Death Cab for Cutie, “I Dreamt We spoke Again” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=2sQK0CXsshE
Temos direito a destroços, e ninguém contesta que é um direito irrecusável. Podem ser as lágrimas que respiram os tempos de outrora que são curadoras da melancolia. Pode ser um espectro que se abate sobre o entardecer, como se a deposição do dia homenageasse as espadas que ficaram embainhadas. Pode ser pungente olhar para o porvir a pressentir os espelhos em estilhaços.
Os espelhos que estão intactos são uma ferramenta valiosa para os sequazes do amor-próprio. Mas os espelhos podem não resistir ao efeito do tempo que os deixa puídos. Podem não resistir a tempestades ou outros apocalipses em forma tentada, estilhaçando-se irremediavelmente. Ninguém colhe os estilhaços do espelho e os cola metodicamente, como se estivesse entretido a fazer um puzzle. Uma das maravilhas da sociedade do consumo é rejeitar os destroços e substituí-los pelo novo.
Um espelho novo consegue o que o deposto e transfigurado em estilhaços não consegue: tornar-se estilhaços se um contratempo contra ele conspirar. Os estilhaços não conseguem ser estilhaços de si mesmos. São estilhaços em forma acabada, só à espera de serem sepultados num aterro. Quando um espelho feito em estilhaços é substituído por um espelho impecavelmente novo, começa a contagem decrescente para acabar estilhaçado.
Os rostos não são lúcidos quando procuram a reverberação nos estilhaços despojados ao acaso. Só deixam vestígios desse rosto, como se ele estivesse condenado a ser tutor de uma pessoa cortada em postas. Por isso, cuidam dos espelhos. Sabem que assim que forem destronados e acabarem por ser apenas estilhaços derramados no chão, o rostos deixam de se poder olhar a si mesmos – deixam de ser reconhecíveis por quem os tutela. Não são precisas ordenanças feitas ao milímetro para acabar com o sortilégio de um rosto que precisa do espelho para se reconhecer. É preciso guardar com cuidado os espelhos que estão a serviço, mantê-los úteis para prolongar a sua existência.
Os estilhaços dos espelhos derramados não têm serventia. Podem servir de arma de agressão a quem passa, mas esse não é um préstimo legítimo. Mas os estilhaços não são a candeia onde ferve a melancolia. A sociedade do consumo não deixa que a demora se constitua batuta do tempo.
Um espelho novo não demora. E com ele não chega a decair o amor-próprio que se viciou nos espelhos e amaldiçoou os estilhaços que despedaçaram espelhos idos.
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