28.8.07

Um anúncio repelente


Ou porque se somam razões para não ser, nunca ter sido, cliente da TMN. Não será porque a TMN é detida pela Portugal Telecom (PT), que ainda mal se habituou ao incómodo da concorrência quando houve governantes que tiveram a sensatez de terminar com o vetusto monopólio. Perdeu o privilégio, mas teima em manter os vícios de monopolista. Dor de parto de quem estava habituado a ter o mercado só para si e agora é obrigado a suportar incomodativa concorrência. Para mal da PT, a bem dos consumidores.

Já isso bastava – e mais o proteccionismo mal disfarçado que os socialistas de pacotilha continuam a dar a esta empresa meia pública, meia privada que é catalogada como “referência nacional”. Estes híbridos que se tentam moldar à economia de mercado, depois de perdidas as regalias do monopólio enquanto foram empresas públicas, fazem-me lembrar os comunistas reciclados à esquerda moderada. Os vícios estão lá todos, impregnados, inamovíveis. Por mais que tentem sacudir a poeira do passado de que hoje se envergonham, a genética não engana. Dão o seu melhor para passar a imagem de alguém que se moldou ao jogo democrático, mas à primeira oportunidade descai o chinelo para a intolerância genética que neles habita. Tal como sucede com estas empresas híbridas, que perderam as regalias do monopólio, participam num mercado aberto à concorrência, mas nelas perduram os tiques de quem não sabe o que é conviver em concorrência.

Tudo isto era suficiente para não engrossar a listagem dos cidadãos que, patrioticamente, são clientes da TMN, ou de qualquer outra empresa que pertença ao universo PT. Há dias coligi outra razão para me colocar nos antípodas da PT. Um anúncio da TMN, cheio de “gente bonita” (já lá irei ao assunto, que dá pano para mangas), numa ilha paradisíaca, corpos bronzeados, gente jovem entregue à algazarra própria de quem, sendo tão jovem e cheio de vitalidade, destila energia por todos os poros. No final, como sucede em todos os anúncios da campanha publicitária de Verão da TMN, alguém aparece a dizer “até já”. Desta vez calhou em sorte a uma esbelta menina trajando o minimalista biquíni, com um olhar penetrante e um sorriso enigmático, sussurrando o costumeiro “até já” enquanto ostenta aos ombros uma enorme jibóia.

Como a publicidade é uma arte bem cuidada pelos profissionais do ramo, que não descuram o mínimo pormenor para que a mensagem atinja o público-alvo, seduzindo-o ao ponto de fidelizar clientela habitual ou atrair novos clientes, a utilização da jibóia em associação com a beldade pós-juvenil terá decerto um significado. No que me diz respeito, que tenho aversão a tudo o que seja réptil, teria o condão de me afugentar da TMN. Será reacção pessoal, pela repugnância que os répteis me provocam, alimentada por pesadelos povoados por serpentes e crocodilos quando era mais novo. Saindo da esfera pessoal, tento perceber o que pode atrair o público no binómio corpo feminino escorreito-jibóia.

Não se pode dizer que jibóias daquele tamanho sejam animais amigáveis como um cão ou um gato. Se provocadas, são mortíferas. A imagem que me é transmitida ao ver a coragem da menina que enverga a jibóia ao pescoço como se fosse um colar é a de um animal que a podia sufocar até à morte. Ora se o anúncio, como tantos outros, usa o corpo feminino como chamariz para o produto publicitado, faz pouco sentido a parceria com um animal que pode estrefegar um corpo tão esbelto. A perda para a humanidade não justifica o risco de colocar ao pescoço da beldade um bicho tão asqueroso. O que faz disto uma publicidade repelente. Pode haver uma mensagem subliminar, contudo: a jibóia é a TMN pronta a asfixiar os seus clientes. Afinal, esta é uma publicidade autofágica.

Ao menos o anúncio e a campanha de Verão da TMN têm um mérito no meio da falácia que é munir-se apenas da chamada “gente bonita” que vem das passerelles. Um embuste, isto de só abrir as portas destes anúncios a pessoas que são mostruários de beleza. No fundo, a antítese do mundo real, enxameado de feiura. A virtude está em obrigar os modelos que fazem uma incursão na publicidade a perderem o teimoso ar sisudo com que desfilam nas passerelles. Afinal a “gente bonita” que habita o casulo da moda também se sabe rir. Mesmo quando no guião do anúncio alguém se lembrou de colocar ao pescoço da apetitosa menina uma assustadora jibóia.

1 comentário:

ana vidal disse...

A menina escusa de dizer "até já", porque com aquela companhia duvido que alguém vá ter com ela...