The B-52’s, “Legal Tender”, in https://www.youtube.com/watch?v=mBRr_TqLDf4
A inocência, não sei se é como um vulcão ou um eclipse.
As vozes, num vai e vem, encantam as possibilidades, como se os poetas admitissem a polissemia e o sentido dos poemas ficasse sempre sob reserva de entendimento do leitor. De todas as providências, a inocência enfeita-se de incoerência (e não é por ser rima). Há alturas em que andamos nas alturas sem que professemos a imodéstia. Subimos às alturas para melhor ser a visão sobre o demais, e os miradouros são lâmpadas que cevam a lucidez.
Não se estranhe a deambulação pelos telhados, como fazem os gatos (a quem se convencionou chamar) vadios. De telhado em telhado, os pés suaves como se estivessem calçados em pantufas armadilhadas de silenciadores, que não queremos que as pessoas que habitam sob os telhados sejam desassossegadas pela nossa audácia.
Como a cidade é finita, os telhados hão-de acabar. Descemos à terra com o apetite de conhecimento saciado. Sem arrogância, apenas com a ousadia que compete aos audazes, os pés beijam o chão empanturrados de tão despejadas paisagens que são dadas a conhecer quando se anda de telhado em telhado.
Aos que perguntam se a demanda se faz na posse de arnês, solicitamente respondemos, no auge da nossa lúcida loucura, que vamos sem amparo. A audácia é maior e com o frémito em que se consome apura-se a lucidez, por mais que, incrédulas, sejamos contestados. Saltamos de telhado em telhado, mesmo que seja por dentro da prisão do pensamento. O combustível é o sonho de que somos hospedeiros. Podem os pés estar sensatamente enraizados no chão-âncora, que os sonhos o levitam para cima dos telhados onde se hasteiam metáforas heurísticas: os cartazes esvaziam-se de palavras e ficam apenas as paisagens mentais que vieram ao regaço com a dávida dos sonhos.
Ao anoitecer, cumprem-se os rituais singulares. As bandeiras dedilhadas já não estão puídas pela orfandade. Uns chamam-lhe identidade e perseguem a pertença que se destila do nosso magma. Outros, mais desligados e aptos ao tirocínio da poesia, preferem continuar a sonhar enquanto prosseguem o intrépido atravessamento de telhados. Até que telhados depois, já exangues, se entregam ao próximo sonho.
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