8.4.19

Trás-os-Montes


Hot Chip, “Hungry Child”, in https://www.youtube.com/watch?v=rOnMZALLQPk
Não será pela crueza da paisagem que te renegam, Trás-os-Montes. Não será pela dureza das gentes que te abjuram. Pois os modelos não são a paráfrase da perfeição, e se alguém protestar a favor do vencimento da perfeição atirem-lhe com as injúrias todas que conhecem para desfazer a mentira. 
É Trás-os-Montes desassombrado, sem maquilhagem, assim, como veio ao mundo, o epítome do estado natural prévio à mão do homem, que se mostra sem se querer mostrar. Envergonhado, pois não esqueceu um exílio a que esteve condenado quando as estradas eram suplício: os modos agrestes não serão cartão de visita para o forasteiro. Mas quem capitula à primeira impressão? Só os impacientes, os que diletantemente se entontecem com os holofotes da aparência, e depois não se incomodam por vogarem num mar vazio onde as palavras se tornaram exangues. Trás-os-Montes traz-lhes dissabores, por não descobrirem o tempo paciente que é a caução para redescobrir pequenos oásis, ou apenas a paisagem que obedece ao princípio geral da crueza ilimitada. Os elementos oferecem-se como são, sem encenações. 
Trás-os-Montes não é para qualquer pessoa. Hoje, as pessoas encantam-se com as cintilações espúrias que se soerguem na espuma imaterial. São fugitivas das coisas duras, as pessoas, mesmo que a sua dureza seja o fiel da autenticidade. O melhor que está em Trás-os-Montes é a autenticidade. Os planaltos pedregosos que terminam em abruptos precipícios que escondem tumultuosos caudais de rios. As montanhas que, vistas dos vales, se encadeiam numa fina silhueta, e que ao longe iludem a árdua empreitada que é subi-las. Os promontórios onde se respira um ar inteiro, onde paradoxalmente parece que o ar não é rarefeito e o sangue rejuvenesce pelo pulsar das veias ávidas. A tela acobreada quando os castanheiros se vestem com a folhagem outonal. E há os patamares quiméricos do Douro, uma paisagem que, apesar de ter sido desenhada pela mão do homem infatigavelmente criativo, não deixa de constituir o fermento do Trás-os-Montes que não pede meças ao belo. Há a invernia medonha, a que se segue o estio infernal. As pessoas, tão depressa rudes como depois docemente acolhedoras, generosas. 
E Trás-os-Montes, uma coisa e o seu contrário, o sortilégio escondido num canto do mapa.

Sem comentários: