Parquet Courts, “Walking at a Downtown Pace”, in https://www.youtube.com/watch?v=0R7wpcw1Z4A
“How many times now have I walked into that room
with the day shining through purple film combining?”
O Senhor Festa não estava sempre em festa, contrariando as ideias feitas que, em grande medida, ele próprio pusera a circular acerca de si mesmo. Quando estava em público, era o epítome da folia. Um boémio, mesmo que ainda fosse dia, pois os preparativos para a festa são uma festa à parte e as pessoas andavam com o olhar muito virado para o chão, o que era entendido pelo Senhor Festa como um disfarce intencional da angústia que as consumia.
Ao contrário do que se podia pensar – dizem os cânones: os boémios são frívolos –, o Senhor Festa estava atento ao que se passava à sua volta. Sabia que o mundo andava pouco recomendável, assoberbado pela descompensação ditada por gente também nada recomendável, gente essa que aumentara de contingente à medida que o tempo passava. As pessoas que se limitavam a ser vítimas dessa gente desrecomendável não tinham culpa do ocorrido. Era-lhes devida uma compensação pelos danos causados. A boémia, parte intrínseca da distração que alivia o fardo do tempo e das circunstâncias presentes, era uma estratégia para arrebanhar a compensação devida. Os inocentes não deviam ser vítimas da própria inocência.
Não era por acaso que o Senhor Festa se distinguia entre os boémios. O que poucos sabiam é que o Senhor Festa era de uma generosidade desarmante. Levava os outros à boémia e obrigava-os a esquecer os elevados custos de viver no tempo e no lugar em que viviam. Os que o conheciam, até os que acreditavam que esse era um conhecimento de ginjeira, o que não sabiam é que o Senhor Festa andava com o rótulo de boémio, mas a folia não era algo que cultivasse em privado. A generosidade do Senhor Festa era o travão que impedia os demais de sondar o seu lado escondido.
O Senhor Festa fingia que gostava de folia para convencer os desiludidos a acompanharem a compensação por serem vítimas de um tempo e de um lugar. Quando estava sozinho, o Senhor Festa era o que ninguém sabia dele: angustiado com as torturas do tempo presente, afligido com as notícias que enxameavam os jornais, as televisões e as estações de rádio e contaminavam o seu olhar, às vezes consumido interiormente pelos desarranjos das pessoas más, incapaz de ouvir um minuto de música hipnótica feita de batidas que pareciam arrancar o coração com uma mão pesada. O Senhor Festa queria acreditar que as pessoas más o são por um acidente independente da sua vontade.
O Senhor Festa aproveitava a boémia como os outros: o princípio geral do esquecimento do que nos apoquenta é um direito que devia estar inscrito na Constituição. Ir pela noite fora, imerso na folia, garantia o exercício daquele direito. Era uma anestesia, intencional. O direito era dele e dos outros, por causa da entrega do Senhor Festa à causa da generosidade com os outros.
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