10.4.10

Pelo contrário

Ora, eu sou um “cidadão culto” (modéstia à parte) e estarei muito comovido como o show. (Ou, se calhar, venho a descobrir que afinal não são “cidadão culto”).

9.4.10

O ambiente deificado


In http://www.duncancumming.co.uk/photos/save-the-planet.jpg
Uma câmara municipal vai deixar de apoiar um rali – que é cartão de visita da terriola – por respeito ao ambiente. Um dia destes estamos manietados pela vaca sagrada do ambiente. Vamos levar com leis protectoras do ambiente e cerceadoras de todas as liberdades. Um dia destes será proibido fabricar Porsches e Ferraris, ou tomar mais que um banho por semana, ou fazer sabe-se lá o quê só porque se descobriu que esse “sabe-se lá o quê” danifica o meio ambiente.
Se já não lá chegámos, não andamos longe – da deificação do ambiente. O novo modismo ambientalista é a “pegada ecológica”. Já há por aí medidores da pegada ecológica pelo que fazemos e deixamos de fazer. Cada passo que damos, e a maneira como o damos, é mensurável pelo mal, ou menos mal, que fazemos à vaca sagrada do ambiente. A câmara municipal de Fafe – talvez seduzida pela retórica bem pensante de ecologistas, ou talvez com autarcas que se enamoraram pelo politicamente correcto do ambientalismo – descobriu que o rali que põe a terriola no mapa uma vez por ano é mau para o ambiente.
É a pegada ecológica a falar mais alto. Os carros que participam no rali gastam muita gasolina; atentado número um ao ambiente. Uma turba de adeptos acompanha o rali; atentando número dois ao ambiente. Nas deslocações, a turba consome combustível e polui a atmosfera. E o mal não está todo feito: nos montes, onde a natureza ainda se aconselha (mau grado as horrendas torres eólicas que enxameiam as serras com poluição visual, no diagnóstico dos ambientalistas), a turba deixa vestígios. Espezinha arbustos e ervas, escarra para o chão, fuma e deixa as beatas onde calha, come e bebe e deixa atrás de si as sobras. Se esta gente toda estivesse sossegada em casa em vez de se entreter com uma actividade – como dizê-lo em linguagem ambientalista? – néscia, estava a fazer bem ao meio ambiente.
Às vezes ponho-me a pensar no que seria o mundo se por todo o lado os fundamentalistas do ambientalismo tomassem conta do poder. Era garantido que a qualidade do ambiente melhorava – e de que maneira. Como também era garantido um rol de proibições a torto e a direito. Tudo o que tivesse pegada ecológica seria pretexto para outra proibição por decreto, para gáudio dos legisladores de serviço. Admito que o mundo seria mais saudável. Mas também muito asséptico. E, pesadelo dos pesadelos, carregadinho de proibições.
Estaríamos todos acantonados em casa. Já não haveria turismo. O povaréu deixava de fazer o dominical passeio dos tristes (o que teria as suas vantagens, por outro lado). A espada da pegada ecológica, sempre em cima da cabeça de cada um. Seríamos obrigados a estar quietos, se a máquina calculadora da pegada ecológica fizesse soar um alarme. Deixaria de haver automobilismo. E outros desportos que obrigassem os intervenientes a fazer deslocações, pois as deslocações fazem mal ao ambiente. Talvez as competições desportivas passassem a ser virtuais, ou através de videoconferência – isto enquanto não se inventasse o teletransporte popularizado em séries de ficção científica (e só se ficasse comprovado que o teletransporte não produzia danos para o ambiente). Um banho por semana, no máximo, para pouparmos na água que escasseia. Das duas, uma: ou o ar passava a estar irrespirável, ou a indústria dos cosméticos prosperava como nunca. Até o sexo deixa uma pegada ecológica desfavorável – li algures. Uma lei impunha o limite admissível da actividade sexual de cada um. Lá está, um mundo muito asséptico. Seria o golpe de misericórdia nos bordeis e, por fim, a praga da prostituição banida do mapa. Só não sei se os ambientalistas conseguiam resolver o dilema demográfico. A Opus Dei seria aliada dos ambientalistas que aterrassem no poder.
O mundo é belo pela lente dos ambientalistas. (Onde está “belo” leia-se “tenebroso”.) 

8.4.10

As brigadas anti-chiclete


In http://blogs.diariodepernambuco.com.br/economia/wp-content/uploads/2009/01/pisei-no-chiclete.jpg
Em Lisboa, mais um serviço camarário: brigadas que andam pelas ruas da cidade a recolher pastilhas elásticas que foram cuspidas depois de gastas pelo ruminante salivar. Usam material importado da Holanda. De repente, uma comparação pouco simpática para os mastigadores de pastilhas elásticas: assim como andam funcionários camarários a retirar chicletes gastas do chão para que não se colem ao calçado dos transeuntes, também temos a sensibilização dos donos de cães para que não deixem plantada na rua a merda que os canídeos dejectam.
É possível que esta infeliz comparação tenha vindo ao de cima por causa da pessoal embirração com pastilhas elásticas. Logo eu, que se pudesse proibia todas as proibições (são os genes de um anarquista), às vezes tenho uma suicidária atracção pela proibição de chicletes. O que só encontra explicação numa destas hipóteses. Ou é porque ainda sou sobressaltado por um sonho que persegue desde a infância (uma pastilha elástica que fica colada na garganta, pondo-me à beira da asfixia). Ou é porque o triste espectáculo dos que ruminam pastilhas elásticas torna o adereço pouco recomendável (para além de ainda não ter percebido qual a utilidade da coisa).
Outra vez às voltas com sonhos. Neste caso, um pesadelo insondável. Que me lembre, experimentei pastilhas elásticas meia dúzia de vezes. Ainda nem sequer tinha chegado à adolescência. Nunca mais voltei a enganar a saliva. E, contudo, persegue-me este pesadelo desde os bancos da escola primária. Daqueles pesadelos que terminam com um acordar desassossegado. Dentro do pesadelo, a pastilha elástica escorrega da língua para a garganta. Os esforços para a travar são em vão. A pastilha elástica afunila-se nas entranhas, impotentes os músculos bocais para a trazer de volta ao lugar onde ela pertence. Pois a pastilha elástica é pegajosa, feita de uma matéria que se cola às superfícies com que contacta (quem nunca foi incomodado por uma encardida chiclete cuspida para o chão e que se agarrou à sola do sapato?). Ela incrusta-se naquela cavidade da garganta que leva o ar dos pulmões até ao nariz. O sonho termina quando, dentro dele, me contorço aflitivamente com os primeiros sinais de asfixia.
Se não é por causa deste pesadelo ainda recorrente, é por causa das lamentáveis figuras da malta de todas as idades que anda por aí a ruminar pastilhas elásticas. E não, não é um exclusivo da tribo do futebol. (Quem nunca foi incomodado pela imagem de treinadores que mascam alarvemente pastilhas elásticas enquanto debitam a táctica para dentro do campo? Ou com o banco de suplentes repleto de jogadores ansiosos por saltar para dentro do campo e que, enquanto o treinador o não permite, se vingam furiosamente nas pastilhas elásticas que contêm a raiva de quem ficou de fora?)
Como a todos é permitido destilar os incómodos que ferem a vista, eis o meu: ver esta gente a mastigar ruidosamente, e de boca bem aberta, as chicletes. É-me indiferente que se queiram pôr no mesmo pedestal de animais que são ruminantes. Podiam ao menos poupar a poluição visual em que são pródigos quando passeiam, ufanos – e nunca entendi por que andam ufanos os mastigadores de chicletes – com a artificial gosma de um lado para o outro da boca, os dentes todos bem à mostra, numa mastigação que traz uma insuportável poluição sonora.
Deduz-se que estou a sugerir que se proíbam as pastilhas elásticas? Longe de mim tamanha aberração. Continua a valer mais o princípio metódico da proibição das proibições. Mas admito que esbocei um sorriso cínico quando li a notícia sobre a recolha das gomas que se demoram na saliva e que, no fim da paciência, são boçalmente cuspidas onde calha. Um sorriso cínico porque não consegui reprimir a tal comparação: os danos dos cães são convencidos a recolher com um saco escuro a merda que os canídeos depositam nas ruas da cidade. (E quem nunca foi incomodado pelo cheiro nauseabundo em redor, descobrindo que acabou de pisar um dejecto canino?)

7.4.10

A estética do primeiro


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiGiNlJEZC7Mhu4IOva4SIDpj1OCMovUJ8j_SELPl_iq_xt1Bbrtzs_oUemiXRK83zztLUbBbmxOiX-RGpn1tJ6ua69NByB4dIdZI_T4Z2QkpDU9iQLryuc8TWbx-YpRBvvRXLRPA/s400/pesadelo+5.JPG
Voltamos às casinhas “desenhadas” por sua excelência o primeiro-ministro quando era deputado. Está posto um pé-de-vento porque vasculharam o passado da personagem e descobriram que, ao assinar os vinte e um projectos das casinhas, o então deputado descasou-se da ética (republicana – diria, em pose declamatória, o poeta candidato à presidência da república que os socialistas não decidem se apoiam ou não).
As pessoas sérias preocupam-se com o senhor primeiro-ministro ser homem de andar de candeias às avessas com a ética. O senhor primeiro-ministro, com a arrogância habitual misturada com uma fraca capacidade de encaixe das críticas, vai carpindo lágrimas para que seja olhado como o perseguido – como se fosse proibido aos jornalistas mergulhar no seu passado quando dele emergem episódios lamacentos. Pela parte que me toca, estou-me nas tintas para as tibiezas éticas do homem. E sem paciência para aturar a ironia de mau gosto (ele, que julgava fazer fina ironia) – não lembra ao diabo convidar os jornalistas do Público a sondarem o que o tipo andou a fazer nas décadas de sessenta e setenta. É aqui que está o busílis: este tipo tem padrões estéticos que metem medo ao susto.
Já tínhamos conhecimento de fotografias de algumas das casinhas “projectadas” pelo emergente político que também era “engenheiro técnico” à altura. O que antes era uma amostra é agora mostrado em toda a sua pujança. Os “projectos” que resultaram em abortos arquitectónicos. É o que dá quando nesta terra o que devia ser feito por arquitectos também pode passar pelos estiradores de engenheiros técnicos, “quase engenheiros” e engenheiros civis. O resto é explicado pelo sentido estético das gentes.
Alguém (que não se cansa de desmultiplicar panegíricos ao senhor primeiro-ministro) protesta que nem todos temos olho certeiro para o fino traço de moradias merecedoras de prémios em certames de arquitectura. O povo beirão, humilde e pouco endinheirado, contenta-se com modestas casinhas de recorte tipicamente lusitano. Que nós, elitistas emproados à condição de juízes da estética, os achemos parolos é sintomático achaque de um pouco democrático elitismo. Nisso, o “quase engenheiro” revelou toda a sua sagacidade – diria, a antecipação do que aconteceria mais tarde, pois estava escrito nas estrelas que ele, predestinado, tomaria o leme da pátria nas mãos como lídimo representante do “sentir popular”. Pelos vistos, nós, os tais das elites, é que estamos a ver mal o assunto: os parolos querem casinhas parolas. O projectista faz-lhes a vontade.
Eu cá repito isto: já não quero saber se o tipo andou a atropelar a ética ou não. Prefiro olhar pelo ângulo da estética. Como revelação da têmpera do tipo. (E tratá-lo assim, com desdém, só para imaginar que se alguma vez lesse um texto destes o tipo ruborizava de raiva só por saber que alguém tinha a ousadia de o apoucar desta forma.) Num dos vários textos que, contrariado, dediquei à figura, descobri que ele é um labrego disfarçado num fato Armani. Ao passar os olhos pelos abortos arquitectónicos que saíram do traço de sua excelência mais me convenço do diagnóstico. É por perceber como fica abespinhado quando alguém lhe atira críticas aos olhos, por aquela desastrada ironia que deixa à mostra indigência intelectual, que prefiro decantar a grotesca estética e deixar para segundas núpcias a ética da personagem. Até porque, como sabemos, a ética anda pelas ruas da amargura e é uma bitola muito relativa, muito confundida com a atroz moralidade.
Estamos nas mãos de um labrego sem remédio. Costuma-se dizer: o pior dos ignorantes é aquele que não percebe que o é e ainda se faz passar por autoridade intelectual. Por analogia, o pior dos labregos é aquele que se faz passar por gente de fino recorte estético quando, raspada a fina camada de verniz, fica à mostra o labrego que nasceu e nunca deixará de ser. A inestética é genética. E grotesca, como os abortos arquitectónicos da lavra de sua excelência.

6.4.10

Abutres da inveja


In http://www.jorgefrassati.org.br/senior/img/abutre.jpg
Umas pitonisas da moralidade e da ética – Mira Amaral, uma sequela do cavaquismo, e o querido “Tozé” Seguro, deputado do PS que encena alguma rebeldia – andam por aí ofendidos com a pipa de massa que outro ente querido do bloco central, António Mexia, ganhou no ano passado por ser presidente da EDP (merece ser por extenso: três vírgula um milhões de euros).
Em relação ao Mexia da EDP, seu advogado não quero ser, por não o poder ser em relação a quem figura no rol das antipatias de estimação. Explicava os motivos da antipatia se estivesse em causa o Mexia da EDP. Ao contrário do que pensam Mira Amaral e “Tozé” Seguro, não é o salário do Mexia que está em causa: são os denunciadores da pretensa obscenidade em que o dito salário mais bónus consistem. Ao Mexia não era suficiente acontecer o que não acontece à imensa maioria. Nós, sossegados no anonimato, resguardamos os rendimentos da cobiça alheia. O Mexia tem que pagar o preço da devassa por ser quem é (presidente da EDP): mandam as regras da bolsa de valores, os seus rendimentos são públicos.
A EDP ainda é uma empresa de que somos todos accionistas (se todos formos o Estado – o que é cada vez mais duvidoso). O deputado “Tozé” Seguro e o ex-ministro Mira Amaral (que é nesta condição que o abencerragem do cavaquismo tem surgido) abriram as goelas de indignação. Não há direito, nestes tempos de tão intensa crise, que uma empresa de que ainda somos todos um bocado accionistas pague esta alarvidade de dinheiro ao presidente. Os partidos – reclamam as duas pitonisas – deviam tomar o assunto entre mãos. Se o Mexia é ganancioso, alguém corte o mal pela raiz. O accionista, portanto. Se aquela gente na EDP não tem sentido dos limites e aceita remunerações obscenas (para usar o adjectivo cunhado enquanto se soltavam os perdigotos de indignação de um dos inquisidores da paróquia), o accionista que ponha essa gente no sítio.
Interessa-me saber quanto ganhou o Mexia? Nada. Nem que me convençam (o que é improvável) que sou accionista muito minoritário da EDP. Não gosto de mandar palpites se, através deles, ficar exposto aos palpites alheios. Talvez ache mais obsceno (pedindo de empréstimo o adjectivo – mas não os perdigotos) que os jornais façam as habituais contas de máquina de calcular só para anunciarem aos leitores quanto é que aquela pipa de massa significa por dia. Um dia destes, ser gestor ou membro de um conselho de administração é profissão de risco. Vão na rua e têm que ouvir piropos manhosos dos invejosos de serviço.
O que têm Mira Amaral e o deputado Seguro a ver com o assunto? Dou de barato que o deputado, de há algum tempo a esta parte auto-arvorado em consciência ética dos socialistas, possa alvitrar alguma coisa. Assim como assim, é deputado da nação. Nessa condição, podia-se aceitar que tivesse ficado indignado com os proventos astronómicos do presidente da EDP que ainda é um bocado empresa pública. Se o deputado Seguro não tivesse uma agenda própria (aquele constante bicos em pé traz água no bico), dava de barato a sua cólera.
Foi quando ouvi Mira Amaral a chamar a si a superior condição de juiz de ética dos outros que fiquei a coçar a cabeça. O senhor, com fala inflamada e perdigoto abundante, insurgia-se contra a barriga de dinheiro auferida pelo Mexia. Nesta pele de comentador é-nos apresentado como “ex-ministro de Cavaco”. Isto não é estatuto que faça valer a autoridade de um comentário. Eu preferia que apresentassem o senhor engenheiro Mira Amaral na sua actual condição. E o que faz este senhor na vida? Preside a um banco criado com capitais angolanos (da família do presidente do dito país e da oligarquia adjacente).
Os jornalistas, amestrados para o que convém, escutam o engenheiro do banco dos angolanos e não lhe perguntam se o dinheiro que abriu este banco é dinheiro limpo. Ah, os telhados de vidro que enchem de mácula quem se acha juiz da ética dos outros.

5.4.10

Já não somos super-homens


In http://www.duva-pollensa.com/fotos/ok/hidroterapia.jpg
O corpo que se enferruja. Engrenagens que empancam. A velhice a espreitar ao dobrar da esquina? E, se em vez de perguntar, o ponto de interrogação desse lugar a uma afirmação?
Queremos resistir aos sedimentos da idade. Julgamos que ainda podemos rivalizar com os corpos que, na vivacidade das suas faculdades, esperneiam boa forma. Fazemos o que na juventude pura julgávamos desinteressante – pois nessa altura as prioridades eram outras e a perda de faculdades físicas era uma ainda distante miragem. À medida que a miragem perdia os predicados de ilusão e os dedos tocavam a espessura do primeiro enrugamento das carnes, passámos a cuidar do corpo, a cultivar o exercício. O estigma do envelhecimento derrotara o sedentarismo de outrora.
Por vezes damos conta, em retrospectiva, do descompasso com o ritmo das idades que já tivemos. Quando as faculdades estavam intactas, quando, na lógica do aproveitamento das capacidades do corpo, o podíamos ter cultivado, desprezámos a possibilidade. Agora que as primeiras partículas do envelhecimento deixam um testemunho presencial – algumas rugas, uns cabelos grisalhos que se salpicam aqui e ali, enfim, os primeiros achaques do corpo – devolvemos o arrependimento à superfície. E a nostalgia também.
O arrependimento de não termos sabido (ou não termos querido, o que talvez seja mais revelador) cuidar do corpo a tempo. A fobia de agora parece uma corrida contra o tempo. Como se, por um passe de magia, fôssemos de encontro ao Olimpo onde apenas os mais jovens, e de prodigiosas capacidades, conseguem vencer. Como se ainda fôssemos a tempo de ser Adónis (e o que interessa ser Adónis?). Teimamos em cuidar o corpo para uma juventude que, pelo interior do corpo, já o não é. Ou, dir-se-ia, teimamos em treinar o corpo para um juventude a destempo.
O que nos traz à nostalgia: cada quilómetro palmilhado em perseverante correria, cada abdominal flectido para dissolver as inestéticas gorduras que dão volume à pança, até cada movimento dos braços carregando pesos – um santuário de ilusões sobre a não eterna juventude, a juventude que se gastou nos vestígios que sobram no livro das memórias. Não sabemos: se o vício do exercício é culto extemporâneo do corpo; ou uma terapêutica preventiva, o segredo para adiar o envelhecimento do corpo. Um truque para empurrar a decadência do corpo lá mais para a frente.
No meio desta azáfama, esquecemos de espreitar o bilhete de identidade. Caímos na dependência do exercício; já não chega a manutenção do corpo. Os vícios atiram as metas para um limiar superior. A certa altura, viciamo-nos na superação das pessoais capacidades. Uma modesta modalidade do ideal olímpico – “mais forte, mais longe, mais alto”. Só que o irremediável bilhete de identidade monta uma cabala contra os esforços de superação do corpo. Por mais que o corpo se desafie a si mesmo (em rigor, que os meandros da mente exijam que o corpo se supere), o peso dos anos desmente as prodigiosas faculdades físicas que o corpo, iludido pela mente, acha que ainda possui. Pagam-se os exageros (se é que há exageros) com avarias do corpo. Indelével manifestação dos sedimentos do tempo. Nem que fôssemos super-homens teríamos faculdades pós-adolescentes no corpo onde já entraram quatro décadas. Talvez seja este o erro de julgamento: nunca fomos super-homens. A ousadia paga-se com um corpo em desarranjos interiores. E com as dores, as insuportáveis dores da agora inércia forçada. 
E assim vim parar às termas. Pela primeira vez na vida. Não é que tenham prescrito um receituário de águas termais para as maleitas específicas. Não passou de uma coincidência. Diria, uma coincidência sintomática.
(Em Mondariz, Espanha)

2.4.10

O analfabetismo ainda existe


In http://3.bp.blogspot.com/
Analfabetismo em estado puro. Não daquele analfabetismo funcional que está agora na moda considerar. Pois que somos levados a pensar que os alvores da modernidade erradicaram o analfabetismo em sentido literal. (E já que uso o verbo “erradicar”: há dias, um jornalista escreveu “irradicar” num jornal qualquer. Um jornalista que assim trata a língua traz a cauda presa ao analfabetismo. Talvez mais grosseiro do que o analfabetismo ancorado na falta de estudos.) Agora os provedores da civilidade atiram-se contra a iliteracia. Já nem fazem contas ao analfabetismo em estado puro. Sobretudo nas grandes urbes, onde a renovação de gerações foi sepultando no cemitério os derradeiros exemplares desse analfabetismo. Ou talvez não.
Na farmácia, uma senhora idosa e com voz trémula pediu ajuda ao farmacêutico: “diga-me lá o que está escrito neste papel que eu não sei ler”. A senhora septuagenária, atarracada, com uns óculos tão envelhecidos quanto ela, a bata de dona de casa por cima da roupa encardida, na humildade do seu analfabetismo a mostrá-lo em público. Saí do estabelecimento meio atónito: acreditava nas pregações sociológicas correntes que afirmam, categóricas, que nas grandes cidades o analfabetismo pertence aos lamentáveis tempos idos. Esboçou-se um gesto espontâneo: como a factura estava à mostra, os olhos escorregaram para o amontoado de caracteres que eram a mancha de texto naquele pedaço de papel. Como seria a sensação de não saber ler?
Afinal convivemos com atavismos, vestígios da salazarenta portugalidade que desdenhava da educação e da cultura. Alguns velhinhos e velhinhas septuagenários de fraca condição social, os derradeiros exemplares do analfabetismo que era património genético dessa portugalidade obscura? É quando esbarramos nestes fragmentos que julgávamos ser matéria morta, já só recurso museológico, que os dias se crestam de fétidas cinzas. Para alguém ser analfabeto é sinal de que não chegou a andar na escola. Ou é alguém com fracas capacidades de intelecto que não soube (ou não pôde) aproveitar o que lhe foi ensinado na escola. Ou não aprenderam a ler, ou desaproveitaram o que lhes foi ensinado, com a falta de prática desaprenderam, regrediram.
Tenho a impressão que é mais confortável a última hipótese. É a que serve melhor o apaziguamento colectivo, sobretudo daqueles meirinhos da modernidade que convivem mal com os traços atávicos que demoram a desprender-se da bainha do que somos. A septuagenária que entrara na farmácia e que pediu para lhe decifrarem o significado das letras apinhadas num papel, não se intimidou em expor o seu analfabetismo. Foi um acto tão natural como pedir um medicamento.
Talvez nós também sejamos um bocado analfabetos. Se por analfabetismo (mas nem o funcional, nem aquele que o é no sentido literal) se considerar as revelações que de supetão esbarram nas convicções formadas, em cada um de nós há algum analfabetismo por ignorância da realidade atávica que nos cerca. O estigma da mulher que não sabia ler ficou a pesar no horizonte. Eu quis imaginar como seria não saber ler. Para uma idosa como aquela, que no bilhete de identidade, no local destinado à assinatura, vem a menção não honrosa de que “não sabe ler”, será indiferente. A sua labuta diária arregimenta outras preocupações. Para nós, os que sabemos ler e julgamos que o analfabetismo se evaporou com os últimos títeres da ruralidade mergulhados na escuridão da agnosia, não saber ler é tão letal como a privação de oxigénio. Ou como, de repente, a cegueira apoderar-se de nós.
Ainda pensava, umas horas depois, na septuagenária analfabeta. Dava voltas e mais voltas, não por causa da perplexidade de ainda haver na grande urbe quem não saiba ler, mas pela angústia do que imagino ser a sensação de não saber ler. Lembrei-me da desorientação que tomava conta quando, em Sofia, estava diante de palavras em cirílico sem que na linha de baixo houvesse a tradução para o alfabeto que aprendi. Uns fragmentos do que é ser analfabeto.

1.4.10

Vítor Constâncio vai ser nomeado para o prémio Nobel da economia

Acabei de ver na televisão

um sindicalista que não estava em idade de pré-reforma.

Bettencourt renuncia

Figo avança para a presidência do Sporting.
(Como anda de braço dado com a seita socialista, não sei se é boa notícia...).

A ONU decidiu criar o dia do homem

Sensível às reivindicações das mulheres, que exigem igualdade à força entre os sexos, a ONU (sempre visionária) fixou o dia 30 de Fevereiro como dia do homem (no sentido masculino do termo).

(Re)comecei a comer carne

FMI, OCDE, Comissão Europeia e Banco Central Europeu garantem:

o Programa de Estabilidade e Crescimento é excelente. E as contas estão bem feitas. 

David Fonseca vai deixar de fazer "música"

O Zeinal promete só falar em português

Sócrates demitiu-se

e não se volta a candidatar.

A mentira é uma hipérbole


In http://media.noticias.com/img_news/MENTIRA%20Y%20POLITICA.jpg
O optimismo há-de ser a candeia que empresta luz ao futuro. Assim radioso. Todos os dias nascem com um sorriso largo, os dentes – todos brancos, bem tratados, visitas assíduas ao dentista como mandam os bons costumes – os dentes todos à mostra. Abre-se um jornal, ou espreita-se um noticiário na televisão, e o sorriso resguarda-se na sua altivez. Saímos à rua. As pessoas que passam são um campanário onde se alojou a simpatia, de onde se ausentou a rudeza de modos. A confiança recíproca respinga de cada golfada de ar expirada pelas pessoas que passam.
Não há personalidades irritantes. Só aparece quem merece. Aprendemos que não vingam os pretextos que dissolvem as nossas fragilidades, as nossas incapacidades, numa nuvem mal escondida. No altar onde o mérito foi entronizado, a mediocridade é estugada num ápice. As regras deixaram de motivar muita gente a puxar da imaginação para encontrar um modo de as não respeitar sem levar com as penalizações em cima. Outros, advogados de gema, já não peritos em esquadrinhar as regras para descobrir os seus buracos e a elas escapar sem pena agravada.
Definitivamente, os chicos-espertos emigraram. As golpadas já sem lugar à ovação da tribo que só lamenta não se ter antecipado na criatividade que fermentou o golpe de asa. Corrupção, palavra banida – e não apenas do dicionário. Outra vez, para relembrar: os medíocres acantonados no seu exílio interno. Ou exportados pela porta da emigração, talvez para se certificarem que nas outras terras ainda é mais impossível soerguer a cabeça à custa da mediocridade. Deixariam de bolçar alarvidades que fazem passar por catedráticas sentenças. Nem haveria um séquito que, encantado, aplaudia entusiasmado cada laivo de mediocridade a fazer-se passar por manifestação de genialidade.
Valeriam mais os saberes do que a improvisação. Talvez então às escolas, ao ensino em geral, em todos os graus, fosse conferido o valor que merecem. Em vez de serem um permanente laboratório de experiências em que os cientistas à distancia perseguem atafulhados no experimentalismo que vitima as criancinhas, as escolas seriam os simplificados palcos dos saberes. Santuários do valor futuro.
Se tudo isto não fosse apenas um idílio com a mentira do que não conseguimos ser, veria sindicalistas jovens a dar a cara pela causa, porventura com desprendimento mental para não serem estouvados a reivindicar o estertor de um deserto anunciado. E veria empresários com visão, não os labregos que se pavoneiam na televisão e nos jornais e nas revistas ufanando-se do lugar empertigado a que chegaram e dos generosos proventos que a si distribuem. Veria políticos honestos, sobretudo no maior bem que poderiam oferecer a si mesmos – a honestidade intelectual. Não veria inveja que consome energias e desvaloriza o merecimento que é dos valorosos. Nem veria a inércia a montar acampamento, aquela imagem dos braços cruzados, a impotência, ou o desinteresse e a apatia, que é meio sintoma da mediocridade impante.
Se parasse para pensar, não demorava a voltar atrás para reduzir todas aquelas quimeras a nada. Dali escorre moralismo em catadupas. Um esforço inglório: jamais pode a pessoal visão do mundo aspirar a ser a dominante. (No dia que isso acontecesse, seria o principal militante contra o estado de coisas, uma revolta interior, uma caça aos fantasmas que tivessem açambarcado o espírito rebelde.) Aproveitei o dia, hoje que se celebra o que talvez fosse mais improvável celebrar (a mentira – mas, lá está, caio num moralismo de que me envergonho), para decantar o que seria uma mentira pegada. A antítese do quotidiano. Um sonho interior que não devia passar as fronteiras do ser.
E se tudo isto não é uma mentira por dentro da mentira, é porque a mentira já tomou conta de tudo. Celebremos a mentira, pois. Só que convocar um dia para celebrar a mentira é a maior hipérbole de todas.

31.3.10

Um sonho em sobressalto


In http://www.dyscalculiaforum.com/images/embarrased.JPG
Há sonhos que percutem, teimosos, um som aterrador que se prolonga depois da alvorada. Como se fossem martelos pneumáticos num demorado ruído que incomoda, naquelas obras intermináveis com um estaleiro permanente montado em lugar centrípeto. A imagem acabada de que tudo se mantém em construção. São sonhos de visitação assídua. Chegam e partem, chegam e partem. E de cada vez que partem, prometem regressar ao fim de um tempo breve. Nesta intermitência, os seus despojos fazem-se notar. São sonhos indeléveis na ossatura dos dias acordados.
Um sonho recorrente. O inexplicável ensandecimento de andar nu pelas ruas, angustiado por não saber onde ficaram as roupas, angustiado por não saber como foi parar à rua sem roupas. Uma sensação ambivalente. Ora pessoas que passam e olham, perplexas. Ora as que passam indiferentes, como se fosse um fantasma ou uma irrelevância. Ou, talvez, na improbabilidade de alguém andar nu pelas ruas, nem notam a bizarria. Porventura uma miragem, ou o acosso da fértil imaginação que povoa a mente com hologramas da realidade.
Um sonho aflitivo. Sem dar conta, apanhado no meio de uma movimentada rua no desconforto da ausência das roupas. Nem era tanto pelos pés açoitados pelo solo enrugado que o incómodo se fazia doer. Ao fim de algum tempo de errância à procura da saída do labiríntico sonho, sentia os pés sangrados pela desabituação de os entregar desnudados às imperfeições do chão. Não eram essas as dores que contavam. Era a vergonha de ter desaguado nu nas movimentadas ruas da cidade. Afinal, os outros contavam.
Procurava refúgio, um canto recolhido onde se pudesse esconder da perplexidade de uns, da troça de outros, da indignação de alguns. Tomava consciência de algo pela primeira vez: no sobressaltado percurso pelas ruas da cidade, errava sem destino. Subitamente, as ruas da cidade avivavam o paradoxo de um lugar desconhecido. Contudo, conhecia aquelas ruas como as suas mãos. As ruas da sua cidade. Atordoado, achava-se estranho num lugar familiar. Ainda mais.
Prosseguia a correria desenfreada, demencial, de cada vez que esbarrava em pessoas e na sua reacção ora atónita, ora indiferente. Por mais que corresse, não sentia os dedos do cansaço a acariciar o dorso. Nem o ar desagradável do entardecer outonal arrefecia o corpo desnudado. Atirava-se para as esquinas que pareciam mais sombrias, de ruas que se prometiam desabitadas. A rua que parecia estreita revelava-se ampla, marejada por uma multidão que parecia ter marcado encontro naquela rua e àquela hora para ser testemunha de um enlouquecido desassossego.  
Era a rua sem saída. As paredes das casas carcomidas pela humidade pareciam inclinar-se na direcção do solo, deixando à mostra uma réstia do céu. Impediam que a chuva que começara a cair depressa encharcasse o corpo. Naquela rua já só estavam pessoas que não eram anónimas e desconhecidas como nas outras. Já só estava gente intimidada pela loucura em forma de nudez. Reconhecera a rua que à entrada soara desconhecida, como reconhecera as pessoas paradas diante de si. Impassíveis, a olhar para uma nudez inverosímil. Recebiam as finas gotas de chuva no rosto, algumas gotas sopradas pelo vento desarranjado espetando-se nos olhos como discretas farpas, coalhando o horizonte. A fineza das gotículas ao sabor da coreografia errante carregava uma discreta neblina que descia pelo apertado funil que os prédios encardidos inclinados sobre si deixavam entrever.
E não sei se fora por estarem todos a ficar encharcados que alguém, por fim desligado da inércia que se tinha apoderado de todos, despiu um casaco. Aproximou-se do homem nu, cabisbaixo a verter lágrimas de desespero que se misturavam com a fina chuva que encharcava o solo. Pondo fim ao sobressaltado sonho. 

30.3.10

Insólitos inimagináveis


In http://4.bp.blogspot.com
Os olhos estão atentos. Precavidos contra as ameaças. Avançam com atenção redobrada sobre os que julgam ser a ameaça latente. São eles que ficam sob o ponto de mira. Os costumes mandam dizer que a precaução sempre foi boa conselheira. O mal está quando os rombos no que os olhos zeladores protegem partem de quem não se esperava. Os olhos não se podem desdobrar em todos os sentidos. Oxalá tivessem o condão de tudo alcançarem, como se fossem polvos a atirar os oito tentáculos em todas as direcções, cortando pela raiz os ensaios dos meliantes. A surpresa, às vezes, aterra de mansinho. E damos conta que são apanhadas no alfobre do crime as pessoas mais improváveis de o serem – criminosas. Se calhar faz sentido pressagiar que nestes tempos amalucados ninguém, mas mesmo ninguém, está acima das suspeitas. De uma vez por todas, somos todos iguais. Até na propensão para o delito.
Eis a insólita notícia: uma magistrada do ministério do público apanhada a roubar roupa numa loja (uma gabardine e uma camisa). Ou, diremos em condescendência da intocável magistratura, que apenas se esqueceu de pagar. Talvez a senhora seja uma irremediável distraída. Estaria a pensar num dos muitos casos que aterram na sua secretária. E, tão afogueada pela soberana função de levar do tribunal à cadeia os delinquentes da praça, saiu da loja sem passar o vestuário comprado pela caixa registadora.
Um dos males dos tempos modernos é que inventam geringonças para tudo e mais alguma coisa. As lojas são precavidas contra distraídos, cleptomaníacos e ladroagem em geral. Quem se esquecer de passar pela caixa registadora não vai longe. Um sonoro alarme à saída da loja denuncia a tentativa. Todos os olhares caem sobre quem se esqueceu de pagar à saída da loja. Os olhares e os seguranças, num abrir e fechar de olhos. Quando dão conta, já têm julgamento marcado em tribunal.
Por menos de cem euros – o valor da gabardine e da camisa que a senhora magistrada ia levando sem pagar – ficou com o rótulo de cleptomaníaca colado ao rosto. Os seus pares tomaram o assunto entre mãos. Foi suspensa dois anos. Se fosse outra pessoa, um comum dos mortais, o cadastro ficava manchado com esta nódoa negra. Mas a senhora faz parte da magistratura. Afinal há quem seja mais igual entre os iguais. E não se belisca a reputação da magistratura. Podiam isolar a ovelha ranhosa e, talvez em manifestação de humildade, admitir que a senhora se sentasse no lugar onde estão sentados aqueles que ela estava acostumada a acusar (o banco dos réus). Mas não. Não se toca nos intocáveis. Escapou com dois anos sem apontar o dedo acusador aos delinquentes da praça. Para os seus colegas que a julgaram com tanta condescendência, ficou provado que aquilo não foi roubo: foi apenas uma lamentável distracção.
Esta teoria podia explicar o inesperado comportamento da senhora: de tantos crimes passarem pela sua secretária, ela ficou contagiada. É o que acontece quando os planos se confundem, como se a certa altura já não fosse possível discernir o que é sonho e o que é realidade, uma e outra tomadas pelo mesmo padrão. Ao ler a notícia, vinha lá que foram feitos testes psicológicos. A senhora magistrada não era cleptomaníaca. O que torna o episódio ainda mais insólito.
Quando os dois anos passarem e for reintegrada, a senhora magistrada continuará a acusar meliantes por crimes iguais aos que ela cometeu. Ora, se me acontecesse sentar no banco dos réus por semelhante acusação e desse de caras com aquela senhora magistrada que, implacável do lugar de onde o ministério público acusa de dedo em riste, me acusasse de crime idêntico ao que ela tinha cometido, diria que tinha todo em gosto em que a colega de funções fosse a acusadora oficial. Ironia do destino, talvez pudesse tirar partido da condescendência da senhora magistrada.

29.3.10

Aparelhos dentários


In http://novohamburgo.org/colunistas/odontologia/img/v_dentao3.jpg
Novos, sobretudo novos. Mas mais velhos também. Quando se pensaria que os dentes dos mais velhos já não tinham remédio, entortados e a caminho da recessão natural do envelhecimento. Usam aparelhos dentários que corrigem o encavalitamento dos dentes. Uma rede metálica apara a andadura dos dentes. Os sorrisos afeiam-se.
Sinal dos tempos: quando era criança e os aparelhos dentários não tinham a profusão de agora, quem os usava envergonhava-se de os ter. Se nessa altura já tivesse sido inventado o conceito de bullying, os miúdos que tinham a desdita de carregar aparelhos dentários eram vítimas preferidas dos azoados que se especializavam no bullying. Há que descontar os custos dos tempos de antanho, quando a tecnologia ainda marcava passo pela cadência da tartaruga e aqueles aparelhos que se punham para corrigir más posturas dentárias eram pesados e inestéticos. Eu diria, ainda mais inestéticos.
São os sinais dos tempos que se puseram. Dizem-me que os aparelhos que desenfeitam muitas bocas são diferentes dos aparelhos da minha infância. Mais leves, materiais mais resistentes, mais eficazes na função. E os dentistas de agora devem ter aprendido marketing na universidade. É que também me dizem – agora do lado de quem viu os dentes emprenhados com a armadura metálica – que os dentistas são mestres no convencimento dos pacientes. Explicam por a mais b que aqueles dentes vão entortar fatalmente se não se puser o aparelho que corrige encavalitamentos precoces de dentes. Para piorar o diagnóstico, pintam cenários muito sombrios caso o paciente seja renitente em seguir o conselho clínico.
E sim, parece que os modernos dentistas aprenderam marketing até pela técnica de vendas agressiva que usam: como o adorno metálico que se prende aos dentes é coisa para custar muito dinheiro, congeminaram esquemas de crédito e facilidades de pagamento. Os pacientes – ou, dir-se-ia, os clientes? – ficam desarmados. É pegar ou largar. Quem sabe se na anestesia não vai misturada uma substância hipnótica que comanda a vontade dos pacientes, só capazes de dizerem sim à proposta de negócio.
O negócio prospera. A atestar pela quantidade de bocas que, quando se abrem, mostram a armadura metálica que aprisiona os dentes ao alinhamento desejado. Prova que os modismos são isso mesmo – modismos que vão e vêm com os ventos sazonais. Aqueles miúdos que foram motivo da zombaria alheia sentem-se injustiçados? Se não forem movidos pela extenuante vingança, pelo contrário: fez-se justiça anos mais tarde. Olham para a profusão de bocas desenfeitadas com os talvez só um pouco menos inestéticos aparelhos dentários, olham em redor e notam a indiferença geral. Na sua imensa bondade, sentem-se reconfortados por ninguém troçar dos que trazem um freio metálico nos dentes.
Não interessa que os puristas ensinem que a subjectividade impede as ilações categóricas. Arremeto contra isso para fixar um juízo – que, de tão pessoal, vale o muito pouco que vale: aquelas bocas atadas pelo metálico freio da armadura povoam os rostos com um travo de feiura. Afortunadamente, o modismo retirou carga negativa aos aparelhos dentários. As pessoas que os trazem riem sem preconceito, falam sem vergonha, bocejam quando estão distraídas. Se ficar provado que os dentistas são mais dentistas do que especialistas de marketing, haveremos de lhes prestar tributo quando um lustro de tempo passar e as bocas (já desapossadas da armadura dentária) tiverem dentes mais alinhados. E houver menos visitas aos dentistas por causa dos problemas atrás de problemas semeados por um encavalitamento dos dentes. E se, afinal, os dentistas não forem tão especialistas de marketing como se pensava?
Nos interstícios da feiura das bocas desenfeitadas com armaduras metálicas, um par de perplexidades: como serão os beijos lânguidos dados por estas bocas? A outra perplexidade fica nas entrelinhas, para não ser acusado de obscenidades em forma de texto...