10.1.11

Bruma


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Espreita o primeiro sol. O sol intimidado com a noite poderosa que se demora – como se fosse possível, só com a sua vontade, adiar a alvorada. A humidade, insinuando-se na ossatura profunda, espalhou uma bruma densa. O sol retarda-se, embaciado pela bruma matinal que porfia nas horas da luz diurna ainda ténue.
Há, naquela coreografia de luzes que se atiram aos olhos, um encantamento que acalma o corpo ainda atordoado pelo sono nocturno. Como os raios de sol que tardam em despontar, o corpo parece anestesiado pela camada fina da bruma que se estende no horizonte. Um lençol que vem do rio e sobe em direcção ao céu, como se fosse uma bigorna cheia de humidade que tolda a claridade singular de um dia que nasceria na plenitude, soalheiro.
A fina camada brumosa pontua uma alvorada de contrastes. A bruma coalha a luz clara, tímida ao início, dos raios de sol que mal despontam emprestam tonalidades alaranjadas à manhã nascente. Mas a bruma não é uma camada tão espessa que perpetue a escuridão que sobra da noite, a escuridão que se atenua numa manhã grisalha. É um ponto de rebuçado entre a luz esplendorosa das manhãs intensamente soalheiras e as manhãs londrinas quando a bruma se exagera e ganha espessura de nevoeiro impermeável.
Os olhos distraem-se com a paleta de cores filtradas pelo demorado abraço do sol que se intimida com a bruma. Há lugares onde a bruma persiste, onde se desembrulha em camadas mais maciças, os raios de sol revolvendo-se a custo por entre as gotículas imperceptíveis que se deitam no lençol de bruma. Mais à frente, a bruma tornou-se fina e o sol espreita, ora a custo, ora já com esplendor. Feixes solares que conseguiram penetrar na densidade brumosa atiram-se de cabeça para cima dos corajosos que se deitaram à rua em hora tão madrugadora. Os bravos que não vão contrariados pela alvorada a contragosto inebriam-se com os feixes de luz esbranquiçada que se desprendem das brechas de bruma abertas pela perseverança do sol.
No lugar mais alto da cidade, os olhos decantam a bruma. Em finas camadas, ocultam a copa das árvores. Mais à frente, uma leva persistente de bruma tapa a presença de umas casas. À medida que a cidade desce para o rio, a bruma cresce em espessura. Só o conhecimento da cidade permite saber que é ali que o rio se passeia, naquele lugar apoderado por uma camada mais densa da bruma que se alimenta de humidade no caudal do rio.
A manhã avança. Dissolve a teimosia da humidade matinal que se condensa na bruma tímida que, todavia, espavoriu a presença do sol. O andamento dos minutos, à medida que a manhã cresce a caminho do seu entardecer, derrete os últimos vestígios da humidade que veio com a alvorada. As gotículas de humidade que esvoaçam, as gotículas que se tinham abraçado no denso lençol da bruma, perecem no seu entorpecimento. Os poderosos raios solares que ganham altura no firmamento derrotaram a teimosia da bruma. A manhã testemunhou a decomposição da bruma. Com uma lentidão vagarosa, perdeu espessura. Adelgaçou-se até se eclipsarem os seus vestígios. O sol, enfim, em todo o seu fulgor. A aquecer a manhã.

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