Tricky (feat. Marta Złakowska), “Out of Place”, in https://www.youtube.com/watch?v=7rT2jZnA6UA
“Something you don’t deserve
something you should go
I go far in your dreams
and never out of place (…).”
As frases são curtas. Devem evitar adjetivos. Os adjetivos descoloram as palavras que os possuem. E devem evitar vírgulas pelo meio. As vírgulas pelo meio não enfeitam as frases, disfarçam o seu sentido. Que não seja esquecido que as palavras são uma alquimia. Dispensam ornamentos. Os ornamentos são desvios no sentido das frases.
Uma certa estética da escrita importa a complexidade para o texto. Insurgem-se contra o simplismo, os seus arquitetos – talvez confundindo simplismo com simplicidade; sublevam-se contra a rarefação do entendimento se as frases forem ungidas pela complexidade. Acreditam que a democratização do entendimento banaliza a escrita e a leitura. Só se pode escrever com simplismo porque os leitores renunciam à leitura da complexidade, ficando desertos os textos que contrariarem a tendência entronizada.
Os eruditos, que se refugiam na complexidade porventura porque não sabem ser tributários do que é simples, não abdicam do seu trono. É de lá que passeiam a sua arrogância intelectual. É de lá que, ufanos de si mesmos, julgam os que ficam aquém da erudição, atirando-os para a vulgata da banalização da escrita, às vezes embrulhando tudo no rótulo fácil da “escrita pop”. Ao fazê-lo, caem numa armadilha. São eles que ativam a cidadania participativa. São arautos da democracia em todas as suas manifestações. A tanta erudição não chega para evitar a contradição de quem se arroga o papel de embaixador da democracia e, depois, se manifesta contra o simplismo de um texto por capitular às exigências da democratização.
A simplicidade não é sinónimo de simplismo. É saber comunicar com economia de palavras. Sem adereços, nem frases que nunca mais acabam, entrecortadas por subtextos e mensagens laterais que podiam vir ao caso se a frase fosse dividida em frases diferentes. Sem a profusão de adjetivos que, quase sempre, somam nada à mensagem. Sem se enredar em sinuosas fórmulas que apenas distraem o leitor ou fazem com que um texto que podia ser espremido numa versão enxuta de ornatos se alongue por páginas e páginas que roçam a inutilidade.
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