17.6.05

Direito de manifestação para a extrema-direita?

A extrema-direita marcou uma manifestação para protestar contra a política de imigração. Depois do arrastão de Carcavelos, o auge de uma série de actos de criminalidade perpetrados por negros com problemas de assimilação, a extrema-direita reitera uma das suas bandeiras de campanha. Querem repatriar os imigrantes para os países de origem, numa espécie de limpeza étnica de lamentáveis contornos. Estão no exercício do seu direito de opinião. Ir contra este direito é crime que lesa preceitos democráticos.

A manifestação está marcada para domingo. Ao longo da semana, a comunicação social foi dando notícias que começaram a preparar o alvoroço. É curiosa a reacção do sistema instalado às tentativas de afirmação da extrema-direita caseira. Os mais radicais vedam o direito de opinião e de manifestação aos grupelhos de extrema-direita. Alegam que estes movimentos negam a essência da democracia. A democracia não pode conviver com movimentos que querem a sua destruição. Outros sectores, mais moderados, fingem que toleram a extrema-direita. Não declaram com frontalidade a discordância com o direito de associação destes extremistas. No entanto, passam para o exterior o fantasma da extrema-direita. A retórica é a conhecida: são movimentos intolerantes e que cultivam a violência. Quando se reúnem, há violência atrelada à expressão de pontos de vista destes grupos que vivem na margem da sociedade.

Perguntam-me: estás de acordo com o motivo da manifestação? Eras capaz de desfilar ao lado da extrema-direita (por esta ou por qualquer outra razão)? À última pergunta diria que não, por uma questão de pudor. Sou incapaz de mover os ossos para qualquer manifestação pública, por mais que me identifique com o móbil da reunião. À primeira pergunta respondo também que não. Em questões de imigração tenho uma opinião diametralmente oposta à da extrema-direita. Não vejo nos imigrantes, nos esforços que alguns fazem para se integrarem, mesmo na teimosia de outros para viverem alheados dos costumes nativos, razões para a “decadência de costumes” que parece corromper a sociedade contemporânea. Em vez de se atirar o odioso da questão para os estrangeiros que connosco convivem, melhor seria olhar para o próprio umbigo. Os nativos, os expoentes da portugalidade lamentável, são os primeiros culpados do estado a que chegámos. Negar isto é hipocrisia.

Não me revendo nos motivos que levam a extrema-direita a desfilar pelo Martim Moniz, não concordo com o alarido que se instalou. Seja pela oposição declarada, seja pelo método requintado dos que não têm coragem para dizer que estão contra o direito de manifestação da extrema-direita, o alvoroço e o bramido que acamparam são nefastos para a democracia em que dizemos viver. Bastaria pegar na essência dos valores democráticos. Bastaria respigar o valor supremo da tolerância pelas ideias dos que se nos opõem para aceitar que a extrema-direita – ainda que cultive valores anti-democráticos – se possa reunir, possa expor as suas opiniões, enfim, possa existir. Relembrar o que é a democracia seria suficiente para matar a discussão estéril sobre os direitos que devem ou não ser garantidos à extrema-direita.

Como se isso não fosse suficiente, podia-se desviar o olhar para a desigualdade de tratamento que favorece sectores situados na outra extremidade do espectro político. É grande a tolerância em relação às franjas da esquerda que afirmam, com despudor, princípios que fazem tábua rasa da tolerância pelo outro, do respeito pela diversidade de ideologias. Na semana em que o grande timoneiro do partido comunista morreu, testemunhei inúmeros ensaios de branqueamento da história, num exercício com laivos de deificação de alguém que sempre teve uma postura ortodoxa na defesa das atrocidades cometidas pelo regime inspirador de Moscovo.

Uma democracia que trata desigualmente iguais é uma democracia fracassada, abortada, enviesada. Decerto ainda paira o estigma da ditadura do Estado Novo, a fonte de inspiração dos movimentos de extrema-direita que tentam emergir à superfície. Será a razão que incomoda as consciências bem pensantes e que as leva a extremar posições que raiam a intolerância em relação à extrema-direita. Pena que a intolerância – sobretudo dos que são mais moderados no tratamento desigual – não estenda a sua mira a quem, da outra extremidade, não tem vergonha em negar valores caros à democracia.

Esta desigualdade de tratamento é incompreensível. Mais ainda porque quem tem assento parlamentar, quem pode minar por dentro a democracia, são os sectores comunistas e trotskistas. Não a extrema-direita que tem uma expressão insignificante.

2 comentários:

Luís Norberto Lourenço disse...

Temos de ser responsáveis pelas nossas opiniões e consequentes, a Democracia também é isso.
Se esta manifestação degenerar em violência? Se esta manifestação incluir apelos ao ódio racial, for uma manifestação xenófoba? Vai sentir-se responsável por ter defendido que se pudesse reaizar? Quando afirmo isto sei (e sabe) que os movimentos que apoiam esta manifestação apresentam SEMPRE uma linguagem violenta com apelos ao ódio racial, à xenofobia, ao ódio religioso...
No entanto, porque sou um democrata (e porque não alinho na vitimização da extrema-direita), defendo que se possa fazer a manifestação, a qual deve ser acompanhada pelas forças da ordem, como qualquer outra seria, neste caso reforçado, porque poderá haver uma manifestação de sinal contrário (algo frequente), por um lado, por outro, porque o tipo de organizações que a promovem (FNP, PNR...) são tudo menos pacifistas e as suas retórica e prática é a do apelo à violência.

LUIZ disse...

QUEM PODE NUM PAIS COMO O BRASIL, DE TANTAS EXPRESSOES, DE TANTAS DIFERENÇAS, QUEM PODE TENTAR EXPOR REALMENTE SUAS IDEIAS? EM UM PAIS COMO O BRASIL, ONDE SE DESMORALIZAM PESSOAS COMO JANIO DA SILVA QUADROS E JUSCELINO KUBTSCHECK DE OLIVEIRA QUE OUSARAM ENFRENTAR AS TERRIVEIS "FORÇAS OCULTAS" QUE HOJE CONHECEMOS COMO NORTE AMERICANOS ENTRE OUTRAS BELEZAS QUE EXISTEM NESSE MUNDO QUEM OUSARIA DIZER TOTALMENTE A VERDADE? SE EXPOR A PONTO DE SER UM JESUS OU UM ADOLF HITLER? UM TENTOU E SE RENDEU AO DOLARES NORTE AMERICANOS,,, ELE HOJE GOVERNA O BRASIL E QUER IMPOR OS ROUBOS E VAGABUNDAGENS DOS QUAIS SAO DIGNOS DA BAIXEZA DE CLASSE DA QUAL ELE PROVEM PROCURANDO FAZER DO PAIS O NIVEL MAIS BAIXO E DESMORALIZANDO AINDA MAIS OS BRASILEIROS PERANTE O RESTANTE DO MUNDO,,, ENTAO QUEM OUSARIA DIZER A VERDADE SE TODOS OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SAO VIGIADOS E FISCALIZADOS E OS POUCOS QUE SE ATREVEM A FALAR SAO DESMORALIZADOS? POREM, HA DE CHEGAR O MOMENTO EM QUE ESSAS CLASSES BAIXAS NAO MAIS ESTARAO ESTABILIZADAS PELA FORÇA APENAS DO DINHEIRO, ENTAO VERAO RESSURGIR MOVIMENTOS REAIS DE FORÇA, INDEPENDENTE DE XENOFOBIA OU SEGREGAÇÃO. A VERDADE É QUE O BRASIL DEVERIA SER FEITO PARA BRASILEIROS, APENAS BRASILEIROS E BRASILEIROS NOS MOLDES QUE EXISTIAM NA DECADA DE 30 E NAO OS DESMORALIZADOS BRASILEIROS QUE ATUALMENTE INFESTAM O TERRITORIO DESSE PAIS TAO MARAVILHOSO,,, LAMENTAVELMENTE TEMOS DESDE SERVIDORES HUMILDES ATE ALTAS AUTORIDADES DESMORALIZADAS E SEM CARATER QUE PERMEIAM TANTO O JUDICIARIO, QTO O EXECUTIVO, QTO O LEGISLATIVO,,, LAMENTAVEL NAO SENHORES??? SERÁ QUE AINDA EXISTE SALVAÇÃO PARA ALGUEM OU APENAS "JESUS" PODERIA RESOLVER ESSE PROBLEMINHA???,,, RSRSRS
COISA PARA SE PENSAR NAO?