4.5.26

O homem que andava sempre com guarda-chuva

The Cure, “Push” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=5YJ2H-5a09E

Parecia a “velha Albion” (glosando aqueles comentadores de futebol que adoram a erudição que não passa de platitudes), mas não era. Este é um lugar na orla do Mediterrâneo, onde a pluviosidade fica sempre aquém do inventário de chuva habitual em “terras de sua majestade” (idem aspas). O homem não prescindia do guarda-chuva. Estivesse no inverno ou no verão, ou numa das outras estações. Não queria saber se os peritos em meteorologia previam a “queda de precipitação” (de acordo com o jargão da classe) ou se anunciavam dias soalheiros, sem a menor probabilidade de chuva. Andava sempre com o guarda-chuva a tiracolo.

No inverno, o portador constante do guarda-chuva não dava nas vistas. Muitas outras pessoas também saíam à rua na posse do objeto. No verão, sobretudo nos dias de canícula – outra vez: este era um lugar pré-mediterrâneo, no verão as temperaturas ultrapassam os trinta graus centígrados – lá estava o homem, absorto como sempre, uma das mãos segurando religiosamente o guarda-chuva.

Se havia algo que o homem do guarda-chuva não lamentava, era a perda de guarda-chuvas. Muitas pessoas têm esse lamento, penhoradas por uma distração inata que as faz perder o objeto entre duas paragens. Para o homem do guarda-chuva, o guarda-chuva era como a roupa interior. Se saísse à rua sem o guarda-chuva, sentia-se nu. Ninguém se esquece da roupa interior (vamos partir deste pressuposto), como o homem não se esquecia do guarda-chuva. 

No verão, fazia-se notar. Nos dias tórridos aligeirava o vestuário, como toda a gente. Mas o guarda-chuva estava sempre de atalaia, e ele garbosamente ostentava o guarda-chuva até nos dias de estio a fio, aqueles dias, lamentados apenas por poucos, em que a chuva passara a ser uma memória distante. 

Um dia, uns rapazolas a contas com a estupidez típica da adolescência repararam no homem do guarda-chuva. Um dia, e outro, e uma sequência deles, o homem passava apressado à mesma hora pelo lugar onde estavam os mariolas. Riam-se do seu jeito desajeitado, mas riam-se acima de tudo, porque o homem parecia desafiar o anticiclone dos Açores quando estacionava demoradamente nas imediações e afugentava a chuva para outras latitudes e longitudes. Especulavam: um adivinhava que o homem não largava o guarda-chuva porque o usava como bengala. Outro acreditava que tinha uma fobia e só conseguia sair à rua com o guarda-chuva. 

O terceiro estarola decidiu, ao quinto dia, desfiar o homem do guarda-chuva. Quando passou por ele, ensaiou um gesto furtivo para apartar o guarda-chuva do homem. Soube então a serventia do guarda-chuva, como pôde atestar pelas nódoas negras, avulsamente distribuídas pelo lombo, depois de o homem ter usado o guarda-chuva para acertar umas bengaladas exemplares.

Foi quando os madraços perceberam a teima do guarda-chuva. Se alguém o assaltasse, teria de lidar com o guarda-chuva como arma de defesa. 

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