Trentemøller, “Terrified”, in https://www.youtube.com/watch?v=yELt4GcVsrE
Cotovelos esmurrados e outra vez esmurrados antes de ganharem cicatrizes. Nódoas negras (vulgo hematomas, antes de sabermos do uso de palavras dispendiosas). O mérito de uma trajetória desenhada de acordo com os cânones dos melhores pilotos de automóveis (víamos na televisão, desde pequenos, as corridas de Fórmula 1). As mãos encardidas, ganhar velocidade no auge da subida exigia tomar lanço e o uso de luvas não nos passava pela cabeça. Com o tempo, a procura de sofisticação (possível): ir a oficinas e perguntar aos mecânicos se tinham rolamentos para dispensar e se podiam dispensar os melhores rolamentos que estavam prestes a acabar os seus dias no entulho. Não sabíamos que os mecânicos punham o ar sério de quem fingia interessar-se pela função e prometiam entregar rolamentos pantagruel que por sua vez prometiam velocidades estonteantes com o corpo quase colado ao chão. Cada descida era sempre breve – não vivíamos em terreno acidentado, mas sonhávamos descer a Serra da Estrela em carrinho de rolamentos. Mal terminávamos a descida, pegávamos na traquitana a tiracolo e subíamos apressadamente até ao alto da modestamente inclinada subida. Quantos quilómetros fazíamos ao fim do dia? Estávamos em forma. Não nos crescia a barriga e não tínhamos colesterol a mais, nem pressão arterial no limiar de doenças terminais. Num certo ano, um de nós, o que tinha mais jeito para trabalhar madeiras, prescindiu da carreira de piloto de carrinhos de rolamentos para se dedicar à sua fabricação. Veio na altura certa: as carcaças que se apoiavam nos quatro rolamentos estavam a ganhar predicados através do científico tratamento da madeira. Era o prenúncio da revolução aerodinâmica nos bólides de Fórmula 1. Convencemo-nos que estávamos muito à frente. Os cotovelos em carne viva, as mãos sabujadas pela fricção no chão e, ocasionalmente, um ou outro galo na cabeça prepararam-nos para os contratempos da vida adulta. Agora fala-se em bater com a cabeça na parede. Dantes aprendemos a bater com ela no chão ou nos adversários que, tão teimosamente, não abriam a trajetória para a ultrapassagem.
Sem comentários:
Enviar um comentário