20.3.19

Que é feito do parêntesis? (short stories #103)


Nilüfer Yanya, “In Your Head”, in https://www.youtube.com/watch?v=fsxf541UI-8
          O umbilical ouvido não decai na desatenção. Todos os ruídos são colheita. Não te enganes: todos os ruídos são colheita. Como numa prosa, todas as palavras merecem igual atenção. Ou corres o risco de perder parte do sentido. E ao perderes parte do sentido, ficas com a história amputada; nem que seja um fragmento, uma pequena parcela perdida no ardil da desatenção. Ao olhar soerguem-se as braçadas ritmadas dos transeuntes. Parece que nadam em seu gesticular, os gestos como coreografia que empresta outro sentido, um sentido mais expressivo, às palavras que são ditas. Como se as palavras fossem digladiadas. Não adiantam os rostos seráficos que desafiam, em sua impassibilidade, os gestos excessivos. Dir-se-ia que embaciam a palavra dita, gestos assim coreografados. Alguém propõe: invente-se um modo de meter os gestos entre parêntesis. Os parênteses seriam a representação gráfica dos gestos que destronam o império das palavras. Para não serem ruído transfigurando as palavras em babugem. Mas as mãos, personificação dos vasos capilares que ecoam o tatear, não podem ser silenciadas neste teatro dos sentidos. Se os olhos estiverem fechados, as mãos são os nossos olhos – não te esqueças. Talvez seja possível às mãos decifrarem as palavras embainhadas nos ruídos que pontificam nas imediações. Não sejam contumazes as marés que orientam as palavras decantadas dos gestos – pois aos gestos deixa-se o seu lugar próprio, que será o dos mestres da coreografia. Em véspera de celebrações, ao palco só merece subir o altar onde se celebra o motivo da celebração. O resto é momentaneamente atirado para dentro de um largo parêntesis, à espera que uma constelação de parênteses se ofereça sucessivamente em seu palimpsesto. E perguntas: o que é feito da palavra que se emancipou do parêntesis? Terá a palavra sido metamorfoseada num parêntesis de si mesma, nele emaranhada? Tens de esperar pelo dia que se segue. E apurar, no rescaldo de todo o suor derramado, entre o restolho, o que ficou das palavras não silenciadas pelos parênteses. 

19.3.19

Suspeitos de costume (short stories #102)


The Chemical Brothers, “MAH”, in https://www.youtube.com/watch?v=XTBNONSR9F8
E não suspeitos do costume. Eram suspeitos de costume. Pelo ramo familiar do conservadorismo incorrigível. Só se guiavam pelo roteiro da rotina. O que tivesse sido arquivado no bornal das memórias e correspondesse a repetição atrás de repetição. Não se desviavam daí um centímetro. Porque o desconhecido era um corpo estranho que vinha ao seu regaço, e não queriam o regaço contaminado pelo desconhecimento. Houve alguém que os interpelou, se não sabiam que o conhecimento estava no exterior do acostumado. Não queriam saber. Estavam contentes com o conhecimento que lhes era dado a conhecer pelos seus costumes. E pouco se importavam se os interpelantes jocosamente encolhessem os ombros, insinuando, com o gesto, que era exíguo o mundo por onde se moviam. Era o seu mundo. Os seus costumes. Podiam aconselhar que cavalgassem no exterior dos limites, para serem como os descobridores de outrora, sem medo da aventura e sedentos de novos conhecimentos. Também não importava. A cada um a sua particular gesta. Que não os importunassem no conservadorismo oportuno para quem tem medo do que não sabe e não conhece. Era como se vivessem aprisionados num quarto dos fundos, lúgubre, sem exposição à luminosidade dos dias soalheiros ou das manhãs sombriamente enevoadas. Mas essa era a sua coutada. Onde se sentiam confortáveis. Que não lhes pedissem para extravasar os costumes. Fora tão custoso o processo de enquistamento dos costumes ancorados. Não lhes pedissem para romper a vocação conservadora. Não lhes pedissem; que também respeitam as margens por onde os demais transitam, fossem elas de que tamanho fossem. Depois escutaram uma interrogação perdida no anonimato da multidão: “O que vai ser o futuro?” Os suspeitos de costume não podiam ser recenseados na convenção. Não se importavam com o futuro e esperavam que o futuro não se incomodasse com eles. Por isso, quando um dos suspeitos de costume, em plena distração, corrigiu a interrogação (“O que vai ser do futuro”), um dos outros admoestou-o: “Nem uma coisa nem a outra nos interessam.” A menos que lhes garantissem, em antecipação do porvir, que esse tempo, se por eles vivido, seria igual aos costumes de que eram regedores.

18.3.19

Umas verdades inconvenientes (ou: contra a conversa de balneário)


Viagra Boys, “Just Like You”, in https://www.youtube.com/watch?v=xtmDOo5Ifx0
Contra a conversa de balneário: os varões inchados, que se medem pela testosterona e pelas proezas, sabe-se lá quantas vezes apenas fantasiadas, com o sexo oposto, são pasto abundante de preconceitos. E de parâmetros enviesados, que a eles, marialvas convictos, a variedade de parceiras sexuais, a promiscuidade, até, são pergaminhos de masculinidade, sem que a poliandria seja por eles caucionada, que aí já se trata de condenável adultério. 
(Para que conste: não se deduza da frase anterior um juízo de valor, muito menos de desvalor, acerca da poligamia (ou da poliandria, por extensão de raciocínio), nem sequer sobre a promiscuidade. É ao livre arbítrio dos envolvidos que cabem juízos de valor.) 
Estes machos, encerrados na sua coutada atávica, asneiam de tal modo que, a páginas tantas, fazem pensar se se trata de acefalia ou apenas de um intenso preconceito de que nem dão conta. Eles juram que são peritos na arte de ensinar os truques dos prazeres carnais às donzelas e menos donzelas que com eles acamam (ou noutro sítio qualquer). É uma questão de estatuto, o prolongamento da superioridade masculina com intermediação da ontologia sexual. Colocado na posição de ouvinte involuntário destas conversas improdutivas, apetece-me o papel de interrogador-mor. Por exemplo: eram vossas senhorias capazes de trocar prazeres carnais com uma senhora mais experimentada nestas artes – digamos –, daí retirando alguns ensinamentos que ampliem o conhecimento de vossas senhorias na matéria?
Vou adivinhar a resposta (correndo o risco inerente ao augúrio): “nem pensar!”, seria a resposta, exclamada, resoluta, indignada. Primeiro, eles é que são os mestres na arte da luxúria. Está-lhes tatuado no mais profundo do tutano, e a “natureza” diz que são os homens que devem conduzir a coreografia. Este rudimento inato não admite que um homem, um “homem que se preze”, seja ensinado nas artes da cama. Seria humilhante. Este é um terreno onde o homem, “o homem que se preze”, é professor. À mulher está destinado o papel de discípula. Segundo, não se admita a um bom varão (com a exceção adiante sufragada) ser presa de uma mulher bastante experimentada. Que essas são pouco recomendáveis, justamente pela elevada quilometragem que trazem a tiracolo. Quem quer trocar desejos carnais com uma mulher com semelhante experimentação? Tirando a exceção anunciada – estes homenzarrões também têm um lado lunar oculto que se abre a múltiplas experiências que, todavia, negam quando exibem a sua hermética doutrina sobre o assunto –, nenhum homem valente se presta à possibilidade de ser ensinado por uma mulher, no que à luxúria diz respeito.
Aposto bom dinheiro que a recusa exposta se legitima num argumento que estes machos exemplares não admitem em público: não querem que essas experimentadas mulheres lhes transmitam coisas diferentes, por temerem que essas coisas diferentes lhes foram transmitas por anteriores (ou contemporâneos, não interessa para o caso) parceiros. Seria como admitir que há homens ainda mais marialvas, o que é inaceitável para o épico ego em que estes homenzarrões se estribam. 
Correndo o risco de cair numa generalização (perigosas, como todas o são), outra aposta: estes são aqueles valentes machos que se ufanam das suas proezas sexuais, e do (dizem eles) rol interminável de “conquistas” – como se estivéssemos numa reserva cinegética e as mulheres fossem as presas a que dão caça; são aqueles que, no desempenho da função, estão imersos no profundo egoísmo de quem apenas cuida do seu prazer. Mal sabem que são desdenhados pelas “presas”, que deles não habilitam grandes referências. 

15.3.19

Contumácia


Mogwai, “Scrap”, in https://www.youtube.com/watch?v=zRRhmbrPMoY
No dorso de um livro de leis, uma anotação rebelde: “as leis, se existem, é porque são esquecidas.” 
O juiz discorda. Ufana-se de fazer aplicar as leis quando alguém as atropela. O réu, sentado no banco a preceito, discute a interpretação do crime de que vem acusado: ele não foi autor do que lhe imputam – e se por acaso for determinado que o foi (compensando um esquecimento inato), dirá que um punhado de atenuantes o favorecem na ilibação. A vítima está danada. Intui que tudo se encaminha para a expiação legal do réu. Acaba a concordar com a anotação à margem no livro de leis que ficou aparentemente perdido num banco do tribunal. 
As três pessoas vão para sítios diferentes, à saída do tribunal. Não adivinhavam que, nessa mesma noite, coincidiriam na amesendação no mesmo restaurante (em mesas diferentes). Não se falaram, apesar de se terem entreolhado. Cada um comentou, com as pessoas que os acompanhavam, a coincidente circunstância de horas antes estarem no mesmo lugar e em lugares diferentes.
Naquela noite, o juiz interiorizou a anotação que servia de rodapé ao livro de leis que alguém esquecera no tribunal. (Ele ficara zelador do livro, não fosse alguém reclamar a sua posse.) Sabia que há muita gente que assim pensa. Gente que vive à margem da lei e tira proveito, num risco constante que é o de ser apanhada em falso e cair nas malhas dos vigilantes da lei. Mas o juiz sabia que alguns figurões bem-postos, senhores de gordas fortunas, a condizer com a sua obesa estampa, senhores que circulam nos interstícios dos corredores do poder e o conseguem influenciar através de meios em débito dos mínimos de legalidade, tinham o condão de escapar às malhas da lei. (As histórias correm de boca em boca e, nos corredores onde fruem os rumores, era dado adquirido – por isso o juiz o sabia, como muita gente o sabia.) 
O juiz de igual modo sabia, como muitos o sabiam, que era infrutífero lançar o anzol a estes figurões, que, ato contínuo, vozes mais altas cuidavam de apagar os vestígios e de sacrificar a diligência dos ingénuos que acreditavam que podiam trazer os figurões perante a justiça. Este era o tempo e o lugar em que compensava (materialmente falando) ser contumaz profissional.

14.3.19

Para-quedas


Morphine, “Top Floor, Bottom Buzzer”, in https://www.youtube.com/watch?v=T-GRQ0TdOhY
          Juramos que não jurávamos. Dizias: “Dá azar”. Eu, que não me importava com sortilégios, que não acredito na sorte como não acredito no azar (para ser democrático e não tutelar discriminações fora de prazo), encolhi os ombros. Podíamos não jurar, absolutamente nada; não seria por medo do azar, que é uma parcelar arritmia dos modos em que se compõe o porvir. Seria apenas porque decidimos que as juras não têm serventia. Mais alto, fala a confiança. E quando bebemos do úbere da confiança, o vocabulário extingue as juras.
        Havia alturas em que sabíamos por perto o precipício. Quem nunca foi sobressaltado por um precipício? Precatamo-nos, que o precipício podia não ter viagem de regresso. E tal como prescindimos de juras, não queríamos que houvesse uma gramática dos arrependimentos. Eramos o que éramos e assumíamos essa identidade. Com o que ela trazia de bom e de mau, como se nos tivessem encomendado apóstolos da imperfeição da espécie. Não queríamos a covardia dos arrependimentos. Ao mesmo tempo, não transigíamos com o torpor que amacia as almas e as destina a hibernação. O equilíbrio era um desafio, difícil. No limiar do precipício, recusávamos um passo atrás: se o dessemos, julgar-nos-íamos timoratos – e, por dentro de uma audácia inesperada, não podíamos aceitar tamanha pusilanimidade. 
          O que faríamos? Quem sabe, jogávamos as cartas outra vez, à espera do jogo a preceito – à espera de que não fôssemos deitados no derradeiro centímetro antes do precipício. Não podíamos contar com essa longanimidade. O jogo estava distribuído e as cartas que tínhamos na mão eram as cartas oferecidas ao olhar. Para não termos o sono assaltado pelo vapor da covardia (algo que, inexplicavelmente, julgamos intolerável), sabíamos que tínhamos de dar um salto em frente, no vazio que preenchia o mapa do precipício. Não havia problema: já não recordávamos a precaução que fora nossa, a de nos equiparmos com para-quedas para a possibilidade de termos de dar um salto no vazio. Não nos lembrávamos de quando vieram os para-quedas à nossa posse. Também não importava. Podíamos avançar no precipício com o seguro de vida arqueado sobre as costas, garantido através dos arneses. 
      Aproveitamos o voo vagaroso com a ajuda do para-quedas. Era como se estivéssemos a mapear cada centímetro do solo sob os nossos corpos. Para memória futura. No plano inferior a que nos trouxe o precipício, deixamos os para-quedas ao acaso enquanto saboreávamos a paisagem bucólica. Eramos o que éramos e assumíamos essa identidade. Já sem o socorro dos para-quedas.

13.3.19

Dieta (short stories #101)


Radiohead, “Everything in Its Right Place”, in https://www.youtube.com/watch?v=GnfPaaMR6Qc
          Desaprovava a gastronomia: considerava-a um capricho, dada a iníqua natureza de que a natureza humana era feita, e os alimentos antes vistos como mantimentos, uma exigência condizente com mínimos de sobrevivência. Esquecia-se de refeições. Não que não fosse assaltado pela fome, mas tinha outras distrações. Por cima de tudo, a posição filosófica contra a obrigação de comer. Não era estranha, a esta posição, a sensibilidade ambiental que prosperara. Não era de estranhar, a magreza impressionante. A pele macilenta, talvez sugerindo uma qualquer maleita induzida pelo défice de vitaminas e proteínas. A magreza não se justificava por imperativos estéticos, ou por estar na moda uma certa anorexia (pelo menos entre os manequins, o que também não jogava a favor da magreza, se este fosse o critério determinante). A dieta era espontânea. Não seguia um guião, nem fora prescrita por um perito da nutrição. Ocasionalmente, tinha de renovar o recheio do guarda-roupa. Se fosse de anotar estatísticas, talvez ficasse assustado com o gráfico do peso quando o gráfico lhe mostrasse como perdera peso. Não sendo o caso, usava o barómetro da roupa que, à passagem do tempo e com a persistente dieta infundida pela consciência, deixava de servir por ser excessiva. Um dia, o médico perguntou, com a habitual pose de paternalismo usada pelos médicos preocupados com os pacientes, se sentia algum mal-estar pela magreza. O médico notou a pele emaciada e torceu o nariz ao interpretar as análises sanguíneas. Ele ripostou, sem hesitar, que se sentia “fino como um alho”. O médico gostava de saber por que as pessoas usam estas expressões idiomáticas sem sentido, mas aquela não era a altura para indagar sobre a semântica. Prescreveu uma medicação (“por favor, não se esqueça de a tomar”) e aconselhou outra dieta (“ou, um dia destes, dá-lhe um ataque de fraqueza e vai ter de ser acamado”). Disse que sim, com a mesma convicção de um mentiroso relapso que não admite que a mentira que conta seja sequer mentira. A posição filosófica sobre a alimentação não se compadecia com as minudências da medicina. Sem dar conta, a vida ficava para segundo plano. 

12.3.19

Uma defesa minimalista da Europa


Cat Power, “Lived in Bars” (live on Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=IcaqpzVXHDo
No domingo, António Barreto, em artigo de opinião no P2do Público(“Uma Europa longe demais”), discorre sobre a crise existencial que ameaça a Europa às portas da terceira década do século XXI. Depois de uma resumida historiografia em que mostra as diferentes Europas segundo os diferentes interesses (e interpretações) e os sucessos por ela registados, Barreto parte em busca dos limites que estão a colocar a Europa no limiar do precipício.
A Europa já ofereceu tanto que agora já não tem mais nada de válido para oferecer. Os cidadãos já receberam tanto da Europa que nem sequer dão conta dos valores que outrora foram sonegados e pelos quais foi preciso derramar muito sangue para serem firmados. O desinteresse da população, com expressão no crescimento da abstenção, e o aumento do voto de protesto (nos partidos nacionalistas, populistas e radicais), parecem hipotecar a Europa. O cimento da Europa está-se a despedaçar, como acontece com as pontes e viadutos sem manutenção, com vestígios da cofragem entre a muralha de betão, sinalizando o perigo de desmoronamento. Nas palavras de Barreto, “[o] que é mais confrangedor é que a Europa não tem nada para oferecer, a não ser o que é e o que está. Oferecer aos cidadãos o que já têm, paz, liberdade e livre circulação, não parece especialmente excitante. Mobilizar os eleitores para a democracia que têm há décadas também não é emocionante. Olha-se para a Europa e não se vê o que nos possa dar de novo. Mais do mesmo é receita para desastre ou abstenção. E dá o flanco aos seus inimigos.”
Parto da asserção “[o] que é mais confrangedor é que a Europa não tem nada para oferecer, a não ser o que é e o que está.” Intuo uma ilação oposta à de Barreto. Eu diria: justamente – o que a Europa tem a oferecer é “o que é e o que está”, com o mérito de ser toda uma cosmovisão que, a julgar pelos regimes alternativos, e descontando todas as fragilidades da União, é o que a distingue. É pouco o que a Europa oferece e está tão consolidado que parece não ter valimento? Poder-se-ia ensaiar o registo contrafactual: e se a Europa perdesse o que tem, com que ficariam os cidadãos? O que seria, neste momento e com as circunstâncias conhecidas, um cenário de “não Europa?” O que seria dos valores legados pela Europa? Será difícil pressentir que a Europa da barbárie estaria ao dobrar da esquina, numa involução civilizacional?
Pode-se contrapor que, mesmo assim, é pouco para “mobilizar os eleitores” (citando Barreto). Parece indiscutível, a crer no gradual desinteresse e no alheamento pela política, de que a abstenção é só um sintoma. Em oposição ao pessimismo de Barreto, ofereço uma visão otimista. O legado da Europa não é de somenos importância. É todo um lastro que serve para aguentar as tempestades que têm assolado a Europa. Sem este cimento, mesmo que módico para as niilistas exigências da atualidade, não teria a Europa naufragado, mergulhada no vómito do seu próprio apocalipse? 
Talvez seja um otimismo minimalista, concedo. Uma defesa da Europa, ela própria, minimalista, porque gravitando no que foi garantido e que parece ser desprezado pelos cidadãos refratários e pelos eleitores atraídos por radicalismos que abjuram a ideia cosmopolita da Europa. E por análises catastróficas que sublimam o acessório (as políticas erradas) em detrimento do essencial (os valores imanentes à ideia de Europa). Eu digo que é melhor do que a alternativa. Por várias que sejam as fragilidades da União Europeia, é melhor o mal menor que é tê-la.

11.3.19

O cálice mais alto


Richard Hawley, “The Ocean”, in https://www.youtube.com/watch?v=wYoNrmJe9LA
Dizia-se: corremos para além da loucura, nos escaninhos embalsamados na memória, contra a tirania da sanidade, contra o pulcro avizinhar do ontem deslimitado. Não se dizia que éramos penhores dos hábitos amaciados no formol da má formosura. Mas não importavam os dizeres alheios. Se queríamos um bodo às artes, tínhamos o bodo às artes. Se queríamos uma peregrinação ao ancestral viver perdido algures entre montanhas, tínhamos a peregrinação ao ancestral viver perdido algures entre montanhas. Se queríamos perder a cabeça por uma excentricidade qualquer, perdíamos a cabeça por uma excentricidade qualquer (desde que tirada da imersão, sem qualquer probabilidade antes de ser dela remida). 
Eram nossos os cálices que empunhávamos a cada sagração que calhasse no sortilégio do desejo. Podíamos correr contra a maresia que se insinuava entre os poros da janela. Podíamos dizer que a lua era diurna e a lua transfigurava-se num ser celeste com vida diurna. Podíamos ensaiar um poema a duas mãos e o poema entretecia-se no vagar do tempo só nosso. Entre duas funções, erguíamos o cálice. Era sempre o cálice mais alto. Nele, o néctar que entronizava a nossa distinta maneira de ser. 
Eramos, talvez, ufanos na proclamação: um módico de vaidade não vinha a destempo, pois estávamos convencidos da nossa singularidade. Assim como assim, não havia mais ninguém como nós (por mero desconhecimento dos outros, que manifestamente não importavam). Não havia outro lugar como o nosso, transferido para a semântica do éden. O olhar arrebatado tecia-se na vulgata do tempo amarelecido pela usura. Era quando atiçávamos o cálice ao mais alto que os braços podiam subir – e, garantimos, era alto, tão alto que víamos o Evereste como se estivéssemos debruçados sobre um miradouro. 
Nunca tínhamos as coisas como derradeiras. A matéria fluída dava sentido ao sentido da vida. A vontade extasiante conseguia aquilo que o lugar-comum, e as pessoas mais modestas, chamam milagre. Deixávamos um perfume ímpar nos lugares a que íamos. Sabendo da impossibilidade dos pressentimentos, atirávamo-nos com a coragem de um estouvado ao caudal onde se congeminavam as possibilidades. Acreditávamos em nós. Nos lugares onde fôramos. Nos lugares que sabíamos serem promissória a resgatar quando nos aprouvesse. Os palcos sem gente eram multidão com a nossa presença. Pois era dessa presença que estávamos carecidos, como droga boa que não cessa de alimentar o vício de nós.
Como podíamos recusar os sucessivos cálices?  

8.3.19

A escultura de Sísifo atingiu a cumeeira (short stories #100)


Shame, “Friction” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=PiF6nlZcjtE
          Um compasso de espera, à espera da alvorada e da claridade quimérica. O silêncio só quebrado pelo murmúrio do mar cansado e por um ou outro pássaro que volteia na sagração da manhã. Um dia que se repete. Dizem os desenganados: todos os dias são uma mera repetição, um monótono monólogo em que somos manada. O aroma da abdicação não combina com a promissora alvorada – mas, afinal, as manhãs são todas promissoras, dizem, menos quando se seguem a um sono sobressaltado. Há empreitadas que continuam em fila de espera. Para gáudio do sossego interior, segreda para si mesmo que hão de continuar em fila de espera. E isso é um conforto. O que seria se um dia acordasse e não fosse capaz de inventariar uma única empreitada em espera? Teria capacidade para inventar uma empreitada no dealbar do dia? E, caso não fosse capaz, o que seria do dia assim vazio? Não queria que o mito de Sísifo fosse exposto ao contrabando. Não queria que a perseverante estátua de Sísifo conseguisse atingir a cumeada, depositando, enfim, a volumosa pedra que empurrou montanha acima. Não queria: temia que o contrabando do mito de Sísifo pudesse representar o inverno da vida, já sem mais nada por esperar – ou por capitulação das empreitadas em fila de espera, que assim ficariam destinadas ao oblívio; ou porque convencionara, ao menos que fosse por uma cartada de oportunidade, que a agenda das empreitadas era um caderno em branco no qual já não tinha serventia inscrever o que fosse. Mas, o inverno da vida significa a decadência irremediável? Sísifo não teria resposta. Sabia que depois do inverno vem a primavera. A reparação da aridez invernal, uma centelha a desatar os nós em que se consumiu a hibernação. E concluiu que a primavera consequente ao inverno é a metáfora de Sísifo (porventura contrabandeada no seu sentido). A escultura de Sísifo derrotou as forças incalculáveis que antes a tinham derrotado tantas vezes. Isso aconteceu no dia em que a primavera depôs o inverno. Esta é a gramática dos dias felizes.

7.3.19

Para que serve o revivalismo?


The The, “This is the Day” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=HXaEAoRUkfE
Mote: “All the money in the world couldn’t buy back those days”, The The, “This is the Day”.
O revivalismo só acomete gente de meia-idade e gente idosa? Serão as faixas etárias mais propensas. Mas o revivalismo não é seu exclusivo. Há gente mais nova, na ampla faixa que medeia a adolescência e a meia-idade, que também descai para o revivalismo. Admita-se que, com o avançar da idade, aumenta a probabilidade do revivalismo; é a cobrança da idade que se traduz na gramática do tempo. E quanto mais o tempo corre à frente, mais as pessoas querem resgatar recordações que servem para turvar o tempo presente (e, talvez, adiar o futuro).
Devia o revivalismo ser proibido? Que não seja erradamente entendido um opúsculo sobre a inutilidade do revivalismo com uma proposta para a sua liquidação do roteiro das almas. Se não se vê serventia em enxertar o tempo presente com memórias, que ninguém tenha a pretensão de estender este comportamento aos demais. Cada qual faz com o tempo que tem entre mãos (em qualquer das suas dimensões) o que lhe aprouver.
Feita a advertência, o que sobra da prosa ensaia uma justificação da inutilidade do revivalismo. Ele encontra-se de diversos modos: em fotografias que trazem um naco do passado até ao momento em que são revistas; na música, no cinema, num lugar revisitado, ecoando recordações; nas pontes entretecidas por um sonho, na linguagem codificada que, num lampejo de lucidez, se decifra em ligação com um episódio passado. Muitas vezes, a visita de um músico que se julgava reformado tem esta intenção. Muito para além da questão estética, está em causa verter um raio de luz nas memórias que quadram com o artista na altura em que ele era, como a audiência o era, novo. É como se fosse possível viajar no tempo e aterrar naquele tempo em que o músico era novo – e a audiência também.
Este é um revivalismo que causa dores excruciantes, em vez de repristinar as memórias em forma de recompensa. Mau grado elas assomem à superfície, desalfandegadas da hibernação, a retribuição é ilusória. Serve para mostrar que os tempos de outrora não voltam – não podem voltar – a ser vividos. O revivalismo resgata memórias que só aparentemente são o rastilho da rejuvenescência. Não é possível, a rejuvenescência. O revivalismo encerra o paradoxo de si mesmo: o que sobra é a melancolia ao cabo do estado hipnótico que foi palco para o resgate das memórias que o músico evoca. 
O revivalismo é ainda penalizador por ultrajar os acontecimentos que a memória procura associar ao músico revivido. Esses acontecimentos são irrepetíveis. Deviam ser honrados como tal, para não perderem o seu zéfiro. Avivá-los implica admitir o pesar que se arqueia sobre a vida presente, o que não abona em favor dos laudatórios do revivalismo. Como se eles pressentissem a necessidade do exílio no passado. É o que se retira do verso que serve de mote a esta prosa (sem cair na contradição de recuperar uma banda que soa...a revivalismo).

6.3.19

3D (short stories #99)


Karen O and Danger Mouse, “Woman”, in https://www.youtube.com/watch?v=W4yhzATxyz0
         Das páginas do livro, o entorpecente improvável: imagens que se leem atiradas ao olhar em realidade 3D. É como se ouvíssemos as palavras ditas nos diálogos, conseguíssemos ler o rigor das rugas de um idoso sentado no banco do jardim, a ferrugem que tomou conta de um pilar do banco do jardim, às mãos viesse parar uma folha caduca errando no vento outonal. Como se os lábios da mulher melancólica subissem ao rosto e os sentíssemos, carnudos, depositando um beijo. Ou como se soubéssemos do tamanho da maré e o perfume da maré-baixa, devolvendo o aroma das algas sazonalmente despojadas no areal. Podia até acontecer que fossemos capazes de desenhar a exultação do jovem estroina quando mergulha na boémia, sitiado pelo efeito de substâncias ilícitas e com ele conseguíssemos desenhar a caótica coreografia. Ou podia ser que fôssemos capazes de intervir no diálogo entre dois homens penhores da angústia, enquanto degustavam mecanicamente a refeição no intervalo para o almoço. Seríamos adestrados na arte de trazer aos sentidos os sentidos decantados nas páginas dos livros e, sem darmos conta, estávamos por dentro do enredo, narradores complementares ou acrescentos de personagens à narrativa. De caneta na mão, seríamos mais do que meros narradores ou personagens: seríamos a adulteração da autoria, reescrevendo o enredo à medida que as imagens tridimensionais assomassem aos sentidos. Às escuras, escrevendo sem critério, a não ser o cerdoso papiro legado para memória futura. Sabendo, contudo, que o papiro não sairia de casa, reservado ao íntimo exercício do palimpsesto vociferado pelo impulso volitivo dos sentidos alimentados pelas imagens 3D. Haveria instâncias arriscadas no exercício. Páginas de livros a evitar, sob pena de a simbiose dos sentidos (próprios e os importados das páginas lidas) ser o alfobre de desprazeres, dores, precipícios no limiar da morte, dependências várias. Experiências, talvez. A não ser que a simbiose se adestrasse de tal arte que, a páginas tantas, já não saberíamos o que era safra das páginas e o imaginário transfigurado em realidade mercê da impressividade 3D. Momento em que emissários da ponderação, no altar sufragando os limites do possível, aconselhariam a não sabermos deste estado imersivo e, ato contínuo, recomendariam a não leitura. Venceria o desafio, mesmo correndo riscos inomináveis: o risco traz a recompensa da literatura.

5.3.19

Salto à vara


Orelha Negra, “A Cura”, in https://www.youtube.com/watch?v=S8id5ZuolFE
Moral da história? Não há moral da história. Não há sequer história, como pode haver uma moral de uma história que não existe? E se existisse: teria de haver uma moral atuante? Faz parte das convenções: quando alguém conta uma história não é um narrador desinteressado, limitado à imparcialidade desse papel; é um agente interessado que procura encontrar os rudimentos de uma moral nas entrelinhas da história narrada. 
As histórias são instrumentais. Estão ao serviço da moral prosseguida. O seu lugar, que devia ser centrípeto, é adulterado. É difícil congeminar histórias que se autonomizem de um segundo sentido nelas embebido. Corresponde à desvalorização da narrativa e do enredo que a alicerça. Porque o narrador (quando é também autor) articula com um certo sentido moral, manobrando nos interstícios da narrativa para chegar ao objetivo moral pretendido. Pode-o ser pela afirmação de uma mensagem, uma moral que se distingue pela construtiva (mesmo que seja destrutiva na sua ação): é construtiva, porque o enredo se entretece na suposição de vir a desaguar numa moral afirmada. Mas também o pode ser pela negativa, a desconstrução de um etos, movendo a história através de uns corredores estreitos que terminam num epílogo rejeitado pela moral que se pretende afirmar. 
As histórias deviam ser exímias praticantes do salto à vara. Para poderem ultrapassar, e com suficiente margem de segurança, as tentações da moralidade que se abeirem das histórias. Para não as tornar reféns de imperativos de moralidade. Até porque a moral não é um valor medido pela sua singularidade, por ser permeável ao subjetivismo. Poder-se-á contrapor: restringir a associação de padrões morais a histórias é totalitário, uma possível castração de quem tece o corpo de uma história – e, por essa medida, recusável. Admita-se que sim. Admita-se, do mesmo modo, que uma moral arregimentada para coroar uma história pode provocar o mesmo efeito totalitário no destinatário da história, exposto a uma (na sua maneira de ver) inaceitável moral ungida pelo narrador da história. Não é que sejam danos de grande monta: uma moral vertida numa história que se amotine contra as preferências do leitor é uma moral que tem um efeito pedagógico: o leitor coloca-se nos antípodas dessa moral, construindo (ou reforçando) aqueles que julga serem os seus padrões. Se é que isso é uma prioridade. 
Uma história saltando à vara sobre os esteios morais encerra uma pureza que não se subordina a qualquer orientação moral. Dir-se-á: é uma histórica moralmente assética. E mais difícil de produzir, por essa razão. Todavia, ao ser moralmente assética não deixa de conter a sua própria moralidade: uma posição no sentido da não moralidade acaba por confluir numa posição moral. O que reforça a impossibilidade de desligar as histórias de um certo sentido moral.

4.3.19

Pisco sour


Einstürzende Neubauten, “Ich Warte”, in https://www.youtube.com/watch?v=hQDzt1Phbi4
O cotovelo pousado na mesa, a fazer de bengaleiro da cabeça pendida sobre a mão. Parece cansado. Absorto. À sua frente, ela dirige o olhar para a janela, dedilhando a paisagem sobranceira ao mar. Não falam. Esperam pela refeição depois de terem feito o pedido. Ele beberica um pouco de água – não lhe apetece vinho, não sabe porquê, não lhe apetece. 
Ela desvia o olhar do postigo que oferece um módico da paisagem catatónica; estuda as outras pessoas que amesendam no restaurante. Quase todos falam idiomas estrangeiros. Um sinal dos tempos. Dantes, quando a cidade estava amuralhada pelo seu rosto granítico, plúmbeo, repelia os turistas. Agora as coisas puseram-se diferentes: será do aquecimento global (porventura), o cinzentismo da cidade foi substituído pela constelação de cores que resplandecem por ação do sol que predomina. Não sabe ao certo o que ajuizar sobre a maré de turistas. Também não interessa. Eles continuarão a vir, emprestando à cidade uma paleta de cores cosmopolita. Independentemente do que ela achar.
Subitamente, apetecia-lhe um cigarro. Ele já não fumava há uma hora. Uma eternidade. Talvez fosse do apetite que era voraz, pois já não comia desde o pequeno-almoço (não houvera tempo para o almoço, que o exigente trabalho naquele dia o convocara para empreitadas urgentes – e ficava sempre bem, nestes tempos modernos em que fica bem as pessoas orgulharem-se que deixam quase todo o tempo no trabalho). Agarrou-se a um naco de broa. De seguida, atirou-se a dois canapés que faziam as vezes de pré-entrada. Ah, se ao menos esta modernidade não tivesse instituído as proibições higiénicas e ainda fosse possível fumar nos restaurantes! Procurou anestesiar os apetites com a distração do olhar. À falta de assunto, e continuando emudecidos, dava alvíssaras por um passatempo que disfarçasse a perenidade do tempo. Na mesa contígua estava sentada uma mulher lúbrica, com as curvas do corpo excessivamente delineadas por um vestido apertado. Teve de desvair o olhar. Não queria ser apanhado em falso. E o acompanhante daquela mulher exibia ciúme, fulminando-o com um olhar ao notar que a sua companhia estava sob observação desde a mesa vizinha.
Ela conseguiu perceber o deslize. Não deu importância. Debateu-se sobre a irrelevância do acontecido. Era mesmo para não dar importância porque não tinha importância (os instintos carnais são transversais aos sexos, numa confissão implícita)? Ou não tinha importância porque sentia que os laços se esbatiam? O mar calmo, na noite ausente de vento, ajudava a descompor as ideias. A música de fundo, aquele jazz reinterpretado para almas orelhudas, bem ao jeito da soporífera música de elevadores, não ajudava. A demora começava a ser insuportável. Ou talvez fosse apenas a mudez e os palcos diferentes em que se moviam que davam a impressão de o tempo se alongar além da sua medida. 
Ele interpelou o empregado de mesa. Ela pressentiu que ele fosse perguntar se o pedido demorava. Enganou-se. Ele pediu um pisco sour. Passou da água para o pisco sour! Ela não sabia se fora por acaso, ou um sinal através da bebida. De como estava amargo, a ficar fora de prazo. Indiferente aos pensamentos que vogavam, provou o pisco sour. Disse: “que zurrapa! Puseram limão em vez de lima. Onde está o sour desta bebida?” Ela levantou brevemente o olhar, fitando-o com algum desprezo. Apetecia-lhe responder: “a amargura da bebida foi dissolvida pela tua própria amargura.” 
Ficou em silêncio, a admirar a suave coreografia das ondas iluminadas pelos lampiões da avenida. Adiando-se.

1.3.19

Acelerador a fundo (short stories #98)


Beirut, “Varieties of Exile” (live at Music Hall Williamsburg), in https://www.youtube.com/watch?v=JNAm1t63vCI
          No apeadeiro deserto, o comboio de alta velocidade passa a alta velocidade. Parece um breve sismo, despenteando as terras que se sobressaltam com o troar veloz. “É desta têmpera que somos feitos”, atiras, sem recuares o olhar no vendaval detonado pelo comboio. “Como assim?”, replico, fazendo de conta que não sei ao que vou. “Neste vulgar mundo, em que quase tudo se congemina no adiamento, ou no arrastamento do tempo só para não se travar encontro com o sacrifício das empreitadas, não nos intimidamos. Queremos sorver até ao tutano todos os segundos oferecidos pelos relógios a que não damos atenção.” Inspiro, profundamente. As folhas das árvores ainda dançam sob o efeito do breve vendaval arquitetado pelo comboio de alta velocidade. Interiorizo as tuas palavras. “Tens razão. Connosco, o acelerador vai a fundo. Não diremos que vai sempre a fundo, porque também somos corredores de fundo e sabemos que, às vezes, temos de abrandar para reter nas mãos quimeras que não podemos desperdiçar.” Sem demora, acrescentas: “É disso que estou a falar. Mesmo nos interstícios, quando dizes que abrandamos, fazemo-lo à nossa maneira, de acelerador a fundo. Não queremos ser apanhados em falso por um qualquer demónio que pressinta a distorção do tempo.” Outro comboio, que não é de alta velocidade, estaciona no apeadeiro. Vagarosamente. Alguns passageiros fazem transbordo. Ninguém entrou nas carruagens – só lá estávamos nós. Ao assobio do funcionário do apeadeiro, o comboio inicia a marcha. Vagarosamente. Rangendo por todos os lados. Movendo-se a custo. “É disto que estou a falar”, repetiste, tossicando pelo meio, “nós somos os antípodas deste comboio. Sabemos que somos corredores de fundo, mas recusamos a ideia da capitulação. Somos, ao mesmo tempo, corredores de fundo e comboios de alta velocidade, quase sempre com o acelerador a fundo. Até quando sonhamos sonhos uníssonos temos o acelerador a fundo.” A voz emudeceu. Já não tínhamos nada para fazer no apeadeiro. Queríamos saber como era ser testemunha de um comboio de alta velocidade quando esvoaça, a duzentos e vinte quilómetros à hora, de acelerador a fundo, através de um apeadeiro.

28.2.19

Viewer discretion (short stories #97)


Rhye, “Feel Your Weight” (Poolside Remix), in https://www.youtube.com/watch?v=tdsH-yuCbCw
          Nos países nórdicos, não há cortinas a separar a intimidade dos lares da curiosidade dos forasteiros. Quem está habituado a querer da sua casa uma fortaleza, à prova de olhares indiscretos que naveguem nas ruas com o fito de espiolhar o que se passa dentro das casas iluminadas e não protegidas desse olhar intrusivo, o hábito nórdico estranha-se. Parece incompreensível que as pessoas não se importem com os intrusos que, a partir do exterior, selecionam o olhar para captar um naco da vida das pessoas que se passa dentro das suas casas. O erro é de perspetiva: ou porque os transeuntes respeitam a intimidade do interior das casas e não calibram o olhar para as casas que se oferecem ao exterior; ou porque, em havendo o hábito voyeur, dentro das casas ninguém se importa que as suas vidas não sejam tão privadas como daqui pensamos que são quando correm dentro de casa. Como as culturas variam e a distância entre um país latino e um país nórdico é muita, os costumes são diferentes. Das vezes que fui a países nórdicos, não tive a oportunidade de pedir a um habitante local a explicação para a ausência de cortinas. Pode dar-se o caso de as considerarem um ornamento dispendioso, não se justificando tamanho gasto para se protegerem da invasiva curiosidade de quem, de fora, não reprime um olhar sobre as casas abertas ao exterior por ausência de cortinas. Ou até pode acontecer que, em harmonia com a diversidade cultural, os nórdicos considerem as cortinas um utensílio fora de moda. Os nórdicos teriam a apetência para atribuir mais valor ao fator económico (a carestia das cortinas) ou ao fator estético (as cortinas démodés), não se importando de sacrificar o valor da privacidade quando estão no interior das casas. Pressinto uma terceira hipótese, não banal: das vezes que fui a países nórdicos, percebi que as pessoas são desinibidas e não se incomodam com a nudez (própria e dos outros). Hipótese em que a ausência de cortinas se estriba no à-vontade com que passeiam os seus corpos desnudados, sem ser motivo de perturbação para quem se desnuda e para quem é testemunha da nudez.

27.2.19

Quantos são os fracos?


Glockenwise, “Moderno”, in https://www.youtube.com/watch?v=sKb2RXrdo-s
Quantos são os fracos? Quantos são os que não se amedrontam no miradouro do medo, quantos são os que não têm medo de dizer que têm medo? Quantos são os que recusam a ardilosa coragem dos que dela se ufanam e atiram-se de cabeça aos tormentos povoados nas várias dimensões do tempo? E quantos são os fanfarrões que entoam a valentia ímpar e depois, quando dela precisam de convocatória, a encontram deserta, eles próprios entregues à solidão do medo? 
Não é só semântica. A valsa entre os temerosos e os destemidos é um palco artificial. Pois nem os primeiros são temerosos por capitulação, nem os segundos se encerram no alvéolo da bravura e enxertam uma dose alucinante de loucura. Não há lugares assim extremados. E mesmo que os houvesse, ver-se-ia, após cuidada decantação, que os temerosos são os mais corajosos e os destemidos se refugiam numa retórica distorcida que, após diligente depuração, se revela um logro.
Os pusilânimes não são uma máscara de si mesmos, hibernando na inação por receio dos efeitos adversos da ação. É errado tomá-los por vendilhões cercados pela sua venalidade, como se não fosse o tributo da coragem pertença do seu código genético. Serão precauciosos nos passos que dão, medindo criteriosamente as possibilidades e tentando apurar os resultados estimados de cada possibilidade. Serão lúcidos, não arriscam passos no escuro, ou um salto no vazio, pois não lhes é dado a perceber o que contém a escuridão ou se o tamanho do precipício não aconselha o salto no vazio. Compreendem o significado de irreversibilidade. E como não quadram com a estultícia do arrependimento, não são atores descomprometidos de loucas correrias pelo absurdo da incerteza. 
Os destemidos corporizam a vozearia inconsequente, o discurso gongórico, cheio de ornamentos que distraem da essência, vazio de conteúdo. Prometem façanhas mil. A facúndia das palavras, em que servem a verbalizada coragem, é a promessa de audácia. Fazem-se passar por levemente dementes, a demência como instrumento da bravura que só está ao alcance de quem não tem medo de nada. Como não é possível haver quem não tenha medo de nada, antecipa-se o logro. Talvez sejam os que mais vivem assoberbados pelos medos. E como, no íntimo, são assaltados pelos medos e se envergonhariam de os reconhecer em público (como se admitir um medo fosse prova de fragilidade), refugiam-se no fingimento que é o oposto do que são.
O vocabulário está trocado. Os corajosos são os temerosos e os que se fingem de corajosos são autênticos cobardes, todavia disfarçados do que não são. Os primeiros, que aparecem em palco personificando a fraqueza, são os que exibem robustez. Os segundos são uma impostura, a bandeira hasteada da fragilidade, todavia disfarçada de uma afoiteza que se estilhaça ao primeiro contratempo.

26.2.19

O homem das cavernas


Sharon Van Etten, “No One’s Easy to Love” (live on KCRW), in https://www.youtube.com/watch?v=DDbwS4h7m9c
Vá vossa excelência ao dicionário, caso se dê o caso de o étimo não figurar entre o vocabulário privado, e procure a entrada “atavismo”. Aparecerá “condição que exprime o reaparecimento, num indivíduo, de caracteres que pertenciam a gerações antepassadas e que tinham já deixado de se manifestar.” Ou poderá aparecer, em imagem a tiracolo, a fisionomia de vossa excelência, ostentada sobre a toga que o industria como dileto membro da magistratura, parafraseando a consuetudinária exigência de o considerar, a par de seus pares, “órgão de soberania”. 
Desça vossa excelência à rua. Coloquie com os transeuntes. Não recuse o trabalho de campo. Para perceber os ventos que sopram, que decerto não terá oportunidade de os experimentar se teimar em resistir do alto da sua torre de marfim, onde as imagens que ondeiam no seu imaginário são descoloridas e tresandam a mofo. Saia. Desprenda-se dos seus pré-conceitos: admita que o exíguo mundo que construiu na cabeça ainda mais exígua de vossa excelência é um anacronismo que o expõe ao risível, de cada vez que excreta sentenças que nem no século XVIII seriam aceitáveis. 
Não seja vossa excelência um homem das cavernas. Para seu próprio bem. A menos que a patologia esteja tão entranhada que nem dos ossos se consegue deslaçar e vossa excelência acredite que só consegue fazer as pazes com o travesseiro que acolhe o sono se continuar a exalar a misoginia criminosa. É criminosa, porque vossa excelência dá guarida aos criminosos que se servem da força bruta para maltratarem as consortes, na absoluta negação do laço que outrora fora cimento dos cônjuges, figurando ao lado dos violentos e contra as vítimas, alinhando com a bestialidade própria dos que usam a razão da força. Vossa excelência não vive no tempo dos homens das cavernas. Não são as donas meros ornamentos para alindar a existência de varões bem (ou mal) assinalados. Não creia vossa excelência no acosso dos deuses de antanho e liberte as amarras para a contemporaneidade que devia ser o seu chão. Desprenda-se dos mal resolvidos enigmas com o sexo feminino. 
Se vossa excelência persistir num comportamento a preceito de um homem das cavernas, não se abespinhe (nem lhe seja cometido o impulso de desatar a processar a eito) se alguém lhe disser que é um homem das cavernas. Pois o muito pequenino mundo que habita na cabeça de vossa excelência é o mundo que outrora foi albergue dos homens das cavernas. Quem pensa e atua como homem das cavernas não pode destinar à infâmia o epíteto de homem das cavernas. Sacuda a toga, puxe lustro às medalhas da soberania que não se cansa de exibir, ponha o conjunto a arejar. Por uma temporada demorada. E já que é dado às sacristias, peça auxílio a um cura que o cure da maligna intumescência que retarda o pensamento. Aproveite o sabático interstício e leia os fundamentos da filosofia do direito.
Vossa excelência tem todo o direito a ser um homem das cavernas (bem entendido). Todos precisamos de homens das cavernas. Como curiosidade arqueológica. E porque a coutada onde persistem os homens das cavernas é um bem inestimável: na dúvida, é só observarmos o habitat para sabermos os antípodas em que devemos estar. Vossa excelência excluída.  

25.2.19

Amor sem nós atados (ou amor desmascarado?)


Xinobi & Gisela João, “Fado Para Esta Noite”, in https://www.youtube.com/watch?v=71wUAZgC4CM
Em plena súplica: “anda deitar-te ao meu lado, fiz a cama de lavado.” Ela está à sua espera. Aconteça o que acontecer. Mesmo que ele mergulhe na indiferença e não corresponda à súplica. Ou que decida o que decidir e se deitar na “cama de lavado”, sem que ela dê conta que esse deitar conspurca a cama: não será menos do que um oportunismo, o simples reificar da vontade do homem que ela espera.
Uma súplica: será rima acertada com amor? Um jogo de piedades quadra com o arrebatamento do amor, com a entrega uníssona? A mulher rebaixa-se. Capacita-se, mero instrumento dos desejos do homem, que só vem quando lhe apetece e ela sempre disposta a acolhê-lo. Uma súplica – ela devia sabê-lo, se não estivesse hipotecada pela obscuridade da dependência – não é semântica tolerável no amor. Ou então, redefina-se o amor: faça-se dele um jogo descomprometido, um jogo sem regras, a entrega sem absolvição, a subalterna condição a que fica remetida a mulher incondicionalmente amante. 
Se ele vier, ela exulta. O seu amor será cumprido. Não arrisca interrogar se o mesmo acontece nele. É melhor não arriscar a pergunta: prefere não saber, para não ficar refém da angústia de uma resposta indesejada. Não admite a possibilidade. Não saberia lidar com a deceção. Sabe que não pode exigir nada. A posição dela é tão singela, é a de quem tudo tem para dar. É a sua prova do amor. Incondicional, como ela sabe que há muitos homens que só sabem lidar com esse desigual estatuto do amor. 
Se ele não vier, ela espera. É a identidade do seu amor por ele. Não dá conta da patologia em que se encerra, nesta dependência viciante – vilipendiosa, se ela quisesse dar conta. Ou, apenas, o espelho fiel da sua imensa fragilidade, e ela ali, exposta, entregando-se na plenitude, nem que seja (como será) instrumento dos caprichos dele. Não faz perguntas. Limita-se a saciar o desejo do homem. Pela sua maneira de pensar, é assim que se costura o amor por um homem. Um não sinalagma. Uma reciprocidade não respeitada, em que a ela correspondem os deveres e nele apenas repousam os direitos. Ela contempla o amor marialva e condescende. Ou nem percebe que um amor destes, desigual – tão desigual – não é amor. A fragilidade que a deixa tão exposta e sem forças impede a lucidez que chegava para detetar a marialva condição de um amor assim falsário. Nem chega a ser frugal, exceto da parte dela (se não fosse contada a parte dele doentia).
Ou ela pode desprezar todas as anteriores considerações porque apenas intui o prazer quando ele se deita na sua cama. Na dialética da carnalidade, ela não é atriz passiva. Tira o seu próprio proveito. Não o admite (ele há ainda muito homenzarrão que se incomoda se souber que o prazer é de proveito bilateral...). E só não o admite porque tem no homem que se deita na sua cama apenas quando lhe apetece um homem-objeto. 
A vulnerabilidade não é dela. É dele, que sempre que se ausenta da cama e ostenta pose triunfante (no soez atrevimento dos marialvas), nem sonha que é tão objeto como ele dela faz.

22.2.19

Um mal menor não deixa de ser um mal (aguarela)


Badbadnotgood, “I Don’t Know” (ft. Samuel T. Herring), in https://www.youtube.com/watch?v=iv82_ZSwa4Y
Uma escolha por catálogo: percorrem-se as páginas, demoradamente, cotejando as alternativas. Dir-se-ia: a demora não é bom sinal, significará que é difícil acertar o equinócio da escolha; ou pode ser apenas a exigência da responsabilidade que determina a conspícua análise de quem se oferece no leque de alternativas. 
Há os que não tergiversam. Estão habituados a escolher sem pensar; escolher é só um hábito, e não há o hábito de interrogar criticamente as escolhas de mandatos selados às cegas. Outros não se contentam com a falta de critério. Examinam as várias propostas. Comparam-nas. Ajuízam-nas, procurando saber qual delas é a que recolhe as preferências, tudo o resto sopesado. Muitas vezes, as alternativas estão longe de ser convincentes. A educação convencionada exige uma escolha, ainda assim. Nem que seja uma escolha que se distingue pelo critério do “mal menor”. Não escolher é apostasia, uma inaceitável demissão que não quadra com a responsabilidade de cada um. 
No fundo, trata-se de um concurso em que só entram medíocres. O critério está em apurar o menos medíocre. Não deixa de ser um medíocre. Num rasgo cínico (e doloroso aos olhos dos tutores da impetuosidade politicamente correta), poder-se-ia rematar o raciocínio com o pressentimento de que a mediocridade é o espelho de quem escolhe; uma fusão indeclinável, pois os medíocres sentem a tentação de se alistarem onde já campeiam os medíocres que têm tido o pote na mão. 
(E só não se avança com esta tentativa de explicação para não ser apodado de elitista, acusado de descair para o insuportável autoconvencimento de pertencer a um escol iluminado. Fica registado, para os devidos efeitos.)
E quantas não são as vezes em que a escolha se afunila para os que se sabe, à partida, serem os poucos com hipótese de saldar o pleito com um triunfo? Esta estreiteza exclui outras hipóteses, algumas delas possivelmente mais meritórias, mas que se convenciona, desde o início, que não são sedutoras para um numeroso grupo dos que escolhem. Quantas vezes, neste afunilamento, a trama compõe-se de modo a punir os que corporizam o mal maior e, nessa medida, se escolhe o mal menor. Que não deixa de ser um mal. A escolha é entre medíocres, uns piores e outros nem tanto. Esta é a têmpera de gente pouco exigente na escolha – talvez por ser pouco exigente consigo mesma. 
A psicologia da aceitação da mediocridade é angustiante (menos para os que não dão conta dela). O mal menor confunde-se com solução prodigiosa, num jogo de sombras que serve para caucionar o fingimento de que o mal menor não é um mal. O olhar embacia-se com outros considerandos, tecendo-se na prioridade de combater o que é considerado o mal maior. No âmago deste raciocínio binário (em que a escolha pende entre o mal maior e o mal menor), a anestesia das mentes oculta a perceção de que o mal menor é, em todo o caso, um mal. Quem, no seu juízo inteiro, aceita escolher um mal, ainda que seja o menor? Quem assim se comporta tem a noção do mal que está a autoinfligir? Não tem. A anestesia é de tal forma potente, que a bissetriz apontada para a recusa do mal maior leva a aceitar o mal menor como sucedâneo de um bem a cumprir. Mas não passa de sucedâneo. O zénite do fingimento.
Esta podia ser uma aguarela desta terra contumaz.

21.2.19

A implausível história de uma galocha perdida na autoestrada (short stories #96)


Spiritualized, “I’m You Man”, in https://www.youtube.com/watch?v=4vNrHoLS1zc
          O que é feito da galocha?” Ninguém sabe dela. Está para ali, na arrecadação da carrinha, onde vão as sobras sem utilidade, a outra galocha. Solteira. É melhor procurar entre o entulho, só para confirmar se a galocha não se encontra submersa nos detritos que vieram para as escombreiras. Não está. As mãos encardidas são o aval. O entulho foi mexido e remexido pelas mãos contrariadas. A galocha está viúva. Que será do paradeiro da galocha ausente? No dia seguinte, depois do sono e a caminho de uma rotineira jornada, um dos passageiros despertou do torpor e exclamou: “está ali a galocha! Ali! No separador central da autoestrada!” O motorista não podia parar de repente para não causar um acidente, que àquela hora ainda muito matinal já o trânsito morde a paciência dos mais ensonados (ou talvez não, por estarem ensonados e, assim sendo, absortos). “O que fazemos? Saímos na próxima saída da autoestrada e damos a volta?”, perguntou o motorista, à espera da deliberação democrática dos demais. Os outros ficaram em silêncio. “Ninguém diz nada? Estamos quase a chegar à próxima saída.” Desconversaram com o silêncio. Não estavam interessados em andar às voltas, como se tivessem sido empenhados num labirinto e, ainda por cima, por causa de uma galocha, um objeto inanimado e com valor residual. Todos devem ter pensado, na imersão do seu silêncio, “assim como assim, um par de galochas não custa muito dinheiro”. Não conseguiram ter sossego durante a jornada de trabalho. Não paravam de pensar no absurdo da galocha que perdeu o par; estavam mais preocupados com a galocha que jazia, inerte e imunda, encostada ao separador de cimento da autoestrada. Nem sequer veio à ideia que a galocha sobrante já tinha sido despachada para o lixo. Se os seus estados de espírito fossem medidos por economistas, diriam que aquela foi uma jornada improdutiva. Quando regressaram, o motorista perguntou ao passageiro que tinha avistado a galocha pelo lugar em que a vira. “Foi mais ou menos por aqui...um pouco mais à frente.” No dia seguinte, ao passarem pelo mesmo lugar, o motorista abrandou e encostou-se à direita, preparado para estacionar na berma, se preciso fosse. A galocha tinha sido recolhida – ou teria sido projetada para o outro lado da autoestrada, conjeturaram alguns, na esperança de não ter sido destinada à fatalidade, a galocha. Aquele dia também foi muito improdutivo. Era o que se arranjava, com operários imbuídos de tão apurada sensibilidade.