The Cure, “Never Enough” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=R8qHuE2Px8c
Conto um segredo, que assim deixa de ser segredo. (Ou manter-se-á na exata medida de haver pouca gente que venha a saber do segredo.) Sei de um atalho que poupa a distância feita pelos outros. E tu perguntas por que os outros, que fazem a estrada habitual, não sabem do atalho; ou, se sabem que ele existe, por que não o frequentam, se, ao revelares a sua existência, insinuas que através dele se poupa tempo.
Só contei um segredo: existe um atalho. Não disse que se poupa tempo se, em vez de ires pela estrada habitual, fores pelo atalho. Não disse como é o atalho. Se fores ao mapa, não encontras o atalho. Não é por acaso. Não se trata de um caminho reservado aos militares, porque ainda há coutadas que são serventia exclusiva dos castrenses. Também não é um caminho privado, com acesso restrito ou mesmo vedado, consoante a vontade dos patronos.
Se calhar, o atalho corta a caminho que habitualmente é sinuoso. Só que o piso é pedregoso; não pode ser atravessado por qualquer veículo. Dizem que até jipes preparados para caminhos intransitáveis ficaram a meio do caminho. Ou o atalho é um ardil imaginado pelas mentes sonhadoras que, cansadas de percorrer a estrada sinuosa todos os dias, quando saem de casa e vão para o trabalho e vice-versa? Os ideais não passam de matéria onírica.
Num sonho teu, disseste que saltaste trinta anos no futuro e viste no mapa que havia um caminho a direito que evitava o encargo da estrada sinuosa. Não perguntaste ao sonho como era o atalho. Ficámos sem saber se era apenas um sonho e se, daqui a trinta anos, as pessoas continuam a percorrer vagarosamente a estrada sinuosa atrás de camiões com marcha arrastada. Ficámos sem saber se o atalho rimava com o futuro e se era um túnel que rasgava a montanha de um lado ao outro.
Os sonhos não são materializações. A luz que irradiam ensina a sonhar, como um exílio do que está à nossa volta. São contratos-promessa com um futuro que não vê a hora de chegar e que fica aquém do possível. Os atalhos são o logro dos que desconfiam dos meios e privilegiam os fins.
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