7.10.11

Saída de emergência


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgzXFtPb-3hZBAem8V6_JIHL0mv9A5AhEu2CiG97MfR0M4t-U7pZS9hENQiVfsAVDCfppasW3Flclv86CQtf21DpoIGIpzsub4-Z3t-BaRwHbRi73I2w3zP6GkXTYM8Vr5J0jXbyw/s1600/saida+de+emergencia.jpg
Em jeito de manual de instruções.
As pulsações cardíacas são tão apertadas que a respiração sai ofegante. É como se o coração acelerado mordesse a traqueia, encharcando-te de ansiedade. Os minutos ora se enquistam na inércia, ora se consomem de supetão. As mãos trémulas não seguram a chávena do café, vertendo gotas sobre o papel branco. Interpelado por uma amiga, respondes maquinalmente com a distância de quem está mergulhado nas perplexidades que te colocam ao longe, muito ao longe.
As angústias desfilam diante dos olhos. Marejas na sua espuma, embebes-te nelas. Num ápice, transformas as angústias ao início menores em Adamastores que furtam o sono. O pensamento interioriza os embaraços que apertam as veias contra a carne. De resto, o próprio pensamento ficou ofuscado por uma cortina que se adensa, uma cortina de nevoeiros que se deita sobre o pensamento em camadas sucessivamente mais espessas. À força de tanto elucubrar, é como se os teus pés perdessem o contacto com a terra.
Sobra-te, ao menos, sapiência para um plano de contingência. O estado de emergência dita a sua necessidade. Não aguentas mais tempo com a espada da ansiedade deitada sobre o dorso. Não suportas os mil e um cenários, todos hipotéticos, que se congeminam quando o pensamento se revolve em enfurecidos remoinhos. O coração debita golfadas de sangue a uma velocidade voraz e as veias continuam muito apertadas contra a carne doída; a imensa dor da agonia, sabes que não a aguentas por mais um dia.
Estas dores não se resolvem sozinhas. Se são de emergência os dias que se puseram, parte em demanda de uma saída de emergência. Atalha os ossos partidos, sacode o restolho dos dias sem a metódica arrumação dos detritos. De repente, uma interrogação desponta entre os escombros em que te arrastas: as perplexidades todas, as angústias que vociferam dores contra a impassível existência, não serão apenas um palco montado e os atores em redor fantasmas em forma de gente?
Uma luminosa interrogação. Que franqueia a saída de emergência.

6.10.11

Este outono assassino


In http://www.linhasdeelvas.net/~media/downloads/14764.big.jpg
Anda toda a gente contente com o demorado e intempestivo verão que arremeteu pelo outono dentro. Ao menos isso: que a malta ande toda encantada com o destempo de uma estação. Eu, que tenho esta irreprimível pulsão para ser desmancha-prazeres, estou cansado da extemporânea canícula. Mas regozijo-me com a felicidade estampada nas reavivadas cores da populaça que resgatou as toalhas ao armário e voltou a frequentar areias balneares.
Talvez as pessoas queiram uma distração da austeridade em dose cavalar que se anuncia. Talvez desejem válvulas de escape que as façam olvidar, por instantes que seja (neste caso, o agosto faz de conta), a montanha de sacrifícios que vai ser despejada em cima de nós. De repente apetece acreditar na justiça divina, ou em anjos celestiais que corrigem infortúnios terrenos com aclamações meteorológicas que fazem arribar o espírito. Outra vez: ao menos isso. As compensações, quando espreitam por entre a putrefação, massajam os contrafortes condoídos pelas exasperações quotidianas. Oxalá haja destas compensações por diante. Para sermos devedores de gratidão aos fautores da justiça divina (se existisse).
Em contramão, os anjos bondosos não tiveram piedade de suas eminências que discursaram e ouviram discursar nas cerimónias do aniversário da república. A canícula estava a pique e suas eminências, empasteladas na cerimoniosa fatiota com gravata a preceito, suavam as estopinhas enquanto as moleirinhas torravam ao sol que mais parecia algarvio. Já não chegava suas eminências não poderem aproveitar o feriado para atividades lúdicas. Porventura a maralha, carente de justiça divina que se confunde com justiça poética, dissesse: é bem feito; os anjos que descompõem as estações, deixando que o verão se demore dentro do outono ainda infante, são anjos democráticos.
Mas eu, com esta pulsão para ser desmancha-prazeres, padeço com tanto calor. Insulto este verão fora do calendário. Consumo-me de saudades do tempo que faz jus à estação que começa nos fins de setembro. Alguns dirão que o outono plúmbeo, o outono semeador dos primeiros ventos tempestuosos, é um assassínio de caráter. Afeia os rostos, calcina as disposições interiores. Eu digo, ao contrário da maré, que o verão que se apoderou do outono é o assassino feroz. Temperaturas de agosto nos alvores de outubro é coisa que não se faz. Como posso acreditar em justiça divina?

5.10.11


(Inspiração do texto ali em baixo)

Quando a alma não é pequena


Cabem as posses todas, as semeadas em terra firme e as que se escondem nas profundezas dos mares. Cabem dentro das algibeiras os sentimentos maiores, condensados numa amálgama que rebenta com os estertores. Cabem as mãos todas dentro dessas algibeiras, as mãos contudo necessárias – já não as mãos desconhecidas, ou as mãos a quem as mãos deixaram de dar uma mão. Cabem as maresias que beijam os pés da alvorada fresca. Os montes e vales que parecem uma sequência interminável, confundindo-se com a bruma madrugadora. Cabem uns cabelos ondulados que navegam por entre os dedos enquanto um corpo repousa no regaço do outro. Cabem os livros que foram devorados, ou os livros que na leitura tiveram parto difícil, as músicas, as muitas músicas selecionadas a compasso das circunstâncias. Cabem as pessoas que mereceram conhecimento, as pessoas de onde se trouxe lições variadas. Cabem as estradas decantadas, as paisagens nem que sejam disformes recordações nas alcáçovas do outrora. E cabem gastronomias do mundo, as gastronomias experimentais, as doces amesendações de onde se extraem os pulsares de almas quase gémeas.
A não ser pequeno o habitáculo onde se fundeia a alma, ela mede um tamanho à sua semelhança. Que isto seja um manifesto, ou só consumo interno, é despiciendo. Os julgamentos que interessam são os que jorram das profundidades da alma. É quando ela se enfeita com uma pureza de raciocínio e vai de mão dada com os querubins da introspeção. Sobram os dedos em riste algures, porventura; os desaprovadores dedos em riste que se afadigam em sumários julgamentos alheios. Não importam, esses dedos em riste emproados por juízes falazes. Pois quando a alma não é pequena, a pequenez dos ardilosos juízes dilui-se no amplo espaço onde habita a alma.
Quando a alma não é pequena, só os olhos contemplam o que tem merecimento. A enorme alma tudo depura, como se fosse um filtro diligente que sacrifica as impurezas que podiam tudo contaminar. 

4.10.11

O que é um dilema?


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Há encruzilhadas pungentes, aquelas que convocam todas as bússolas do universo para o providencial socorro no remate da direção acertada. Os pés vacilam, como o artista circense, no meio da fina corda, o corpo ameaçando ora tombar para um lado ora para o lado de lá. Os olhos perdem noções. Titubeiam quando fitam os cenários sobrepostos. Como se estivessem agrilhoados por um estrabismo imaginário, um dos olhos confundido com o cenário dissonante, o mesmo acontecendo ao olho oposto.
As variáveis em equação são sopesadas, meticulosamente sopesadas. A tarefa, que consome o tempo vago e o tempo ocupado, é um hipnotismo da mente. As variáveis, de tão numerosas, agasalham a desorientação. Há o cheiro a demência a aflorar por entre os poros da terra enquanto as decisões estão em compasso de espera.
A palavra que reina é hesitação. Não chegam as contas de merceeiro, as que se fazem quando no sopeso das virtudes e dos inoportunos de cada face do dilema se metem as primeiras do lado mais e os segundos do lado menos. Em vez da arte contabilística, os sentidos farejam os pesos na sua forma relativa – que é o mesmo que dizer, a qualidade das virtudes e dos inoportunos de cada lado do dilema. Não há concordância entre os hemisférios da decisão. Desabrocha a indecisão, um punhal cortante que rasga a carne a cada instante em que a hesitação asfixia um prefácio de deliberação.
Como tratamos o dilema? O adiamento é sempre um método expedito. Ou atirar a moeda ao ar, esbracejando o aleatório. Mandam os costumes, e o categórico imperativo da responsabilidade que a cada um cabe (ah, o categórico imperativo da responsabilidade de cada um...), que os dilemas não mereçam abordagem superficial. Se é dilema, é coisa a carecer de seriedade. As coisas sérias não se compadecem com frívolas decisões. O compasso de espera que se demora faz crescer a temperatura da indecisão. A certa altura, a indecisão é insuportável. E, porventura, sem a esperada flamância, o corpo já cansado inclina-se para um dos lados do dilema. Que já não é dilema.

3.10.11

A fome e a vontade de comer


In http://img133.imageshack.us/img133/4603/banquete.jpg
Tudo era excessivo. Era como se tudo coubesse numa caixa de pandora enlaçada com o sal das contingências. À primeira ocasião, os duendes do desassossego faziam-se notar. Estilhaçavam tudo com um gesto singelo. Embaciavam a claridade que fora árdua obtenção. O peito sentia as palpitações que davam o mote à angústia que tudo açambarcava. Descompunha-se a lucidez, as luzes perdiam a claridade. Embotadas, deixavam-se insinuar pelos fantasmas não convidados que, todavia, se misturavam com os dias presentes. Depois sobravam os suores, as palavras que foram ditas e não se deviam jorrar, indomáveis, à boca de cena. Ficavam aprazados os pesares e os perdões. Até que nova tempestade viesse soprada de algures e caldeasse a resplandecência do céu com as nuvens tão escuras que atemorizam o sono.
Mas os excessos eram o templo vivificante. Às vezes, quando o sono se ausentara e os olhos pesados já não filtravam a claridade das coisas, parecia que as ruínas soçobravam em seus escombros. Ora a destruição parecia aterrar num ápice, violenta e fragorosa; ora se insinuava mordaz e silenciosa, as pedras do templo desprendendo-se uma atrás da outra numa lentidão exasperante.
E por mais que pela alvorada os olhos esbarrassem nas ruínas fumegantes, e tudo parecesse uma iteração de pretéritos que deviam ser matéria inerte, as mãos suadas pegavam na caixa de pandora e com paciência desfaziam o emaranhado nó que encimava o laço ardilosamente pomposo. Urgia abrir a caixa, por mais que ela, ainda fechada, gritasse dores em forma de anunciação. O corpo mergulhava com a voracidade de quem se queria saciar no desconhecimento do precipício.
Até a terapia era excessiva. Um modo urgente de desfazer os equívocos que ficaram a adejar como punhal lancinante. O corpo entregava-se à queda no aveludado precipício. Sabia que ao bater no fundo a queda seria atapetada. O corpo erguer-se-ia e trataria de fitar o horizonte com a habitual perseverança.