23.5.19

Os campeões das falsas proezas

Shame, “The Lick” (Live at Dropout Studios), in https://www.youtube.com/watch?v=J_i1FZEHH2o
De um anúncio na televisão a uma casa de apostas desportivas: um homem fanfarrão vangloria-se pela sua destreza no basquetebol, no ténis e no hóquei no gelo. As imagens em que o pimpão assegura ser o maior da sua rua em cada um daqueles desportos são intercaladas por imagens que o mostram em risíveis figuras. Percebe-se a dissonância cognitiva: o estarola tem de si uma imagem que não quadra com a proverbial inépcia para os desportos. É tão maior o abismo quanta a diferença entre a jactância do patusco e a sua manifesta falta de jeito para cada um daqueles desportos. Se tivesse noção de si, antes ficasse em casa resguardado das risíveis figuras que ostenta com inútil galhardia.
À lembrança vêm outros estroinas que, sedentos de palco e de serem o centro do palco onde os holofotes estão centrados, convocam as atenções da audiência que granjeiam. Ele são as proezas sexuais, as comezainas boçais, bebedeiras olímpicas, uma qualquer situação que roça a radicalidade, como acontece com aqueles episódios narrados em que pouco falta para o narrador reivindicar inscrição no livro de recordes: eles são os maiores em alguma coisa e, por vezes, em várias ao mesmo tempo. Dir-se-ia, são sobre-humanos.
Tomem-se as proezas sexuais como arquétipo: quem os ouve não terá motivo para excretar inveja, a menos que não esteja seguro do seu desempenho. Escutando a verve dos imensamente capacitados para a função, fica-se com a impressão de que estão dois degraus acima do comum dos mortais, pergaminho assegurado pelas proezas de que se dizem capazes. Como não há forma de ser testemunha presencial (partindo de um princípio de manutenção da intimidade do ato), sobra a palavra dos predestinados. Ou se acredita, ou não.
(Há uma terceira hipótese, a meu ver mais interessante: destina-se semelhante eloquência à indiferença. Assim como assim, o sexo é pessoal e intransmissível. Sempre me causou espécie aqueles patuscos que se excitam com as putativas proezas de outros, nomeadamente de famosos, como se eles próprios, do púlpito da sua excitação intelectual, a pudessem transfigurar em excitação sensorial. Lamentavelmente, não conseguem tirar partido do êxtase de quem se diz ser autor dessas proezas. Pois o sexo é pessoal e intransmissível.)
Haveria maneira de aplicar uma prova dos nove a estes fanfarrões. Chamar a depor as (dizem eles) donzelas que constituem o seu privativo e numeroso exército de conquistas. Para que elas de sua justiça pudessem dizer, desabonando-os por terem sido vítimas do mau desempenho de quem protesta ser um ás no sexo. Pois há certas coisas na vida em que a distinção não precisa de ser alardeada, sob pena de se desconfiar que a verdade reside nos antípodas das ostensivas palavras que reclamam créditos afinal infundamentados.
Diga-se destes farsolas o mesmo que se diz do inefável artista que se julga um ás no basquetebol, no ténis e no hóquei no gelo: são vítimas do seu mau julgamento interno. Em vez de provocarem admiração em quem a querem provocar, são pobres personagens ao serviço do escarnecimento dos outros. O pior (para eles), é que nem disso dão conta – como não dão conta da sua proverbial inépcia para o domínio em que se julgam campeões. São os campeões de coisa nenhuma.

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