Johnny Marr, “How Soon Is Now” (live at KCRW), in https://www.youtube.com/watch?v=bB5bSZmuP90
“(...) I am the son and heir
of nothing in particular.”
Quem é da tua alcateia? Saberás o paradeiro de cada um deles? Interessa-te saber onde estão? Que interessa se te é dado a comandar uma alcateia?
A posse sempre foi materializada. É sobre ter, e o que se tem é uma coisa, não uma pessoa. Mas atravessamos tempos de adulteração de conceitos: a posse pode ter uma pessoa como referência. Muitas vezes, o processo de empenhamento num grupo (algo a que os mais condescendentes atribuíram o eufemismo de “pertença”) parte dos próprios membros. É como se fossem despojados da sua identidade se não fosse possível responder ao repto da pertença. Têm de ser alguém que “pertencem a”. Nem é preciso que os que inspiram esta pertença determinem, com muita arbitrariedade, que os súbditos “pertencem a”. A sujeição voluntária dos membros do grupo dispensa os mandantes de serem déspotas. Ou, se o são, são benevolentes.
Para quem se empenha numa pertença, os que a inspiram não são déspotas porque lhes fornecem a argamassa de uma identidade. Continua-se a acreditar que há uma pertença coletiva que se superioriza à identidade individual. Como somos gregários, não deve ser a identidade individual a asfixiar uma pertença coletiva. Que seja possível defender a combinação das duas sem arcar com a ofensa do egoísmo. “Pertencer a” não foge ao estigma da posse. Entreabre a porta aos dogmatismos que limitam o livre pensar e o livre agir, porque uma vez na alcateia, para sempre na alcateia, não se contestam ordens nem se questionam convenções (por mais que soem arbitrárias). Para quem assim lobriga, ser abjurado da alcateia é como a pena de morte social.
A teoria da orfandade social devia ser validada: as alcateias não precisam de quem as comande. Se são organismos que fruem da espontaneidade, se a elas aderem, por simples ato da vontade, quem delas se torna seu membro, a coesão dispensa uma linha de comando.
Se querem continuar a pertencer a uma alcateia porque imperativos gregários o ditam, ao menos que do ato da vontade venha à tona a tendência de democratização das alcateias. Elas só serão plenas representações democráticas se não forem guiadas por comandos exercidos por quem delas se apoderar e fizer sujeitar os outros a uma relação de dependência que se vicia numa posse que atua num duplo sentido: os que comandam a alcateia adoram ver-se ao espelho como os que pastoreiam a alcateia; os que confundem pertença com a humilhação de uma posse reforçam o vínculo possessivo com sua anuência.
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