10.9.26

Sob a égide do olho nu

Lime Garden, “Pulp”, (live), in https://www.youtube.com/watch?v=gvkaW-lMNOs

Os fantasmas invadem a carne dormente e forçam o organismo ao fingimento. Os fantasmas querem colonizar a vontade que é nossa e só os travamos enquanto o olhar for nu, corajosamente movendo-se entre os interstícios da luz, procurando nas sombras os vestígios, ainda que escondidos, da luz.

Gostávamos de ser como os gatos, que conseguem ver na escuridão. Sentimos o acaso a morder no estuário onde se congemina o dia. Por mais que deixemos o olho ser um nu olhar, ele sente-se cego e os movimentos tornam-se vacilantes, avançando milímetro a milímetro para o chão não fugir sob os pés e todo o corpo ser açambarcado pelo vazio ao cair na falésia. Por mais que nu seja o olhar e nada separe o olhar da franqueza, ele é inútil sob os auspícios das trevas que desenfreiam o medo.

Paradoxalmente, o olhar nu não se desaquartela quando a claridade se faz imperatriz. Intimida-se com os traços nítidos que conseguiram desembaraçar a claridade dos vestígios baços que despontaram com a manhã, mas o olhar esconde-se na epígrafe do medo. Uma constelação de fingimentos, que passa de mão em mão e não deixa ninguém deles isentos, asfixia as tentativas do olhar se extricar das roupagens várias que o candidatam a ser uma impostura. Os contrassensos sempre foram nosso anátema: quando podemos exercer a nudez do olhar, escondemo-lo da claridade; quando o queremos avivado, ele anoitece limitado pelo esmaecer da claridade. Somos reféns dos disfarces que arranjamos para passar ao lado da verdade.

Devia ser inventada uma maquineta para desenvencilhar o olhar das trevas que o sequestram. Como há armas que conseguem ver de noite como se fosse dia, o olhar devia ser treinado para ser perenemente nu. Porque só o olhar nu deixa de fora todas as camadas que são feitas de disfarce e que nos adulteram. Deixaríamos de ter o pretexto para encontrar noites – noites factuais e noites metafóricas – para nos escondermos.

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