27.6.13

Das virtudes da infância


In http://2.bp.blogspot.com/-uqD9mQSqi9E/TdQXD4pJLxI/AAAAAAAAGA4/7D4kf9bwYlI/s1600/infancia+desprotegida.jpg
(Prolegómenos de mais uma greve geral)
Oxalá nunca deixássemos de ser crianças, os que, olhos marejados de tanta ingenuidade, não queremos perceber as dores do mundo nem as tramoias dos espertos. Os que, reféns de uma inocência pueril, recusamos passar a fronteira que nos poria a governar a coisa pública, ou a sermos atores na governação por freio a quem governa.
Se ficássemos numa perene infância, acusam os adeptos do realismo, seríamos por todo o sempre alienados das coisas que fazem o mundo. Seríamos pertences de um mundo que, todavia, não seria o mundo em que medramos. Que nos demitiríamos da cidadania que é condição inata à idade que passa, aos adultos que nos fazemos contra a vontade interior e sem nada podermos contra o tempo que tem a sua causa tirana. Envelhecemos e a infância é-nos vazada. Entramos no circo dos ardis, onde quase tudo é feito de faz de conta. Onde os adultos se ensaiam atores na plena aceção da palavra.
Perde-se a bússola do genuíno. A espontaneidade é, com o tempo que acentua as rugas no rosto, um distante oráculo que desmente a menina idade onde tudo o que era importante pertencia ao lúdico dos mais velhos. Quando damos conta da adulta idade, as dores do mundo e as perplexidades interiores açambarcam os sentidos. O acessório triunfa entre os haveres da importância. Contaminados pelo saber importado dos livros, a infância desfaz-se nas últimas cinzas. Os outrora infantes aprendem, com as pedras pontiagudas que têm de atravessar, que feitos há que não resolvem nada.
Os protestos vociferados na rua, ou em dias em que se grita o direito de não trabalhar, resolvem um nada que em si encerram. E o direito de não trabalhar e o direito de gritar são direitos ungidos com a legitimidade (para que não fiquem dúvidas). Aprende-se, nestes dias em que os que não vão trabalhar olham de soslaio para os que cometem o opróbrio de fazer o contrário, que a liberdade é um valor relativo. E aprende-se a decifrar a arte da manipulação, quando há quem acomode toda a gente na simplicidade de um binómio, como se tudo fosse reduzido a uma dicotomia a preto e branco.
Podiam, ao menos, os possuidores das verdades irrebatíveis, os que falam com tanta autoridade moral em dia de greve, aceitar que quem vai trabalhar exerce uma liberdade que é tão sua. Sem que dessa liberdade se haja de entender um patrocínio aos que, mercê da greve, são contestados.

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