23.9.11

O marxista (convertido)


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhsTOZm_Nei7_jYfowNWuhOPjulSc2vN0OeFKHn_n-Scs8sFPbBabDOBLpr3iElQSFvZNbbpa2GRfJcTzJXnE7rA41hQKsdc5yfQ3IMFpZ91GmBUfCIMdGZU6e9cjRqrH2JC_AuMQ/s1600/karl+marx.jpg
Ouvira dizer: que os acontecimentos desmentem os dogmatismos em dia. Espalharam por aí a novidade: esta crise é o estertor do capitalismo. De tanta ganância, de os mercadores de capitais só quererem amealhar lucros, sobrou um numeroso exército de descamisados. Ainda por cima, os governos atiram combustível para a fogueira: ateiam o espartilho da austeridade, esganam o gargalo do futuro que espreita, ao fundo do túnel, agitando um punhal frio.
Corria à boca pequena: a crise sem par era o tiro suicidário do capitalismo. Do que se tornara o capitalismo no seu estertor – um selvagem capitalismo. Ainda deitou os olhos às páginas dos clássicos, dos doutrinadores de antanho, os que ensinaram as virtudes do mercado livre, da livre iniciativa, da espontaneidade dos mercados e da magreza das autoridades. Bebeu de novo aquelas palavras. No fim da assimilação, sentiu-se esvaziado. Órfão de ideias válidas. Aquelas ideias eram uma disforme manta de retalhos incapaz de explicar a cruel realidade que passava diante dos seus olhos.
Escutou uns gurus reabilitados e chamarem a si a tardia razão. E – oh! – se era imperativa uma razão no firmamento, não fossem as ausentes coordenadas estilhaçar um rumo também ele imperativo. Os gurus resgatavam teorias que se julgavam esquecidas no panteão das memórias. Voltavam a pôr Marx e discípulos em cima do palco. Já não eram desdenhados. A eles não voltava apenas a coorte de sempre; era engrossada com os defraudados pelos dogmas desacreditados, os apoquentados pela imoral austeridade. Relia-se Marx e aquelas palavras assomavam tão atuais. Não eram profecias fora do tempo: voltavam, pelo toque de Midas da teimosa crise, em viço.
Mergulhou nos calhamaços, em literatura avulsa que deificava o oráculo marxista. Fez coro com os que se encolerizaram contra os que se apressaram a fazer o funeral do marxismo. Não era o fim da história, nem o fim das ideologias, como insistiam os do pensamento dominante. Ele, dali transviado, era atirado para a frente das discussões. Não percebia o papel de idiota útil, a carne para canhão a quem era retirada a guloseima quando destilava um empobrecido desempenho.
O amigo de infância, também a beijar os calcanhares da sexagenária idade, perguntou ao telefone como iam as leituras dos progenitores do marxismo. Melhor dizendo: as releituras. Já não era a primeira vez que se tresmalhava entre ideias.

22.9.11

Arrumar a casa


In http://4.bp.blogspot.com/_dAF5IqIFfd4/TPOz31ebwpI/AAAAAAAAD1o/En1k1EDJsK4/s400/como_limpar_o_seu_pc.jpg
Podia ser sobre pedras no sapato – aquele cascalho incomodativo que morde na impaciência, aquelas pedras que se entretecem no afivelado espaço entre a peúga e a epiderme cansada dos pés. Podia. Mas vai ser nas austrálias dessas pedras.
O que interessa é revolver os quatro cantos do mundo à cata das coisas belas que fermentam um sorriso. As palavras ditas com emoção, os gestos afáveis, os olhares cúmplices que profetizam palavras subentendidas. Esquadrinhar os alfarrabistas da existência e descobrir o desconhecido, ou redescobrir o outrora visitado com a decantação de umas lentes diferentes. Viajar pelas paragens distantes, ler alfabetos ininteligíveis, embeber, se preciso for, as culturas rudimentares sorvidas nos lugares recônditos, ou as culturas afamadas, urbanas e cosmopolitas.
O que importa é ver nascer a alvorada, um dia atrás do outro. Às vezes, fundir a profunda noite com a luz clara que vem com o dilúculo. Acompanhado, espreitar entre o raiar que desponta e derrota o crepúsculo nascente para fora do horizonte. Receber de um animal as gratificações que as pessoas não sabem oferecer. Cruzar com gente anónima recusando o rosto fechado – o rosto próprio de uma lufa-lufa que se amanha nas apoquentações que se encavalitam nas folhas desgastadas do calendário. Trautear a afabilidade, ensaiar um módico de simpatia que nos faça desembainhar, do formol que o conserva, o fundo bom da espécie. Talvez renegar o pessimismo antropológico, já que tanta desconfiança materializa a pouca confiança de que seremos credores.
E, talvez até, ascetismo. Subir ao alto de um promontório. Aspirar com toda a força dos pulmões o ar fresco bolçado pela montanha tão alta. Fechar os olhos e sentir as pulsões interiores, as convulsões em demanda de interna terapia. Levantar a cabeça aos céus, convocar as almas dos entes queridos já ausentes, e receber respostas às interrogações incessantes. Depois, num ápice, o mergulho corajoso até o corpo perfurar com estridência as fundas águas frias que são o leito onde nidifica a serenidade. A tão cobiçada serenidade. Ao som dos acordes de melodias que evocam paisagens brancas e contrafortes das montanhas basálticas, onde o vento parece que sopra com uma pureza incomparável. Uma pureza curativa.
É tudo isto que importa. O resto, são vestígios inúteis.

21.9.11

Memorabilia


In http://rlv.zcache.com.br/simbolo_da_foice_do_martelo_de_urss_camiseta-p235991033542904951z85gp_152.jpg
O tribunal de justiça da União Europeia proibiu uma empresa de usar simbologia comunista na imagem dos seus produtos. Vigilantes como só eles sabem ser, os comunistas caseiros com residência estabelecida no parlamento europeu já protestaram contra a – dizem – intolerável limitação à liberdade de expressão da empresa. A D. Ilda Figueiredo berrou a indignação.
Daqui vai um naco de solidariedade com a D. Ilda e os camaradas em geral: isso de asfixiar a liberdade de expressão não é coisa que se faça (nem arte que a saudosa União Soviética e os restos de comunismo que ainda sobram das ruínas não saibam praticar com diligência). Que mal vem ao mundo se uma empresa quiser usar a foice e o martelo e bandeiras com o vermelho garrido que evocam os tempos em que o comunismo ainda não tinha ganho espessura arqueológica? O tribunal é tacanho. Parece atemorizado pela possibilidade de o comunismo ressuscitar das cinzas por uma simples empresa querer, por duvidosas opções estéticas, usar a memorabilia comunista. Não chega para tirar os fantasmas da hibernação.
Por este andar, o tribunal ordenava a todas as ASAE nacionais para inspecionarem de fio a pavio as lojas de roupa e apreenderem as t-shirts estampadas com as fuças do Che Guevara. As ASAE nacionais iriam depois às lojas de roupa usada e deitavam mão dos artefactos (blusões, gorros, pins, etc.) que são a tralha sobrante da ex-RDA e da ex-URSS.
O que retive nesta (imagino) apoplética intervenção da D. Ilda foi o enamoramento dos camaradas por um símbolo do capitalismo. Agora já defendem empresas privadas, esses expoentes do odioso capitalismo? Não imagino que os camaradas lusitanos tenham aprendido os caminhos da redenção, que é como quem diz, que tenham começado a empacotar a ortodoxia ideológica. A menos que estejam a receber inspiração da China e tenham descoberto uma fórmula inovadora que faça a síntese entre Lenine e Estaline e a livre iniciativa privada.
Fico agora à espera que a D. Ilda e seus correligionários se insurjam contra a proibição constitucional ao fascismo. Quando o sol se levanta é para todos.

19.9.11

Stand up politics


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiEQ4e1k_61P_DcjK6-6l0lLgpECgJ4zxF-FOKQVcuf14tmjMoXejCIZ1Iui8MrcFOGzP8wub5Qq3MRyIJyXX_TM-waJo5VngzpZ8waT_6WVAeNHMU65o2S8o4vIVmkg3GDVKjCiw/s1600/jose_socrates_e_antonio_jose_seguro_zorate.jpg
Só há esta saída: às desgraças que se repetem, àquelas desgraças que empurram o alçapão ainda mais para baixo, sonoras gargalhadas. Quem as reprimir fica preso nas teias de uma depressão maniqueísta. Esmagados perante estas desgraças, é preciso rir. Rir, parafraseando Mário de Cesariny, “(N)o riso admirável de quem sabe e gosta/ter lavados e muitos dentes brancos à mostra”.
O cambalacho da Madeira é o fio da meada. Um buraco orçamental do tamanho de todos os precipícios que se despenham a pique desde os altos promontórios da ilha. Diante do escândalo, um Jardim crucificado. Já esta crucificação soava a falsete, pois muitos dos seus intérpretes deram para o bodo da prodigalidade orçamental, e o Jardim, apesar de crucificado, atirou-se aos colonizadores do continente. Se ele não se endividasse como se não houvesse amanhã, o continente tinha esfarrapado a massa e os madeirenses eram uns pelintras. Muitos enojam-se e chamam nomes feios ao Jardim. O mal deve ser meu, que encho o rosto com gargalhadas tanta a pilhéria distribuída de graça.
E já a barriga se condoía de tanta gargalhada junta quando aterrou a pré-apoplexia motivada pelo cansaço da risota. O novo líder socialista, com o costumeiro ar de bebé chorão e aquela pose de seminarista de alpaca, protestou a mais indignada vergonha pelo regabofe madeirense. Atrás dele, a pandilha socialista com acesso aos jornais chorou o seu pesar, o dedo em riste contra a luminária a alguns chamam “Soba da Madeira”. Mas talvez sejam lágrimas de crocodilo.
E eu não sei. Não sei se a memória é curta, tão curta que a pré-bancarrota em que o querido ex-líder nos deixou em legado se tenha apagado da memória das nulidades socialistas. Não sei se apetece chamar nomes tão feios como os que atiram ao Jardim da Madeira. Ou se apenas rio com os “lavados e muitos dentes brancos à mostra”. Não é todos os dias que um líder socialista e um interminável, acéfalo séquito confessam a inutilidade do PS na paisagem da política doméstica.
Nem que seja por isto, um bem-haja ao Jardim sem vergonha.

16.9.11

Carta aberta às feministas


In http://www.autoportal.iol.pt/galeria/146459/368x276
Minhas queridas:
Vossas excelências andam distraídas. E essa distração importa danos para a vossa causa. Aqui vão uns exemplos de como não andam a tratar da causa a preceito. São exemplos retirados de contextos que, por antinomia de interesses, não são frequentados por vossas excelências. Quero acreditar que só por desconhecimento é que ainda não agiram com a habitual voz firme de protesto. Deixo aqui um modesto contributo.
Há certames onde os fabricantes de automóveis mostram as novidades para os tempos vindouros. As páginas da especialidade estão repletas de fotografias dos automóveis engalanadas com esculturais meninas em trajes muito reduzidos e em poses provocantes. Há psicólogos que retrataram a ligação entre automóveis e lascívias mulheres que aparecem, quais adornos, a embelezar as fotografias dos mesmos. Uns e outras mexem com a testosterona. Ora isto está profundamente errado. As meninas recrutadas a agências de modelos são coisificadas. Cruamente coisificadas. Vossas excelências, ó feministas exaltadas, ainda não lavraram o protesto do costume. Podiam convocar um boicote aos fabricantes de automóveis enquanto eles teimassem em usar mulheres como objetos decorativos do que produzem. As empresas de transportes públicos talvez não agradecessem a deferência.
Outro exemplo da vossa distração: nos jogos de futebol caseiros há um cerimonial aberrante. Antes do jogo começar, as equipas e os árbitros alinham para a audiência em forma de saudação. Entre os árbitros estacionam duas meninas outra vez em trajes menores. Antes de os artistas da bola dedicarem impropérios aos árbitros, desfilam à frente deles numa educada e hipócrita saudação. Passam olimpicamente pelas meninas, como se fossem zeros à esquerda: as meninas não merecem nem um aceno de mão. É como se fossem coisas que ali estão para emprestar um colorido másculo à função (másculo porque excita as hormonas varonis). Não serem cumprimentadas é um ultraje que as feministas ainda não testemunharam.
Termino. Convencido que as feministas não leem jornais. Senão, quando os seus olhos esbarrassem nas muito coloridas páginas de “anúncios de relax” (tal é o eufemismo), já tinham exigido a proibição por decreto dos muito sugestivos anúncios de mulheres que vendem o corpo – outra vez na tremenda coisificação da mulher.
(Um dia destes, ao deitar jornais onde a cadela urina nas horas de aperto, fiz uma breve análise sociológica da página dos “anúncios de relax”. Metade eram de travestis. O que dava para tingir páginas e eito com milhares de palavras...)