20.5.26

Águas fundas

Einstürzende Neubauten, “Total Eclipse of the Sun”, in https://www.youtube.com/watch?v=MIZkjPVzUvQ&list=RDMIZkjPVzUvQ&start_radio=1

Enfim, as águas fundas. Aquelas em que nos podíamos despenhar e sentir a demora de um abismo. Artesãos de um refrigério, exilados da terra firme que é o cais desejado, combinamos o sortilégio das águas fundas com um desassossego que amanhece a liberdade.

Quando o resgate do torpor contamina as veias, a gramática passa a ser comandada por um vocábulo impiedoso: inquietação. O que inquieta não é a espera pelo desconhecido, a pauta gongórica da incerteza; é arrancar o corpo da habituação a rituais que repetem um tempo decepado. Olhamos para a pele como uma amostra dos passos em falso que se foram cimentando numa lousa autobiográfica. Era mais fácil pedir autorização para ser admitido ao papel de julgador dos outros, mas a moralidade atirada para cima dos outros nunca foi uma aspiração.

As águas fundas exercem um efeito paradoxal. Se não se esconde o medo intrínseco de saber que os ossos repousam num precipício, ao mesmo tempo contempla a quietude de um espelho de água que parece não ter finitude e que dança uma inércia típica das águas calmas fermentadas num anticiclone. O corpo entra em hibernação enquanto o mar calmo cicia versos avulsos extraídos da pessoal coletânea de poesia. Dizer que as águas fundas são a expressão poética da serenidade não é uma metáfora.

As águas fundas transfiguram-se quando o tempo muda e o vento troa uma ira versada. O mar de fundo que é atingido pela fúria da tempestade descompõe as águas fundas. Parece que elas se tornam ainda mais fundas, mas pode ser apenas uma impressão, os efeitos de uma tempestade no estado do mar não são para estômagos fracos. 

As águas fundas não deixam de ser fundas quando a tempestade é deposta. A profundidade do abismo não mudou. Há quem diga que a calmaria que depôs a tempestade é ardilosa. A fundura que corporiza as águas fundas disfarça a sua linhagem. Ao menos, numa tempestade, recolhem-se as velas e a embarcação protege-se como pode, com a diligência dos marinheiros. Quando se sulcam águas fundas que não conhecem momentaneamente ondas que se vejam, os marinheiros tendem a desleixar-se.

Não é de admirar que haja naufrágios em águas fundas durante a ausência de tempestades. Capitula-se perante a desexigência do momento e da circunstância.

Sem comentários: