à medida, para confirmarem a sua estatura que se projeta para o exterior – pois aos outros é que se impetra a validação da imagem ampliada, depois de cumpridos os preceitos internos de validação. 

O que fica da megalomania militante são os estilhaços para memória futura. A megalomania nunca é de graça, mesmo que sejam invocados milagres ou, num esforço suplementar para somar mais alguns pontos a favor da pompa, a ideia ou o projeto seja embrulhado num verniz de milagre para convencer as pessoas de que a megalomania, se não é gratuita, não anda longe disso.

Mas a megalomania resulta sempre em elefantes brancos. E os elefantes brancos pagam-se a peso de ouro – o que, tratando-se de paquidermes de elevada tonelagem, veda o caminho à teoria da megalomania de baixo custo por determinação da vontade dos seus curadores. O pior é que a megalomania distrai os ingénuos e estes, anestesiados pela grandeza da empreitada, esquecem-se de indagar sobre a sua utilidade. O que fica, para a memória futura não sindicada a tempo, é um desfile de monos e o destempero financeiro. 

A megalomania tem bons embaixadores: são os seus procuradores, os tais que de si têm uma noção superior à devolvida pelo espelho, os mandantes que enganam os súbditos com o engodo dos elefantes brancos que ciciam uma espetacularidade estonteante quando são anunciados, contribuindo para a anestesia que contamina a maioria. É fácil enganar os tolos, adverte o povo sem, contudo, não conseguir ser o primeiro a cair no logro. A megalomania é ateada pelos falsos visionários, mas só tem seguimento se uma larga maioria de destinatários aderir à impostura (sem dar conta de que se trata de uma impostura, não se tenha a ralé em tão reduzida conta).

Quando se chega à memória futura e a prestação de contas da megalomania é devida, os responsáveis já não constam do inventário dos vivos, e aqueles que caucionaram as empreitadas também seguiram o mesmo caminho. As gerações futuras são chamadas a cotar a utilidade dos elefantes brancos, percebendo então que se trata de elefantes brancos dispendiosos. Aos mortos já não se pode pedir essa prestação de contas. 

A megalomania é barata desde o ponto de vista do tempo em que é decidida.

6.7.26

Cro-magnon (short stories #514)

Simple Minds, “New Gold Dream (81-82-83-84)” (live Popcorn 193), in https://www.youtube.com/watch?v=sDNBmZl84lI

          O gelado que se descongela rapidamente até cair inteiro no chão; o zelo ao cuidar de uma pessoa e tudo estragar com a palavra dita no pior momento e na circunstância errada; o ressonar audível no meio da sala de cinema cheia, no exato momento em que o filme era um minuto e meio de silêncio; a amiga que se abre numa confidência e o conselho que tem para dar (sem lhe ter sido pedido) faz a amiga desatar num pranto; o avião que ia apanhar com quatro horas de antecedência e, afinal, perdeu com um dia de atraso (só descobriu depois que se esquecera que o mês anterior tinha trinta dias e que não chegou a acertar o dia do relógio pelo calendário romano, que tem estas coisas absurdas de alguns meses terem trinta dias e outros trinta e um); o exame da Faculdade a que chegou cinco minutos antes do fim, por estar convencido de que começava cinco minutos depois de ter chegado; o puzzle do sobrinho que precisa de ser montado, tendo-se oferecido como voluntário para a arte pueril de colocar as peças no lugar, fazendo estatelar os 45% do puzzle que já estavam compostos; a interpretação errada do manual de instruções de uma cadeira de escritório comprada numa loja de mobiliário prêt-à-porter, concluindo a operação com seis parafusos e três peças a mais; a aula de zumba sempre contra a maré, lançando-se para a direita quando a monitora dizia “todos para a esquerda”, e vice-versa; entrar no escritório com um sapato de cada nação, para gáudio dos colegas que já não passavam sem os seus números circenses; o copo de cerveja entornado em cima do fato do chefe que custou quatro mil euros no fim do jantar de Natal (e a promoção que foi desprometida); saber que ninguém consegue ser tão fielmente o elefante no meio da loja de porcelanas.

3.7.26

Só me saem duques

Max Richter, “On the Nature of Daylight”, in https://www.youtube.com/watch?v=InyT9Gyoz_o&list=RDInyT9Gyoz_o&start_radio=1

Na mão que veio parar à mão, um punhado de duques. Franzido o sobrolho, na espontânea reação de quem não consegue esconder a desfeita de ao jogo vir de amparo um naipe do menor valor possível. Não podia haver pior jogo. Não se vê como transformar esta mão numa arte de vitória. 

A manha que cresceu com a experiência ensina a arte do fingimento. Ao voltar atrás na fita do tempo, os parceiros do jogo não conseguiram discernir um esgar correspondente à presença de uma mão cheia de duques. Conseguiu emudecer a espontaneidade que teria mostrado o franzir do sobrolho, que logo seria interpretado como sinal de um jogo condenado a ser um fiasco. 

Os duques nunca foram amigos de quem se mete a jogo. São a extensão da experiência de vida quando se tropeça naquelas personagens que correspondem à pedra no sapato que incomoda o andar e até pode ferir o pé se os seus efeitos forem prolongados. O que se faz com as pedras no sapato pode ser aplicado aos duques em excesso que comprometem o jogo? Até ao que for possível pelas regras do jogo. É possível sanear a pedra no sapato, se a sua persistência agravar os efeitos adversos da sua existência. Quem representar a pedra no sapato (o duque de serviço), deixa de contar para o universo das relações pessoais sempre que se sentir amolgado pela persistência da pedra no sapato. 

Quando a mão está cheia de duques, às vezes as regras do jogo admitem a sua substituição (até um certo limite no número de cartas a trocar). A troca só pode compensar. A probabilidade de as cartas prescindidas serem trocadas por outros duques é baixa. Com a ajuda da sorte – pois então, é de jogo que se trata –, uma mão fadada à capitulação pode ser transformada num jogo cheio de hipóteses. 

Os duques substituídos deram lugar a outras cartas que se tornaram trampolim para um jogo diferente. Se não fosse por esses duques, a mão a jogo não seria triunfante. Caso em que seria injusto dizer, com aquele tom entediado de quem se sente vítima de uma conspiração da autoria do universo, “só me saem duques”.

2.7.26

A fábrica de fazer reis e rainhas

Sleaford Mods ft. Lene Lovich, “Lucky Disclosure”, in https://www.youtube.com/watch?v=EmGMwe8Ivko

Era num lugar secreto, escondido do mapa e das luzes que descobrem os lugares e os mostram às pessoas, a fábrica de fazer reis e rainhas. Um séquito não numeroso fazia as genuflexões necessárias só para manter acordado o sonho da monarquia. Não interessava que os pretendentes que se sucediam fossem fracos para o cargo; a linhagem e a crença cega suplantavam as fragilidades nunca reconhecidas pelos apaniguados.

O séquito não numeroso mais parecia uma seita, os seguidores de uns gurus apáticos que se esforçavam por exibir pose de estadista, por mais que disfarçassem a falta de habilidade. Naquele lugar secreto, amontoavam-se processos que, se bem finalizados, culminariam no parto de uma futura sua excelência com pretensões ao trono. Ninguém sabia do trono – e ninguém se lembrou de o construir na fábrica de fazer reis e rainhas, apesar da proximidade com Paços de Ferreira. 

Os apaniguados gostavam mais da monarquia do que dos monarcas que desfilaram na linha do tempo. Nunca o admitiam, que a divinização dos pretendentes ao trono inexistente, só por o serem, cegava a lucidez. Sabiam-no; eram eles que elevavam os pretendentes a um estatuto só comparável a deus, o que era uma contradição de termos, pois essas eram as pessoas que frequentavam sacristias com uma assiduidade acima da média. Um dia, um dos rostos visíveis a favor da substituição de presidentes da república por reis ou rainhas foi desafiado a explicar a deificação dos monarcas, mas o interlocutor ficou sem resposta (devido a uma súbita indisposição do interpelado). 

Também ficavam desertas as perguntas sobre a linhagem democrática da monarquia: não sabiam explicar a origem do direito ao trono, nem por que pergaminhos os pretendentes eram reconhecidos como pretendentes. O mesmo rosto mediático não soube explicar que atributos especiais eram reconhecidos para que fulano ou sicrana fossem defendidos como legítimos tutores de um trono de onde ostentariam a sua superioridade em relação aos súbditos. Não valia invocar o direito natural para sujeitar a legitimidade dos pretendentes e dos monarcas investidos.

Aquele lugar secreto onde ficava a fábrica de fazer reis e rainhas era a consciência dos seguidores de reis e rainhas à prova de estribo. Um lugar onírico, preenchido por pretendentes que não eram de carne e osso.

1.7.26

Ainda, um golpe de misericórdia

PJ Harvey, “Angeline” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=wqHFq0FGNog

Ainda não: como quem decreta uma sentença provisória, pois provisório é o “ainda” que se soma a uma oração. Ainda, como promessa. Ainda não é, mas virá a sê-lo. O tempo cuidará de confirmá-lo. Enquanto não é, há tempo para que seja ativada a preparação para o vir a ser. Para que o resultado da empreitada não se anuncie sem pré-aviso, com o estrépito próprio das coisas inesperadas.

Ainda, para desenganar o destinatário. Aproveita enquanto podes, enquanto o que ainda te separa do inevitável vai sendo adiado. E como aproveitamos a oportunidade do ainda? Com angústia, se o ainda for desaproveitado e, ainda antes de se extinguir na consumação da sua promessa o comportamento for de quem já é assolado pela condição prometida. Ou com um olhar frontal que aproveita o legado do tempo que se extingue quando o ainda prescrever e a frase tiver de ser reescrita.

Ainda não aconteceu, mas vai acontecer. Nada do que se possa fazer impedirá a prescrição do ainda. O enquanto faz par com o ainda. É a suspensão da finalidade que valida o ainda. Mas o ainda é um espectro que paira sobre o tempo vindouro. Pode ter data certa ou incerta, a prescrição aferroada pelo ainda. A sua consumação assegura uma finalidade irrenunciável. Nem o mais esmerado fingimento consegue fingir o irrenunciável ajuramentado pelo ainda.

Seja a angústia ou o otimismo da frontalidade a ditar a reação ao ainda, como condição irrenunciável que fica aprazada o ainda é um golpe de misericórdia. Um atestado de que ninguém consegue escapar. E uma centelha que ilumina o ânimo exigível para sentar no dorso do tempo e dele retirar tudo o que puder oferecer. Ainda, como golpe de misericórdia que exige o desembaraço de quem recusa capitular antes do tempo. Em vez do dramatismo a destempo: enquanto se mantiver o ainda, a condição que ele jura fica por materializar. 

É escusado entender logo o ainda como um “não perdes pela demora”. Enquanto a demora demorar, o ainda é a personificação da misericórdia que não se deve recusar. Enquanto for sendo objeto de adiamento, a promessa do ainda fica à espera. Um adiamento misericordioso.