Bauhaus, “Stigmata Martyr”, in https://www.youtube.com/watch?v=LGl_Cn-H05g
Claro que sei perfeitamente que Deus não existe. Mas há beleza na ideia de um ser omnipotente nos amar. Amar-nos seja lá quem for, mas alguém amar-nos. É melhor amar-nos um ser de ficção do que ninguém nos amar. Manuel Vilas, “E, de repente, a alegria”, Lisboa: Alfaguara, 2020, p. 149.
Há quem diga “madeira”, com uma previsível exclamação. Ai de quem diga “madeira” sem que a proclamação soe como um aviso aos desprevenidos. E ela cai estrepitosamente sobre os braços que anunciam o visível. Não se conte com a realidade desejada; esse é um ardil de quem se constitui intencionalmente refém para se evadir de outras sindicâncias irrefutáveis. Sobrevoa uma pergunta lesante: seremos donos de nossa própria indulgência, praticando os fingimentos necessários em vez do que for dolorosamente impingido pela realidade que temos em mãos? As pessoas dividem-se. Os mais circunspetos, aqueles que talvez não avaliem lamentos excessivos que desvalorizam a própria vida, protestam contra a supressão do real pela falta de lucidez de quem se atira desalmadamente aos fingimentos. Opõem-se-lhes os que já fundiram a esperança com o nada, tantas as cicatrizes deixadas em legado, e que preferem ser intérpretes principais dos fingimentos necessários para emudecer a realidade. Aqueles gritam “madeira” enquanto empreendem a fuga que os ponha a salvo da queda da árvore. Estes deixam-se ficar no mesmo lugar, apreciam a queda da árvore num camarote ímpar, como se ela tombasse em câmara lenta e esses instantes fossem uma metáfora de camadas mais duradouras do tempo, toda a sua vida passando em relance por um periscópio amador. Quem contestar os ardis que servem de refúgio (e não de fortaleza) amotina-se contra os farsantes que, à menor contrariedade, se refugiam num lugar de fantasias, como se fossem cobradores de fraque da própria estultícia. Do lado contrário, o diálogo não cessa: partindo do princípio de que reifica a vontade de cada um, desprezam o manual de boa conduta que deixam ao cuidado de seus autores, deixando-o deserto. A noite dura o mesmo tempo, para um e para o outro. Os dias também. Distingue-os a profundidade que abraçam em cada medida do tempo.
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