6.6.13

A minha tolerância é melhor que a tua (ou: “quando um burro fala os outros baixam as orelhas”)


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Uns agitadores de extrema-esquerda descobriram novo filão: interrompem membros do governo quando estes usam da palavra em cerimónias públicas. Interrompem e fazem gala de não os deixar prosseguir a oratória. O modismo vem na esteira do profusamente entoado “Grândola, vila morena”. Agora deixaram-se de cantorias. Exibem uma tolerância que devia ser ensinada nas escolas. Para as criancinhas saberem o que é a antítese da tolerância.
Alguns agitadores interrompem com palavras de ordem, berrando-as até onde os pulmões e as cordas vocais deixam. Outros desfazem-se em sonoras gargalhadas, ao menos deixando na sala um perfume de boa disposição que nunca faz mal. Debaixo da complacência das autoridades e do ar timorato dos ministros que mal esboçam reação, emalando os papeis do discurso enquanto abandonam o local com o rabo entre as pernas. Os agitadores, que banalizam as palavras “democracia” e “liberdade” de tanto as usarem sem merecerem crédito, desembainham a espada da “liberdade de expressão” quando alguém lhes pergunta por que interromperam o ministro. Podiam aprender, coitados, já que não sabem o que é liberdade de expressão (uma achega: ela termina quando estamos a pisar a liberdade de expressão dos outros), um princípio de educação que se ensina em qualquer lugar: quando alguém fala, o outro espera pela vez. Se não, se todos se interrompem sem ordem nem critério, ninguém se consegue fazer ouvir.
Para piorar o diagnóstico, temos uma pega de caras com os tutores intelectuais desta esquerda fundamentalista. Eles puxam galões à retórica para justificar as interrupções em discursos dos ministros. Estes autoproclamados campeões da tolerância, que desfilam na passerelle intelectual dando lições de moral e ensinando o bê-á-bá das liberdades, ensinam que as circunstâncias de emergência justificam que os oprimidos possam silenciar em público governantes que tantos maus-tratos têm cominado ao “povo”. Nada de novo para os pergaminhos da extrema-esquerda: os fins justificam os meios. Nesta altura, a comiseração toca-me de raspão. Tenho pena deles, que tanto apregoam a tolerância e dão caução a exibições que são a negação da tolerância.
E depois ainda apanhamos com o outro inteligente que esbraceja os fantasmas da sublevação social, ou até da guerra civil; ou o outro, ainda, convencido que o empobrecimento da população é intencional com este governo. (E eu, provavelmente ingénuo, não consigo acreditar que qualquer governante, em lado algum, mesmo estes de fraco jaez, inscrevam na sua agenda de intenções deixar um rasto de pobreza entre quem governam. Mas o mal deve ser meu. Só não sei se é incapacidade de compreensão, ou apenas uma pueril ingenuidade.)
Tenho medo destas esquerdas. Mais medo do que um governo inábil, que é o do momento. Medo das esquerdas, porque calam quem manda enquanto estão tão minoritariamente na oposição. O que seria se algum dia (em jeito de pesadelo) elas pusessem um pé no governo? Acordo sobressaltado do pesadelo, ao pressentir o dano nas liberdades básicas. Quem quer uma prova (contrafactual, admito, mas prova ainda assim)? O que aconteceria se meia dúzia de indivíduos com mau feitio interrompessem um dos gurus da extrema-esquerda na apresentação de um livro, ou um sindicalista enquanto debita a homilia palavrosa? E o que aconteceria se um apoiante do governo desse três tabefes nos agitadores mal-educados que interrompem alguém quando está no uso da palavra?

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