18.5.26

Dente de leão (short stories #508)

The The, “Sinking Feeling” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=k-qopl03EiQ

            Dentro deste dente de leão guardo as luzes que voluteiam na erupção da aurora boreal. Chamo os pássaros matinais a depor sobre os objetos do medo. As árvores imóveis traduzem o vento omisso. Se a maré alta não estivesse anunciada, os pés desenhavam um caminho no areal molhado deixado para memória futura. Tudo é efémero, tão efémero. Não é um lamento. É o sortilégio de quem se entedia com a probabilidade dos dias iterados, como quase tudo se reduz a um ritual que esvazia a espontaneidade. Por isso trago um dente de leão escondido, reservo-o para os dias penhorados pelos demónios destemidos, para aquelas alturas em que uma força indomável coloniza a vontade e as estrofes que embelezam o mundo são vítimas de um motim interior. O dente de leão lembra que a manhã se agiganta na tela onde se compõem as cores belas e o olhar é convocado a aprender que nos é devido um momento heurístico, num momento a determinar. Um dia, um ancião, sábio como só os anciãos sabem ser, segredou-me que os demónios são criaturas propositadamente criadas para as sepultarmos. Em vez da hibernação, que é um eufemismo do fingimento, o rosto dá-se de frente às contrariedades. Se é com o dente de leão como amuleto, ou apenas sendo artesão dos próprios propósitos, é indiferente. Cada manhã é um triunfo sobre as conspirações que ficam a levitar se a vontade se virar do avesso, sobrando como um mero simulacro do que é. O dente de leão abranda os medos e serve como mnemónica que a vontade emana do interior, não pode ficar à espera de ser ativada por vontades exteriores. Um amuleto não é uma conspiração da superstição. É um ritual que ganha significado à medida que as metáforas diletantes se embebem no tempo que ainda falta. 

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