Them Flying Monkeys, “Les Gens Sont Fous, les Temps Sont Flous”, in https://www.youtube.com/watch?v=eR1pFmcV9mI&list=RDeR1pFmcV9mI&start_radio=1
“Les gens prennent tout, les temps sont sous
ça les prend, comme ça d’un coup (...).”
- Olá, estás bem disposto?
- Sempre.
A resposta não foi dada com convicção (senão, a frase teria terminado com um ponto de exclamação). Mas foi uma resposta expedita: se tivesse cronometrado o intervalo entre a pergunta e a resposta, não teria passado um segundo. A resposta estava preparada. Seja como for o dia, o indivíduo responde mecanicamente quando alguém lhe pergunta se está bem-disposto. Ele está sempre bem disposto. Sempre. Não cava espaço para aqueles dias sorumbáticos que travam a boa disposição.
Tenho por preceito desconfiar dos eternamente bem-dispostos, aqueles que somam positividade a cada dia dobrado, aqueles que contagiam tanta boa disposição que quem vive nas suas imediações não consegue escapar, apanhando com uma dose musculada de alegria que transfigura o dia, caso tenham acordado presos aos lençóis da má disposição. Desconfio porque não acredito que todos os dias sejam passados pela gramática da positividade, a menos que essas pessoas finjam que não pertencem a este mundo e desviem o olhar cada vez que as desgraças em que o mundo é militante chocam de frente com esse olhar.
Observo estes gurus das bem-aventuranças perenes e descubro mitómanos em série. Não é possível que alguém esteja constantemente com um sorriso de orelha a orelha a enfeitar a vida em geral, e a sua em particular, com uma alegria imorredoira que salta da sua órbita e se oferece aos angustiados que andam em demanda de redenção. Não é possível que alguém desconheça a angústia, que não seja assaltado por dúvidas sobre o sentido da existência, que não se incomode com o bolçar dos soezes que existem em abundância, que acorde com a sensação de que o dia será uma tortura e não o leve desse modo, apenas esperando que o dia seguinte seja diferente.
A boa disposição contagiante destas pessoas, que estão bem-dispostas todos os dias, contém o seu próprio antídoto. O que elas precisam é de um banho de realidade, para reduzirem o lume-brando em que ferve o seu otimismo e serem desarmadas dessa paixão desarmante por tudo e por todos. Deviam ser obrigadas a frequentar um curso de pessimismo antropológico, só para não estarem fingidamente bem-dispostas todos os dias do ano, todos os anos pelo tempo fora.
O indivíduo que exibia uma boa disposição estrutural e à prova de bala, ao dizer que está “sempre” bem-disposto de forma tão maquinal, revelou-se rapidamente ao engatilhar uma resposta automática à curiosidade de quem o interpelou. A resposta parecia obedecer a uma padronização sintomática, reveladora de um significado oposto ao proclamado. Afinal, tanta convicção é o espelho da sua antítese.
Como já alguém aconselhou, tudo o que é excesso é perverso. E lanterna de mentiras enraizadas. A melhor prática é ignorar estes gurus que não passam de um logro instituído.
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