8.2.11

O retrovisor que vê para a frente


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O sol aquecia as veias. Os olhos fechados, o rosto inclinado para o misericordioso sol, e uma revoada de imagens mentais que acendiam a perspicuidade bem funda. As imagens eram transportadas de tempos em deserção. Desfilavam sem critério, caídas aleatoriamente sobre os braços da tarde invernal que acolhia um sol tão quente que era insólito.
Fragmentos esparsos, sem fio condutor nem critério temporal. Ora uma imagem resgatada à adolescência imberbe, ora outra que fora lá atrás à remota infância, ou uma terceira que não tinha ainda ganho a espessura da poeira que se compõe com as clepsidras que esvoaçam. Entrecortadas por um aluvião de instantes que se assoberbavam no palco mental como um relampejar de flashes frenéticos. Os flashes iam e viam a uma cadência vertiginosa, enchendo as pálpebras interiores de espasmos que gritavam aos passeantes. Uma tempestade alucinante, com a ossatura do tempo a trovejar os seus protestos.
Teimavam, os olhos cerrados. Queriam aquele pesar que parecia um lícito torpor alucinogénico. Parecia ter passado uma eternidade desde que cerrara os olhos. Apenas sentia os passos quase imperceptíveis das pessoas que passavam em redor. E a brisa fresca que acidulava as melenas descompostas sobre a testa e os vértices dos olhos. Os curtos fragmentos de vivências eram convocados de diferentes paragens. Emergiam, relapsos, contra a itinerância do tempo. Diria: retrovisores que resplandeciam as suas imagens num paradoxal assomo que as vomitava na frontaria dos horizontes. Ou uma centelha furtiva desprendida da imobilidade do tempo enquistado.
Uma boa meia hora e os olhos permaneciam virados sobre as pálpebras encurraladas. Já não sabia se sonhava, imerso num sono que se confundia com a letargia ancorada na tarde repousantemente cálida. A certa altura, os múltiplos instantes de imagens que passavam em imenso débito pelo palco mental eram sedimentos de uma confusão interior. Ao início, não duvidara da têmpera dos clarões resgatados à inércia do outrora. Agora, outras hesitações o assaltavam. Preso às malhas da nostalgia, porventura incendiada pelo rubor da face inclinada diante do cálido sol invernal, entrara num torpor que não admitia a separação entre vivências e fantasias dignas do onírico.
Não sabia se caíra no sono. Era um limbo estranho, este que separava a lucidez pontuada pela voragem de pensamentos dos devaneios fermentados por sonhos que eram pálida imagem de experiências alguma vez notadas. Ora regressava a casas visitadas, ora entrara em quartos inúteis com a assombração de uma luz tão clara que feria a vista. No limiar entre recordações e sonhos mansos, pegava no retrovisor que absorvia as imagens tragadas no turbilhão do tempo gasto. Pegava no retrovisor e projectava-o para a frente. Para que as imagens transbordadas decantassem todos os minutos que tivessem branqueamento do porvir. Era como se o retrovisor fosse a lição mestra do tempo vindouro.
E por mais que o alter ego, sussurrando em surdina aos ouvidos da paralela consciência, reavivasse o lema maior (“não há tempos iterados”), por mais que se convencesse que os relâmpagos de outrora ficaram mudos nesse tempo, sem esporas que o aticem ao tempo forasteiro, não largava o retrovisor encardido. Os olhos ecoaram no estrépito de uma onda alterosa que se esmagou no cais. O retrovisor, ali à mão de semear. Estilhaçado.

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