Angel Olsen, “Eyes Without a Face”, in https://www.youtube.com/watch?v=CQg2hdkgfY8
Passou tempo de mais a escarnecer do futuro. Nas rondas em que promovia a convivência da noite com o silêncio, ao invés de arrumar as ideias povoava a cabeça com o caos. E se, todavia, podia definir as bissetrizes do descontentamento, talvez fosse austero no diagnóstico. Havia momentos em que a lucidez parecia soerguer-se e palmilhava umas léguas. Era quando se lembrava de uma tia que dizia repetidamente: “há sempre quem esteja pior”. Faltava fazer a estatística, apurar se a tia tinha razão antes do tempo ou se não eram apenas os paninhos quentes de quem testemunha a imaturidade dos que fogem da serenidade. Talvez precisasse de uma árvore centrípeta que ajudasse a situar o pensamento; que não fosse tão corrompida pela parcialidade de quem corre contra a conspiração enfatuada do tempo, ou de como acabamos a ser fautores dos nossos próprios logros. Talvez precisasse de um exílio mais fundo do que o interior exílio por onde flanavam os poetas transviados. Um exílio que fosse além do seu sentido geográfico. Não sabia onde procurar o asilo que fosse o lugar de partida desse exílio. Aparecem sempre pedras pontiagudas que ferem o caminhar. Em grande parte do tempo, parecia que se limitava a fugir dessas pedras, como se o caminho fosse um slalom sinuoso para evitar as feridas extensas que o importunavam enquanto errava. Se polisse as pedras e o caminho fosse alisado, a demanda deixaria de ser um fardo. Podia ser que o exílio necessário não fosse uma tortura: ninguém precisa de se entregar a uma proposta de redenção que rime com sacrifícios quotidianos. É preciso saber que a vida que se ajaeza não deve ser palco para a exoneração interior que em vez de ser remédio é desarrumação maior. O comboio dos dias polidos trataria da reconciliação com o futuro.
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