Nick Cave & the Bad Seeds, “Conversion” (live at Kraków), in https://www.youtube.com/watch?v=BW_2v34Wbco
Crianças, escutai com atenção: não tendes de recear a morte, porque ao serem as vossas almas encomendadas ao céu sabereis que no céu ninguém precisa de encontrar um emprego para prover o seu sustento. O mercado de trabalho foi banido do céu. O trabalho é uma tortura imputada ao sacrilégio do tempo em que andam no domínio terreno. Se assim não fosse, como poderia a entidade divina convencer os mortais de que a morte é uma aparência, podendo esperar do céu não menos do que um Éden celestial?
Ter um emprego na vida terrena é um sacrifício que os mortais têm de arcar para depois viverem na morte sem os ónus inerentes à passagem pela Terra. O céu alivia os Homens de todos os penhores que desviam a liberdade dos mortais. Desinteressem-se dos conspiradores que atestam a inexistência do céu. Eles procuram transportar as virtudes da vida celestial para a vida terrena. Não é de admirar: se não acreditam na existência de vida após a morte, têm de maximizar a única vida que lhes é dada a conhecer.
O céu não é um lugar recomendado para os economistas. Primeiro, porque fartam-se de fazer prognósticos que erram sempre. O futuro é lancinante para os economistas. Se não fosse o futuro, talvez os economistas fossem mais diligentes – sobretudo se fossem autorizados a fazer previsões económicas sobre o passado. Segundo, como os economistas estudam o desemprego e, como não há desemprego no céu, eles não conseguem entrar no céu, são inúteis naquele domínio. E, como os economistas não são de confiar (alguns não escondem ambições políticas), aplica-se com rigor o direito de admissão que trava a sua entrada no céu. Para evitar que os economistas alterem as regras do céu e semeiem desemprego entre os coabitantes. Com os economistas, nunca se sabe.
No céu também não há inflação, porque não há mercado para mercar o que quer que seja. Como tudo é gratuito – não há Estado social tão exemplar quanto o céu –, não há preços para mercadorias e serviços. Sem preços, não há inflação. A não ser que os economistas infiltrados no domínio celestial conseguissem subverter os códigos de conduta e inventassem preços, só para terem algo com que se entreter.
Com os economistas, nunca se sabe. Por isso, aos economistas está destinado o inferno, como paga pelas asneiras que andaram a espalhar em vida. Assim sendo, crianças, é fortemente desaconselhável tornarem-se economistas futuros. A menos que não dispensem a estadia celestial depois de mortos.
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