17.4.19

Cabo do Mundo (short stories #109)


Cocteau Twins, “Pearly Dewdrops’ Drops”, in https://www.youtube.com/watch?v=s-5Xgw6d3h0
          Já tinha ouvido falar do fim do mundo – e não era de apocalipses que se tratava, que não desvia a atenção para imprecações tais. O fim do mundo. Teria de ser em algum lugar, imaginava, sem dar crédito aos mapas que identificam a contiguidade do mundo, o que desmentia a ideia do fim do mundo. Não cuidava de defender a teoria do mundo plano – que ficasse bem entendido. Não era incompatível reconhecer o planisfério e um lugar que fosse o fim do mundo. Não procurou desalmadamente os vestígios de uma cartografia que desse as pistas para o fim do mundo. Um dia, ao acaso, encontrou o Cabo do Mundo. Saiu do carro e meteu-se à aventura nas escarpas pedregosas. Teve todo o cuidado, pois os limos e os musgos e os moluscos atapetavam as rochas à medida que o cabo se adelgaçava no território do mar. Era um pedaço de terra que investiu sobre o mar, ganhando-lhe uma unha proeminente. Também se podia dizer – perorou à medida que avançava para o miradouro natural na extremidade do cabo – que fosse ao contrário: o mar avançou terra dentro, mas aquele pedaço resistiu à colonização do mar. Não interessava a ordem dos fatores. Às vezes, as teorias são estéreis matérias que apenas servem para distrair do essencial. Demorou quase meia hora até sentir que no horizonte do olhar apenas sobejava o mar imenso. Nas suas costas estava cunhada a terra de que ele era o derradeiro curador. Sentiu-se testa-de-ferro da humanidade, que sabe ter na terra o seu elemento natural. O mar, por mais que tivesse sido navegado, não era o elemento natural do homem. Não é misericordioso, o mar. Sentado como penhor da terra, como se fosse o seu peito a muralha de uma barragem que trava o avanço do mar, não intuiu a admiração de poetas pelo mar – como podia o mar iracundo ser o pressentimento de um poema? Combatia o impulso interior de contemplar o mar e deixar a terra, nas suas costas, entregue ao olvido. Por mais que não quisesse, estava rendido. O olhar percorreu demoradamente o horizonte, onde só o mar tinha lugar. Era mesmo o fim do mundo, aquele sítio. A terra sumira-se nas profundezas do mar.  

16.4.19

O Belanciano descobriu que o capitalismo falhou


dEUS, “Ghost (From Keep You Close)”, in https://www.youtube.com/watch?v=DU0Q0U08gAc
Vítor Belanciano descobriu que um dos mais ricos do mundo descobriu que o capitalismo falhou. Em modo “eu descobri a pólvora” – como se muitos outros, antes dele e de Ray Dalio, o magnata que cita em abono da sua prosa, não tivessem feito correr rios de tinta sobre o anunciado funeral do capitalismo. Muitos outros: desde os que elegeram o capitalismo como o centro da sua ideologia, cerzida como antítese do capitalismo; passando por aqueles que enriqueceram à boleia do capitalismo e, a certa altura, ou por um mal encenado oportunismo, ou por um rebate de consciência tardia, ou apenas por manha própria de uma bem orquestrada campanha de relações públicas em proveito próprio, vieram oferecer o seu testemunho de como o capitalismo está podre e sem remédio. 
O tema não é original. Não é a falta de originalidade que me incomoda no argumentário de Belanciano. É um certo enviesamento que fica patente ao ler as palavras de Belanciano. Não é novidade que o capitalismo é responsável por assimetrias de riqueza entre os poucos muito ricos e uma multidão de remediados e de pobres. O que faltou a Belanciano foi uma investigação sobre as desigualdades de rendimento numa amostra de países, utilizando uma série intertemporal. Belanciano concluiria, se não caísse na tentação da conclusão fácil que atrai audiência, que ao longo do tempo esta diferença tem vindo a diminuir. 
É factual que há fortunas colossais, que os arautos da igualdade consideram obscenas. Há magnatas que procuram extrair abusivamente a riqueza que puderem sem se importarem com os demais. Mas convém evitar as generalizações, por razões de ordem metodológica e de honestidade intelectual. Não me custa alinhar com Belanciano na denúncia dos excessos do capitalismo, daquilo que há vários anos cunhei como exemplos de “capitalismo suicidário”. Há capitalistas maus e capitalistas virtuosos, como há sindicalistas maus e sindicalistas virtuosos – e cronistas bons e cronistas virtuosos.
Mas há um argumento de Belanciano que chama a atenção. A propósito de vários magnatas reconhecerem a necessidade de pagarem mais impostos como instrumento de combate às desigualdades, Belanciano sentencia: “Claro que só fala em reforma [do capitalismo], não em abandono. [Ray Dalio] Parece acreditar que medidas filantrópicas ou um tipo de capitalismo consciente podem ser soluções. Mas a filantropia, por mais boas intenções, perpetua o modelo que se critica, sendo também uma forma de exercício de autoridade. Da mesma forma, esquece que se a elite à qual pertence tem muito dinheiro é também porque tem muito poder, numa altura em que a política se subordina à finança, não existindo mecanismos de regulação globais. O cenário só mudará com mudanças políticas e não com humanitarismo.
A prosa seria digna de uma lição de sapiência do Prof. Boaventura – e o próprio Belanciano ficaria bem na galeria dos lentes do Centro de Estudos Sociais. Regresso àquelas palavras de Belanciano: se os muito ricos pagam poucos impostos, são acusados de usura e de insensibilidade social, perpetuando um modelo de desigualdades. Se um magnata, em golpe de consciência (ou não – mas não vem ao caso determinar a intencionalidade), declara que está disposto a aumentar o seu contributo para o fisco, denuncie-se a manobra que é um truque para manter o estatuto de dominação. Ou se paga poucos impostos e está mal; ou também está mal a “filantropia” (cito) de quem admite pagar mais impostos. Ou, ainda por outras palavras: quando a filantropia parte dos ricos é porque não é filantropia genuína; mas se os ricos se recusam a ser filantropos, são apostrofados com os piores epítetos. O que quer Belanciano, afinal? Que os magnatas sejam expropriados de uma parte de leão da sua riqueza? Que só seja legítimo impor-lhes a espada do fisco severo se a iniciativa provier do meio político, devendo, de preferência, pesar sobre os seus dorsos contra as suas vontades? Ou se um muito rico disser que está disposto a pagar mais impostos, pergunte-se-lhe até onde está disponível a ir e faça-se cair sobre ele a espada do fisco em dobro?
            O capitalismo falhou. Está decadente – e o que decai acaba por morrer, um dia. No dia seguinte, dir-se-á: viva o capitalismo! Pois o próprio Belanciano, em rutura com a citação anterior, acaba por anuir que “(...) as soluções não têm de ser exteriores, mas ensaiadas a partir do próprio capitalismo.” Não muito depois, contudo, Belanciano volta a ser apanhado noutra curva sinuosa, ao lamentar que estas reflexões que partem de dentro do capitalismo e de seus eminentes representantes é como se “(...) até a lenta desintegração do capitalismo já estivesse a ser apropriada pelo próprio capitalismo.”

15.4.19

O palco é o estúdio onde passa o noticiário


Ivy, “I Miss Myself”, in https://www.youtube.com/watch?v=ro3wYU3ewIc
No centro do palco, uma mesa estilizada acolhe o pivot que lê o noticiário. A mesa está cercada pelas cadeiras onde o público se senta. Uma vidraça separa o público do ator que encarna o jornalista. Uma panóplia de ecrãs nas costas da audiência confere realismo à peça. Por esses ecrãs desfila uma vertigem de imagens que não são atuais: as imagens constituem um repositório da história do século XX e dos alvores do século XXI. As imagens passam sem som. O público não as vê. As únicas que estão à frente dos seus olhos situam-se longe, na outra extremidade do palco, o que impossibilita a cuidada depuração. E o público é convidado a dirigir a atenção para o ator que faz as vezes de jornalista. As imagens que passam nos ecrãs são apenas cenografia. Talvez dispensáveis, como muitos dos acontecimentos que estão na sua origem.
O ator lê notícias avulsas. Entre duas notícias, a reportagem exigível para traduzir o noticiado em imagens. Essas imagens estão fora da peça. O público concentra-se no desempenho do ator-jornalista, que descontrai de cada vez que é simulada a entrada de imagem exterior na emissão. Os seus trejeitos, o copo de água que o dessedenta, o lenço trazido pela assistente de produção que ajuda a limpar uma ligeira escorrência de suor, uma tossiqueira que ainda bem que não aconteceu em direto, comunicações com a régie, apenas se ouvindo metade do diálogo (as entradas que têm a viva voz do ator-jornalista). 
O ator-jornalista, enjaulado no seu micro cenário, não se apercebe da multidão que o cerca. A vidraça tem sentido único. Só os espectadores conseguem ver o pivot. Este não desconfia do escrutínio em direto. Está à vontade. Não se inibe de descomprimir com abundante uso de vernáculo – as restantes pessoas em cena estão num patamar inferior na hierarquia e, assim como assim, os pivots que leem notícias em estações de televisão são as superestrelas do jornalismo, têm privilégios que mais ninguém tem. O público testemunha os comentários do jornalista enquanto as imagens que não existem vão para o ar no noticiário que apenas é visto naquele palco. O desdém pelo político A, a indiferença em relação ao poderoso ministro das finanças, os comentários de teor sexista quando uma atriz de Hollywood aparece a denunciar um ator pelo assédio sexual, o respeito sepulcral quando o primeiro-ministro aparece em cena (nas quatro vezes que aparece em cena, pois foi dia de um desmentido, um anúncio solene de promessa eleitoral – ou, dir-se-ia, um anúncio de solene promessa eleitoral – e duas inaugurações), a comiseração pelo político B, a admiração por um desportista emergente, a observação boçal sobre os dotes corporais de uma cantora mestiça. 
O público que enjaula o ator-jornalista não tem como pôr-lhe freio. Apetecer-lhe-ia dirigir interrogações, corrigir observações impertinentes (não reprimindo um certo gosto soez pela censura, que pouco se aprende com a História recente), calá-lo entre as notícias, sem perceber se a logorreia entre duas notícias é apenas um expediente para aligeirar do estado nervoso que se abate sobre o jornalista, ou se é caso de insolência. Não é possível discernir as fronteiras do fingimento. Não é possível a intervenção quando dão conta da parcialidade do pivot. A mesma notícia lida pelo mesmo pivot, no segundo ensaio fazendo de conta tratar-se de outra pessoa com outras preferências, soa diferente. Um rosto sorumbático contra um rosto que não reprime um esgar que contém desdém. A voz colocada sem modulações contra a voz que se arrasta no limbo do cinismo. A mera leitura da notícia contra o mesmo acrescentado de um irresistível comentário pessoal (irresistível, na perspetiva do pivot). O galopar de notícias cirurgicamente escaladas para embelezar a imagem do governo em funções, sem direito a agravo ou a contraditório – até que um espectador, não se contendo, dispara bem alto: “hoje a oposição não trabalhou?”, vendo-se mais tarde a saber que aquele espectador figura na ficha técnica da peça (é um ator-espectador).
À saída do teatro, pede-se aos espectadores um endereço de correio eletrónico (e a autorização exigível pela lei de proteção de dados pessoais), informando-os que vão receber um questionário sobre o desempenho do pivot. Para convencer os espectadores a contribuírem com a sua análise, os encenadores prometem que as respostas serão levadas em consideração. Informam que a peça é dinâmica: o texto é reescrito no final de cada semana, depois de apurados os inquéritos devolvidos pelos espectadores anteriores. Uma peça dinâmica. Que é refeita sob a batuta do sentir dos espectadores.
O pivot é muito menos importante do que o seu narcisismo manda dizer.

12.4.19

Curso breve que ensina a agarrar oportunidades


Rosalía, “De Aquí no Sales (Cap. 4: Disputa)”, in https://www.youtube.com/watch?v=vy4lZs8fVRQ
Para não medrar no arrependimento – esse monumento à estultícia – não podem as pessoas desaproveitar oportunidades que caiam em seu amparo. O que exige, em primeiro lugar, que se saiba o que é uma oportunidade. A oportunidade não traz cartaz a tiracolo anunciando-se como tal. Cabe às pessoas serem os próprios detetives de oportunidades. Cabe-lhes a lucidez de saberem distinguir uma oportunidade de um engodo, que se reduz a um dececionante nada.
Inventariada a oportunidade, é preciso saber como a agarrar. As oportunidades, não tendo rosto, podem ser um caso de difícil atração. Não são como as moscas que invadem o espaço aéreo e transportam incómodo, visível como esbracejamos para as afugentar. Ao contrário, as oportunidades são aqueles insetos metafóricos que gostaríamos que aterrassem em nosso corpo e que nele se embebessem. Pois não é suficiente a oportunidade escolher-nos como seu hospedeiro; temos que dar um contributo, não podemos ser um agente passivo da interação: é neste momento que se equaciona o agarrar da oportunidade.
Nesta arte, como em todas as artes, é exigível a destreza do ator que pretende agarrar uma oportunidade. Em alguns casos, a destreza pode nem ser precisa, se o dom for tão intenso que um gesto simples como o aterrar da oportunidade logo a consubstancia num tangível. Para a maioria das pessoas, porém, a passividade é garantia de não aproveitamento da oportunidade. Que tão depressa pousa no ombro como se faz ao voo outra vez, num indiferente bater de asas ao sentir que nada foi feito para ser agarrada (a oportunidade). 
(Pode dar-se o caso de a passividade ser intencional. A pessoa dá conta da oportunidade, mas, por razões que não importa apurar – porque apenas a ela dizem respeito –, deixa a oportunidade zarpar noutra direção. Não querer agarrar a oportunidade não é sinónimo de a desperdiçar.)
A quem esteja interessado em agarrar uma oportunidade, o conselho do curso breve: deve começar por apurar a lucidez, o critério para filtrar o que são oportunidades e meros ardis que apenas fazem perder tempo e inflacionam as ilusões; deve estimar se a oportunidade é conveniente no momento considerado (podem as circunstâncias jogar em sentido adverso); preenchidas estas condições, deve habilitar os sentidos para agarrar a oportunidade com todo o cuidado. Não deverá ser um gesto brusco, sob pena de magoar a oportunidade e de a inutilizar. Aconselha-se a mesma gentileza de gestos, a mesma sensibilidade, que um caçador de borboletas usa na sua função.
Desaconselha-se vivamente, na hipótese de a argúcia não ter sido capaz e a oportunidade não tenha sido agarrada, a utilização de uma armadilha para apanhar a oportunidade durante o voo de fuga. As oportunidades ficam inutilizadas quando são agarradas contra a sua vontade.

11.4.19

O homem que não gostava de partituras (short stories #108)


The Art of Noise, “Close to the Edit”, in https://www.youtube.com/watch?v=-sFK0-lcjGU
          Estranhava os estranhos, como quem se sente sem chão numa terra desconhecida. Fosse onde fosse. A começar pela terra a que se convencionaria chamar “casa”, ou “terra-mãe”, ou o referente de “naturalidade”. O rosto não escondia o esforço que o consumia por dentro, no ensaio por se manter à tona dentro das convenções que exigem um mínimo de semelhança com os semelhantes. O mal era dele – e também não o escondia. Desde pequeno. Não lhe dessem partituras que fossem roteiros obrigatórios. Não lhe dessem mapas com instruções precisas, passo a passo, dele fazendo uma simples marioneta orquestrada por outrem. Não lhe dessem manuais de instruções. Ou comandos, escritos ou verbais. Nunca quis nada disso. Por pressentir que comprometia a liberdade. Não condescendia com os que ousassem apresentar-lhe uma partitura, um mapa, um manual de instruções, comandos escritos ou verbais. Não fingia aceitação. A recusa era terminante. Em maus modos, para cavar a confrontação, se preciso fosse. Não transigia com estes atos, deliberados ou não, que fossem por ele vistos como uma hipoteca da alma. Nem com as suas próprias coisas tolerava a desarte da organização metódica. Não sabia o que era ser metódico. Pelas experiências dos outros que tomara conhecimento, os planos são uma mortificação porque agrilhoam as pessoas a um plano. Com as suas baias delimitadas, das quais não podem sair. As baias, elas próprias, produto das algemas que os próprios se autoimpõem. Não queria tamanha corrupção da alma. Tanto fazia que as partituras, fosse qual fosse a forma que assumissem, fossem autoimpostas ou produto da vontade exterior. Preferia a arte da improvisação, que tinha como contraste do método (por isso tido como desarte, autêntica tragédia da espécie pelas amarras que interioriza). Para tudo arranjava modos de improvisar. Admitia que nem sempre o resultado era o esperado. A improvisação debate-se com uma miríade de incertezas que se desmultiplicam em variáveis aleatórias. Tudo se jogava, portanto, contra a improvisação. Mas sossegava-se: por maioria de razão, a miríade de incertezas desmultiplicada em variáveis aleatórias não era acautelada por nenhum plano, por mais bem congeminado que fosse. 

10.4.19

Amaciar o tempo


Nils Frahm, “A Walking Embrace”, in https://www.youtube.com/watch?v=DA5AocN0ons
É melhor amaciar o tempo. Deixar a voracidade perder fulgor, aquela que arranca o suor das veias. O melhor remédio: uma distração, por exemplo. Desviar o pensamento. Desviá-lo da inquietação do momento. E voltar a amaciar o tempo, reduzir as suas arestas para que ele deixe de ser cicatriz. 
As convulsões interiores pedem um refluxo. Um poema em jeito de grinalda que dissolva a amargura. Terá de ser um poema capaz, categoricamente capaz. A convocar toda a sátira por dentro. Pois a sátira tem o condão de diluir o sangue fervente, de o aplacar dentro das veias incandescentes. O sótão da memória é o manancial necessário. Pode-se convocar O’Neill, Césariny, Adília, Pimenta. Ou o recentemente conhecido Jorge Sousa Braga. Como auxiliar de memória e rastilho da redenção, pode-se recuperar qualquer outra forma de humor, Monty Python, por exemplo. 
Ao mesmo tempo, e como serviçal da função em curso, podem entrar, em contramaré, pedaços risíveis da memória coletiva (ou apenas da memória individual). Frases e episódios de figuras públicas, que por serem tão grotescas se tornam risíveis. A política costuma ser um viveiro. Ou também se podem convocar as angústias do momento, as que enxameiam as notícias dos jornais ao ponto de quase os transfigurarem em divãs de psiquiatria ou em fartas páginas de um obituário coletivo. Não serão tais perplexidades se não instrumento para contornar a inquietação que se soergue em pleno palco. Às vezes, são necessários expedientes para ultrapassar as fragilidades. Formas de enganar essas fragilidades, fazendo-lhes uma finta digna de um artista circense. E intuir as muito piores desgraças que grassam à volta.
Entretanto, o tempo vai amaciando. A sua ebulição perdeu o epicentro. Os segundos já não são o excruciante lugar onde os contrafortes interiores foram atingidos por um tumulto. No parapeito da lucidez, inventa-se o modo de tatuar as cicatrizes pelo desejo de um porvir desapoquentado. E o tempo vai amaciando, os segundos já não cavalgando uns em cima dos outros numa correria caótica, quase apoplética. 
Os legados servem para depurar as contrariedades. Pois não há melhor memória do futuro do que um chão fértil, as flores garridas que se sobrepõem ao sorriso, as palavras docemente entoadas, o estribilho preferido como mnemónica do saber, de um saber que não aviva a cal propositadamente vertida sobre as feridas – antes, aprendeu a mitigar os efeitos da cal. Porque agora é empreitada fácil, a cicatrização das feridas. 

9.4.19

Jogar no escuro (short stories #107)


Cavalheiro com Xana, “Ninguém Me Avisou”, in https://www.youtube.com/watch?v=9c-3F-k4pZw
          Ninguém me contou que há tanta maldade a mestiçar-se com o que à nossa volta se move. Ninguém me disse que podemos ser apenas foliões sem tergiversar no teatro das seriedades. Ninguém me pôs de aviso contra as idolatrias mesquinhas, a devassa da ingratidão, as marés tempestuosas, as palavras desmentidas, as palavras que valem o contrário de quando são ditas. Ninguém me contou que há fingimentos em cascata e que já não é possível discernir quando o fingimento se substituiu à porosidade da pele gasta. Ninguém me disse para saber cair como os gatos. Ninguém me avisou das contas intrujadas dos astutos que só esperam pela primeira oportunidade de se passarem por impostores disfarçados de sedutores. Ninguém me contou que as religiões não sabem terminar com as comezinhas coisas que compõem a imperfeição do mundo. Ninguém me disse que as rodas em que nos movemos não são à prova de sobressalto. Ninguém me pôs de aviso para a noite medonha e de como os pesadelos se aproveitam da penumbra para adejarem vultos que esbracejam ameaças tumultuosas. Ninguém me contou que as estações medram nos apeadeiros próprios que foram por outros escolhidos no calendário. Ninguém me disse que a fome de poder dá de comer a tanta gente. Ninguém me avisou contra os tonitruantes mercadores nem da sua mercadoria contrafeita. Ninguém me contou que o campo de flores em que arrastamos os pés é uma ilusão. Ninguém me disse que éramos capazes de mentir aos desfiladeiros. Ninguém me pôs de aviso que não é possível andar em cima da água. Ninguém me contou que o hedonismo não é reprovável coisa, como ensinam os manuais dos costumes considerados. Ninguém me disse para ser honesto. (Talvez estivessem experimentados nos estertores que se abatem sobre quem considera a honestidade.) Ninguém me avisou para trazer armadura a preceito contra as pessoas outras. E, contudo, ajuízo o tirocínio – forçado, a expensas da minha algibeira de emoções – como o preço necessário de ser alguém que pertence a este mundo. Não precisei que alguém mo dissesse. Há matérias que só podemos tê-las satélites de nós se deixarmos a autoaprendizagem a combinar com o tempo incaracterístico.

8.4.19

Trás-os-Montes


Hot Chip, “Hungry Child”, in https://www.youtube.com/watch?v=rOnMZALLQPk
Não será pela crueza da paisagem que te renegam, Trás-os-Montes. Não será pela dureza das gentes que te abjuram. Pois os modelos não são a paráfrase da perfeição, e se alguém protestar a favor do vencimento da perfeição atirem-lhe com as injúrias todas que conhecem para desfazer a mentira. 
É Trás-os-Montes desassombrado, sem maquilhagem, assim, como veio ao mundo, o epítome do estado natural prévio à mão do homem, que se mostra sem se querer mostrar. Envergonhado, pois não esqueceu um exílio a que esteve condenado quando as estradas eram suplício: os modos agrestes não serão cartão de visita para o forasteiro. Mas quem capitula à primeira impressão? Só os impacientes, os que diletantemente se entontecem com os holofotes da aparência, e depois não se incomodam por vogarem num mar vazio onde as palavras se tornaram exangues. Trás-os-Montes traz-lhes dissabores, por não descobrirem o tempo paciente que é a caução para redescobrir pequenos oásis, ou apenas a paisagem que obedece ao princípio geral da crueza ilimitada. Os elementos oferecem-se como são, sem encenações. 
Trás-os-Montes não é para qualquer pessoa. Hoje, as pessoas encantam-se com as cintilações espúrias que se soerguem na espuma imaterial. São fugitivas das coisas duras, as pessoas, mesmo que a sua dureza seja o fiel da autenticidade. O melhor que está em Trás-os-Montes é a autenticidade. Os planaltos pedregosos que terminam em abruptos precipícios que escondem tumultuosos caudais de rios. As montanhas que, vistas dos vales, se encadeiam numa fina silhueta, e que ao longe iludem a árdua empreitada que é subi-las. Os promontórios onde se respira um ar inteiro, onde paradoxalmente parece que o ar não é rarefeito e o sangue rejuvenesce pelo pulsar das veias ávidas. A tela acobreada quando os castanheiros se vestem com a folhagem outonal. E há os patamares quiméricos do Douro, uma paisagem que, apesar de ter sido desenhada pela mão do homem infatigavelmente criativo, não deixa de constituir o fermento do Trás-os-Montes que não pede meças ao belo. Há a invernia medonha, a que se segue o estio infernal. As pessoas, tão depressa rudes como depois docemente acolhedoras, generosas. 
E Trás-os-Montes, uma coisa e o seu contrário, o sortilégio escondido num canto do mapa.

5.4.19

O homem que dizia adeus aos comboios (short stories #106)


Sofa Surfers, “Sofa Rockers” (Richard Dorfmeister Remix), in https://www.youtube.com/watch?v=HAGZ3m_9N_8
          Dentro dos velozes comboios era difícil apreciar o homem que estava a todo o tempo (pelo menos, de cada vez que passava um comboio) a acenar para quem o via dentro do comboio. Os comboios vão sempre apressados e a paisagem escorre como um borrão indistinto. Os passageiros habituais, por serem habituais, não prestam atenção ao que se passa fora do comboio. Ora leem, ora conversam com os passageiros outros que também são assíduos, ora dormem. Era um ou outro passageiro não assíduo que, com olho de lince, anotava a presença de um homem pálido, inerte, em constante adeus. Ficavam perplexos, alguns dos efémeros passageiros: temiam que aquele adeus fosse um presságio e que alguma coisa de mal acontecesse – ao comboio, ou que a desfortuna apenas acossasse o passageiro que desse conta do homem em constante acenar em forma de adeus. Outros, menos dados às coisas angustiantes da vida, sorriam. Sorriam porque sentiam conforto ao verem um homem tomar parte do seu tempo para emprestar um pouco de simpatia ao comboio. E como o homem era sempre visto por todos os comboios apressados, dizia-se que sabia de cor os horários dos mesmos. Um dia, por causa de uma avaria na catenária, os comboios circulavam mais devagar naquele segmento da linha ferroviária. Os passageiros frequentes continuavam entretidos nos seus rotineiros afazeres (a leitura, a conversa, o sono em débito), como se com os afazeres rotineiros conseguissem triunfar sobre a rotina da viagem. Um ou outro passageiro efémero não ficaram indiferentes à esfíngica personagem que acenava mecanicamente na direção do comboio. Não parecia uma figura de carne e osso. Se fosse numa rua movimentada da cidade, onde os transeuntes que mais se acotovelam são turistas, compreendia-se: os homens-estátua procuram um magro pecúlio junto das pessoas mais sensíveis (os turistas, quando estão em turismo). Não era o caso. Aquele lugar era ermo, com campos e campos à volta, sem casas nas imediações. Os passageiros efémeros com dotes de observador tiraram a pinta do homem que acenava para dentro dos comboios: era um espantalho; um espantalho tão perfeito que, à velocidade voraz dos comboios, se podia jurar ser gente de carne e osso.

4.4.19

Nem um euro para o peditório do “dantes é que era bom”


Modernos, “Sexta-feira”, in https://www.youtube.com/watch?v=8ag4OULEmr4
Dantes é que era bom”: é a prece, ou o pranto (ainda estou para entender), dos profetas do tempo enclausurado na porta férrea da memória. “Dantes é que era bom”, pois agora operou-se a transfiguração do tempo e de todas as coisas, e eles, adulterados, tornam as pessoas imarcescíveis em saudades autênticos peixes fora de água. Pois se “dantes é que era bom”, por que não cuidam da reabilitação do tempo museológico em que vivem aprisionados? 
É numeroso o exército dos que aiam pela repristinação do tempo pretérito. Não se reconhecem nos vários hoje que passam pelas mãos. Talvez tenham ficado para trás e não lhes ocorra que a marcha contínua do tempo vem apalavrada à inovação. Tudo é composto de mudança. Os que ficam excluídos, por vontade própria, dos ventos da mudança, manifestam um sentido pesar que a modernidade se tenha esquecido do passado. Não se cansam de começar frases com “dantes é que era bom” e de ostentar à lapela o exaurido conservadorismo. A caução de que precisam para autojustificarem a aversão aos tempos modernos. 
Não cuido de uma apologia da modernidade, da que está em sintonia com o tempo atual, ou de qualquer outra que esteja prometida para o porvir. Ser-se-á dissidente com essa modernidade sem o madrigálico com um pedaço qualquer do passado. O tempo flui na sua linearidade, não é circular (não é como teimam os historiadores, que elucubram nas repetições da História). Haverá um meio termo que preencha o espaço entre os cuidadores do passado, que enxameiam os ouvidos dos outros com o peditório do “dantes é que era bom”, e os intrépidos zeladores do presente que está com mira no futuro. Sem encontrar filiação em nenhum dos estereótipos, prefiro o espírito crítico de quem não tem saudades do passado nem medo do futuro que é servido na instantaneidade do presente. Os que se untam com o pregão “dantes é que era bom” estão fora do seu tempo e vivem de um tempo mortiço. 
Para os que não largam as saias do passado, eis a má notícia: o passado está preso no passado e não é repetível. Expirou. Não exportem do passado as memórias em sucedâneo de algo que não conseguem reproduzir no tempo tangível (lembrar-se-ão que é o presente?). Não: as diferentes dimensões do tempo não são intermutáveis e o passado não se reproduz numa transcendência que não possui.  

3.4.19

“Eu sou tão importante, e o meu conhecimento é tão enciclopédico, que até me convidam para verbetes de enciclopédias”


Explosions in the Sky, “Colors in Space” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=6Qss7J4HfR8
Continuação do discurso direto na primeira pessoa do singular:
Acordei cheio de orgulho. De mim mesmo. Há proezas que não estão acessíveis a qualquer um. Por exemplo: escrever verbetes para uma enciclopédia. Logo, eu não sou qualquer um. Posso dizer que sou de excecional cepa.
Um sinal do reconhecimento devido: o convite para engrossar as fileiras dos que discorrem conhecimento. As enciclopédias são o lugar onde se armazena o saber enciclopédico – ou não tivessem elas este nome. Quem para elas contribui usufrui um estatuto de alguma sapiência – o convite retrata o reconhecimento desse estatuto. Ninguém imagina um néscio a ser requisitado para dar o seu contributo para uma enciclopédia. Seria uma contradição de termos (a menos que se tratasse de uma enciclopédia de não saberes, ou de saberes adulterados). 
Os sábios de alguma ciência são chamados a participar em verbetes de enciclopédias e, nessa medida, são pessoas importantes. Parece que é importante ser uma pessoa importante. É só frequentar o meio para o apreciar. Os importantes que se autoconsideram sábios não perdem a oportunidade para exibir os pergaminhos, numa ostentação nunca modesta do lugar a que se alcandoraram. Como se não fosse suficiente, ainda puxam lustro às medalhas que garbosamente exibem. E ficam à espera de reconhecimento dos outros. Lá poderiam perder oportunidade de reivindicar o reconhecimento que lhes é devido, eles que tanto deixaram para memória futura na forma do conhecimento que legaram ao conhecimento.
Convém acentuar: para memória futura: nos verbetes selados na enciclopédia fica emoldurada a peça de sapiência que só um sábio, autorizado a colaborar numa enciclopédia, pode deixar como produto da sua fecunda lavra. Será saber enciclopédico. Convém baixar a guarda nas ambições. O saber só é enciclopédico quando soma todos os verbetes da enciclopédia. E convém não esquecer que estas enciclopédias são parcelares, mostram apenas uma dimensão (das muitas que existem para mostrar) do conhecimento. Termos em que os verbetes deixados em memória futura são apenas uma cotização mínima no todo do saber enciclopédico. Não será suficiente para alardear um estatuto que, assim exibido, peca por excesso.
Convém baixar a guarda. Estou convencido de que um punhado de verbetes numa enciclopédia converte um módico de conhecimento. Não é razão para jactância, ou para orgulho desmedido. Afinal, o orgulho que acompanhou a alvorada era uma embriaguez estulta. As entradas para uma enciclopédia são o modesto apetrechamento de um conhecimento enciclopédico. Os enciclopédicos não merecem as alvíssaras que reclamam. Para não se deslumbrarem com o estatuto, descuidando o flanco por onde tem fuga o conhecimento vertido, mas não no pleno sentido do rigor. Para não se atraiçoarem como mediadores do conhecimento, enquanto se entretêm com internos pleitos onde se joga a vaidade.
Sou enciclopédico. Um modesto papel, como qualquer outro. Afinal, não sou importante. E deito-me sossegado.

2.4.19

Nem todos os gatos são pardos (com noite ou sem ela)


Nick Cave and the Bad Seeds, “Distant Sky” (live in Copenhagen), in https://www.youtube.com/watch?v=Rk5gRVvf4Yc
1.
A aurora enxagua o suor dos pesadelos. As mãos ainda trémulas perguntam se a manhã demora. O corpo é impelido, aos repelões, para um duche rápido, negligente. Ainda consegue ouvir os latidos dos cães vadios que por ali andam.
2.
As árvores estão frondosas. E não é primavera. Nem está um dia soalheiro. As árvores é que têm este predicado. Podia estar um dia chuvoso, sorumbático, que as árvores conseguiam irradiar um feixe de resplandecência inigualável. Não percebe como há pessoas que decaem na depressão.
3.
Funeral. As pessoas saem vagarosamente do cemitério. Estão cabisbaixas. Muitas, escondidas nas lentes baças dos óculos de sol. Ao menos sabem que ainda estão vivas. Compensa sabê-lo. É uma vantagem competitiva sobre o homenageado.
4.
À mesa do bar irlandês, entre o ruído exacerbado de uma “banda” que replica os hits do rock’n’rollpopularucho e os gritos estridentes de um punhado de britspara lá de alcoolizados, escreve umas palavras avulsas no cartão retangular que serve de base para o copo: “Os bravos são dementes que se esgueiram entre a melancolia./Sabem sentir o odor putrefato dos vultos cimeiros/e lutam contra eles.
5.
Havia um banco no jardim em ruínas. O cimento dos alicerces deixava à mostra o ferro oxidado. Ninguém se sentava neste banco. As pessoas não têm medo da lucidez quando a loucura lhes bate à porta. (Com umas exceções imoderadas.)
6.
A meio da tarde, parecia que o tempo estava parado. Já começara o dia há muito tempo e ainda falta muito tempo para o fim do expediente. Era uma maneira distorcida de o dizer: só faltavam duas horas. Mas eram as horas mais penosas.
7.
Vinha do médico e pareceu-lhe ver um eremita do outro lado da rua. A vista já não é o que era – tinha mesmo de ir ao oftalmologista e convencer-se a usar óculos. O que faria um eremita no centro da cidade em ebulição?
8.
Não são todos pardacentos, os gatos. O adágio manda dizer (erradamente) que à noite todos assim parecem. Só que à noite há sombras e também há muita e artificial luz. Um gato, mesmo que seja pardo, não deixa de ser visto se tiver os holofotes sobre si. É como as pessoas. Umas escondem-se, fazem-se propositadamente reféns do anonimato. E não são pardacentas. Outras, repositórios da nulidade, afadigam-se por serem claustros onde todos os olhos se deitam.
9.
O café está povoado de moscas. Deve ser do verão a destempo. As moscas desviam a atenção. Hoje gosta de moscas.
10.
Os lençóis ainda guardam vestígios do suor vertido por causa do pesadelo da noite anterior. Não importa. Desconfia que vai cair na vertigem de mais pesadelos. Assim como assim, o médico já não precisa de o importunar com o imperativo ginásio. 

1.4.19

A autobiografia que só falava de outras pessoas


Sugarcubes, “Cold Sweat”, in https://www.youtube.com/watch?v=y8XVHnNaJOo
O projeto de uma vida inteira, agora que tinha a impressão que a mesma entrava na etapa final. 
(Não sabia ao certo por que era contaminado por esta impressão. Estava bem de saúde. Não se podia dizer que tinha entrado na terceira idade. Se fosse comparar-se com os da sua faixa etária, os outros é que tinham motivos de inveja. Nunca fiando: ainda há dias soube, pelas notícias, de uma figura pública que pereceu de repente. Só viveu quarenta e poucos anos.)
O projeto de uma vida inteira: tempo de calibrar o olhar pelo espelho retrovisor, vertendo em páginas o espelho de uma retrospetiva. Não tinha a certeza da utilidade de uma autobiografia – e muito menos, do interesse para os outros, os que pudessem ser apanhados em falso na sua leitura. Era outro algo que não conseguia explicar: esta pulsão para a autobiografia. Era como se receasse que o tempo podia escassear se adiasse a empreitada. Como se fosse urgente deixar vertidas em palavras, para memória futura, o leilão das memórias de uma vida inteira. Não entendia que valor excecional podia ter a sua vida para merecer uma autobiografia. Talvez fosse um ensimesmar justificado pela impressão de que acabava de entrar na etapa derradeira da sua vida.
Por dias a fio, a manhã, a tarde e parte da noite foram ocupadas com a interiorização da memória e o que dela baixava à escrita. Até nos preparativos para o sono e nos próprios sonhos as exigências da autobiografia estavam presentes. Coligiu páginas a eito. Às vezes, interrompia a escrita e revia os capítulos prontos. Os capítulos não estavam prontos, reconhecia: as páginas enchiam-se de anotações à margem, frases inteiras eliminadas, outras reescritas, muitos pontos de interrogação. Só depois avançava para capítulos em espera. E voltava a retroceder a capítulos anteriores, quando não tinha a certeza se estava a ser atraiçoado pela memória quando alguns episódios narrados vagueavam na indistinta bruma que ocupava as recordações. 
Já era assinalável a resma de papel com o esboço da autobiografia. Releu-a a eito, sem encher as páginas com mais anotações à margem, frases inteiras eliminadas, outras reescritas e muitos pontos de interrogação. Queria uma fotografia de conjunto da autobiografia. Para ajuizar se era uma autobiografia ou uma interpretação pessoal da sua autobiografia. Muitas vezes esbarrava neste dilema. O fino fio da memória não era o terreno fértil para a revisitação de episódios acontecidos. Ficava com dúvidas quase existenciais, sem saber se as coisas tinham acontecido como as recordava, ou se havia uma dimensão alternativa que escondia os factos como eles tinham sido registados no livro autêntico onde a História foi selada.
O que mais o inquietou é que a autobiografia só falava de outras pessoas. Seria uma falsa autobiografia? Levou uma noite inteira a pensar na interrogação. Afinal, não era motivo de inquietação. Sempre fora modesto e nunca quisera trazer a sua vida pela trela dos holofotes. O protagonismo era sempre dos outros. Uma autobiografia também pode ser escrita na geografia dos outros, sem deixar de ser uma autobiografia. 
O que uma pessoa é também passa pelos outros que passaram pela sua vida. 

29.3.19

Rio cheio (short stories #105)


Mogwai, “Kin”, in https://www.youtube.com/watch?v=5kjXz-vYa40
          Não procuro o leito do rio: ele segue caudaloso depois das chuvas inesperadas, que as chuvas no fim da primavera são sempre inesperadas. Está medonho, o rio. E, ao mesmo tempo, admirável. Uma força da natureza, para usar um lugar-comum. As águas apressadas cavalgam em si mesmas, tropeçam, enovelam-se em remoinhos sucessivos. Nem imagino a convulsão interior que atesta a fúria do rio. Nos preparos indomáveis, o rio mete respeito. Que ninguém ouse lançar-se às águas, que seria devorado, estilhaçado contra as rochas submersas. O leve rumorejo foi substituído por um tonitruante grito que atravessa o desfiladeiro em que o rio se contém. O eco reverbera os fantasmas que parecem esvoaçar na penumbra deixada pela convulsão das águas. Dir-se-ia que se avistam esses vultos, desenhados nos interstícios da cortina de espuma salivada quando o rio esbarra num desnível ou embate fragorosamente numa cadeia de rochas. Ah, se ao menos fosse possível filmar abaixo da superfície das águas, para saber das convulsões interiores que desassossegam o rio. Desestimo a possibilidade: as águas correm turvas, lamacentas, trazem consigo vestígios de arbustos e árvores arrancados pelo rio cheio. E que interessa saber das convulsões interiores do rio, tê-las como esboço nítido? Os mirones não se contentam com a espuma à superfície das coisas; são ousados, querem saber das coisas no avesso que está contido na parte oculta. Talvez não sejam apenas mirones. O seu interesse – digamos – científico sobrepõe-se à aparência de serem mirones. Podiam (quem sabe?) cadastrar os metros cúbicos debitados pelo rio cheio, fazer uma cartografia do caudal do rio, comparar as fotografias do rio quando segue manso e do rio agora indomável. Para aprenderem com os humores do rio. Para terem seu próprio tirocínio quando o desassossego tomar conta deles e os dias forem iracundos e a serenidade em fratura exposta, sem saberem do paradeiro da lucidez, a vista embaciada por tantos sedimentos untuosos que se soerguem ao acaso. Saberiam, se descessem o curso do rio, que ele tem foz. Desagua num rio de grandeza maior, ou até no mar (se for rio de grandeza maior). E que no estuário derradeiro o rio aplaca a sua fúria, até ela se dissolver no caudal maior que o recebe. 

28.3.19

Não falem dos cães acorrentados se nada fizerem por eles


Street Kids, “Propaganda”, in https://www.youtube.com/watch?v=Uv4tV4gnZzw
Dos cães acorrentados, em casotas insalubres, expostos aos rigores do inverno e à canícula do verão, comendo os restos das refeições dos humanos, sem direito a um afeto, descuidados como coisas à mercê da vontade de quem os destutela. Os cães perdem a liberdade, ou nunca a tiveram. Os seus exíguos movimentos na exata medida da folga, da pouca folga, da trela que os acorrenta. Bandos de gente antropocêntrica nada ajuíza sobre os cães acorrentados. Que é uma forma de tecer um juízo: se a imagem de um cão acorrentado, macilento, esfaimado, medroso, não lhes invade a consciência, é sinal que cuidam do cenário como objeto de normalidade. Melhor será não proferir juízo sobre as almas abestalhadas que mantêm os cães nesta escravatura. 
Um punhado de gente insurge-se. Denuncia os maus-tratos, que é sempre maus-tratos manter um cão acorrentado a uma casota insalubre, exposto aos rigores do inverno e à canícula do verão, comendo os restos das refeições dos humanos, sem direito a um afeto, descuidados como coisas incorpóreas. Não sabem que é insuficiente. Não sabem que a vergonha antropocêntrica permanece esteio da civilização, embaciando os seus pergaminhos de civilização (o que não é da conta dos que patrocinam esta escravatura medieval). De pouco adianta desmascarar sítios e pessoas que mantêm cães acorrentados. A polícia não intervém. Ninguém intervém – a não ser que se invoque o nome de uma associação de defesa dos animais, que não hesita em passar à ação direta para extrair animais sujeitos a maus-tratos dessa condição medieval e inumana.
Não adianta esconder o diagnóstico: este é um caso em que só o pensamento (e a ação) radical quadra com uma solução. É preciso gente com coragem física para confrontar os inumanos que mantêm cães acorrentados em deploráveis condições. Pessoas que não se intimidem com a boçalidade e os modos destemperados, nem se acabrunhem com a ignorância de quem julga poder usar a razão da força em substituição da força da razão. Talvez falar na mesma linguagem, que é a única que gente deste jaez consegue entender. 
Aplica-se aos cães acorrentados, como se aplica a quem quer acorrentar a opinião pública que se insurge contra despautérios da governação. O séquito do partido do regime alista as hostes para contra-atacar. Ou se trata de movimentos conspirativos da “oposição”, como se todos os que não subscrevem a bondade do partido do regime estivessem acantonados numa inorgânica oposição (num raciocínio binário que é revelador de estreiteza de pensamento). Ou se trata de dar um aval às decisões que são atacadas pelos críticos – “o que há de errado naquilo que é identificado pelos críticos? Nada” –, atirando aos críticos o opróbrio de terem criticado, como se fosse crime passível de pena maior. 
O séquito do partido do regime, sentindo-se acossado e convivendo mal com quem dele discorda, gostaria de acorrentar os críticos e meter-lhes açaime. Seria o mundo perfeito: só concordância, só aplauso, só genuflexões, só decisões imunes à mácula, só um timoneiro predestinado com uma certa aura sebastiânica. E o resto, uma matilha de cães acorrentados e açaimados, a quem o partido do regime faria o favor de os deixar viver. 

27.3.19

Trincheira (short stories #104)


Idles, “I’m Scum” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=mx4f75ni2Hc
          Queriam-me para as hostes de uma causa qualquer. Não sei por que pensaram que tinha afinidade com essa causa. E mesmo que tivesse; não sei por que imaginaram que, tendo afinidade com essa causa (o que não era o caso, mas há sempre a possibilidade de erros de cálculo), a convocatória de alistamento no grupo que defende a causa seria aceitada sem tergiversações. Não seria o caso. Pois, mesmo que tivesse parca afinidade com a causa, não seria líquida a pertença ao grupo que a tutela. Não gosto de trincheiras. Gosto menos ainda da lógica grupal. Da pertença e dos sacrifícios que a pertença exige, pois o pregão socialmente correto recorda que devemos abdicar do eu se o nós falar mais alto. A lógica grupal, e as trincheiras em que se encerra, é categoricamente excludente. Assenta em comportamentos tribais (sem a conotação negativa da palavra), numa lógica primária, muitas vezes servida num raciocínio binário – quem não é por nós, está contra nós. As trincheiras são o subterrâneo onde se refugiam os que não têm liberdade de pensamento e são educados para uma defesa acérrima do grupo e da causa inerente. Se, por acaso, levantam interrogações ou formulam dúvidas, são destinados ao ostracismo, ou expulsos liminarmente, sem direito a defesa. Porque se convencionou que o cimento do grupo não se compadece com dissidências – mesmo que as interrogações ou as dúvidas não sejam dissidência na pessoa de quem as formula. Só há liberdade para pensar dentro dos cânones. Que são definidos por uma casta de iluminados, sem se perceber por que divina escala se autoimpõem como iluminados. É a liberdade dos iluminados que serve de bitola aos seguidores. Não gosto de trincheiras por evocarem as guerras absurdas em que os homens eram atirados para dentro de uma trincheira à espera de serem sacrificados na mais desonrosa das mortes. Prefiro saber que tenho a liberdade de pensamento que não é destroçada por pertenças a grupos e causas. Mesmo correndo o risco de arrostar o labéu da sociopatia.

26.3.19

A babugem do secretário de Estado ao aterrar em Moçambique


Anohni, “Drone Bomb Me”, in https://www.youtube.com/watch?v=aUEoic7ro_o
Ato I
Uma tempestade sem precedentes foi madrasta para uma parte de Moçambique. Fala-se da pior catástrofe de todos os tempos. Ainda por cima, num dos países mais pobres do mundo. Quem for cínico pode perguntar pelo paradeiro de deus, que se terá esquecido (se, por acaso, existisse) da impiedade que é devastar uma terra onde vive gente tão pobre.
Ato II
            A ajuda internacional é uma emergência. Para socorrer os sobreviventes que perderam os haveres – casas, terrenos, animais, fontes de subsistência, comida e água. Numa daquelas circunstâncias em que o mundo humano dá uma reviravolta sobre si mesmo e apetece nele ter um módico de confiança, a solidariedade corre de boca em boca, dos governos dos países às empresas, das organizações não governamentais ao mero cidadão disposto a rapar do fundo do tacho uns trocos que seja.
Ato III
            Numa manhã soalheira e, adivinha-se pela indumentária, calorosa e húmida, a propaganda do Estado e do partido dominante chega ao olhar dos cidadãos através da encomenda zelosamente tratada pelas televisões, que não deixam de ser servis ao Estado (e, vá-se lá saber porquê, ao partido do regime). O secretário de Estado exclama, à frente das câmaras que o filmam, “chegámos e fomos os primeiros a chegar!” Exclama, com uma obscenidade nauseabunda. Como se o que estivesse em causa fosse uma corrida dos generosos para saber quem chegava primeiro ao lugar carenciado da ajuda. Só para assinalar a proeza. Como se fosse uma repetição dos descobrimentos e esta nova gesta de colonizadores disfarçados estivesse a firmar a sua lança no território colonizado – perdão, carente de ajuda – e o desafio saldado com triunfo mercê da diligência de governantes tão esmerados fosse o que interessa à audiência nativa, não a do país ajudado, mas do país onde a notícia e a soberba do Carneiro (identificação do secretário de Estado) tivesse de ser ostentada para os patrícios começarem o fim de semana com uma “boa notícia”. 
Ato IV
Volto às imagens mentais do Carneiro, da sua babugem vaidosamente escorrendo da boca que proferia aqueles palavras, o epítome da náusea, a demonstração de que o que continua a interessar não é prestar ajuda a quem precisa, mas exaltar a pátria (e o partido do regime, ainda por cima em pré-campanha eleitoral) através da ajuda levada a quem dela precisa. Era o Carneiro a mostrar que a ajuda aos outros serve, em primeiro lugar, para ajudar a puxar lustro às medalhas da pertença pátria e, para os que alinham na seita, do partido do regime. Eu fico com o vómito. O Carneiro – que, quero acreditar, terá sabido engolir a altivez ao dirigir-se aos moçambicanos – fica com toda a pestilência da pose obscenamente pútrida. Se isto é orgulho pátrio (perversamente confundido com demagogia partidária em tempos que a isso se prestam), eu prefiro ser apátrida. E quem for cínico pode, ainda, perguntar pelo paradeiro de deus, que deu caução à babugem putrefacta do Carneiro.

25.3.19

Aritmética no avesso do dia


Nils Frahm, “All Melody” (Live at Montreux Jazz Festival), in https://www.youtube.com/watch?v=J44C184Dd7c
À noite os navios fundeiam à espera de vez. As suas luzes espraiam-se sobre o mar, emprestam-lhe um pouco do dia que findou. Não sei que regra impede os navios de se refugiarem no cais quando é noite. Talvez seja uma determinação dos zelosos sindicatos. Os estivadores não trabalham à noite. Têm famílias para cuidar. 
Sacrificados são os marinheiros que podiam estar a foliar nos bares onde os desembarcados matam saudades dos pés em solo firme. Como os navios não fundeiam à noite, os marinheiros postergam a folia. Entretêm-se com um jogo de cartas, um cigarro no convés, a apreciar a terra firme que hão de pisar, se tudo correr bem, na manhã do dia seguinte. Põem-se a fazer contas de cabeça. Ao que vão fazer a terra. Sonham, sem estarem a dormir. A certa altura, a cabeça não chega para todas as contas que a percorrem a velocidade tão voraz. A mesma voracidade com que os marinheiros querem ir a terra. 
Começam a fazer a contabilidade das empreitadas no avesso do dia que já fugiu. Aproveitam as estrelas que irradiam no céu para juntar as pontas da aritmética. Vão comprar mantimentos, que a vida a bordo é espartana. Vão conhecer a cidade (os que não a conhecem), para matar tempo para a noite de boémia. Os que conhecem a cidade vão servir de cicerone. E vão jantar em bons restaurantes, escolhidos a dedo num roteiro da especialidade (que os há aos magotes na sala de convívio do navio) – o seu estipêndio é generoso e autoriza estes luxos. À saída dos restaurantes, estarão embriagados. Não fará confusão a constelação de luzes distorcidas, a amálgama de luzes dos candeeiros públicos, dos faróis dos automóveis, dos néones da publicidade, das montras das lojas que, embora fechadas depois da hora do expediente, continuarão a lembrar que o consumo é imperativo para a fruição da economia. 
Porventura um marinheiro, embaciado na lucidez, há de pertencer a uma briga no primeiro bar em que desembarcarem. A correr mal, passará a noite na esquadra a curar a ressaca e a lamber as feridas do orgulho ferido. Os outros, não impressionados com a desdita do que foi levado pela polícia, hão de se entregar aos vícios da carne, para compensar a vida monástica das semanas a fio em que estão embarcados. Os que conseguirem, derrotando a litania do álcool. 
No dia seguinte, quando acordarem já nos seus camarotes, não hão de guardar grandes memórias. A menos que convoquem o avesso do dia e resgatem todas as anotações que nele lavraram. A sua aritmética. Se ao menos pudessem perguntar ao álcool pelas memórias que ele não deixou representar. Mas o álcool evaporou-se. E levou as memórias, apagando-as do avesso do dia.

22.3.19

Os frutos só estão à vista depois de abertos (e outras aldrabices)


Ólafur Arnalds, “Ekki Ugsa” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=oSgaGlKr-pA
Das páginas abertas ao acaso, estando o livro sem paradeiro encostado na lombada de um sofá:
Que ninguém se iluda. Os fantasmas estão presentes em matéria corpórea. Veja-se o exemplo dos frutos. Encantamo-nos com as formas geométricas, as cores luzidias, o aroma que os frutos exaltam. Enamoramo-nos com a forma exterior dos frutos. Compramo-los. Chegamos a casa e começamos, com alguma avidez, a tirar a casca a um exemplar de cada fruto. São insípidos. É como se fossem o avesso do seu exterior (e são, qualquer um o pode confirmar); ou seja, é como se estivessem nos antípodas do rosto que oferecem, descarnados, exangues de sumo, sem ilustração de sabor. Que ninguém se iluda: os frutos só estão à vista depois de abertos.
Não apetecia ler mais do que este parágrafo. Adivinhou ao que vinha a parte sobrante do opúsculo. Uma lição de moralidade da primeira à última palavra, servida na bandeja enfática das metáforas, com requintes literários que mais não são do que artimanhas desprovidas de originalidade. Pergunta-se: mas quem se dá ao trabalho de pespegar lições nos outros (e mais, se as lições foram sobre moralidade)? Arrisca mais um naco de prosa. Avança umas páginas, ao acaso:
O homem não era extremoso marido, como lhe assentava na pública figura que construiu pacientemente. Talvez a imagem tenha sido fabricada pelos outros, por todos aqueles que, de uma ou de outra forma, o admiravam. O homem escudava-se nesse estatuto. Julgava ter um ancoradouro seguro no séquito, que não era de tamanho irrelevante. O estatuto compensaria os devaneios. Assim como assim – interiorizava, antes de caucionar o despreparo – alguém com estatuto superior devia ter privilégios. Devia-lhe ser dado fazer o que era vedado aos demais pela retórica dos costumes. Era só uma retórica e os costumes já não eram terreno fértil. Pelo que lhe era dado a saber, já ninguém respeitava os costumes. Já ninguém se ofendia com os desvios dos outros. O que faltava para dar o primeiro passo em falso? Dar o primeiro passo em falso. A certa altura, já tinha perdido a conta aos passos em falso. Foi descoberto. Num repente, o séquito desmobilizou. Já não sobrava ninguém. As pessoas evitavam-no, desviavam o olhar, sinalizando a vergonha que dele tinham. Proscrito, sobrava o arrependimento lógico. Já não vinha a tempo. Daí até ao final, foi uma decadência vertiginosa. Morreu sem que ninguém soubesse.
A segunda oportunidade não compensou. Aquela moralidade livresca era servil aos costumes. Interrogou-se: quem seria leitor de semelhante narrativa? Seria gente à procura das bissetrizes, carente de gurus para tudo-e-mais-alguma-coisa? Ou gente que, sabendo das bissetrizes, precisava de as reforçar, como quem firma os alicerces com medo de que a casa se estilhace ao primeiro vento tempestuoso? Não procurou a resposta. Não interessava.
Uns dias mais tarde, numa esplanada, viu como uma senhora da alta sociedade acenava com tom de reprovação, enquanto descaía numa carantonha de aflição, ao ler as páginas de uma revista que faz o apanhado das notícias da dita alta sociedade. Ao virar a página, conseguiu saber de que tratava a notícia:
Escritor famoso apanhado em adultério à luz do dia”, era o título – e era tudo o que conseguia ler, as letras gordas que se emprestavam ao título. O escritor era o autor do livro sem paradeiro encostado na lombada do sofá. 
Respirou fundo, encolheu-se no casaco (a brisa do entardecer tornara-se fria) e concluiu que o escritor, durante o processo da escrita daquele livro, andou a treinar para ser o que ele ensinara que não se podia ser. Pagou e encaminhou-se para casa. Sem saber a diferença entre o “pode ser” e o “deve ser”, tão do agrado dos catedráticos da moralidade. 

21.3.19

Poesia antes das refeições (outra liturgia)


Wordsong, “(Brave) Save My Soul”, in https://www.youtube.com/watch?v=z1lunZZrNwo
(Mote: o dia mundial da poesia)
Não eram preces, as lidas antes da refeição. O ritual diferia, contudo. Os comensais muniam-se de um poema, ou de umas estrofes, apenas, lidos antes de se deitarem à refeição. Não havia superstição, ou simbologia apelando ao misticismo; cuidavam assim da poesia pelo prazer que dela retiravam, pela fusão de palavras improváveis, porque – diziam – os poetas sabem fazer desenhos com as palavras, são autênticos prestidigitadores. Sabiam, por experiência própria, que uma refeição não precedida da leitura de um poema, ou apenas de um punhado de estrofes, não oferecia boa digestão. A poesia lida era o aperitivo que preparava os comensais para prolongarem os prazeres pela refeição dentro. 
O critério da escolha não tinha critério. Ou, por assim dizer, às vezes tinha. Havia dias com um significado próprio que exigia um poema a preceito. Um dia, o da apologia da vida, chamando à colação:
“As mãos amadurecem, sorvem todo o sol
a que cada corpo tem direito
apenas porque nasce.” (Armando Silva Carvalho) 
Ou, noutro dia em que a jugular do tempo sobressaltava os espíritos, 
“porém não há passado:
fora do tempo só existe a vida
uma luz imortal que o tempo mata.” (Gastão Cruz) 
Discutindo o sortilégio da cidade, um deles convocou o “Nevoeiro” de Eugénio de Andrade:
“Viera do rio pela mão duma criança.
A cidade é agora de porcelana branca.” 
Se sobra um tempo em que uma desilusão apetece arregimentar o pessimismo antropológico, sem anular o cinismo como compensação, dir-se-á: 
“Gosto das cebolas
e das pessoas.
Mas as pessoas
são como as cebolas
fazem chorar.” (Adília Lopes) 
De almas tão sensíveis não estranha serem agredidas pelo mundano da política e da religião, pelo que faz sentido delas escarnecer (sem ofensa a muitos vultos da cultura, por causa de seus vieses), afirmando, com Herberto Helder, 
“Cristo foi uma espécie de marxista-leninista mas com alguns escrúpulos extra-partidários.” 
Ou, no fio delgado, e paradoxal, entre atualidade e poesia, comungar da perplexidade de Luís Quintais:
“Está de joelhos, a Europa, e alguém
acaba de a degolar, alguém a está
degolando, e o inferno
é o fotograma voltando, voltando.” 
Sem esquecer o amor, o amor de que não se pode abdicar, acompanhando Rilke:
“Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma nota só.”
Outros dias eram anónimos na representação de signos, deixando a escolha do poema ao acaso. O não critério não era o critério mais fácil, todavia. Os comensais eram exigentes consigo mesmos. E porque se sabiam reciprocamente exigentes, não se descuidavam na escolha do poema, ou das simples estrofes que antecediam a refeição. Em véspera de uma refeição diurna num fim de semana, um dos comensais invocou um pesadelo absurdo para proclamar: 
“Voltar ao fim
pintar três vezes o sete:
ficar doido.” (Mário de Cesariny)
E não se perca a humildade de quem se reconhece imensamente imperfeito, metendo o espelho à frente dos olhos:
“Gosto dos outros
que têm defeitos
gosto dos outros
que não são perfeitos.” (Adília Lopes). 
E porque a poesia é também musicalidade, exaltar estes versos é exigência indeclinável: 
“pernoito no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais e de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa.” (Al Berto)
A poesia é a refeição maior que se serve à alma e dela faz um extenso mar onde apetece navegar. Pois 
“nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música, 
e o silêncio por fora.” (Herberto Helder)