8.5.26

Assaltaram o restaurante, prepararam o jantar e foram apanhados em flagrante confeção de iguarias de elevada qualidade

Silk Rhodes, “Pains”, in https://www.youtube.com/watch?v=V1IHp28TXXE  

(Baseado numa notícia real, mas depois sujeito a um enxerto de romantismo propositado)

Há assaltos que correm mal – se é que, sem a cobertura de um viés moralista, se possa dizer que um assalto, só por ser assalto, corre bem. Um grupo de “amigos do alheio” invadiu as instalações de um restaurante. Porventura por não comerem há horas de mais, depararam-se com a cozinha e os ingredientes, uns armazenados na despensa, outros no frigorífico, e trataram de preparar o repasto. Sendo um assalto noturno e tendo ligado as luzes para saberem o que estavam a fazer, a luz que vinha de dentro para fora alimentou (em sentido impróprio) a suspeição.

Alguém reportou o “ocorrido” à polícia, que, como é habitual quando a força policial é importunada durante a hora da refeição, demorou a chegar ao “local da ocorrência”. O que deu tempo aos meliantes para avançarem na função gastronómica (“já agora”, pensaram ingenuamente os assaltantes). 

De atalaia, a uma distância de segurança, que a lucidez aconselha a manter de fora do corpo a pose de herói quando um grupo de assaltantes está nas imediações e pode, em desespero, cometer atos tresloucados, o dono do restaurante e, ao mesmo tempo, chefe da cozinha observava as movimentações com impaciência. Apesar da preocupação com o assalto em curso, não pôde deixar de notar os odores que vinham da cozinha: os assaltantes tinham metido mão à obra e estavam a cozinhar. Os aromas davam a entender que estavam a ser preparadas iguarias de qualidade.

Quando os polícias chegaram e fizeram notar a sua contrariedade – devia existir um código de conduta dos assaltantes que os impedisse de concretizar assaltos durante a hora da refeição dos polícias –, entraram no restaurante e deram ordem de prisão aos assaltantes. Eram três os assaltantes, que não ofereceram resistência. Aliás, as únicas armas que tinham à mão eram os utensílios de cozinha que estavam a usar enquanto preparavam a refeição.

O chefe da cozinha e dono do restaurante provou os preparados. Ficou admirado com a qualidade das iguarias. Ato contínuo, trocou impressões com os assaltantes para perceber o que tinham preparado e como o tinham confecionado. Ao lado, os agentes da polícia mantiveram o ar de contrariedade e repreenderam o dono do restaurante pelo diálogo impróprio com os meliantes. Um dos “agentes da autoridade”, virando as costas a caminho do “veículo”, disparou: “que falta de respeito! Prendemos os ladrões e ainda mete conversa com eles.”

Meses depois, os três homens foram a julgamento. O dono do restaurante depôs como testemunha abonatória, recordando a elevada qualidade dos pratos preparados pelos homens que expropriaram temporariamente a sua cozinha. Os juízes não se comoveram com o desprendimento do chefe de cozinha nem com a ingenuidade dos assaltantes, que se inebriaram com os ingredientes do restaurante e com a possibilidade de exercer um hobby

Os três homens foram condenados pela justiça impessoal e insensível, sem direito a circunstâncias atenuantes que poderiam ter sido, se fossem consideradas, a ingenuidade e a elevada qualidade dos cozinhados.

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