dEUS, “Roses” (live at Pinkpop), in https://www.youtube.com/watch?v=Fkv5Lwf3mf8
“(…) It’s time to make a mess
remind me what it is that I do the best.”
Ficava abespinhado quando o tratavam por “senhor”. Se seguisse os cânones, dispensaria a importunação. Tratar alguém por “senhor” é sinal de respeito, elevando-o a um patamar em que poucos têm o nome precedido por “senhor”. E há aqueles que, quando querem elogiar alguém, a ele se referem, em longa exclamação, “fulano é um senhor!”
Não lhe importavam estas prescrições embrulhadas no papel de celofane social. Quando alguém o tratava por senhor, era como se lhe endossassem o passaporte da maturidade. Só se trata por senhor quem tem uma certa idade, e essa idade é tal que não é compatível com os pergaminhos da juventude. Como o envelhecimento era um espectro, que tanto o incomodava ao pressentir que traduzia a decadência sem barreiras, de cada vez que alguém se referia a ele como “senhor”, fosse apenas assim, no perturbante sintoma de ser desconhecido o seu nome, ou como a partícula que precedia o nome, sentia que lhe era passado um atestado de envelhecimento em curso.
Nunca lhe passava pela cabeça que, ao ser tratado por “senhor”, estavam os que assim o tratavam a dedicar-lhe uma respeitabilidade que não devia ser associada à idade. Se encorpasse os cânones que comandam os lugares-comuns, ficaria honrado por o tratarem desse modo. Quem reserva este tratamento como expressão de respeito não usa “senhor” como válvula de escape para tratar alguém cujo nome lhe é desconhecido. Com a banalização do “você” – numa adulteração das convenções da boa educação –, os que não são merecedores de “senhor” têm de arcar com o incómodo (auditivo e substancial) de serem tratados por “você”. Existe toda uma diferença que abona a favor de quem é tratado por “senhor”.
Como era indiferente ao poder das convenções e fazia questão de se afastar delas, não perfilhava este entendimento. Vezes houve em que declinou o tratamento – “por favor, não me trate por senhor” – porque o medo do envelhecimento ecoava a cada dia que passava e o espelho não escondia as suas marcas.
Um dia, perante a respeitosa insistência de alguém que o tratava por “senhor”, mesmo depois de ter dispensado a cortesia, disparou rispidamente, perante o ar atónito da mulher que teimava em usar “senhor” em todas as frases, que no cartão de cidadão não constava “senhor” no nome (enquanto sujeitava o documento ao olhar não convidado da senhora).
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