6.5.26

Descolonizar

Flea ft. Nick Cave, “Wichita Lineman”, in https://www.youtube.com/watch?v=73P2drWXulM

Se as sombras são uma métrica, devemos uma dívida impagável aos estetas que nos tutelam?

Não se assustam os espíritos embaciados, convencidos de que precisamos de uma bússola perene e de alguém que tenha como empreitada calibrá-la quando somos atirados para um desequilíbrio que amedronta. Somos colonizados e isso é produto da vontade. Dirão: se é consequência da vontade, não chega a ser colonização. A lucidez a soldo empresta-nos o crédito de que precisamos para testemunhar a entrega aos tutores que calibram a bússola que nos orienta. Somos seus devedores.

E se não for o resultado de uma vontade espontânea? Se for a tradução de uma vontade predeterminada do exterior, com sucessivas camadas sobrepostas que vão anestesiando a lucidez? A complexidade do presente é um ónus que se abate sobre nós. Não sabemos responder às múltiplas solicitações. Agradecemos a ajuda que vem do exterior, que nos situa no farol onde as resoluções são afinadas. Se não fosse essa ajuda, seríamos espíritos tresmalhados, apartados do demais grupo ao qual passaríamos a pertencer apenas como formalidade. 

Hipotecados na vontade que também passa a ser uma formalidade, vegetamos como seres acríticos que aceitam amputar a vontade para não ficarem condenados a uma misantrópica condição. Somos átomos considerados, pois se não formos gregários vamos sendo extintos do mapa da existência (ou dele somos exilados na exiguidade do nosso reduto, de onde deixamos de contar para o cimento da comunidade). A vontade cedida não é um anátema; é um custo da oportunidade de continuarmos a ser considerados, nem que seja como figuras irrelevantes que, somadas, se agigantam num todo coletivo e, todavia, anónimo de rosto e de vontade própria.

Esta é uma dependência que nos infantiliza. Uma metáfora da colonização interior à qual estamos condenados, sucumbindo perante o império disfarçado daqueles que, numa farsa fingida de generosidade, tomam conta de nós a partir do magma e de todo o sangue, até sermos meros autómatos que se limitam a seguir os mandamentos dos ordenantes.

Se não quisermos ser reduzidos à insignificância de um número e pouco mais, convoquemos a descolonização. Sem receio dos que protestam que a descolonização é um retrocesso. A descolonização é a restituição da lucidez que havia sido empenhada no processo de colonização dos espíritos.

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