Royal Blood, “Ten Tonne Skeleton”, in https://www.youtube.com/watch?v=eD7NZTQ3QxY
Disse às palavras para calçarem os seus melhores sapatos, os sapatos de dança. Era a altura de elas dançarem no chão desamparado de figuras de estilo, só elas, descarnadas, cortando o passo ao subtexto ou às metaanálises que se desdobram em múltiplos significados. As palavras sentar-se-iam nas linhas devidas e ser-nos-ia endossada a empreitada de decantar os seus sentidos entre as linhas.
Não se diga das palavras que são ambíguas. Ambíguas são as interpretações dos seus leitores; é a eles que pode ser atribuída a subjetividade que é um custo irrecusável das palavras. Fora disso, elas são de uma objetividade atroz. Quem as usou imputou-lhes um significado. As palavras assim emolduradas não têm culpa dos olhares diferentes que sobre elas se detêm. São esses olhares que fabricam as linhas escondidas entre as linhas que albergam as palavras. São elas que abrem mil sentidos alternativos que podem ser colados às palavras: como se cada entrelinha recebesse, em lápis enevoado, a revisão das palavras embebidas nas linhas autênticas.
As palavras que dançam entre as linhas são instáveis. Por mais que sejam firmes os seus passos que saracoteiam entre as linhas, saltando entre a terceira e a sétima linha, e depois entre a sétima e a décima primeira linha, espraiam-se numa caligrafia legível que se opõe à caligrafia descuidada das linhas visíveis. Como se as palavras que dançam entre as linhas se esmerassem na caligrafia porque sabem que aparecem como espectros, são baças, ambicionando a nitidez de quem está condenado a não sair dos bastidores.
O periscópio atento sabe que não há apenas as linhas onde se agigantam as palavras contingentes. No desacampado entre as linhas, as palavras ficam nuas. Desembaraçam-se do sentido despótico do autor, abrindo-se a um mar de possibilidades que inventa uma comunidade que colabora na ressignificação das palavras averbadas nas linhas.
A dança das palavras entre as linhas aumenta as possibilidades de as palavras não ficarem presas a um sentido despótico. Essa é uma dança que homenageia a liberdade. Porque as palavras também são seres vivos que merecem a sua liberdade.
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