7.6.06

Politicamente incorrecto em dois actos


Cenário montado para o primeiro acto: primeiros dias de calor, primeiros incêndios. Um, em Barcelos, terá começado numa maldita romaria que põe o povo em exaltação domingueira a fazer piqueniques na mata. Com a ausente cautela destas ocasiões, misturada com a costumeira negligência popular e uns pozinhos da inevitável ignorância, uma chispa descontrolada no churrasco tresloucado e o incêndio ateado.

O tempo, inclemente como sempre, fez o resto. O calor antes de tempo, demorado e seco, o vento de leste com rajadas fortes, eis o combustível para a propagação das chamas. Já lá vão três dias de promessas, sempre adiadas, de "fogo circunscrito". Ontem pelo almoço, as televisões, sempre ávidas em serem veículos da voz do povo, deram a voz ao povo. Que protestava. Protestava contra a demora na utilização dos meios aéreos. Os exemplares do povo que foram porta-vozes do povo contristado dissertaram sabedoria infindável no domínio do combate aos fogos florestais.

À memória vieram imagens de uma brigada de bombeiros chilenos que esteve no Ribatejo a trocar experiências no combate aos fogos. Era conhecida pelos métodos inovadores e pela eficácia na extinção de incêndios. Já que o governante responsável estava pelas imediações do fogo de Barcelos, espero que não lhe tenha passado desapercebida tamanha sapiência popular. Tenho a esperança que o secretário de Estado do Costa (que, convenientemente, não deu a cara, depois de todas as vanglórias de há meses – “nada seria como dantes no combate aos fogos”, certificou-nos) tenha requisitado aqueles castiços exaltados e os envie para o Chile. Ficávamos quites no intercâmbio de especialistas de combate a incêndios. Com outra vantagem: os castiços cheios de sapiência podiam gostar das terras chilenas e nunca mais voltar.

Se há expressão que me deixa intrigado é “sabedoria popular”. Se é popular, não pode ser sabedoria. Será, quando muito, exibição de esperteza, uma coisa acientífica, fruto do acaso, uma sucessão de resultados que o empirismo e a sorte explicam. Talvez por esse motivo o povo se gabe que “de poeta, de médico e de louco todos temos um pouco”. O aforismo pode ser estendido consoante as necessidades. Ontem percebi que o povo, que mal sabe articular duas frases sem dar sete pontapés na gramática, é catedrático em incêndios. Sabe muito de química e de física para calcular o que deve ser feito – e quando – para apagar fogos. E sabe de aeronáutica, conhecimento reles, para perorar sobre a utilização de meios aéreos para combater incêndios.

Qualquer dia temos o povo tacanho, com a quarta classe mal tirada à custa da condescendência de generosas professoras primárias, a sentenciar sobre tudo e mais alguma coisa. A democracia a isso obriga. A miragem da igualdade exige-o. Já estou a ver o povo a decidir sobre a energia nuclear. Ou sobre questões éticas relacionadas com manipulação genética de embriões que resultam de espermatozóides e óvulos conservados no frio. Ou sobre a Constituição da União Europeia. Tudo e mais alguma coisa, que a voz popular é o substrato da democracia. Nem que, por um momento, se passe a esponja no que interessa: “vozes de louco não chegam ao céu”, pedindo outro adágio emprestado ao povo. A conclusão do acto, num esboço que me coloca no perigoso limiar do elitismo politicamente incorrecto: vai doente a democracia quando ela dá a voz a cada membro do povo, mesmo aos mais impreparados, aos mais incultos.

Mudança de cenário para o segundo acto. Uma reportagem sobre a extrema-direita caseira, que ressurge das cinzas do salazarismo deposto no 25 de Abril de 1974. Um “líder” de um grupelho qualquer é entrevistado. As ideias deploráveis de sempre. Tão deploráveis, mas em grau diverso, como os ideais anti-democráticos de comunistas e de outros lídimos representantes da extrema-esquerda com assento parlamentar. A violência tinha que vir à baila. Afinal a violência é um traço distintivo dos brutamontes da extrema-direita, que à falta da razão se servem da razão da força. O artista entrevistado diz que eles são pacíficos. Mas deixa a ameaça: que não os provoquem, que num estalar dos dedos põem o manancial de actos de violência em prática. Detrás de um sofá desvendou uma arma qualquer, parecida com uma metralhadora. Disse que era caçador, que tinha porte de arma, que aquela arma era legal e que a podia usar em auto-defesa.

Ao fim do dia, leio a notícia que as zelosas autoridades policiais (instruídas por um qualquer juiz que só vê perigos para a democracia quando as ameaças partem da extrema-direita) prenderam o rapaz. Posse de arma ilegal e apologia da violência, vinha na acusação. E assim se silencia uma voz que está fora do sistema – porque, há que o lembrar, os partidos de extrema-direita estão proibidos na Constituição, numa manifestação de evidente tolerância democrática...Não sei o que me leva mais depressa ao vómito: se as ideias do “dirigente” do grupúsculo de extrema-direita, se esta manifestação de intolerância do regime democrático – quando nos ensinam que democracia é tolerância. Afinal, parece que a tolerância só tem olhos para um dos lados que injuria a democracia.
Acabo o dia preocupado com um sintoma que se apodera de mim: de súbito, apetece ficar solidário com o rapaz da extrema-direita que teve a infelicidade de dar uma entrevista a um canal de televisão.

6 comentários:

Anónimo disse...

Existem certos casos em que a "tolerância democrática" não pode nem deve ser aplicada e este rapazola e seus amigos é um deles. Se não sabe, informo que o energumeno em questão foi condenado por ter estado envolvido no assassinato brutal de um indivíduo de raça negra no bairro alto.
Ora se o rapazola tem a referida arma e mais um arsenal delas em casa, ilegais, porque não devem as autoridades agir em conformidade? Qual a diferença estre este crápula e por exemplo um grupo de muçulmanos com explosivos na sua posse? Ou um gang de negros igualmente armados até aos dentes?
Podem e devem levar todos pela mesma medida!

Rui Miguel Ribeiro disse...

Se cometeu crimes ou se as armas eram ilegais (ele disse que não) é preso e bem preso. Quanto à questões de fundo:
1- É verdade que prolifera a estupidez e a ignorância, o que também é culpa dos jornalistas (?) que por tudo e por nada querem ouvir os ditos "populares". No fundo, os comentários estão ao nível das reportagens, com a diferença de que uns são, na circunstãncia mirones ou basbaques e os outros são, supostamente, profissionais. Quanto ao voto, já não concordo consigo. Eu posso ficar exasperado com os resultados de algumas eleições ou referendos, mas tenho horror às vanguardas esclarecidas e às oligarquias.
2- É uma verdade evidente que o pensamento político e intelectual dominante veiculado pelos mass media, tem dois pesos e duas medidas para com a direita e a esquerda, sejam as moderadas ou as radicais. Só assim se compreende a muita maior compreensão dos media para com os governos de esquerda na Europa em geral e em Portugal em particular. Só assim se compreende a rejeição liminar da exterma direita e o acolhimento na "família democrática" de partidos stalinistas, maoistas e trotskistas, cujos pais inspiradores têm as mãos tão sujas de sangue como os nazis e os fascistas.

Anónimo disse...

Caro Rui Ribeiro,
relativamente ao ponto 2 permita-me discordar em absoluto, senão vejamos:
i-Quanto aos moderados: Não me parece que Tatcher ou Major tenham sido pior tratados que Blair. Não me parece que Koll tenha sido pior tratado que Shroeder. Não me parece que Chirac tenha sido pior tratado que Jospin. Não me parece que Cavaco tenha sido pior tratado que Guterres (a não ser na fase final por manobras perfeitamente planeadas e estratégicas do ainda mais direitista P.Portas).
ii-Quanto aos radicais: Se é verdade que os esquerdistas se inspiram em criaturas sanguinárias (Estaline é tão criminoso quanto Hitler), não é menos verdade que a colagem é feita relativamente à ideologia e há uma demarcação clara no que respeita ao "modus operandi". Ora o mesmo não se pode dizer relativamente aos direitistas (e se dúvidas houvesse, basta rever a entrevista do "coitadinho" que agora está preso).

anacf disse...

Segundo as notícias da RTP o dito cujo já cumpriu pena de prisão efectiva pela morte de um cabo-verdiano no Bairro Alto e a arma apresentada na reportagem de ontem à noite estava legal.
Foi o próprio que, dentro da carrinha policial celular, respondeu aos jornalistas e afirmou que a polícia apreendeu diverso material de propaganda e um revólver na sua casa.
É um facto que estes grupos não são meninos de coro.
É um facto que apelam à violência.
É um facto que são grupos xenófobos e racistas.
Mas se se quer proibir que grupos de extrema direita promovam os seus ideais, então que tal acabar também com a extrema esquerda presente na Assembleia da República?
Penso (se estiver errada, digam-me) que nem os grupos de estrema direita, nem o PNR obrigam as pessoas a associarem-se às suas causas. Quem o faz, fá-lo de livre e espontânea vontade.
Uma última pergunta: será que se houvesse uma reportagem sobre tráfico de droga e armas num qualquer bairro de Lisboa ou Porto (Bairro Alto, Cova da Moura, Aleixo, São João de Deus, Lagarteiro, etc, etc) a polícia actuava tão rapidamente?

Anónimo disse...

Constituição Portuguesa:

Art.46º
1. Os cidadãos têm o direito de, livremente e sem dependência de qualquer autorização, constituir associações, desde que estas não se destinem a promover a violência e os respectivos fins não sejam contrários à lei penal.
4. Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.

Art.51º
3. Os partidos políticos não podem, sem prejuízo da filosofia ou ideologia inspiradora do seu programa, usar denominação que contenha expressões directamente relacionadas com quaisquer religiões ou igrejas, bem como emblemas confundíveis com símbolos nacionais ou religiosos.

Subsiste alguma dúvida?

Rui Miguel Ribeiro disse...

Caro Anónimo

Postei um comentário ontem que parece ter sido deglutido por algum fenómeno da informática, mas vou tentar reproduzi-lo.
Em relação ao "meu ponto 2" não estamos definitivamente de acordo: Cavaco nunca caiu no goto da imprensa, que também não gostava de Sá Carneiro, que escarnecia Marcelo, que desvalorizava Durão, que crucificava Santava, que detestava Portas. Mas essa mesma imprensa contemporizou durante anos com Guterres que foi um péssimo PM, tolera e aceita todos os disparates de Soares e iconiza Louçã. Há dois pesos e duas medidas. Mesmo Blair, que refere, "surfou" nos media até à Guerra do Iraque, os Presidentes Republicanos nos EUA são sempre vistos com uma desconfiança que não se aplica aos Democratas, em Itália a direita e a esquerda têm tratamentos diferentes...

Quanto ao modus operandi: Auschwitz, Gulag, Revolução Cultural, Katyn (massacre de 15.000 oficiais polacos pela URSS), killing fields no Cambodja, Kristalnacht, pogroms... não sou esquisito: abomino-os a todos.

Quanto à conclusão do seu 2º comentário, a resposta é: SIM. Sim, porque temos uma Constituição obsoleta, produzida num período revolucionário e semi-anárquico, onde imperava a revanche ao antigo regime (o que é normal) e dominava um ideário marxista e esquerdizante no qual penso que a maioria dos portugueses não se revêem.
Em relação aos totalitarismos, a Democracia tem uma de duas opções: ou os aceita em nome da liberdade, ou os rejeita em nome da sua auto-defesa. Não se pode é escolher à la carte: "mmm, os Comunistas ainda se engolem, mas os Fascistas são intragáveis." Além do mais, nunca ouvi o PCP, a UDP, ou o PSR, renunciarem às suas bases ideológicas (e acho bem que não o façam) e não me esqueço de alusões recentes à Coreia do Norte e a Cuba. Para mim, o lobo não é mais simpático por vestir uma pele de cordeiro.