4.9.26

Princípio geral do avestruz

New Order, “Thieves Like Us”, in https://www.youtube.com/watch?v=54VCnq9yx9w  

Que não falte areia, ou outro solo abundante, mole ou pétreo, onde se possa imitar o avestruz, de quem se diz ser sua perícia o enterrar da cabeça. A imagem serviu para fixar uma metáfora que do avestruz não lega uma imagem digna: enfia-se a cabeça na areia para evitar os problemas, seja os que chovem copiosamente, seja um só que, pela sua contundência, arrebate a dimensão de todos os demais. 

Esconder a cabeça como o avestruz é passar à prática a conduta do fingimento. Se o corpo estiver todo à mostra, o arsenal de contrariedades, para o qual não se está preparado, abate-se com toda a impiedade. Não se estando preparado para lidar com tantos contratempos (ou sequer com um só), emerge o fingimento como panaceia. Pode ser que ao enterrar a cabeça na areia a falta de visão impeça a tomada de consciência das apoquentações. Ou, visto desde o ponto de vista das flagelações que irrompem sem contemplações, como a cabeça não está à mostra, procura-se outra vítima. 

Contudo, os contratempos não são apenas pica miolos. Contentam-se em aferroar qualquer parte do corpo de quem seja escolhido como vítima. A fuga programada segundo o princípio geral do avestruz nem paliativo chega a ser. Muito embora a cabeça esteja escondida, grande parte do corpo restante continua exposta. Os contratempos não dependem da tomada de consciência que é ativada pela visão desembaraçada. Qualquer parte do corpo serve para ser validada a contaminação de um contratempo. O restante corpo à mostra será a porta de entrada e, em pouco tempo, a tomada de consciência do contratempo materializa-se. Esconder a cabeça como o avestruz não evita os problemas. 

Mesmo assim, com toda a experiência que faz parte do envelhecimento do mundo, não há um dia que não se multipliquem cabeças escondidas na areia. A nossa estultícia ofende o avestruz.

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