David Bowie, “Station to Station”, in https://www.youtube.com/watch?v=r8ELkumXYjI
“(...) 28% dos norte-americanos confessam já ter terminado uma amizade por motivos políticos – valor que era apenas de 7% em 2000.” Pedro Adão Silva, “Disparar contra políticos, uma tradição norte-americana”, in Público, 29.04.26, p. 40.
A política é uma coisa séria demais para ser levada tão a sério ao ponto de amigos desfazerem uma amizade por causa das suas divergências políticas. E por levarem tão a peito as tatuagens políticas entranhadas na carne que inativam a intolerância mesmo em relação a um amigo que está nos antípodas políticos.
As circunstâncias podem ajudar a perceber caso a caso. Pode acontecer que a amizade tenha sido confundida com um mero conhecimento da pessoa com quem se deixou de falar – ele há gente que tem uma definição muito liberal de amizade, acabando por banalizá-la. São os casos de amigos que não cumprem os mínimos da amizade e se incompatibilizam por causa de diferenças políticas. Afinal, não era amizade que os ligava. Se fosse uma amizade autêntica, o respeito pelo outro falaria mais alto do que as divergências políticas. Nem que fosse através de um código de conduta mutuamente acordado que os impedisse de falar em política para não ferirem a amizade.
Se os 28% de norte-americanos que confessaram ter terminado uma amizade porque o amigo é politicamente insuportável não exageraram no reconhecimento do laço rompido, é um sinal de como o tempo presente vai de mal a pior. A menos que esteja errado, a amizade é um dos sentimentos que mais recompensam a existência humana. Quando uma amizade acaba por causa de divergências políticas, os amigos que o deixaram de ser colocam a política acima da amizade. Quando isso acontece, é preciso contemplar (outra vez) a hipótese da amizade quebrada não cumprir os mínimos da amizade, percebendo-se como foi derrotada pela política (e pelas divergências anotadas).
Quando uma amizade genuína foi a sepultar, ou quando foi temporariamente suspensa até que os amigos caiam em si e reconheçam o disparate da política sitiar a amizade, os planos invertem-se: dá-se mais importância ao que é menos importante, condenando o que é mais importante à irrelevância. As pessoas estão propensas à radicalização e a radicalização traz a intolerância a tiracolo.
O plano pessoal nunca devia admitir a intrusão do plano político. Os políticos que são desafiados a comentar problemas dos seus pares com a justiça têm uma saída airosa: à política o que é da política, à justiça o que é da justiça. Este podia ser o mote para que a amizade fosse sempre à prova de bala, resistindo às provações que acaloradas divergências políticas possam causar: à amizade o que é da amizade, à política o que é da política (ou: amigos, amigos, política à parte).
A amizade é como o amor: não se explica, sente-se. O que se diria de dois amantes que deixassem de o ser por o amor ter sido consumido pelas incompatibilidades políticas? Ou o amor era apenas um simulacro, ou eles não sabem o que é o amor.
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