Deftones, “7 Words”, in https://www.youtube.com/watch?v=cqZaWj6haOg
“You and me are here alone face flat along the edge of the glass
but I’m not here to preach, I’m just sick of thugs (…).”
Qualquer dia claro serve para matar a fome que se agiganta desde as profundezas do pensamento. A claridade é o mote para esconjurar os metódicos operários que têm por função esvaziar o pensamento, convencer as pessoas de que devem desabituar-se a pensar, pois há quem tenha esse incómodo por eles.
Que seja do conhecimento público, ninguém pediu para que outros sejam seus procuradores. Por mais cómoda que seja a oferta, os atos e as omissões carregam consequências. Às vezes, são irremediáveis. Se for passada a procuração aos diligentes agentes que se propõem a pensar em seu nome, o paradeiro do pensamento não será recuperado. Nessa altura, ninguém pode protestar. Passivos perante a oferta pública de pensamento, a sua tradição determina uma perda irreparável. O pensamento foi exportado para outros, que agora pensam em seu nome e pensam por si. No caso destes, o pensamento foi abolido.
O protesto virá a destempo. A propensão para aligeirar as empreitadas rotineiras pode voltar-se contra quem assim procede. São inúteis os arrependimentos. O pensamento exportado não reentra na sua posse. Exilado algures, é como se tivesse saído da órbita de quem o tutelava com efeitos perenes. E o pior é que não há meios conhecidos de voltar a atrair o pensamento que foi investido noutros. É como se o pensamento passasse a ser proibido na esfera de quem o subcontratou.
O bumerangue regressa à casa de partida, mas a metáfora não se aplica ao pensamento exorbitado pela sedução dos falsários, que tudo o que querem é tomar conta do pensamento de sucessivos indivíduos, só para não serem um rombo no pensamento que aqueles curadores intentam. A infantilidade de quem cede o passo diante das facilidades levianas que se desdobram nas ofertas de farsantes arroteia os custos irreparáveis. Não há volta a dar. Em vez de cantos de sereias, com as promessas de devaneios que dispensam custos pessoais, devia-se ensinar nas escolas que o pensamento próprio é uma dádiva para quem não quer abdicar de ser eu próprio nem de ter o seu pensamento expropriado em benefício de incógnitos.
Devia haver um código de conduta que obrigasse a registar o pensamento de cada um e a criminalizar a criminosa apropriação de pensamento alheio, que é uma promessa de morfina que extingue a humanidade que habita em cada um.
Sem comentários:
Enviar um comentário