“(...) Ghostrider motorcycle hero
he’s a blazing away
like the stars in the universe (...).”
Faltava um para formar equipa. O padre ofereceu-se: “No seminário, era um extremo-esquerdo de primeira.” Os amigos olharam de lado, à rasca, e desviaram o assunto sem admitirem o auto-convite do padre. Continuaram a deambular sobre o elemento em falta – “E se falássemos ao Vitorino?”, “Ouvi dizer que o Vitorino partiu uma perna, não podemos contar com ele”.
Com um a menos, não podiam ir a jogo. Ou melhor: até podiam ir a jogo, estes jogos são amigáveis, as regras são mais flexíveis do que nos jogos a doer – não que os jogos não fossem a doer, como podia atestar o inventário de mazelas que todos, sem exceção, levaram para casa depois de um ou outro jogo. O mais novo ainda foi a tempo de dizer, quanto a este assunto, que as mazelas não eram tanto pela dureza dos jogos e dos adversários, mas pelas dores da idade, que já não permitia proezas de outrora. Afinal, podiam ir a jogo com menos um, mas as probabilidades de saírem derrotados aumentavam. E logo contra os maiores rivais, sobre os quais o prazer da vitória era indescritível.
O padre insistiu: “Depois de sair do seminário, ainda joguei clandestinamente numa equipa da distrital, até que o bispo descobriu e me proibiu”, causando um entreolhar desconfortável entre os amigos, que não o queriam naquelas andanças e desconfiavam que o sacerdote não estava a ser rigoroso com a sua história de vida. “Vá lá, deixem-me jogar, resolvo um problema vosso”, enquanto os outros não escondiam o olhar do proeminente perímetro abdominal do padre para reforçarem a convicção de que era melhor ir a jogo com um a menos.
(Se o perímetro abdominal fosse critério de exclusão, teriam de procurar uma equipa nova.)
Um deles encheu-se de coragem e dirigiu-se ao padre:
- Ó pá, não nos arranjes um problema. Se entrares na equipa e ganharmos, os outros vão-nos acusar de termos posto um padre e, como eles respeitam a estrutura eclesiástica, dirão que não foram duros como habitualmente são para não serem atacados pelo remorso por terem maltratado um padre. Ou então, pode acontecer que os outros fiquem com uma súbita vontade de fazer das tripas coração porque connosco joga um padre e, por causa da tua presença, vamos perder o jogo. Se tu entrares na equipa, vamos perder de qualquer maneira.
Os amigos propuseram a contratação do padre como treinador para resolverem o dilema. Quiseram convencê-lo de que a sua proficiência intelectual podia ser mais proveitosa. Até tentaram convencê-lo de que um treinador está acima de todos os peões que coloca em campo. Afinal, de um padre se diz ser um condutor de rebanhos. Ele seria mais importante no papel de treinador. O padre, que não era parvo, percebeu o estratagema. Declinou o convite e, magoado, passou meses e meses sem comparecer ao jantar mensal que reunia os amigos numa tertúlia.
Disso teve de prestar contas em confissão a um colega. O rancor não é admitido a concurso pelo deus de que era embaixador terreno.
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