3.8.26

O que é a minha terra?

The Smile, “Open the Floodgates” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=HujNaAQfa4Q

O mundo feito de fronteiras é o contrabando da humanidade. Fúteis, os inspiradores de conspirações (e os que se inspiram nelas) respiram o catecismo das diferenças como se constituíssem um anátema das pessoas. Não é a matéria genética que conta; é a cor da pele, o idioma que, todavia, não impede de comunicar, as religiões que se antagonizam como se deus fosse árbitro de guerras atávicas, os ódios que medram na estultícia de julgar os outros por intenções que lhes são imputadas, as conclusões a jeito de conspirações que supõem divergências insanáveis baseadas em comportamentos adotados por minorias. 

Corremos atrás do tempo, como se fôssemos reféns da História e procuradores de intolerâncias que se autoalimentam. Se os mecenas das conspirações, aqueles que cultivam uma identidade sequestrada por fronteiras mentais, soubessem correr à frente do tempo, não desdenhavam da História, não instruíam uma ignorância tão displicente. Oxalá soubessem interpretar o lastro do passado sem a visão embaciada pelos seus vieses, pela cultura contraditória da humanidade que continua a mergulhar na autofagia permanente de quem desconfia do outro só porque é diferente e, acreditam piamente, quer suavemente invadir-nos, adulterar os nossos costumes, casar com as nossas filhas e netas, como se os outros que a nós se juntam estivessem a vingar da colonização de que fomos precursores. 

(A primeira ironia do destino é que estes zeladores da “identidade nacional” ficam em silêncio perante a hipótese de serem as imigrantes a desposar os nossos filhos e netos. A segunda é uma ostensiva ironia do passado: fingir (ou não saber) que não foram os nossos antepassados, descobridores e navegadores, que espalharam o “gene lusitano” à medida que desbravaram novas terras. Nós pudemos semear a miscigenação por onde passámos: devemos ter uma têmpera especial; pensar numa miscigenação de fora para dentro é adulterar este fictício “gene pátrio”.)

Esta gente atarantada, consumida pelos seus próprios fantasmas, produto de um azedume mal fermentado, recusa um módico de sensibilidade humana perante a entrada de outros que fogem da miséria. São indignos de um movimento demográfico que cimentou parte da sua identidade cultural: os seus antepassados não remotos (segunda, terceira e quarta gerações antes deles) fugiram da miséria nacional e foram à procura de oportunidades em vários eldorados (europeu, americano, brasileiro e outros). Fechar a porta aos que nos procuram é como ultrajar retroativamente os seus pais, avós e bisavós que deixaram as terrinhas e a pobreza para trás e foram acolhidos e bem tratados nos lugares para onde emigraram. Se esbracejarem o argumento da homogeneidade cultural a favor dos antepassados que demandaram outros lugares, estão a torpedear simultaneamente a História, a Biologia e a Antropologia, reféns de um etnocentrismo feito a régua e esquadro de uma superioridade que só existe nos seus sonhos. 

O argumento humanista devia ser suficiente para condenar à irrelevância estes nativistas histriónicos que se alimentam de antagonismos espúrios e fermentam conspirações que os mobilizam. Não sendo suficiente, chega-se à frente o argumento pragmático (e, que sejam avisado(a)s o(a)s leitore(a)s mais sensíveis, um argumento também oportunista). Os especialistas (geógrafos, sociólogos, economistas), os que se cultivam na boa ciência e para o seu desenvolvimento contribuem, andam há muito tempo a advertir que a sociedade está a envelhecer e que, à falta de maior produtividade natalícia dos nativos, as pensões de reforma das gerações futuras estão hipotecadas. A forma de inverter esta tendência é deixar que os outros venham para cá, por cá trabalhem e descontem para a Segurança Social. Manter a cruzada cega contra os outros é a garantia de que os seus proponentes chegarão ao futuro a embolsar pensões de reforma insignificantes. A menos que abjurem a boa ciência e se convençam que se fazem omeletes que não levam ovos. 

Esta irradiação nativista, que cresce com a passagem do tempo e atrai mais adeptos, é a tempestade perfeita para que o mundo desande para catástrofes parecidas com outras havidas no passado. Agravar tensões entre diferentes grupos empurra os outros para a trincheira oposta, agravando-se o fosso entre os diferentes grupos. Não é por acaso que recentemente tenho testemunhado mais episódios de confrontação verbal (no trânsito, nos parques de estacionamento de grandes superfícies comerciais, nos transportes públicos) que terminam sempre da mesma forma, com o “nativo” a puxar os galões do seu nativismo e a encomendar o outro à sua terra. 

O imenso desprazer de ser testemunha destes episódios (asco é a palavra certa, se retirar o filtro da urbanidade), traz-me à seguinte interrogação dirigida a estes apedeutas e aos últimos abencerragens que alimentam este discurso: o que é a minha terra?